sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ausência?

Fim de novembro, acho que esse foi o mês que menos escrevi no blog. Deve ter sido o mês que menos estudei também, mas não foi por falta de obrigações. Carreguei na avalanche os trabalhos e só Deus sabe como estão se desenvolvendo. A verdade é que foi/é um mês de acontecimentos. Minha bolsa saiu. Depois de um ano e meio devendo ao banco, a amigos, sem poder comprar livros, nem ir no cinema e outras privações deliberadas pela falta do dinheiro, cá estou tentando reorganizar a vida. Hoje acordei entristecido, sem forças, com vontade de chorar por horas a fio, quase como o personagem Oblomov de Ivan Gontcharov. Até que afastei a fadiga, comprei tinta, pincel, chemei um pintor da vizinhança e, juntos, mandamos brasa no apartamento que está, decerto, bem mais apresentável. Também comprei uma geladeira lá na comunidade Sapo Nu, por uma bagatela. Agora, ao final do dia, estou cansado.

Bem, se repararem, falei de um dia comum da minha vida. Aliás, se não corri ao teclado nos últimos dias é porque não houve tempo para reflexão. Tenho vivido, meus amigos. E viver, condiz com a possibilidade de gozar e sofrer. Meu coração fremiu nervosamente por esses dias. Ah, como me é doloroso. Ao mesmo tempo é divino. Falar de amor e não cair no ridículo é impossível. Além do mais, deixemos esse assunto de lado, como diria Petrarca: "Quem pode dizer a que ponto arde, arde bem pouco." Li essa citação num ensaio de Montaigne. Aliás, esse filósofo gascão tem sido um verdadeiro pai pra mim. Tomo seus conselhos e advertências, sua prudência perante o mundo, como um aluno que, dedicado ao seu mestre, presta atenção às mínimas interjeições. Minha alma é propensa aos abismos das paixões, às previsões do futuro, ao fulgor romanesco, e nisso tudo, consiste um triste caminho para o espírito. No mês que li menos, li Montaigne.

Hoje é sexta-feira e, que raro, não sinto vontade de sair. Hoje, comprei uma passagem de avião para São Paulo, vou assistir as palestras da semana sobre Dostoiévski no Centro Cultural Banco do Brasil, com os maiores nomes do universo dostoievskiano do Brasil e da Rússia. Uma ótima oportunidade pra fazer contatos, conhecer professores e alunos que, como eu, pesquisam sobre o escritor, falar um pouco em russo, quem sabe. Viajar. Quando viajo, minha cabeça adquire outra velocidade de raciocínio, o estranhamento oferece novas interpretações. E, se não escrevi recentemente, é porque o mundo já não me era tão estranho como de costume. Voltar a São Paulo vai ser bom, faz cinco anos que não ando por aquelas ruas cinzentas, cheias de pessoas apressadas, organizadas, cheias de objetivo. Eu gosto de São Paulo. Também será a oportunidade de perder o medo, ou não, de avião. Conheço várias cidades do Brasil, de norte a sul, sempre viajando de ônibus ou carro. Tenho medo de altura, de velocidade, de avião. Mas, vamos nessa. Talvez, por isso, resolvi falar um pouco de mim, sempre acho que se pode morrer mais facilmente numa viagem de avião do que em qualquer outra ocasião, embora as pesquisas e a opinião pública sugiram o contrário. Vou enfrentar esse medo. Moro no caminho para o aeroporto desde que nasci. Os aviões passam em cima da minha casa, habitam meus sonhos de madrugada, me acordam, me ninam, me espantam quando passam naquelas imensas alturas em que observamos aquele pequeno pássaro de prata a riscar a imensidão celeste. Que visão não deve ter um cidadão naquela janela. O mar imenso, a terra que divide as águas, o homem que sonha no quintal de sua casa.

Sabe, hoje não quero falar de algo que está externo a mim. Sei que uns dirão que o sujeito morreu. Que o homem é como um rosto desenhado na areia da praia, esperando a maré subir e apagá-lo num esquecimento desmemoriado. Mas, quero dizer coisas simples, que brotam dessa confusão que compõe meu pequeno universo. Quero dizer que acredito no amor. Mais do que nunca! Porque pude vê-lo de perto. Ó vida, faze desse escravo o que decidiste antes mesmo de existir! Arremessa-me pra fora do pássaro de prata. Faze-me voltar. Destina-me pra quem desejo tanto. Rouba-me sorrateiramente o ar enquanto durmo. Dize-me que o tempo já passou e não há nada que se possa ser feito perante à foice que se cobre de preto. Continuarei ausente. Estou indo pra São Paulo estudar aquele homem que me inspira há tantos anos, aquela fonte clara que jorra do âmago do mais impuro dos animais, o conflituoso mestre que soube captar essa roda gigante de sentimentos.


No Centro Cultural Banco do Brasil acontece, entre os dias 01 e 04 de dezembro, o Seminário “Dostoiévski Ontem e Hoje”
01/12 “Dostoiévski, nosso contemporâneo” – com Igor Vólguin (Rússia), Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra. Mediação de Bruno Gomide
02/12 “O Universo das Ideias na obra de Dostoiévski” – com Déborah Martinsen (EUA), Fátima Bianchi e Bruno Gomide. Mediação de Elena Vássina
03/12 “Dostoievski x Teatro e Cinema – Uma atração irresistível” – com Elena Vássina, Aury Porto e Cibele Forjaz. Mediação de Ruy Cortez
04/12 “Dostoiévski e a Vanguarda Russa na arte do século XXI: convergências contemporâneas” – com Frank Castorf (Alemanhã), Aurora Bernardini e Arlete Cavaliere. Mediação de Silvana Garcia

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A cidade de Petersburgo nas primeiras novelas de Dostoievski.

A cidade de Petersburgo nas primeiras novelas de Dostoievski.

Autor: Odomiro Barreiro Fonseca Filho*

A partir da Revolução Industrial as grandes cidades do Ocidente vão experimentar uma efervescência de descobertas e surgimento de novos costumes, cujo principal fenômeno é o capitalismo. Junto com o capitalismo virão novas ordens, novos rumos, a modernidade residirá na grande cidade, e esta será o cenário principal para as contradições e embates entre o novo e o velho, entre o sentido de comunidade e civilização.

Para Max Weber, a modernidade, inseparavelmente, se caracterizava pelo Espírito de Cálculo (rechnenhaftgkeit), pelo Desencantamento do Mundo (Entzauberung der Welt), pela Racionalidade Instrumental (zweckrationalität) e pela dominação da burocracia(LOWY E SAYRE, 1995; 35). As cidades ficarão repletas, porque também a população se multiplicava, de indivíduos fatigados e reduzidos à rotina uniforme e enfadonha da exploração industrial, do funcionalismo público e do culto ao dinheiro. Os escritores românticos vão problematizar esta visão de mundo, oferecendo uma reação contra essa racionalização. O olhar do escritor tem uma função histórica, de resgatar uma multidão que está omitida e excluída, desconhecida da burocracia do Estado e tornar-se companheiro de jornada dos que vivem o deserto afetivo da vida urbana. Dostoievski vai fazê-lo de maneira arrebatadora já em seu romance de estréia, Gente Pobre, onde dois personagens do subúrbio de Petersburgo, Várvara Dobrossiulova e Makár Devutchkin, vão dissecar seu cotidiano através da troca de correspondências, narrando toda sorte de desgostos e pequenas esperanças em um ambiente insalubre, delicado e sensível às dificuldades climáticas do inverno, inclusive.

A década de 1840 é marcada por uma mudança radical na maneira como os literatos observavam o cotidiano nas cidades, e isto, vai ser reparado por Walter Benjamin no texto sobre o flâneur, quando os escritores deixarão de fazer uma observação fisiológica da cidade e passarão a se interessar pelos problemas sociais que rodeavam seu universo. Esta mudança de olhar tem a ver com a contextualização do escritor em seu presente. Analisar o contexto histórico do narrador, não diminui a literatura em relação à história, nem vice-versa, mas serve para “armar” o leitor em sua relação de interação com o texto. Sobre esta mudança, dizia Benjamin: “A literatura muda porque a história muda em torno dela. Literaturas diferentes correspondem a momentos históricos diferentes.”(COMPAGNON, 2001: 196)

A relação entre literatura e o espaço geográfico, se não é de primordial interesse para o aprendizado do texto, serve para que melhor situemos a ambiência onde o escritor elevou seu desejo de deixar para o mundo algo que precisasse ser narrado. Assim, o sertão está presente na obra de Guimarães Rosa além de uma simples paisagem a ser relatada, esse sertão que não se encontra nas estatísticas do IBGE. O Rio de Janeiro, se não é parte fundamental para entendimento da obra machadiana, é nos meandros daquelas esquinas e morros cariocas que as tramas e comentários se desenrolarão. Diversos exemplos podem ser citados da relação entre o espaço geográfico e a literatura, como a Bahia de Jorge Amado, a zona da mata de José Lins do Rêgo, o Rio Grande do Sul de Érico Veríssimo. Mas, o que leva o escritor a dar importância, reparar no local a ser narrado? O que faz desse espaço algo digno de ser relatado?

