quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Equilibrista - Man on Wire


Acabo de chegar do cinema da FUNDAJ no Derby onde fui assistir o documentário sobre a "peripécia" de Phillipe Petit, um equilibrista que sem amarras que o garantisse qualquer segurança, atravessou o vão abismático entre as torres gêmeas do mitológico World Trade Center. O filme nos deixa sensível, estupefato, atônito mesmo. Colocar-se diante da morte é um coisa natural em todas as sociedades. O suicídio sempre existiu, mas o que chama atenção no caso do equilibrista francês é que não há um ato de desespero, enfrentamento, revolta, suicídio. Ele o faz com leveza, há uma amenidade em seu espírito que o torna estranhamente vago.

Os depoimentos das pessoas que estavam ao seu lado durante a empreitada chamaram-me mais a atenção do que os próprios discursos de Phillipe Petit. Ora, tantos anos após o ocorrido ele tem um arsenal de opiniões a dar que o tornariam grandiloquente. Após o reconhecimento mundial de sua corajosa travessia, sentimos um distanciamento das pessoas que o fizeram chegar até o topo do mundo, como ele mesmo cita. Seu melhor amigo aparece chorando duas vezes no depoimento sem dizer ao certo o que o distanciou do equilibrista. A ex-namorada, reconhecendo o amor e as coisas boas que viveram, ama-o com uma espécie de perdão pelo abandono que surgiu após o evento. Após atingir o lauréu da fama internacional, o equilibrista parece se afastar dos que caminharam ao seu lado. Não que isso diminua sua façanha ou que as pessoas tenham ficado menos interessantes ou sei lá qual outra explicação poderia se dar. Na verdade, o que me chamou a atenção em sua personalidade foi exatamente essa sutileza de caráter, esse desapego pode ser a explicação para sua imensa capacidade de realizar tal empreitada.


Em linhas gerais, queria apenas dizer o óbvio: que aquele grande homem tem pouco ou quase nenhum juízo. Talvez suas opiniões sejam fruto de comentários de admiradores e que toda sua teatralidade seja até forçada na velhice. Quando ele se diverte na corda pendurado há uma distância esfacelante, sorri e brinca, é o retrato de maravilhoso inconsequente que pouca consciência tem dos riscos e zomba na cara da morte e do perigo. Se não fosse sua leveza de espírito, talvez nada daquilo fosse possível. Seu ato foi maravilhoso, inconteste. Uma imagem para a eternidade. Até o destino lhe agraceou com a tragédia ocorrida nas mesmas torres em 2001, que torna a nostalgia do cenário tão grandiosas quanto a coragem do equilibrista. Aos homens de excesso de juízo: o peso da inércia, das distantes manipulações. Assim como o equilibrista me passou uma imagem de leviandade, é essa mesma leveza que o faz flutuar naquela corda, o torna excepcional, um legítimo ícaro de nossos tempos. Para determinadas ações que exigem mais atitude do que raciocínio, o melhor é estar distante dos excessivos pensamentos, do fardo do questionamento, do ônus da dúvida. Como um brincante, um bobo inconsequente, nos deslumbrou o equilibrista. Talvez eu esteja errado, mas com a imagem do filme tão viva e recente em minha cabeça, foi o efeito que me deixou na mente o equilibrista Phillipe Petit.

6 comentários:

Dodô disse...

Gostaria de saber a opinião de outras pessoas que assistiram. Deixo claro que achei o filme muito bom e o ato do equilibrista é de uma coragem desmedida, apenas quis relatar essa vagueza infantil em suas atitudes sem a qual seria impossível enfrentar o abismo derradeiro, a morte!

Luciana Cavalcanti disse...

Pasmada, Dodô... Teu texto tá do caralho... cresceu minha vontade de ver esta pôrra deste filme...! rsrsrsrs

Jefferson Góes disse...

Phillipe Petit é Céu Sem Fronteiras...

Dodô disse...

Justamente, Jeferson!

Jefferson Góes disse...

Dodô, a figura do Phillipe Petit me intriga bastante. Fiquei tão intrigado que não consegui formular uma ideia mais ou menos estável sobre o sentido das ações deste equilibrista francês. O máximo que eu havia dito até agora sobre o feito de Petit foram alguns adjetivos e interjeições balbuciantes. Seu texto vai mais longe e, ao traçar uma interpretação psicologizante da figura do funâmbulo, torna-se digno de ponderação; ao mesmo tempo ele - na verdade tuzinho da silva - destaca a existência de um vínculo entre o grande Petit e uma figura mítica. Talvez seja essa conexão que tanto nos facina, afinal quem nunca sonhou caminhar nas nuvens e desafiar a morte com aquele sorriso nos dentes, com aquela desagonia?

Jefferson Góes disse...

Jesus caminhava sobre a água e Petit se equilibrava sobre a linha do horizonte. Petit me impressionou muito mais!