segunda-feira, 31 de maio de 2010

Солярис - Tarkovski




Na biblioteca da Estação Solaris, que orbita no homônimo oceano espacial, estão reunidos os cientistas Snaut, Sartorius e Kris Kevin, além da “visitante” Hary. Segue-se o diálogo com a entrada de Snaut na biblioteca:

Snaut: Já estão todos aqui?

Sartorius: Chegou uma hora e meia atrasado.

Snaut: O que está lendo? (para Kevin) Nada disso presta. Nada. E o... onde está? Eis isto aqui. Só vem à noite, mas precisamos de dormir. Esse é o problema: o homem perdeu a capacidade de dormir! Lê, estou um pouco excitado.

Kevin: “Só sei uma coisa, senhor. Quando estou a dormir, desconheço o medo, as esperanças, os trabalhos e a beatitude. Agradeço a quem inventou o sono, esta única balança que iguala um pastor a um rei, um imbecil a um sábio. Mas também tem o seu lado negativo: parece-se muito com a morte.”

Snaut completando a citação: “Nunca antes, Sancho, se pronunciou discurso tão gracioso.”

Sartorius: Muito bem. Deixam-me falar ou não? Bebamos ao corajoso Snaut, pela sua fidelidade ao dever. À ciência e ao Snaut!

Snaut: À ciência? Tolice! Na nossa situação, o gênio e a mediocridade seriam por igual impotentes. Dizemos que pretendemos conquistar o Cosmos. Na realidade, só queremos aproximar a Terra das fronteiras dele. Não nos importam outros mundos. Não precisamos de outros mundos. Queremos é um espelho. Procuramos um contato, mas nunca o encontraremos. Estamos na situação idiota de quem aspira um objetivo, que se esforça por uma meta que teme, e que não necessita. O homem precisa do homem! Bebamos ao Guibarian. À sua memória! Apesar de ter perdido o ânimo.

Kevin: Não, Guibarian não perdeu o ânimo. Há coisas piores ainda. Morreu porque não via a saída. Não sabia que isto não acontecia apenas a ele...

Sartorius: Meu Deus! Estas dilacerantes variações dostoievskianas são um absurdo! Não estará a exagerar? Eu sei porque estou nesse lugar: para trabalhar. O homem foi criado pela Natureza para a conhecer... O homem está cada vez mais perto da verdade. Está condenado a conhecê-la. Todo o resto é extravagância. Posso fazer uma pergunta? Por que veio a Solaris?

Kevin: Não entendi.

Sartorius: Bem, está a trabalhar muito? Nada vê além da sua ex-mulher. Nada mais parece importar-lhe. Passam dias deitadinhos na cama. É assim que pensa cumprir o seu dever? Tenho perdido o senso da realidade. Perdeu a noção da realidade. É um preguiçoso, nada mais.

Snaut: Basta! Estamos bebendo pelo Guibarian.

Sartorius: Não, ao Homem.

Kevin: Acha que o Guibarian não era Homem?

Snaut: Basta, Kris! Deixemos as discussões. É o meu aniversário, afinal de contas.

Hary: Pois é. O Kris parece mais conseqüente do que vocês dois. Continua a ser humano, apesar dessas condições desumanas. E vocês limitam-se a fazer de conta de que nada têm a ver com isto. Para vocês, as “visitas” são uma coisa estranha, irritante. Mas, as “visitas” são vocês próprios, são a vossa consciência. O Kris me ama. Aliás, é possível que não me ame, que apenas se queria defender de si próprio. Que queira que eu, viva, substitua... o problema não é esse. As razões que levam o homem a amar não interessam. É diferente para cada um. O Kris nada tem a ver com isso. Vocês são... odeio-vos!

Sartorius: Queria pedir-lhe...

Hary: Não me interrompa! Sou mulher, apesar de tudo!

Sartorius: Não é mulher, nem humana. Tente compreender, se é capaz de compreender seja o que for. Hary não existe! Morreu! E você não passa de uma simples réplica dela. Uma repetição mecânica! Uma cópia! Uma imitação!

Hary, chorando: Sim. Talvez. Mas eu... estou me tornando humana! Não sinto menos do que vocês. Acreditem. Já posso viver sem ele. Eu... estou a amar. Sou humana! Vocês... são muito cruéis.

3 comentários:

Dodô disse...

Descobri Tarkovsky esse ano e tem sido um imenso prazer assistir seus inquietantes filmes. Essa semana assisti um dos melhores, talvez o melhor, filme sobre a Idade Média, Andrei Rublev, quase quatro horas de realismo fantástico cinematográfico. Sim, eu gosto do realismo, apesar do desuso atual. Sugiro que assistam Solaris de Tarkovsky. Ele antecipa discussões da relação entre o homem e suas criações, tão próximas de se tornarem realidade. Os marailhosos Blade Runner e Inteligência Artificial retomar o tema de Solaris. Quem quiser baixar o filme, eis o link:

http://setimoprojetor.blogspot.com/2009/08/solaris-andrei-tarkovski-1972.html

Copiem o enderelo acima e colem no navegador. Depois, me contem a experiência de vocês. Saudações a todos os "visitantes"!

Camila S. disse...

Tarkovsky com certeza é um dos grandes do cinema. Só assisti a dois filmes dele, O Espelho e O Sacrifício, mas pretendo acompanhar o restante da filmografia, especialmente Stalker e, agora, esse Solaris. Realismo pra lá de fantástico, superb!

Anônimo disse...

vi solaris semana passada e fiquei muito impressionada. quero ver todos desse mestre!
Lícia J.