Para Judith Grossman, o espaço conhecido precisa ser estranhado para que se torne familiar (GROSSMAN, 1993: 18). Ou seja, algo precisa estar em desacordo entre a realidade e a visão do escritor para que se possa atribuir um sentido à vivência naquele ambiente. Na grande cidade, a voz do narrador vai resgatar essa multidão omitida pela burocracia, pelos governantes. O escritor vai emprestar sua mão ao serviço dos sujeitos esquecidos nesse deserto afetivo que é a cidade moderna.

A modernidade para os viventes do século XIX correspondia a um imenso choque entre o que aparecia de novo e a tradição, entre o sentido de comunidade e de sociedade. Baudelaire soube muito bem sintetizar o que se passava no seu tempo. Dizia ele: “A modernidade é o transitório, o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável.”(COELHO, 1988: 174). Em que lugar o transitório vai se sentir mais à vontade do que na grande cidade!? Posicionando no meio da multidão que se atropela, nas construções que se sobrepõem, na avenida alargada ou no boulevard iluminado, o homem da cidade se confunde nesse universo construído para si pela força dos próprios homens, onde as convenções não mais seriam impostas pela natureza, mas pela razão, a lei motriz da cidade. Essa idéia de estar na multidão, encantava Baudelaire: “Estar fora de casa, e contudo sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo.”(COELHO, 1988: 170) A grande cidade é um palco em eterna montagem, estranho aos olhares mais sensíveis. Michael Löwy e Robert Sayre, no livro Revolta e Melancolia vão sintetizar essa reação à mecanização das qualidades humanas: “Com efeito, os românticos sentem dolorosamente a alienação das relações humanas, a destruição das antigas formas ‘orgânicas’, comunitárias da vida social, o isolamento do indivíduo em seu eu egoísta – que constituem uma dimensão importante da civilização capitalista do qual o mais importante espaço é a cidade.”(LOWY E SAYRE, 1995; 68)

A visão do romancista sobre a transformação da cidade mostra muito do sentimento nostálgico da destruição de sua realidade em face ao surgimento de uma civilização moderna. Michael Löwy e Robert Sayre, em Revolta e Melancolia, vão analisar este embate entre a comunidade (Gemeinschaft) e a sociedade (Gessellschaft), em que a primeira representa os elementos da Kultur: como a família, aldeia, concórdia, costumes, religião e ajuda–mútua; vai se chocar com uma Zivilisation baseada nos preceitos do cálculo, lucro, da grande cidade, do Estado nacional, da luta de todos contra todos.
Petersburgo foi uma cidade construída através do sonho do Tsar Pedro I, O Grande, que imaginava uma cidade moderna que viesse a ser a mola propulsora de toda a Rússia, um porto, literalmente, entre a Rússia tradicional e uma nova Rússia, européia, segundo os padrões ocidentais. Dostoievski vai captar essa energia mutante da cidade, que se chocará com seu pensamento reacionário que acreditava que a verdadeira essência da Rússia estava na população rural, com sua religiosidade e folclore. O cenário russo, minuciosamente detalhado em seus romances, permite às gerações futuras caminhar por sua narrativa com naturalidade. Nisto, Dostoievski traz reminiscências da tradição literária russa, como Nikolai Gógol o faz em Almas Mortas, onde seu personagem Tchitchikov viaja pelos confins da Rússia mostrando aspectos culturais e geográficos da nação-continente.

Uma cidade que na década de 1840 possuía 14 classes (DOSTOIEVSKI, 1967: 217-218) para diferenciar os nobres funcionários dos ministérios dos trabalhadores do baixo escalão, além dos servos que ainda não haviam sido libertados e constituíam a base da economia do país. A Rússia talvez fosse o país onde havia a maior discrepância entre nobres e plebeus, e este abismo vai se refletir nas relações sociais que eclodiam com maior rispidez nas ruas de Petersburgo, especialmente na Perspectiva Névski. Aliás, a agitação cultural e social nesta avenida foi motivo de uma análise aprofundada do pensador Marshall Berman no livro Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. A diferenciação entre as classes produzia, naturalmente, um fortíssimo preconceito entre os moradores de Petersburgo. Vejamos uma passagem de O Duplo, quando o personagem principal do romance, Iákov Petrovitch Goliádkin, resolve passear pela Gostini Dvor, uma espécie de “shopping center” de Petersburgo, um centro de compras freqüentado pela alta nobreza. Goliádkin é surpreendido por dois jovens funcionários que se espantam de o encontrar naquele ambiente:
“- Iákov Petrovitch, Iákov Petrovitch! O senhor aqui?! Que cousas acontecem nesse mundo!...
Goliádkin sentiu-se confuso e ofendido pela ousadia dos moços. Estava quase indignado contra a confiança que tomavam, mas decidiu no seu íntimo enfrentar a situação com tolerância, e respondeu:” (DOSTOIEVSKI, 1962: 215)
O diálogo continuou entre o herói e os dois moços, onde os jovens desatavam a rir da situação perturbadora em que Goliádkin se encontrava e este, cada vez mais embaraçado em ter sido descoberto num lugar onde sua presença não era comum, tentava por fim à conversa sem chamar a atenção dos freqüentadores: “Até aqui os senhores não me conheceram. Este não é o lugar adequado, nem a ocasião oportuna para entrarmos em explicações prolixas.”(DOSTOIEVSKI, 1962: 216)

A importância dado ao posto ocupado pelo funcionário em sua repartição parece ter uma distinção mais elevada em Petersburgo. Essa observação não se restringe ao romance de Dostoievski, mas encontraremos situação semelhante em O Capote de Nikolai Gogol, onde o baixo funcionário, Akaki Akakievitch, parece hipnotizado pela necessidade de se aparentar mais decentemente nas ruas do centro de Petersburgo. Até o dia em que compra um capote novíssimo, reluzente, que o faria um homem distinto. Não seria mais aquele “oculto” na multidão, como dizia Baudelaire. Mas, no dia da estréia do caríssimo capote, ele é furtado quando Akaki voltava para casa, tarde da noite, depois de ter saído para tomar chá na casa de um funcionário de um escalão mais alto. A decepção foi tão grande, que o herói enlouquece e morre absorto em seu leito. Por que era tão importante se aparentar de forma garbosa no centro de Petersburgo?

Acredito que essa distinção de classes não era privilégio da capital européia da Rússia, poderíamos encontrar semelhante situação em Paris ou Londres. Mas, esse tipo de preocupação envolvendo funcionários públicos russos, será motivo central de pelo menos três grandes obras da literatura russa na década de 1840: O Capote (1843); Gente Pobre (1844); e O Duplo (1846). Todas elas narravam as dificuldades financeiras dos funcionários públicos do baixo escalão e suas relações com a pobreza numa cidade que fora criada para refletir o brilho da riqueza e pujança russa.

A cidade de Petersburgo aparece nessas histórias quase como um personagem-fantasma, que enuvia os sentidos dos personagens reais. Estar em Petersburgo é mostrar-se altivo e poderoso. Era a cidade dos grandes palácios, das grandes construções e jardins, da Avenida Névski, do Palácio de Inverno, das terras do Tsar como a propriedade de verão em Tsarskoie Selo. A vida da nobreza petersburguesa é mostrada com todos os detalhes no romance Anna Karenina de Lev Tolstoy. Dostoievski vai na contramão da nobreza. Chegou a se mudar do centro de Petersburgo para o subúrbio, para observar de perto o cotidiano das pessoas que viviam em águas-furtadas e em pensionatos. Dessas observações, surgirão as páginas de seu primeiro romance, Gente Pobre.

Em O Duplo, o personagem Goliádkin, em sua ânsia por ser aceito na alta sociedade, termina por enlouquecer. Mas, ao ensandecer-se, não escolhe o calor do seu quarto, uma sala aconchegante para derramar as lágrimas, Goliádkin vai para o centro de Petersburgo, numa noite rigorosa de inverno, com um temporal a castigar o único que se atrevera a enfrentar a gélida escuridão. Percebam que o clima da cidade, as ruas, as pontes, são mais do que um pano de fundo da cena, mas participantes no sofrimento do personagem. O narrador faz questão de relatar o cenário, nomeando cada detalhe e cada circunstância em que o personagem alucinado se encontra. Vejamos:

“No relógio da Municipalidade soavam as doze badaladas da meia-noite quando Goliádkin chegou ao cais do canal de Fontanka, nas imediações da Ponte Ismaílov. Vinha fugindo de seus inimigos e perseguidores; dos protestos das velhas indignadas; das exclamações de espanto das moças; dos olhares fulminantes de Andrei Filíppovitch.”


