segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Carta de Amor
para em tua solidão, delirar febril.
Ser silêncio,
ilimitado abrigo.
Inadiáveis cataclismas.
Cosmos aprisionado
numa moldura de ferro.
Poros,
tangível morada.
Remorso não ter vivido,
sonhar.
Afetividade sem dimensão no vazio.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
O Sonhador
O homem se encontra na esquina da Conde da Boa Vista quando na prateleira do jornaleiro observa uma frase em letras garrafais: Concurso Para Professor do Estado. O nosso sonhador há muito tempo ambicionava uma vida distante dessa correria sem sentido, dos entroncamentos, dos compromissos inadiáveis. Imediatamente comprou o jornal e folheou-o na parada de ônibus. Viu que estavam precisando de professor de História na cidade de Buíque. Instantaneamente, remeteu sua imaginação para as fazendas que compõem a paisagem daquela cidade. Lembrou-se que trabalhou numa escavação arqueológica anos atrás e de outra viagem que fizera onde conhecera gente simples disposta a vender uns poucos hectares de boa terra por um preço bastante barato. Seria o momento ideal para aplicar suas poucas economias e se mudar para um lugar onde o sonho e o pensamento não fossem dicotomias inextricáveis.
domingo, 23 de agosto de 2009
A Meiga
"Inércia! Ó natureza! Os homens, na terra, estão sós - eis a desgraça! 'Há um homem que viva nessa planície?', grita o guerreiro russo das nossas lendas. Eu também grito, e não sou um guerreiro, e ninguém responde. Dizem que o sol faz viver o universo. Que o sol desponte e - olhem para ele, não é um cadáver? Tudo está morto - há cadáveres por toda parte. Nada senão homens e à volta deles o silêncio - eis o que é a terra! 'Homens, amai-vos uns aos outros' - quem disse isso? De quem é esse testamento? O relógio de pêndulo está batendo, insensível, hostil. São duas horas da madrugada. Os sapatinhos dela estão perto da sua cama, como se a esperassem... Digam, sinceramente, quando forem levá-la amanhã, o que vai ser de mim?"
Assim termina o último parágrafo de A Meiga, conto de Dostoievski. Tantos anos se passaram, guerras, tecnologia, feminismo... e eu repito a pergunta proferida pelo nosso mestre russo: Há um homem que viva nessa planície?
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
A Maternidade
Era um dia cinzento, por todo o lado havia barro nas ruas, moradores zonzando pelas avenidas. Na subida do Alto do Refúgio, uma contenção antiga da Prefeitura havia se rompido, obrigando todos os automóveis e moradores a se espremerem em apenas uma faixa. A chuva continuava, persistente, torrencial. As janelas fechadas deixavam o vidro embassado e o clima pesado. Não sabíamos ao certo onde ficava essa "maternidade". Perguntamos e chegamos numa avenida movimentada, cujo nome não me recordo, às margens do transbordante, raivoso e barulhento, Rio Morno. Esse rio, nasce como um pequeno córrego, vindo das matas de Sítio dos Macacos, passa quase imperceptível pelo bairro da Guabiraba e, ao que ouvi falar, vai se juntar ao Rio Beberibe. Mas, quando o inverno é forte e chove em abundância por vários dias, esse tímido rio assume uma raivosa aparência. Expulsa de suas veias o lixo jogado pelos moradores, seu refluxo faz transbordar toda a merda social de volta num ato de vingança contínuo.
Chegamos na maternidade. O ambiente desolador. Quantas famílias viviam alí? De quê viviam? Na minha prancheta, deveria tomar todas as informações e dar um encaminhamento para os superiores da Prefeitura decidirem o que fazer. Essas amarrações da burocracia me fazem lembrar o Castelo de Kafka, onde o agrimensor não consegue chegar aos superiores. Pois bem, eu era a ramificação menor do Programa. Relatava como os moradores estavam vivendo e minha papelada ia para um superior, para depois passar a outro superior que decidiria o que fazer com os moradores após consultar o outro superior... imaginem como as relações de poder não se constituem em ambientes como esse?! O que eu poderia colocar nas cinco linhas em que o cadastro pedia que eu relatasse a situação dos moradores que viviam naquela maternidade abandonada? Não me recordo o que escrevi nas cinco linhas, mas algo como: "Retirar esses moradores o mais rápido possível para algum abrigo." Vou explicar melhor o que encontrei.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Virada Russa



Clint Mansell - The Fountain

Não sei dizer qual a relação que Clint Mansell tem com o Kronos Quartet, se ele é compositor, regente do grupo, não sei. Bem, que ele é compositor isto é claro, esse disco que vos deixarei é um exemplo. Pesado, meus amigos. Advirto logo. Talvez não faça bem aos primaveris sentimentos. Deixo para os lúgubres momentos, para a solidão da escuridão, da carência da regressão fetal, da inércia. Letárgico. Assim me parece esse disco que, paradoxalmente, chama-se A Fonte. É a trilha sonora do filme A Fonte da Vida que a despeito de alguns clichês bem batidos do cinema, é uma boa película. Clint Mansell, ao que me consta, é autor de várias trilhas sonoras, de filmes bem pesados como Requiem Para um Sonho. Esse fim de semana que passou convivi bastante com esse álbum e com a poesia de Alphonsus de Guimaraens, que ora inocente, ao menos é corajosa em afirmar sua obscuridade. Cá estou, perpetrando-me neste inverno do tempo com toda a força, nem um pouco me esforçarei para sair dele, toda a alegria será fingida e mal articulada, uma máscara rotunda de sociabilidade.
Clint Mansell - The Fountain: http://www.mediafire.com/download.php?yxzdecexjzt
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
O Equilibrista - Man on Wire

Os depoimentos das pessoas que estavam ao seu lado durante a empreitada chamaram-me mais a atenção do que os próprios discursos de Phillipe Petit. Ora, tantos anos após o ocorrido ele tem um arsenal de opiniões a dar que o tornariam grandiloquente. Após o reconhecimento mundial de sua corajosa travessia, sentimos um distanciamento das pessoas que o fizeram chegar até o topo do mundo, como ele mesmo cita. Seu melhor amigo aparece chorando duas vezes no depoimento sem dizer ao certo o que o distanciou do equilibrista. A ex-namorada, reconhecendo o amor e as coisas boas que viveram, ama-o com uma espécie de perdão pelo abandono que surgiu após o evento. Após atingir o lauréu da fama internacional, o equilibrista parece se afastar dos que caminharam ao seu lado. Não que isso diminua sua façanha ou que as pessoas tenham ficado menos interessantes ou sei lá qual outra explicação poderia se dar. Na verdade, o que me chamou a atenção em sua personalidade foi exatamente essa sutileza de caráter, esse desapego pode ser a explicação para sua imensa capacidade de realizar tal empreitada.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Inverno
Sofrerá as arranhuras do tempo e da ambiência.