quinta-feira, 3 de junho de 2010

Musgo

No ano passado, para a vergonha do avô com quem morava, além do irmão, Alceu, Maria Aparecida fora mãe solteira. Dera a luz a uma menina, Nina, uma criança esperta de um ano e oito meses. O avô, um homem de mais de oitenta anos que se locomovia tão vagarosamente quanto uma tartaruga velha devido à artrose, cansava de aconselhar a neta para que não engravidasse muito jovem, de um pai qualquer, assim como sua mãe, Antônia, que falecera havia quatro anos por conta de uma infecção hospitalar no Hospital Getúlio Vargas. O velho usava seu próprio exemplo, tinha sido pai já com mais de trinta anos: “Tenham paciência, arranjem um emprego antes de ter menino.” Mas, Cida não ouvia seus conselhos e foi mãe com um pai qualquer. O velho passara algumas semanas sem falar com Cida durante a gravidez, mas à medida que a barriga crescia, seu coração amolecia. Coisas de gente velha, que não tem tempo pra guardar rancor. O velho, os dois netos e uma criança.

Eles moravam no Beco da Periquita, um logradouro no bairro da Várzea, constituído de pequenas casas dispostas muito próximas umas das outras. Uma rua estreita onde só passa moto e bicicleta. Na verdade, a “rua” é formada por placas velhas de concreto, onde segue, por baixo, um canal com água de esgoto, adicionados ao curso de um antigo riacho. Uma água meio verde, lodosa, pegajosa, que de vez em quando desfere um cheiro fétido para as residências. Como as placas são muito antigas, entre as rachaduras e falhas no concreto, os moradores observam aquele movimento quase silencioso das águas lodosas carregando lentamente o lixo das casas, algum pequeno animal morto ou a espuma branca dos shampoos e dos detergentes que saem das casas.

Apesar das dificuldades de se viver nesse ambiente, estava sendo um dia animado no Beco da Periquita. Nos últimos dias, tinha chovido bastante, até o riacho tinha ficado mais barulhento. Porém hoje, o sol deu o ar da graça. As crianças corriam de um lado de um pro outro, umas, à pé, outras, de bicicleta. Na frente das casas, senhoras corpulentas conversam sobre os mais variados assuntos, desde o aumento do preço do pão às fofocas e rixas entre vizinhos que vivem tão perto, dividindo suas realidades. No dia que Cida ficou grávida, a discussão com seu avô e seu irmão foi tão acalorada que todo o Beco descobriu que a moça estava barriguda. No dia seguinte pela manhã, enquanto ia comprar o pão, uma vizinha mais assanhada perguntou com uma risadinha cínica: “E aí, Cida, qual vai ser o nome do bebê?”

Cida trabalha de manicure e pedicure. Atende na residência dos clientes. Fica sonhando em abrir um salão na Avenida Polidoro. Já até conversou com sua amiga, Shallyene, que é cabeleireira, pra montarem um negócio e garantirem seu sustento. Mas, é preciso dinheiro pra começar e ela não consegue nem juntar com tanta despesa que tem com a criança. Seu irmão, Alceu, conseguiu convencer a tartaruga velha a tirar 79 reais da sua aposentadoria de 515 reais, para pagar uma moto num consórcio. Nesse último mês, a moto de Alceu saíra. Dizia para o avô que quando tivesse uma moto arranjaria um emprego mais facilmente. Agora, ele passa o dia na entrada do Beco, mostrando sua moto para as mocinhas que pedem para dar uma voltinha. De emprego, até agora, só apareceu uma proposta: seu melhor amigo, Fábio, convidou-o para fazer um assalto numa farmácia lá no Engenho do Meio. Uma parada rápida, não tem nem segurança, nem câmera. Alceu pensou nisso todos os dias, mas não teve coragem. Fábio acabou arranjando outro comparsa.

Às nove horas, Cida saiu para fazer as unhas de uma cliente em Camaragibe e deixara a criança sob os cuidados de Alceu e do avô. O rapaz pegou sua moto e foi brincar com a menina na garupa. Ele sabia que a sobrinha fazia sucesso com as garotas que passavam. Vrum! Vrum! E Nina desatava a rir! “Axeu, Axeu, vrum, vrum!” O velho saiu de casa com muito esforço pra ajudar Alceu a observar a menina. Estava olhando-a de longe, na porta de casa. “Bijô, Bijô!” A menina desceu da moto e partiu em direção ao “bijô”. Nina correu a todo vapor, trôpega, cambaiando no Beco. A casa ficava do lado direito do Beco e a menina, como um carro dasalinhado, quanto mais queria ir para a direita, mais se movia para a esquerda. Em seu olhar, via a imagem do bisavô, tremendo em sua saltitância. O que era o chão para Nina?

No concreto rachado, o espaço moldurado para o seu corpo. Alceu corre em direção ao buraco e abandona a moto no chão. A tartaruga velha se comprime dentro do casco, sem forças. O rapaz enfia a mão na água lodosa, tenta tatear o corpo macio, a água verde e cheia de musgo e fedor não o incomoda. Está atarantado. A gritaria toma conta do Beco. Traz uma marreta, Luiz, rápido! O rapaz tenta colocar as pernas dentro do buraco, procura aquele corpinho macio de criança e só encontra o líquido pegajoso. Levanta-se desesperado e tenta achar novas frestas na calçada. Em vão tenta arrancar com as mãos a placa de concreto. O homem da marreta chega.

Enquanto isso, Cida estava voltando pra casa. Mentira que iria atender uma cliente em Camaragibe, tinha ido ao Hospital Barão de Lucena. No ônibus pensava como iria dizer ao avô que estava grávida de novo de outro filho sem pai.

3 comentários:

Lua disse...

Fatídico como a realidade de tantas Ninas que só vêm se afogar depois de tanto tropeçar.

Camila S. disse...

Realidade aumentada por frestas lodosas.

Luciana Amâncio disse...

Pô, Dodô. Sem fôlego...