Dostoievski continua:

“Fazia um tempo horrível; uma característica noite de novembro em Petersburgo: úmida, nebulosa, escura, com essa chuva e essa neve que trazem aos habitantes das margens do Neva os presentes de novembro sob a forma de resfriados, reumatismos, bronquites, gripes, pneumonias e todas as outras moléstias do frio. O vento ululava pelas ruas desertas, fazendo tremeluzir a luz dos lampiões e agitando de modo sinistro as águas do canal. Era aquele vento que suscitava com o seu sopro álgido, leves ruídos, sussurros e rangidos que se confundiam para formar o concertante choroso que conhecem todos os que vivem em Petersburgo. Chicoteadas pela ventania, a chuva e a neve zurziam o pobre Goliádkin, crivando-lhe o rosto de mil alfinetadas.” (DOSTOIEVSKI, 1962: 233)

Mais adiante, Goliádkin parte enlouquecido percorrendo as ruas do centro da capital. Volto a sublinhar que Dostoievski faz questão de nomear cada caminho que seu personagem percorre pela região central. Em outras obras, o escritor russo simplificaria o nome das pontes com o primeiro nome desta (ex: Ponte K, Avenida J), mas em O Duplo, ele faz questão de sublinhar que aquele desespero causado pelo repúdio da nobreza a um pequeno funcionário ocorria em Petersburgo. Notemos:

“Continuou correndo tanto quanto as suas pernas lhe permitiam, sem olhar para trás. Ofegava; tropeçou várias vezes; quase caía; perdeu a outra galocha. Por último, exausto, afrouxou o passo para respirar, volveu a vista em torno e percebeu que havia deixado para trás o canal de Fontanka, sem notar; tinha atravessado a Ponte de Anítchikov e cruzado a Perspectiva Névski e a Litéinaia.” ( DOSTOIEVSKI, 1962: 237)

Em outros momentos da obra de Dostoievski, vamos encontrar a cidade de Petersburgo como cenário de suas obras. Em O Diário de um Escritor, ele vai estranhar a arquitetura da cidade, sua ávida busca por novidades e a falta de um estilo próprio, onde tudo parece estar emprestado de outras civilizações. Em O Idiota, no capítulo em que o príncipe Michkin está prestes a sofrer um ataque epiléptico, ele percorre as ruas do centro de Petersburgo com o mesmo ar ensandecido que Goliádkin naquela obscura noite de novembro. Mas, por enquanto, nos ataremos a trabalhar as duas primeiras obras da longa carreira do escritor.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Pequeno Delírio Épico e Pós-Moderno

O homem diante do mundo,
criatura em silêncio.
Refém do despotismo das coisas,
filho da retórica moderna.
É poeta, pranto pronto, essência.
Lágrima em desvelo que escorre por face árida.
Plúmbeo olhar ante a desértica fome do consumo.
Este tropel espírito é o herói da pós-modernidade.
Da distante colina, observa o presente em sua conspecta falácia.
Como Cipião Emiliano, chora a dor do futuro,
conspurcando as tradições em seu inevitável caminho para a morte!
Urra, homem! Constrói tua nação no labirinto do teu ser!


*escrevi esse curto pensamento após o término do trabalho sobre Epopéia ministrado pelo professor Saulo Neiva.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Futebol do Nordeste

Ontem à noite desloquei-me da minha humilde residência para um barzinho perto de casa na intenção de acompanhar o jogo decisivo entre Botafogo FR e C Náutico Capibaribe pelo Campeonato Brasileiro de Futebol Profissional. Voltei pra casa irado, colérico e furioso com o árbitro gaúcho Leonardo Gaciba. O cidadão em questão garfou o clube pernambucano desde o começo do jogo: deixou de expulsar o goleiro do Botafogo, anulou um gol legal, marcou um penalty para o Botafogo, sem contar as faltas inexpressivas. Bem, não recorri ao blog pra chorar as dores de uma derrota futebolística, mas para levantar uma questão que, ao meu ver, diz respeito a todos os times de futebol da região nordeste: a decadência deste esporte na nossa região.

Náutico e Sport estão lutando de forma desesperadora para permanecerem na série A, contando com arbitragens bizonhas, tendenciosas mesmo, com quotas financeiras bastante humildes em relação aos times do eixo sul-sudeste, desprezo das mídias nacionais, entre outros fatores que dificultam nossa participação. Ou seja, dos únicos três times do nordeste que participam da série A, dois correm riscos seríssimos de serem rebaixados. Pela série B, o caso é ainda mais grave! Os quatro times que se encontram na zona de rebaixamento são da região nordeste, de maneira que, de todo jeito, pelo menos três times da região serão relegados à série C, entre os que disputam ferrenhamente contra a despromoção estão grandes equipes como Bahia e Fortaleza. Na série C, comendo o pão que o diabo amassou, está o Paysandu, outrora grande respresentante da região norte no futebol brasileiro. O que dizer do seu maior rival, o Clube do Remo? Este último, nem para a série D se classificou! Mas, o caso que mais chama a atenção é o do Santa Cruz FC. O tricolor do Arruda possui a maior média de público de todos os times do Brasil e não conseguiu passar da primeira fase da Série D. Desde o mês de agosto, o "santinha" não realiza uma partida oficial, limitando-se a jogar contra a Usina Catende e outros times do mesmo porte, com todo o respeito à cidade de Catende. O futebol da nossa região está, indiscutivelmente, em crise. Vocês concordam comigo ou estou falando uma inverdade?

Não passamos de mero coadjuvantes do futebol paulista, carioca, mineiro e gaúcho. Fazemos das tripas o coração para estarmos alí, participando daquela festa em que não somos bem-vindos. Somos penetras de uma solenidade que não foi feita para nós: matutos, ignorantes, irascíveis, bruta-montes, analfabetos do nordeste. Sempre que a imprensa do sudeste se remete aos nossos estádios e torcedores, falam como se fossemos uma horda magyar capaz de macularmos a grandiosidade do espetáculo feito apenas para eles. Ano passado, quando o Sport venceu a Copa do Brasil, a torcida rubro-negra da Praça da Bandeira sofreu diversos tipos de preconceito por parte da imprensa que se questionava se era seguro jogar naquele estádio onde a torcida gritava loucamente intimidando os jogadores sulistas. Será que os cangaceiros do nordeste vão invadir o campo e matarem nossos atletas?

Para mim, existe uma saída viável, cristalina e lucrativa para buscarmos nossa independência e identidade futebolística: é o Campeonato do Nordeste. A última edição deste Campeonato ocorreu em 2002 e foi um imenso sucesso, com grandes bilheterias, patrocinadores, motivação da imprensa local e grande rivalidade entre os clubes da região. O que falta, ao meu ver, para o Campeonato do Nordeste se constituir numa grande vantagem para os clubes locais é um passaporte para uma grande competição. É hora dos governadores do nordeste se unirem e requererem uma vaga para o campeão do Campeonato do Nordeste na Libertadores e duas vagas para o segundo e o terceiro colocado, respecivamente, na Copa Sulamericana. Com essas premiações, o Campeonato se tornaria incrivelmente viável. Pois, ao invés de um time do nordeste jogar a Libertadores de vinte em vinte anos, estaríamos lá todo ano, representados seja por Sport, Náutico, Santa Cruz, Bahia, Vitória, Ceará, ABC... grandes torcidas teriam grandes motivações para acompanharem seus times. Nossa região tem bons jogadores, bons técnicos, grandiosa platéia. O que falta para que consigamos a independência desse conluio que é Campeonato Brasileiro? Os times da nossa região enfrentariam os times do sul e sudeste pela Copa do Brasil que é, sim, uma competição democrática. Também enfrentaríamos os grandes times do sul e sudeste nas competições continentais. O Campeonato do Nordeste teria 7 meses de duração, com primeira e segunda divisão. Os campeonatos estaduais continuariam, a Copa do Brasil também. Ficaríamos livres de juízes mal-intencionados e imprensa bairrista. Essa é a solução que proponho, humildemente, através do meu blog. Até quando precisaremos do sul e sudeste para taxar o valor de nossa cultura e tradição?! Quem está comigo?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Batalia Bob Junior

