sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O Sonhador

Existe pior malogro para um sonhador do que residir numa cidade grande? Quem nos obrigou a aceitar as leis sociais? Não, não, não! Não quero cair nos mesmos estereótipos! Como é difícil clarificar uma imagem! Imagine um homem que no cair da tarde caminha desolado pelas ruas do centro. Aquele centro do Recife que a qualquer dia da semana, no crepúsculo, oferece o mesmo decadente semblante. A música alta e de péssima qualidade, os prédios sujos, a rua que fede, os pedintes se arrastando com suas sacolas de estopa, um homem vestido decentemente caído no chão. O que terá acontecido com esse homem, pensa o sonhador? Teria a mulher o abandonado? O patrão o demitiu a agora não poderá dar de comer aos 3, 4 filhos? Está vestido com uma calça bege, camisa de botão. O nosso personagem parou em frente ao homem que balbuciava palavras incompreensíveis com os olhos fechados. Enconstado no gradil do Parque 13 de maio. A cidade é uma alucinação coletiva. Imaginem se cada homem fosse dar vazão aos seus sentimentos mais indignados no coração de uma cidade?! Ela se auto-destruiria em poucos minutos, talvez. O que mantém este corpus a funcionar é a dosagem diária de morphina que, sem que saibamos, está em nossa comida, na água mineral e no ar poluído dos canos de escape. Só pode ser isso, pensa o sonhador. Esse homem difícil de definir.

O homem se encontra na esquina da Conde da Boa Vista quando na prateleira do jornaleiro observa uma frase em letras garrafais: Concurso Para Professor do Estado. O nosso sonhador há muito tempo ambicionava uma vida distante dessa correria sem sentido, dos entroncamentos, dos compromissos inadiáveis. Imediatamente comprou o jornal e folheou-o na parada de ônibus. Viu que estavam precisando de professor de História na cidade de Buíque. Instantaneamente, remeteu sua imaginação para as fazendas que compõem a paisagem daquela cidade. Lembrou-se que trabalhou numa escavação arqueológica anos atrás e de outra viagem que fizera onde conhecera gente simples disposta a vender uns poucos hectares de boa terra por um preço bastante barato. Seria o momento ideal para aplicar suas poucas economias e se mudar para um lugar onde o sonho e o pensamento não fossem dicotomias inextricáveis.

O homem imaginou uma casa simples, com um bom telhado e uma pequena varanda onde no fim da tarde pudesse brincar com os cachorros, colocar a radiola com as caixas de som para fora e ouvir uma boa música sem ser incomodado por ninguém e, talvez, o melhor, não incomodar ninguém. Em seu apartamento no Recife, não podia ouvir seus estranhos discos em alto volume que logo apareceria alguém inventando que uma velhinha estava doente sem conseguir dormir. Ao redor de sua casa, teria um pequeno pomar, nada muito trabalhoso, pois o homem em questão era citadino e não cultivava o dom da agricultura. Tudo haveria de ser para o prazer e a satisfação. Além do mais, enquanto professor, receberia o pouco dinheiro necessário para a vida básica num lugar que não tem shopping center pra lhe sugar as poucas economias. Um poço artesanal garantiria a água durante todo o ano. Um corcel 75, com um toca-fitas antigo a tocar lo mejor de Benvenido Granda, seria sua distração nos dias em que precisasse se locomover até a cidade para lecionar. Ao cair da noite, os livros o fariam companhia. Na tranquilidade e no silêncio da madrugada poderia escrever as histórias que traz guardadas dentro de si: uma epopéia que se passa no Sri Lanka e a saga dos Herdeiros de Lampião. Quem sabe, após algum tempo, também o amor o agraciasse, naqueles distantes vales impenetráveis, longe da discórdia, da efemeridade e da descartabilidade das relações citadinas, encontre uma companheira que compreenda seu turbulento espírito. Os filhos poderiam estudar em Arcoverde e o pai haveria de os guiar através dos bons caminhos da leitura...

E assim, Maomé visitou os jardins de Alá ao mesmo tempo que uma garrafa se esvaziava. De repente, enquanto o homem estava fitando compenetrado através de uma janela que ficava na outra margem da Avenida Conde da Boa Vista: uma luz amarela, cortinas com desenhos de flores vermelhas, uma vaso sem esplendor; uma mulher muito magra e suja pede que a arranje qualquer moeda, pois disse que tinha cinco filhos para dar de comer. Mecanicamente, puxou qualquer trocado. O sonho se desfez, a natureza em seu aspecto virginal deu lugar às velhas maledicências dos transeuntes, o apitar nervoso dos táxis e todo o desolador cenário narrado anteriormente. A construção se desfez. Voltara ao ambiente onde a censura dos homens coibia qualquer abstração. O homem pôs-se de pé e passou a aguardar o ônibus que o levaria ao subúrbio, talvez já tivesse perdido um enquanto estava absorto em seus devaneios. Recolheu-se a razão e novamente separou as estradas do sonho e do pensamento, que, na cidade, conduzem a caminhos opostos.

3 comentários:

Caio lima disse...

o dia acorda cinza e as nuvens despencam em gotas pesadas... Im Pares,
os homens venderam os seus sonhos e à noite definham, encolhidos, no único lençol branco e o dia acorda cinza e as nuvens despencam em gotas pesadas.

Manuela disse...

É um imenso prazer ler-te sempre...

Anísio disse...

Que delírio
Em sonho
Que sonho
Em delírio
Que lindo heim?