quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Os Herdeiros de Lampião


Jornais e periódicos representam a circulação da verdade numa metrópole. Eles difundem os acontecimentos banais, os programas de governo, as ações policiais e os mais variados temas da sociedade, desde os buxixos da high society até as empresas armistícias das superpotências internacionais. Mas, nos últimos dias, surpreendeu-me a ausência de uma notícia nos grandes jornais de nossa cidade. Excepto pela veiculação em um pequeno periódico de um bairro da zona zul, não teríamos acesso a tão questionadora notícia. Trata-se do espancamento de um turista paulista na nossa cidade, ocorrido no último sábado à noite, mais precisamente no bairro de Boa Viagem.

Segundo o periódico de pequena circulação, um jovem de 17 anos, oriundo da capital paulista, estava no Recife a passeio, estava com os pais num hotel localizado na beira-mar do bairro de Piedade, quando resolvera que visitaria uma das boates da zona sul recifense. O rapazola resolvera ir caminhando pela orla para apreciar a brisa noturna, já havia percorrido cerca de dois quilômetros, quando foi surpreendido por uma kombi branca donde desceram três homens encapuzados e o colocaram dentro do veículo, rodando consigo por cerca de 40 minutos. Ainda na kombi, o jovem teve sua boca vedada por esparadrapo usado para ligar materias como madeira e alumínio. Ainda dentro do veículo, começou a ser torturado, sendo colocado no chão do veículo e tendo o rosto pisado por três homens que encontravam-se na parte da trás do carro, que ainda contava com o motorista, obviamente.

Ao final do macabro passeio, o mancebo foi levado para uma humilde residência com os olhos vendados. Colocaram-no numa cadeira e iniciaram uma sessão de tortura que entre outras coisas, contava com perfurações na barriga e nas costas, por objetos cortantes como faca peixeira, alicates e chaves de fenda. O rapaz contorcia-se de dor. Pequenos rios de sangue corriam de seu corpo. Todos os movimentos dos algozes eram desferidos com tranquilidade e maestria, de maneira que o rapaz não viesse a desfalecer pela dor, tendo em vista que estivera durante todo o tempo, com a boca selada. O rapaz olhava sem entender os carrascos que deixavam à mostra apenas os olhos. O jovem ainda levou uma pancada na boca com uma frigideira velha, começou a engasgar-se. Tiraram-lhe a venda da boca com a promessa de que se fizesse qualquer barulho seria morto ali mesmo, na hora, que nem caldo de cana.

A boca do rapaz estava toda vermelha de sangue, deve ter perdido os dentes dianteiros. Chorava como uma criança pequena, escorrendo aquela baba vermelha em seu peito branco. Clamava que parassem e era atendido com mais bofetadas de frigideira, contra a boca, contra o nariz e os olhos. No canto da casa de taipa, um fogo improvisado ardia há cerca de meia hora. Dourando em sua flama, uma colher de pedreiro. O jovem rapaz teve novamente a boca amarrada com força. Um dos algozes retirou a colher de pedreiro em brasa e dirigiu-se em direção ao turista. Sussurrou ao seu ouvido: “Você vai dizer na sua terra que toda vez que um nordestino for torturado no sul, os turistas receberão castigo dobrado aqui.” O rapaz com os olhos esbugalhados de medo, chorava silenciosamente enquanto a colher de pedreiro se aproximava de seu delicado peito. Ao encostar, um chiado de carne queimando foi escutado. O terrorista rapidamente tatuou no peito do moço as iniciais "HL". Ao final, o rapaz estava desfalecido.

Colocaram-no na kombi. O rapaz respirava, mas estava desacordado. A kombi seguiu pela madrugada silenciosa, os homens vestidos de quimonos pretos não foram importunados pela policia ou qualquer tipo de agente burocrático. Deixaram o moço desfalecido num terreno baldio próximo ao Hospital da Aeronáutica. Seguiram viagem. No outro dia, o delegado reuniu-se com o desesperado governador e a família do mancebo, procurando uma maneira de abafar o caso, pois traria prejuízos inimagináveis para a política turística do Estado. O delegado colocou todas as viaturas nas ruas a procurar por pistas e vestígios sobre os Herdeiros de Lampião.

2 comentários:

Alisson da Hora disse...

Muito foda!

Alisson da Hora disse...

Como diria o Ira! "Pobre paulista..."