Caramba, escrevi uma mega resenha sobre o álbum de Batalia Bob Junior e, sem querer, acabei apagando. O pior que estou numa semana muito corrida, são 23:09 e estou bêbado de sono. Mas, como um herói epopéico, ultrapassarei os limites carnais e vou postar sobre esse disco que tem uma mistura de macumba, samba e jazz, sensacional. De onde é esse cara? Cabo Verde? Angola? Bahia? Não sei, só sei que ele canta em português(?!). O sotaque dele é muito doido, o disco foi gravado em Paris em 1972 e não consigo achar quase nenhuma informação sobre esse disco no mundo virtual, exceto as que já repassei. No LastFM, sou o único ouvinte desse grande artista! Vocês sabem o que é LastFM? É um orkut de música (mais um!). Quem tiver e quiser me adicionar, aí vai meu link: (http://www.lastfm.com.br/user/dodofonseca). Falei em epopéia há pouco, só penso nisso! Há um mês que minha vida gira em torno da literatura épica, retórica clássica, semiotização literária. Poderia postar esse disco amanhã, fazer um texto cheio de floreios, mas se me adianto a escrever essa simplória resenha é porque tenho medo. Sim, tenho muito medo, meus amigos. Medo de mergulhar no mundo dos sonhos e ficar aprisionado por lá que nem o personagem de Waking Life. Para onde vão os sonhos quando nós acordamos e não recordamos mais do que uma neblina de lembranças? Será que vão para o mesmo vácuo indecifrável pra onde o antigo texto de Batalia Bob Junior foi? Coitado do antigo texto, tão medíocre, vagando por um suposição perdida. Meu Deus, relendo tudo o que escrevi, não disse nada com nada. Perdoem-me, mas isso sou eu, também. Mas, é isso, quero postar sobre esse disco aí. É uma macumba massa! "No mar eu encontro o peixinho..."


P.S.: Bebeto, você pediu uma postagem musical, lembras? Não é a 1812 de Tchaikovsky, mas é parecido! Tô me sentindo que nem Presto da Caverna do Dragão. Mais pedidos?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Dia do Professor

Quem inventou de colocar o dia dos professores no dia 15 de outubro, exatamente na metade do mês, quando o homenageado já não dispõe de quase nenhum recurso financeiro para formosear-se com seus confrades nesta data comemorativa? Talvez por isso as escolas dispensem nossos heróis da jornada de trabalho, escamoteando em forma de feriado a triste realidade desta data. Mas, mesmo assim, houve quem ligasse naquele sábado à noite para convidar nosso professor para uma noitada no Recife Antigo. Ex-colegas de faculdade, professores que também trabalhavam no serviço público acompanhados de suas esposas ou namoradas, formavam uma grande mesa que se destacava na Rua Tomazina. Nosso herói, um professor com seus 27 anos, recém promovido ao cargo na província de Pernambuco, um homem bem afeiçoado, de boa compleição física, homem de histórias, resolvera a contragosto encontrar os amigos que há alguma data não congreçava. Como o salário havia entrado na conta no final do mês de setembro, na metade de outubro, nosso herói teve que raspar o cofre para se arriscar na noite recifense.

O professor saiu com 15 reais na carteira, decidido a não beber, pois o dinheiro seria insuficiente, além do mais, seu cartão de passagem tinha quebrado na semana que findava e ele ainda haveria que pagar a passagem de ida e volta, de maneira que, resolutamente, só poderia gastar 11 reais naquela noite. Durante um longo período debateu-se, intrigou-se, se realmente valeria à pena sair de casa naquela situação. Porém, vencido pelo tédio, decidiu que arriscaria um passeio pelo centro da cidade. E lá estava na Rua Tomazina, meio desconfiado, a observar o movimento das moças bonitas e dos vendedores de loló.

Em pouco tempo, todos estavam se confraternizando, brindando ao Papa, contando piadas sobre judeus, e questionando o porquê do nosso herói não participar da pândega. Ele sem querer dizer o verdadeiro motivo, inventava uma desculpa qualquer e cinco minutos depois enchiam um copo para ele. Nosso herói sabia que se tomasse o primeiro copo, participaria da conta que daria no mínimo 20 reais por pessoa. Resolveu que daria um passeio pelas ruas do centro, disse que voltava já. Chegou no primeiro bar e pediu um quartinho de Pitú e um limão cortadinho. Estava louco de vontade de beber! Tomou a primeira lapada e deu uma chupada forte no limão que o fez arrepiar. Heya! Dá-lhe outra! 3 reais. Voltou à Rua Tomazina e já se sentia com outra disposição. Tirou uma moeda de 1 real e pôs no bolso, dizendo para si mesmo: “essa daqui é pra voltar pra casa.” No domingo, a tarifa do ônibus é pela metade, ou seja, 95 centavos. Ficava na mesa conversando, cada vez mais acaloradamente. Passou a pedir o quartinho de Pitú no bar em que os amigos se reuniam mesmo, lá o quartinho era um pouco mais caro, 2 reais e ainda teria os 10% do garçom. Mas, tudo haveria de se arranjar. Logo puxou assunto com uma professora meio dentuça que ele conhecia de vista da nova escola em que começara a trabalhar havia dois meses. Não era muito interessante, mas àquela altura da madrugada...

O pior que a professora ficou dando linha e puxando o anzol. Nosso herói se abusou e trocou até de lugar. Mulher complicada, deve ser cheia de problemas. Faltavam 5 minutos para as três da manhã quando, em comum acordo, todos resolveram pagar a conta. Nosso herói pagou 8 reais pelas cachaças que tomou e ainda possuía 2 reais. O bacurau das três já estava perdido. Nosso herói ainda podia tomar uma latinha de cerveja enquanto aguardava o último bacurau que sai às quatro da manhã do Cais de Santa Rita. Partiu para a Rua da Moeda. Tentou conversar com algumas pessoas, mas àquela hora seu aspecto deveria estar deplorável, sem contar o bafo de cachaça. Então, recostou-se no muro de uma casa abandonada e tomou sua cerveja, concluindo que os planos que fizera em casa e que o motivavam a não sair, se concretizaram. Ou seja, voltaria bêbado, não encontraria nenhuma garota interessante, não arranjara uma carona, a noite tinha sido uma merda e gastara os únicos 15 reais que dispunha.

A despeito de todas as maldições que confabulava consigo, resolvera de última instância, olhar a vida por outro viés. Tentara olhar o presente por um lado menos negativo e que ao menos possuía um emprego fixo, onde nunca seria demitido. Nessas meditações percebera que faltavam 15 minutos para as quatro horas. Resolveu se dirigir para o Cais. Atravessou a Ponte Giratória cantando uma música do U2 chamada Sunday Bloody Sunday, em homenagem ao novo dia.

Ao chegar no Cais, entre dezenas de ônibus, avistou logo o bacurau da Várzea e adentrou. O motorista tirando um cochilo na boléia, o cobrador do lado de fora comprando um picolé. Nosso herói ficou um tempo do lado de fora também, observando a gritaragem dos vendedores de café, pipoca, picolé, refrigerante. O Cais de Santa Rita, definitivamente, nunca dorme. O mau cheiro, a escuridão, os passageiros bêbados assim como ele, o cobrador subiu. Nosso herói seguiu-o e retirou a moeda de Um real que desde o começo da história guardara, garantindo seu retorno ao lar, entregando-a ao cobrador e esperando o troco de cinco centavos. O cobrador questionou: “cadê o resto?” Nosso herói, então, argüiu: “Ora, hoje não é domingo?! É meia passagem!” O cobrador que, provavelmente, deveria passar por aquela situação em diversas madrugadas de sábado para domingo, adquiriu uma feição insolente e disse que a meia-passagem só valeria à partir das cinco horas da manhã. O nosso herói ficou aperreado e correu para o porta-moedas da carteira. Tinha uma soma de um real e setenta centavos. Ainda faltava 15 centavos para completar a passagem! Nosso herói então, perguntou se poderia passar faltando 15 centavos, mas o cobrador disse que de maneira alguma. O ônibus começava a ficar cheio e a controvérsia entre cobrador e passageiro começava a chamar a atenção de todos dentro do veículo. Então, o nosso herói sugeriu ao cobrador que ele ficasse com o dinheiro e que ele ficaria ali, quietinho, na frente e desceria sem fazer alarde e que, ainda assim, o cobrador ganharia um trocadinho por fora. Mas, o cobrador decidido a manter sua moral inabalável perante os passageiros do ônibus, levantou-se, sua panóplia de orgulho resplandecera ainda mais, encaminhou-se para os degraus e ordenou ao passageiro que descesse imediatamente ou chamaria a polícia. Nosso herói estava prestes a chorar e argumentava: “Seu cobrador, o senhor vai me deixar aqui no Cais essa hora da madrugada? O próximo ônibus só vai passar daqui à uma hora e meia. Vou ficar aqui sozinho nessa escuridão por causa de 15 centavos?” O cobrador, cada vez mais orgulhoso de seu escrúpulo, dizia: “Bora boy, se tu num descer agora eu vou chamar a polícia!” A situação era irreversível, o orgulho do cobrador estava ferido e ele estava disposto a cumprir a lei à risca. Afinal, é a lei que move a vida dos cidadãos, ela é o dogma irrefutável da urbe e coitado de quem escapa à sua tirania!

