domingo, 9 de novembro de 2008

Sunday Morning Coming Down



Na falta de um assunto de primordial interesse, vou escrever sobre o cotidiano. Hoje, às cinco da manhã desci do fusquinha de Yuri, que carona salvadora! Imaginem voltar do centro da cidade de ônibus em deplorável estado de embriaguez... isso nunca dá certo. Desci do fusca e em meio à cambaleante realidade, avisto no horizonte a alvorada, com seus raios amarelo-claros, os pássaros cantando, um vira-lata atravessando uma encruzilhada sem medo dos carros, a rua que se espraia para o alvorecer.



Na realidade, inicio minha narrativa pelo final (calma, isso não é mais um roteiro de filme pós-moderno!), quando na verdade gostaria de perpassar meus olhares sobre uma noite de sábado no Recife. Ao me lembrar do belo amanhecer em minha rua, inevitavelmente me conecto ao início de minha jornada em busca do prazer mundano, minha opereteante busca pela felicidade. Ao cair da tarde, um aniversário infantil no bairro do Parnamirim. Não vou relatar nada sobre a festa, porque não tem o que comentar. Festa de criança é tudo igual. Fiquei por lá, conversando, bebendo, socializando. Na verdade, o que me chamou a atenção em tudo é como o horizonte desaparece nesses bairros de classe média superpovoados com prédios de 20, 30 andares. Ao olhar pra cima, confesso, sentia medo daqueles monstros de concreto. Soube de uma história que num reveillon um jovem foi estourar o champagne na varanda e a garrafa escorregou. Não caiu na cabeça de ninguém. Mas, que morte mais banal, seria. No primeiro sinal do novo ano, uma marretada de champagne que vomitaria miolos por um raio de cinco metros. Depois dessa história, foi que não relaxei mais. Num sábado a noite, todos os térreos desses prédios tem festas de aniversário ou churrasquinhos movidos a pagode e axé, muita lascivia e gritaragem. Ao redor do prédio onde eu estava pude observar três festas que ocorriam simultaneamente. O tempo vai passando e o whiskey vai relaxando os nervos. Estou pronto para o próximo estágio.



Vou para o Recife Antigo. Show de Nação Zumbi no Marco Zero. Muita gente na rua, parecia carnaval, licença pra lá, empurrão prá cá. Garrafas se quebrando no chão, catadores de latinhas, o comércio de drogas deprê, músicas indecifráveis ao longe e a multidão buscando prazer, assim como eu. O prazer e a razão. Abandono-me da razão para tentar esbarrar no prazer e aí ocorre a grande virada da noite. Perde-se o espírito zaratustriano e mergulha-se no inferno de Dante. Quanto mais bestial, melhor o status. Enfim, não existe nada de novo. Recife Antigo e depois Garagem. Tenho certeza que meus leitores já experimentaram essa situação. O inferno já perdeu seu brilho e é hora de esperar a carona. Ao longe, o céu começa a ganhar leves contornos róseos. A última dose de vodca. Vem aquela velha reflexão: "Estou ficando velho." Ou então: "Será que eu ainda preciso disso?" Volto pra casa sabendo a resposta, mas sem forças pra tomar qualquer decisão. O fusca, quase solitário, atravessa a Avenida Caxangá em direção ao Engenho do Meio. À medida que os minutos passam, o azul vai ficando mais claro, nas ruas as pessoas saudáveis saem para o exercício matinal, o carro estaciona à porta da minha casa.


A rapsódia está concluída. Desci do fusca e em meio à cambaleante realidade, avisto no horizonte a alvorada, com seus raios amarelo-claros, os pássaros cantando, um vira-lata atravessando uma encruzilhada sem medo dos carros, a rua que se espraia para o alvorecer.



"Oh Lord it took me back to something that I lost somewhere, somehow along the way.

On the sunday morning sidewalk, I´m wishing Lord, that I was stoned, ´cause there´s something in the sunday that makes the body feel alone.

And there´s nothing short of dying that's half as lonesome as the sound of a sleepin' city sidewalk And Sunday mornin' comin' down." Johnny Cash.
p.s.1: um vídeo pra ilustrar: http://www.youtube.com/watch?v=NoSHIUmpF6M
p.s.2: foto de Diogo Luna.

2 comentários:

pituska disse...

ontem fui no centro com maneco e júlia ver o tal SESI bonecos do mundo e ficamos logo entediados e incomodados com tanta gente. impossível curtir qqr coisa, principalmente com criança no meio.

engraçado q comentamos qd chegamos no recife antigo sobre nosso "tempo de juventude" e q no "nosso tempo" com certeza a gente ficaria pro show da nação, mesmo sem gostar, só pra falar mal e encher a cara. mas é isso aí, gente envelhece e melhora! é isso aí, tu num precisa disso não, dodô. tinha, por acaso alguma diva bestial no teu caminho? acho q nem era o inferno de dante, afinal.

agora, chegar em casa nesse clima q vc descreve tão direitinho é sensacional. álcool nas veias e solzinho da manhã... e esse hábito (saudável) boemio é difícil de abandonar....

küss

luanda disse...

massa o texto, dodô. 'roubei' um trecho.
me senti um pouco reconfortada ao lê-lo... :)