sábado, 1 de novembro de 2008

Alexei Karamazov

"Eu aceito Deus simples e retamente, mas não aceito esse mundo de Deus." Essa é a frase mais marcante de Alexei Karamazov em toda a epópeia de sua família. Esse personagem, jovem monástico, foi concebido para representar o futuro da humanidade em Dostoiévski. O pobre escritor nem em sua última obra, aquela que deixaria seu legado definitivo, conseguiu se livrar da dúvida da existência de Deus. Quando Dostoiévski perambulou pela Europa, despatriado, pobre e viciado na roleta, teve um filho chamado Alexei que morreu com 3 anos de idade, um pobre anjo, vivendo em algum recanto ofendido de Basiléia. 1867. Nesse ano, Dostoiévski e Nietzsche viveram nessa mesma cidade suiça, e não se conheceram. Nietzsche era um respeitado professor e Dostoiévski um miserável. Capaz de nunca terem se cruzado pela rua, e se sim, Nietzsche não se rebaixaria a trocar palavras com um russo mal vestido e mal aparentado.

Nesse contexto, o franzino Alexei Dostoievski adoeceu e o pai não teve como dar uma assistência adequada. Resultado: morte do garoto. Dostoievski profundamente endividado, jogava para pagar os débitos e se endividava mais. Tinha que sustentar o filho bastardo, Pavel. Além dos débitos do irmão, Mikhail, com a revista Vremya. Os nervos lutavam para se manterem fiéis para suportar o dia a dia, mas de vez em quando explodiam em erupões vertiginosas, cataclismas epilépticos, acessos de divina loucura... E assim Maomé visitou as mansões de Alá ao mesmo tempo que uma garrafa se esvaziava.

Alexei Karamazov recebeu esse nome graças ao filho que Dostoiévski perdeu em Basiléia, e esse filho morto renasceria em um personagem: bondoso, religioso, honesto e justo. Alexei deveria guiar a humanidade, seria o super-homem, o russo do futuro. Educado num mosteiro, haveria de ser exemplo para os outros homens, um juiz da concórdia e do amor de Deus. Entretanto, quando Alexei não aceita esse mundo de Deus e tem consciência de sua pérfida humanidade, desce de sua nuvem idealista e vem banquetear-se com os incautos, admite: "Eu também sou um Karamazov." Ou seja, também sou vil, bestial, vão. Nem quando tentou formular sua perfeição, Dostoievski conseguiu se livrar de sua condição humana. O homem que passou por ele nas ruas de Basiléia veio inspirar Nietzsche profundamente, reconhecendo não conhecer um outro espírito que conhecesse tão bem a alma humana quanto o pobre escritor russo. Dostoiévski é o homem naquilo que mais compreende sua essência: sua fraqueza.

4 comentários:

Sr. Anísio disse...

Nietzsche diz, no crepúsculo dos ídolos que Dostoievski, foi o único psícologo do século que lhe ensinou algo. já havíamos conversado sobre isso meu caro, eu, tu, Nietzsche e Dostoievski. é bom, que se diga em que ponto D. fez N. pensar, foi justamente no que concerne ao super-homem, e a moral aristocrática, que a partir das obras de D. ficou claro para N. que não era um conceito de classe, casta, raça ou mesmo nação. pois, até mesmo nos lugares mais vis e desprovidos de um "senso moral" superior, sempre haviam indivíduos de uma moral admirável. depois pesquiso melhor qual texto de D. N. se refere. Bjus véi.

Eurico disse...

Depois volto para comentar teus textos. Abraço.

Eurico disse...

Ah achei teu blog no orkut da minha amiga Suzaninha.
Abraço.

Diogo disse...

acho que o livro que N comenta de D é "Memórias do Subsolo", a mais filosófica das novelas de D. dodô, ta lindo! depois tu escreve um sobre ivan e o próprio D. (agente ja conversou sobre isso, mas seria tão bom ver escrito!)