Nosso herói já estava conformado com sua derrota quando um homem que acompanhava toda a desavença resolveu se levantar e entregar três moedas cor de bronze no valor de cinco centavos cada, finalizando assim o tão sonhado objetivo do cobrador, o número mágico, a razão transcendental de sua força de trabalho, o seu orgulho proletário, o Um real e oitenta e cinco centavos!! Ao estar de posse do dinheiro necessário, o nosso herói deixou de ser um homem submisso e toda a sua então humildade revertera-se numa cólera de fazer sublinhar as palavras de Hesíodo em suas análises sobre a fúria sentimental. O motorista tocou o ônibus e o cobrador sentou-se em seu lugar para receber as moedas e antes mesmo de se acomodar na cadeira, nosso herói lançou-lhe as moedas com toda a força no rosto, resvalando contra o peito e a janela que ficava ao fundo. Nosso herói, completamente enfurecido, bradava para todo o ônibus, a tremer de ódio: “Chama a polícia agora, seu filho de uma puta! Vai contar essa merda pra ver se tá certo! Tu nunca deixarás de ser um cobrador de bacurau, porque não mereces crescer na vida. Seu merda!” Todos no ônibus arregalavam os olhos diante da medonha cena que se desenrolava. Nosso herói repetia que o motorista parasse na polícia. "Parem! Parem! Vá dizer que eu não paguei!" Assim o transtornado gritava. O nosso herói indagou o cobrador: “Você sabe que eu sou? Eu sou um professor! E se me faltava 15 centavos para pagar uma passagem de ônibus é porque essa merda de país não valoriza a educação e um idiota como você não consegue abstrair o lucro que teu patrão tá ganhando nas tuas costas. Vai dizer pro teu patrão que tu ganhasse 15 centavos para a empresa e aguarda a recompensa que ele te dará!” O cobrador limitara-se a resmungar: “Tu és um liso.” O professor e o cobrador ainda trocaram farpas por alguns minutos até chegarem na primeira parada da Conde da Boa Vista, quando novos passageiros subiram e a turba se acalmou.

Ao chegar em casa, nosso herói muito abatido, sentira remorso de alguns palavrões proferidos. Todos haviam perdido. Gastara os últimos quinze reais que tinha até a chegada do próximo salário que viria em duas semanas e decidira que nunca mais sairia de casa enquanto não pudesse pagar o dinheiro do táxi.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Primeiro Aniversário do Blog

Em outubro do ano passado resolvi criar esse blog. Não imaginava quanto tempo duraria, quantas postagens iria publicar, se seria bem recebido pelos amigos e desconhecidos. Tinha a intenção de escrever sempre que possível para treinar para a prova da seleção do mestrado que estava a bater na minha porta. Quem visita esse endereço eletrônico deve reconhecer que a maioria das crônicas (que nome pesado para essa brincadeira) possui uma forte impressão das minhas visões de mundo. Talvez seja um defeito não conseguir me livrar da pessoalidade da visão de mundo, mas... é assim.

Neste mês de outubro em que escrevo agora, estou tremendamente ocupado com as entregas dos artigos do mestrado. Inventei de fazer um trabalho onde pretendo elencar os possíveis temas épicos no romance Os Irmãos Karamazov. Calma, antes que os xiitas da crítica dostoievskiana me apedrejem, devo adiantar que não pretendo analisar a obra como se tratando de um épico, pois trata-se de um romance autêntico. Mas, tentarei elencar algumas características épicas na temática do romance, como a recorrência ao relato histórico no capítulo do Grande Inquisidor, além do referencial mitológico, também nesse capítulo. Enfim, se eu conseguir fazer algo decente, apresentar-vos-ei por aqui. Além disso, até o dia primeiro de novembro, tenho que entregar um outro artigo sobre a relação do personagem Konstantin Liêvin, do romance Anna Karênina de Tolstoi, com a propriedade rural, sua visão de mundo que se opunha à vida citadina, seus conceitos de economia rural, a relação proprietário-servo. Enfim, tudo isso pelo viés da ecocrítica.

Gostaria de liberar mais meus devaneios por aqui, mas não está sendo fácil. Além do mais, não terei assunto para sempre. Essa postagem mesmo é uma falta de assunto! Mas, não poderia deixar passar em branco essa data: o blog fez um ano. Entre assuntos desnecessários, poesias estabanadas, convites musicais, odes ao futebol, opiniões literárias, pequenas histórias que escrevo no silêncio da madrugada, acredito que talvez daqui há algum tempo possa reunir algumas postagens aqui escritas e lançar algum livrinho no futuro. É isso, agradeço aos amigos que visitam, aos desconhecidos que, só Deus sabe como, chegam por aqui, e deixo o convite para quem quiser aparecer outras vezes. Sem mais, um abraço a todos!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Bom Velhinho

Passava das 20 horas da noite de natal e eu estava na praça do Derby, voltando pra casa, para a ceia familiar. No último natal, tinha vários motivos para liberar minhas emoções, pois o ano tinha sido um desastre financeiro, mas em compensação, consegui atingir o objetivo de passar no mestrado em dezembro, o que me deixara num estado de euforia prolongado. Após ter me divertido durante todo o dia numa festinha no bairro da Boa Vista, chegara a hora de retornar para o seio familiar, compartilhar do carinho cronometrado dos parentes, banquetear e encher a cara em nome do nascimento de Cristo.

Passara o dia inteiro bebendo cerveja, minha visão estava um tanto enturvada, fuscada, olhava com um misto de desdém e curiosidade para os passageiros que aguardavam o ônibus, ansiosos por chegarem às suas residências natalinas. Guardas chegavam e saíam do quartel do Derby, o comércio fechava, restaurantes com seus tristes funcionários recebiam famílias interias. Mas, uma visão me chamou a atenção mais do que qualquer outra. Do outro lado da praça, um homem, ou um mendigo, sim existe distinção, caminhava pela praça seguido de crianças e adolescentes eufóricos. O homem tinha uma barba longa e grisalha, estava mal vestido e carregava na mão direita um latão que era seguido de longe pela gurizada. Comecei a espiar aquela cena com a mesma curisiosidade que nos colocamos a olhar uma cadela a ser cortejada por oito, dez cachorros atrás do cio. Aonde o velho ia, os meninos o seguiam.

De repente, o velho encostou-se no umbral da praça e os meninos o cercaram. O velho lançou um grito incompreensível, provavelmente a exigir um mínimo de organização dos meninos. Houve empurra-empurra e xingamentos, até que eles conseguissem formar uma bagunçada fila. O velho abriu a lata e pôs a derramar o pegajoso líquido nas garrafinhas dos meninos. Os primeiros beneficiados corriam, satisfeitos pelo atendido desejo. Em menos de dez minutos, todos os meninos tinham suas garrafinhas de cola devidamente servidas. O velho também preparou a sua e seguiu seu destino pelas ruas. Grupos de meninos saíram em conjunto a vaguear pelas ruas do centro do Recife, satisfeitos por terem encontrado seu papai noel.

Tomei meu ônibus, cheguei em casa. Chester, frutas cristalizadas, boas bebidas, superstições, Roberto Carlos. Assim, o nascimento de Jesus era lembrado na minha casa, na vizinhança e na maioria das casas da cidade. Antes da ceia, uma oração, agradecimentos, pedidos. Mas, o que pouca gente atenta, é que se Jesus estivesse em algum lugar do Recife naquela noite de alienação, provavelmente estivesse erguendo sua pitchulinha para o bom velhinho que aliviara a dor de uma miserável existência, brindando o pegajoso vinho com seus discípulos sem lar na manjedoura pública.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Passeio Noturno

Passava das 23 horas da segunda-feira, quando meu telefone tocou. Estivera inquieto durante todo o dia, trancado em meu apartamento, não suportava mais meus solilóquios, minhas culpas e reclamações à respeito do infortunado presente. Do outro lado da linha, uma voz que mais parecia uma gravação de um disco de vinil antigo, com aquele chuviscado ao fundo, dizia-me em russo uma simples frase: "Ivan Ilitch morrera!" E por mais dois ou três segundos escutava apenas o ruidoso silêncio da suposta gravação. Desliguei o telefone e recorrendo ao número, surpreeendi-me que a ligação não deixara registro algum. Talvez as excessivas preocupações dos últimos meses, acentuadas com o ascesso de uma possível esquizofrenia, estivessem me produzindo alucinações auditivas. Resolvi que abandonaria meu celular em casa e iria flanar um pouco pela noite mal iluminada. Com os moradores a dormir, trancados em casa, no silêncio da caminhada, respiraria um ar puro, distante da impoluta convivência do meu apartamento.

Atravessei todo o bairro do Engenho do Meio numa caminhada solitária, passara pelo convento do Bom Pastor onde uma agradável sinfonia se fazia ouvir, dirigia-me até as imediações da Avenida Caxangá. Nesse ínterim, percebi poucos transeuntes a arriscar um passeio por aquela já distante hora. O comércio fechado. Um bêbado a vaguear ao longe, um segurança apitando sob uma bicicleta. Resolvera voltar. Ao olhar para o céu percebi que nuvens avolumaram-se, enegrecera-se a noite, uma densa enxurrada se anunciava. Tempo estranho. Em setembro, a última tromba d'água antes do longo e cálido verão. Passava pela tubulação da COMPESA quando a forte chuva me alcançou, nem sequer teve a discrição de cair em pausada garoa. Apressei-me em direção ao convento do Bom Pastor onde na ida, escutara ao longe, uma sinfonia irreconhecível. Ao atravessar a praça do convento, podia avistar o arco de entrada. Um arco que se espairava por alguns metros, diferente da visão habitual, esse arco parecia mais um tunel. Ao me aproximar, pude perceber que o som que vinha do convento era a Marcha Eslava de Tchaikovski, em seus primeiros, sombrios e quase silenciosos acordes. À esse momento, minha roupa estava encharcada e fui me proteger na escuridão do estranho tunel da entrada do convento. Ainda mais excêntrico era imaginar que música tão pomposa fosse ouvida num convento àquela hora da noite, beirando a passagem do dia, numa altura imprópria para o ambiente.

Adentrei-me no tunel escuro. Fiquei próximo da saída, onde as luzes dos postes pudessem ilumiar ao menos minhas pernas. A música me entretia e estava até feliz de escutar a reconhecível sinfonia naquela hora inoportuna. Mas, ao retumbar das notas fortes acompanhadas do estrondo provocado pelos tímpanos e címbalos, percebo um vulto a aproximar-se. Um velho com um chapéu de cangaceiro estava prostrado ao meu lado e à medida que se aproxiamva da claridade advinda dos postes, sua imagem ia se clarificando pra mim. Usava uma roupa antiga, era um legítimo cangaceiro, seus olhos eram extremamente vermelhos, seus dentes amarelos. Sua aparição no exato momento em que o tom da música crescia, causou-me um espanto que meus cabelos só não se puseram de todo em pé porque estava todo molhado da chuva. O coração pulsava na garganta. Escutava-se no momento do encontro apenas a retumbante música e a estrondosa chuva. Cautelosamente, dirigi-me ao homem, balbuciando qualquer coisa que pudesse soar amistosa: "Que chuva, hein!?" O homem limitou-se a concordar com um expressivo balançar vertical de cabeça. Continuei: "Por um segundo, cheguei a acreditar que se tratasse de um fantasma, ora essa." O homem com um sotaque do interior, finalmente disse alguma coisa. "Estou procurando uma estrada de terra que vai pra São Paulo, me disseram que posso encontrá-la em Ponte dos Carvalhos." Expliquei-o que estávamos muito longe de Ponte dos Carvalhos, que fosse melhor ele tomar um ônibus em direção ao Cabo de Santo Agostinho, tão breve os ônibus voltassem a circular. O homem mal prestou atenção ao que eu dizia, cortando-me a fala antes que terminasse, disse-me que vinha andando desde o sertão da Paraíba e que sua última parada fôra em Itamaracá. Pôs-se a contar uma história que escutara quando da passagem pelas proximidades da Ilha da pedra que canta.

Tratava-se da morte de um bebê numa vila de pescadores há muito tempo atrás. Um casal de noivos recém-matrimoniados tivera seu primeiro rebento. Um menino gordo, moreno, seria uma dos melhores pescadores que aquela ilha tivera. A mãe, um tanto fragilizada, de compleição enfraquecida, não conseguia dar conta da fome do recém-nascido. O menino passara a sugar o leite com tanta força que o peito da mãe criara um coagulo, um inchaço. Ela revezava os seios, mas não dava conta da vontade do bebê, que se punha a chorar, irritando de sobremaneira o pai. Após algumas semanas, os peitos da mãe se trasformaram em duas bolas inchadas, onde não podia nem apalpar. O menino continuava a gritar de fome. Sem explicação médica convincente, após uma noite de grandioso esforço para amamentar, a mãe da criança aparecera morta. O pai se esforçava em conseguir leite com os outros moradores da vila, mas a única ama de leite, estava com o peito quase seco. O pescador muito abalado pela perda da esposa e sem saber o que fazer com o filho desesperado de fome, tentava alimentá-lo, em vão, com água de coco, mas nada era suficiente. Na outra semana, o menino morrera. O pai, abalado, lançara-se ao mar e nunca mais fôra visto na comunidade, tendo sua embarcação regressado para ilha sem ninguém dentro. Após esse acontecimento, muitos pescadores de Itamaracá e região, dizem que no meio do silêncio do mar, em suas buscadas, escutam no meio do distante vão marítimo, um choro desesperado de criança com fome. Um choro tão atormentador que aposentou velhos barqueiros, que após escutarem o choro da criança nunca mais se arriscaram a enfrentar a vastidão do oceano em busca de alimento.

Eu escutava o relato do homem que falava vagarosamente e ao retumbar dos acordes da marcha que fazia cenário para sua narrativa, designava-me olhares expressivos, arregalados, cheios de sangue que pareciam encandecentes naqueles olhos ferventes. Quando o homem terminou de contar sua história, a chuva parou abruptamente. Não demorei-me e pedi licença ao homem, já me deslocando para fora do túnel. Disse-lhe rapidamente que fizesse uma boa viagem. Não olhei mais para trás até que estivesse distante uns 100 passos do arco do convento. Quando voltei meu olhar para o local onde a cena se desencadeara não havia sinal de qualquer pessoa, olhei para dentro do túnel e não havia vulto. Tomei o caminho errado de casa, aliás tudo parecia estranho, as construções pareciam antigas. Cheguei a uma larga rua onde não havia asfalto. O silêncio só não era absoluto devido às gotas d'água que caíam espassadamente da copa das árvores. Na escuridão da noite, avistei um farol de um caminhão que produzia um barulho excessivo. Um caminhão antigo, azul, com uma lona amarela na caçamba. Dentro, muitas pessoas. Famílias inteiras, víveres, medo e esperança perpetraram meu espírito durante os dez segundos em que avistei o caminhão chegar e passar. No fundo da caçamba, percebi o olhar de uma mulher que parecia minha mãe em seus retratos de juventude. Tentei acenar, mas o caminhão já se ia longe, espalhando lama pela estrada de barro. Entorpecido pela sequência de visões, corri feito um louco, ainda a música de Tchaikovski parecia me alcançar, me perseguir. Dobrei a última esquina do passado e vi-me novamente na rua de casa, defronte ao portão. Aconcheguei-me em casa, arremessei na rua meu disco de Tchaikovski.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Brinquedo

O destino me possibilitou nascer numa família em que nunca me faltou as necessidades básicas e sou muito grato por isso. Quando criança, tive à disposição uma vasta gama de brinquedos e videogames, pude estudar em colégio particular e ter boa alimentação. Por esses dias, estive recordando os brinquedos que fizeram parte da minha infância. Era uma criança que gostava de destruir tudo, não tinha muito zelo. Até hoje, minha mãe diz que gastou tanto pra comprar um carrinho "bate e volta" e no segundo dia, o carro já estava quebrado e desmontado. Antes isso tivesse aguçado em mim a aptidão de ser um engenheiro ou coisa parecida, mas não, não disponho do menor dom de consertar qualquer objeto. Mas, entre todos os presentes que ganhei, houve um que me chamou mais a atenção. Brincava com ele o dia todo, dentro de casa, na rua, levava pra casa dos primos e etc. Tratava-se de um globo terrestre.

Era um globo grande para uma criança de 6 anos, apertava-o contra a barriga e o peito. Era de plástico e podia jogá-lo contra a parede que ele voltava, chutá-lo e tudo mais. Dormia ao lado da minha cama. Minha maior diversão era arrmessá-lo para o alto e onde meu olhar fixasse um ponto, decorava o país e a capital. Aprendia o nome das cidades grandes de cada país. E nessa brincadeira, em pouco tempo, eu já sabia praticamente todas as capitais dos países do mundo. Naquele tempo, década de oitenta, a União Soviética não havia se desintegrado, a África tinha países com nomes diferentes dos atuais, como a Rodésia, por exemplo. Mianmar era Birmânia. Havia duas alemanhas. Mas, aos poucos e sem compromisso, fiquei sabendo quase todas as capitais e onde cada país se localizava, o nome dos lagos, dos mares, das ilhas do pacífico, dos estreitos e terras de príncipes da Antártida. Meus tios chegavam aqui em casa e ficavam me desafiando: Odomirinho, qual a capital da Indonésia? Prontamente, eu respondia: Jacarta, na ilha de Java. Lembro-me do meu tio Edwind, gritando com seu sotaque nicaraguense: Heya! Tem que levar esse menino pro Faustão!

Com o passar dos meses, meus primos vinham aqui pra casa e eu ficava ensinando as capitais do mundo pra eles, aplicava provas e deixava até alguns em recuperação! Tinha uma pequena lousa com giz no meu quarto. Depois de um ano, o globo estourou e como eu já estava ficando maiorzinho, passei a comprar os exemplares do Almanaque Abril. Na casa do meu avô, aqui perto no Engenho do Meio, tinha a coleção completa da Mirador Internacional, onde eu me deitava na sala a observar as fotos e os textos sobre os diferentes países ao redor do mundo. Meu avô era um grande entusiasta e me deixava brincar à vontade, mesmo quando uma tia, por (des)ventura, reclamava: vai sujar esses livros que Toinho deu pra papai!

Ainda nos dias de hoje, recordo-me de muita coisa que aprendi naquela infância, hoje distante. Não posso negar que as diferentes culturas ao redor do mundo me fascinam. Não que seja uma estúpida admiração em contraponto à cultura brasileira, mas me encanta saber que conjuntos de pessoas puderam dar diferentes significados em seu modo de se posicionar perante a natureza. Um dos livros que mais me impressionou nos últimos tempos (acho que já falei dele em algumas postagens anteriores) é o Il Milione de Marco Polo, onde ele faz um riquíssimo relato sobre o mundo oriental no século XIII, os costumes de cada cidade, sua localização geográfica e suas riquezas naturais. Posteriormente, Italo Calvino continuou essa viagem no livro Cidades Invisíveis. E também nós podemos continuar essa travessia, porque o mundo aí está, carente de nosso olhar e respeito. Um certo dia, estive num deserto perto da divisa da Argélia com a Mauritânia, a noite mais estrelada que um citadino jamais vira, não tinha medo de estar perdido, nem mesmo sabia como estivera alí...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Cada um com seu Glamour

Segundo o filósofo alemão Peter Sloterdijk, a palavra Glamour é derivada da palavra inglesa Grammar, ou seja, gramática. Deixemos que ele explique:

1. A expressão para "magia" emerge da palavra "gramática". [glamour, originalmente com o sentido de "encantamento", "feitiço", provém de glammar, variante da dissimiliação de grammar, no sentido de "conhecimento oculto".]

Na Inglaterra medieval, o homem que bem dominasse a leitura e a boa escrita era possuidor de certos encantos e fascínios, sendo portanto, uma pessoa de glamour, de conhecimento desse poder oculto. Nos dias de hoje, aqui no nosso país especialmente, onde a leitura e a escrita, o conhecimento e o encanto, não possuem a galhardia de outrora, a palavra glamour ganhou contornos simplórios e empobrecidos, chegando a se associar a mulheres de pouca, ou quase nenhuma, instrução que são formosas apenas nas angulações e arredondados contornos corporais.

Sobre os Rituais da Morte

Cada sociedade tem sua maneira de encarar a morte, isso todo mundo já sabe. Há algum tempo, tenho tido vontade de escrever algo sobre esse ritual de finalização da vida. Algumas pessoas acreditam que é um momento de passagem para um local que, ao certo, ninguém sabe onde fica nem pra que lado vai. Todavia, a intenção dessa minha vinda ao teclado não se justifica pelas especulações à respeito do sobrenatural, mas do ritual próprio de morrer, ser enterrado, ser velado. Tenho percebido que com o passar dos anos, essa cerimônia, antes custosa e prolongada, tem passado por uma tentativa de refinamento, se não espiritual, ao menos do ponto de vista da praticidade.

Em alguns países da América Central, o defunto é tratado como um noivo. É maquiado, vestido na sua melhor roupa, os melhores amigos se põe a chorar. O embelezamento é tamanho que a foto do moribundo fica estampada na sala. Há locais no Oceano Pacífico em que o corpo é atrelado a uma canoa e viaja incessantemente pela infinita vastidão com os pertences do morto. Outros queimam e guardam as cinzas. Os reis mongóis eram levados para as montanhas do Altai para ficarem próximos dos deuses, e assim, uma vasta possibilidade de destinos é oferecida ao recém falecido em diferentes épocas e sociedades. Hoje, ao caminhar em direção a biblioteca, passei na frente do necrotério do Hospital das Clínicas e percebi dois carros funerários estacionados na entrada. O que me chamou a atenção é que não eram aqueles Opalas e Comodoros pretos de antigamente, ou ainda, a Caravan enegrecida. Ambos os carros eram brancos e de última geração. Eu mesmo, me orgulharia muito de possuir um veículo de tamanha envergadura. Uma coisa é notável, o ritual de morrer está passando por uma transformação, se modernizando.

Quando minha mãe era uma jovem senhora no sertão da Paraíba, ela, juntamente com as tias e outras parentas, iam para o velório e se derramavam em pranto por dias inteiros. O defunto só poderia tomar seu caminho pros sete palmos de terra a que todos temos direito, após todos os parentes e vizinhos terem se certificado de que não faltou derramar mais nenhuma lagrimazinha. Pergunto-vos: uma atitude dessas seria conveniente nos dias de hoje? Claro que não! O que dirão na repartição se me virem chorando feito uma criança a perda de minha mãe ou pai!? É provável que o chefe até me demita alegando que uma pessoa que não tem controle emocional não pode defender o emblema de uma empresa de sucesso. As cerimônias são cada vez menos frequentadas, intimistas e precisam apresentar uma aparência de claridade. Os cemitérios já nem pertencem à essa categoria taxonômica, hoje são jardins, parques, moradas. Morada da Paz, Parque das Flores, Jardins do Éden. E assim, por uma boa quantia, passa-se a impressão que o defunto está transladando para um lugar idealizado pelo fetiche dos vivos. A eternidade é garantida pela presença de cópias de quadros de artistas renascentistas, por uma imitação de pensador de Rodin e coisas do gênero. Há até trilha sonora de Beethoven! Nos Estados Unidos, existe um cemitério chamado Forest Lawn-Glendale, na Califórnia, que segue tanto o estilo relatado acima que muitos casamentos são realizados lá (há quem diga que muitos já nascem mortos).

Para mim, o pior é não saber se essa michael-jacksação da morte, deixando sua enegrecida aparência para assumir um caráter alvo, luminoso, não esconde um desapego ao morto, à sua história, suas lembranças. Durante o velório se discute futebol, toma-se whisky, fala-se da bolsa de valores e mais importante que o sentimento e a gratidão em relação ao falecido é a famosa coroa de flores com frases feitas pela própria funerária. Quando eu morrer, quero uma coroa com a frase de Tom Zé: "Na vida quem perde o telhado em troca recebe as estrelas. Pra rimar até se afogar e de soluço em soluço esperar." Não, não! Muito grande! Ficaria muito caro, talvez. O cara da funerária tem uma mais ajustável aos nossos padrões modernos, quem sabe aquela velha frase: "A morte não é o fim. Te amamos." Também a morte virou um dilema entre tradição e modernidade.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Como Posso Estar Sozinho?!

Meia-noite. Devo dormir? Poderia dizer que estou fatigado, após longa viagem. Há quem não acredite, mas isso não me importa. Uns dirão que é humanamente impossível, outros que estou a galhofar. Mas, se exprimo a verdade de forma consciente, como posso me ocultar a relatá-la? Ah, meus amigos, a vida de viajante é turbulenta, em menos de 24h podemos escapar às crepitantes labaredas do inferno e enfrentarmos uma nevasca desoladora. Como numa agenda, deixem-me relatar o que aconteceu. Juro pelo que de mais sagrado há, que tudo, absolutamente tudo, é verdade, e ocorreu num intervalo de 1 dia:

Estive numa praça em Maceió com Graciliano.
Em Alexandria com Teócrito.
Em Roma com Virgílio.
Estive em Paris com John Cale e em Berlin com Nick Cave.
Visitei a tristeza de Schubert em Vienna.
Estive no Rio de Janeiro com Tom Jobim.
Vi Minsk ser pisoteada por uma garota.
Estive em Norilsk, na Sibéria, durante uma tempestade.

O diabo me apareceu e me propôs um pacto. Como sempre: poder!
Em contra-proposta, Deus me ofereceu a suavidade.
Leve gaivota me conduz pelo mundo: céu sem fronteiras!
Familiar jornada.
Barroco desejo de estar em todo lugar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Yelena Sagarova

Um certo dia, eu conheci uma mulher russa, chamava-se Yelena Sagarova. Era um mulher cinza. Uma prataria esquecida no porão. Isso foi pelos anos de 2002, se não me engano. Mas, antes de chegar na história dessa mulher, carece que outros personagens adentrem na história. Era aluno do terceiro, talvez quarto período de História da UFPE. No intervalo das aulas, os alunos versavam sobre os mais variados temas, desde o tradicional futebol, passando pelas discussões sobre a utilização do marxismo, uns falam mal, outros fazem a defesa de tal professor. Entre tantos colóquios, recordo-me de dois colegas de sala, Flávio e Felipe, que discutiam calorosamente sobre a obra de um tal russo, Dostoievski. Estava num dia de mau humor, não queria ficar conversando no corredor, baixei a cabeça e prestei atenção na conversação. No dia seguinte, na aula de espanhol, uma garota da qual, silenciosamente, me afeiçoava, falou que entre os próximos livros que gostaria de ler, estava o do citado escritor russo. Para ter assunto para conversar com a distinta e jovem dama, corri na biblioteca e peguei o romance autobiográfico, O Jogador, além de um segundo romance chamado Humilhados e Ofendidos.

Comecei a ler com voracidade, sem me ater aos detalhes, queria terminar para poder falar sobre a idéia central, começar o segundo e ter ainda mais assunto para minha sonhada palestra com a estudante de espanhol. O livro O Jogador não deixara uma boa impressão em meu espírito. Pelo que ouvia falar de Dostoiévski, achava que em suas páginas haverias coisas muito mais surpreendentes que um simples relato de um viciado na roleta. Então, em nome à afeição que, calado, dedicava a estudante de espanhol, resolvi ler os Humilhados e Ofendidos. Nesse livro, Dostoievski me fisgou. A morte do cachorro Azorka despertou tamanha comoção em mim que ainda agora, ao escrever, posso reviver a torturante leitura feita dentro do ônibus de Engenho do Meio no horário das 13:00h.

Até então, as leituras eram feitas por prazer, sem uma análise mais aprofundada, sem buscar relações e significados com outros textos. Mas, aquele exótico mundo passava a fazer parte do meu cotidiano: ispravnnik, staretz, samovar, pomechtchik. Um outro amigo, Zé Mário, também me servia de espelho. Seus avanços na língua alemã tornavam possível que ele lesse Göethe e Nietzsche no original. Aquilo muito me impressionava. Não sei se por um pouco de excentricidade ou dedicação à obra de Dostoievski, resolvi que procuraria um professor de russo na cidade, e, mesmo que fosse caro o orçamento das aulas, faria todo esforço para aprender. O problema que em lugar algum era possível. Não havia curso de russo, escola de russo, nem professor particular. Minha empolgação inicial teve que ser freada. Passei alguns meses, talvez tenha completado um ano, e nada acontecia. Até que uma noite, assistindo uma matéria no NETV sobre as presas de outros países que se encontravam na colônia penal feminina do Bom Pastor, percebi uma mulher russa, falando um bom português, ela falava das dificuldades de adaptação e tal. Pensei comigo, vou ter aulas de russo com essa presidiária! Ela estará prestando um serviço comunitário, ocupando sua mente e o governo vai até louvar-me pela idéia. Já pensaram, as encarceiradas estrangeiras ensinando línguas para a comunidade carente?

Noi outro dia, estava na porta do Bom Pastor, dizendo-me estudante e pesquisador de história da Rússia e que gostaria de entrevistar a presa, saber como ela avaliava a transição do socialismo pro capitalismo. A assistente social ouviu-me com desdém, mas disse que se eu levasse um documento assinado pelo secretário do meu curso, eu poderia fazer a entrevista. Corri na sala do Professor Luciano Cerqueira e dois dias depois, estava na colônia penal de novo, dessa vez com a papelada. Mas, não foi possível. Estavam fazendo "pente-fino" nas celas e ninguém podia receber visitas. Me mandaram no outro dia útil, que seria na segunda-feira. Apenas neste dia pude conhecer a russa que deu entrevista na TV.

Ela era muito tímida, a roupa do presídio, suja, tornavam-na cinza, como já disse antes. O azul dos seus olhos era nublado também. Me respondeu muito educadamente. Pra não contrariar a Assistente Social que estava ao meu lado, fiz as perguntas sobre a transição do socialismo para o capitalismo. Ela me respondia que as coisas pouco tinham mudado e que o país continuava pobre. Pedi que me falasse sobre a Rússia, as regiões que ela conhecia. Então, ela me contou que tinha nascido numa cidade da Sibéria, mas que desde a morte do pai quando ela tinha 12 anos, foi morar com a mãe na cidade de Odessa, Ucrânia. Continuamos a falar sobre a Rússia, até que meus 40 minutos concedidos, tinham terminado. Pedi à assistente social que deixasse-a lecionar russo para mim. Ela disse que eu poderia visitar, mas as aulas não poderiam ser formais: com quadro, horário definido e etc. Além do mais, ela já estava há 2 anos e 8 meses presa e seria expulsa do país dentro de mais 3 meses.

Na segunda entrevista, a assistente social deixou-nos mais livre e podemos conversar sobre temas mais variados. Tomei a liberdade de perguntar o motivo de sua prisão. Então, Yelena começou a me contar sua história desde a infância. Ela tinha engravidado aos 15 anos e, então, com 24 anos, ela tinha três filhas. Quando ele me disse sua idade me assustei. Aquele rosto de 24 anos carregava sofrimentos e amarguras que estavam estampados no luto que carregava consigo. Parecia ser mais velha. Perguntei como tinha sido presa. Ela contou-me que receberia uma boa grana para fazer um traslado entre o Rio de Janeiro e Lisboa, carregando uma boa quantidade de coca, que chegava da Bolivia e que através de Portugal se espalhava pela Europa. Ela fazia o papel de mula. Passaria pelos aeroportos do Rio e Recife, e em Lisboa estaria livre e com a recompensa. Tudo certo no aeroporto do Rio, mas no de Recife... E se passaram 2 anos e 8 meses. Com raras notícias das filhas, a caçula tinha sido deixada com menos de 1 ano. Convivendo com a falta de privacidade. Dostoiévski, inclusive, reclamava que a pior coisa de se estar preso é a falta de privacidade, em momento algum do dia você está sozinho. Um tormento contínuo. Perguntei a Yelena se ela tinha vontade de voltar ao Brasil, pois o país é bonito em riquezas naturais e, infelizmente, ela só conhecia um triste pedaço de chão. Ela disse que não, muito abatida. Pela janela, pelo pátio, podia ver as árvores frondosas, o clima quente, a brisa suave, o grito das crianças, a vida que segue. Mas, que fôra reservado para ela, apenas o confinamento e que as lembranças que guardaria do Brasil, seriam dos tempos de privação. Da saudade das três filhas que cresciam distante da Mama, de andar em liberdade pela rua, das montanhas distantes e do Mar Negro. Perguntei o que iria fazer quando voltasse pra Ucrânia e ela disse que iria costurar junto com a mãe, pois com as freiras do convento que fica vizinho à colônia penal, ela tinha aprendido a costurar diversos tipos de modelos, que se não fossem da moda comercial, poderiam servir para forrar mesas e camas.

Depois de quatro entrevistas, onde ela me ensinou algumas palavras e um pouco do alfabeto, fui barrado de entrar nas outras cinco vezes que tentei fazer contato. Desisti. Meses depois, arranjei uma professora particular, a competentíssima Larisa Shevtchenko, com quem estudei por quatro anos e desejo regressar, tão breve seja possível pagar as aulas. Yelena Sagarova voltou para a Rússia, ficou a lembrança de sua palidez e do seu testemunho de vida. Quando contava sua história, muitas pessoas diziam que ela poderia estar mentindo para aliviar a pena, ou coisa parecida. Mas, sei que não. Ela carregava uma dor de mãe consigo, um arrependimento sem igual, uma força que nos faz lembrar certos personagens da literatura russa, cujas intempéries da vida só fortalecem sua personalidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Carta de Amor

Desejei ser Inverno
para em tua solidão, delirar febril.
Ser silêncio,
ilimitado abrigo.
Inadiáveis cataclismas.
Cosmos aprisionado
numa moldura de ferro.
Poros,
tangível morada.
Remorso não ter vivido,
sonhar.
Afetividade sem dimensão no vazio.