terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Dedo no Cu da História

Vou relatar uma história que aconteceu em outubro de 2005, na cidade de Aracaju, capital do Estado de Sergipe. Aquele que se predispõe a contar uma história assina um acordo com o leitor, partindo do princípio que o segundo haverá de acreditar na veracidade dos fatos por ele narrados. Ainda bem, que para dar o veredicto sobre minha história, dois mil historiadores são testemunhas. Até me sinto num dos contos de Borges ou Kafka: “dois mil historiadores testemunharam o fato!” Que evento maravilhoso poderia dispor de tão nobre e reconhecida platéia! Ah, mas o dia em questão, ou melhor, a noite, foi da abertura de um encontro de estudantes, o ENEH, Encontro Nacional dos Estudantes de História.

Quem já foi a um encontro de estudantes sabe como o negócio funciona. Um monte de jovens aglomerados, dormindo em barracas, chapando de hora em hora, fazendo ou desejando o sexo e dando vazão aos mais voluptuosos desejos. Assim, cada dia desta semana, vale mais do que um mês inteiro no cotidiano de um cidadão comum. Era o primeiro dia do ENEH de Aracaju. A delegação de Pernambuco resolveu colocar as barracas no fundão do acampamento, cercados pelos cariocas da UFF e da UFRJ. Lá no final, embaixo de uma marquise, fizemos uma favelinha muito disputada. Eu, com minha barraca quebrada, O Monstro dormindo numa rede a semana toda e O Baga num papelão. Imaginem, que visão!

Chegara a noite de abertura do Encontro. Haveria um show de música popular no centro de Aracaju, num lugar parecido com um mercado aberto de rua. Mas, calma. Chegaremos na festa. É preciso se deslocar primeiro. Durante todo o dia estivemos entretidos em nos bacantearmos. Beber, fazer escambo com os cariocas, ficar doido de verdade. À época, sempre que viajava, levava uma cachacinha pra vender, chamada Meladinha, uma mistura de cana de cabeça com canela, anis estrelado e melaço. Essa cachacinha era meu sustento durante o encontro. Levei o suficiente pra vender e pra beber. Nos deslocamos para o centro da cidade, só Deus sabe como. No meio do caminho, ainda uma 20 horas, talvez. Algum engraçadinho teve a idéia de adentrarmos num cabaré, cujas portas sempre convidativas se escancaravam no caminho do mercado. Paramos, assistimos uns shows. Moças mui talentosas. Mas, ninguém tinha dinheiro. Ficamos um tempo e o olhar ansioso das profissionais nos enxotava silenciosamente. Voltamos ao centro de Aracaju. Sim, porque apesar do cabaré ficar no centro da cidade, todos eles se parecem entre si. Voltamos para a rua, para o centro, e cada um se perdeu na sua intenção. Sai com a bolsa nas costas, cheia de garrafinhas de meladinha. Eu nem oferecia, a clientela se apressava em perguntar: “Você é de onde? O que é isso que você ta bebendo?” E qualquer conversa mole resolve a peleja.

Daqui a pouco, estou eu a convescotear com uma bela moça de Curitiba. Ela provou a cachaça e ficou chamando todo mundo da sua delegação pra experimentar. Ali mesmo, já tinha feito meu serviço. Fiquei ali, conversando com a moça, de esverdeado olhar, aquele sotaque diferente que inebria mutuamente o encontro. Na confusão dos meus olhos, via aquela senhorita como o desenrolar perfeito da minha noite. A gente ali conversando, olho no olho. Um forrozinho pé-de-serra tocando no palco. Todo mundo naquele clima de se conhecer e interagir. Sorrisos fartos distribuídos para todos os lados.

De repente, um grupo de pessoas forma um círculo no meio do “salão” e com doçura, observam um homem que aparentava seus 40 e poucos anos a dançar como uma bailarina no meio da multidão. Era um homem magro, com a camisa de botão aberta. Certamente, um morador do centro de Aracaju. Estava ali, rodando como uma bailarina, sendo saudado pela multidão de jovens embebedados de felicidade. O homem se empolga, começa por tirar a camisa de botão, depois o cinto da calça jeans, até que ficasse completamente nu. Aquele cidadão, do jeito que veio ao mundo, com o sorriso estampado abaixo do bigode, rodando como uma bailarina, despertou a atenção de todos. Todos aplaudiam-no. Ninguém queria mais prestar atenção à música. Apenas admirar aquele sujeito que fazia performances para a multidão. De repente, o homem rodando que nem uma bailarina, abaixa uma das mãos e enfia no seu ânus. A multidão foi ao delírio! Risadas e gritaragem irrompiam por todos os lados. Quem ainda não tinha visto a cena, corria para não perder o show. Enciumada, a cantora da banda de forró, ao constatar que ninguém dançava mais, pediu ao policiamento que retirassem aquele sujeito inconveniente da praça, pois estava atrapalhando o andamento do seu forrobodó.

Até então, apenas dois policias faziam a segurança da tranqüila e festiva praça. Os jovens policiais, encostados na viatura, provavelmente a observar o movimento de vistosas moças num cardápio variadíssimo, apressaram-se em deter o homem que fazia sua performance com o dedo no oiti-coró. Arrastaram-no da multidão e conduziam-no para a viatura. A platéia que se avolumava em torno do homem, começou a vaiar a atitude dos jovens policiais. Vocês sabem como são os historiadores, né? Entre o variado ramo dos estudantes, esses possuem a fama de serem os mais arredios. De tanto ouvirem falar em revoluções, sempre alimentam o sonho de encarar as forças repressoras e blá, blá, blá. A multidão começou a gritar, cantar: “ão, ão, ão, abaixo a repressão!” Os dois policiais ficaram atônitos com aquela massa que se deslocava em direção a eles, a gritar, cada vez mais alto. Seus globos oculares saltavam da face, de medo, eram jovens. Um estudante da UFF se aproximou pra conversar com um dos policiais e pedir que soltasse aquele pobre homem. Quando conseguiu chegar perto do miliciano, levou uma coronhada na testa que espirrou sangue por toda sua camisa. O policial ficou ainda mais atabalhoado. Os colegas de universidade do rapaz, acrescidos da multidão, até então, pacífica, arrodearam a viatura e começaram a atirar garrafas, cadeiras, pedras. Os policias colocaram os rapazes dentro do carro e enquanto um corre para o rádio, o outro protege-se atrás da porta e mira sua pistola contra a multidão.

Em poucos minutos começam a chegar várias viaturas nervosas. Entravam na rua dando cavalo de pau. Os homens desciam dos carros e já atiravam pra cima. Um policial desceu do carro e atirou-se ao primeiro jovem que estava à sua frente, deitou-o no chão, mirou a pistola frente o seu rosto. Nessa hora, eu já tinha me perdido da curitibana de olhos verdes, preferi não observar, apenas escutei o barulho seco do disparo. O policial, há poucos centímetros do rosto do rapaz caído, atirou-lhe perto da cabeça, o projétil disparou contra o chão. Quem pode imaginar o quanto durou esse momento pra esse aspirante a historiador? Mais e mais viaturas chegavam, o batalhão de choque foi acionado. A rua se transformou numa praça de guerra. Os policiais fizeram uma barreira e ninguém conseguia sair de dentro do mercado. Acuados, os estudantes só podiam gritar palavras de ordem, do tipo: “Puta que o pariu, essa polícia é a vergonha do Brasil.” Nesse momento, pelas minhas contas nada confiáveis, estimo que uns quinhentos policias, todos armados até os dentes, faziam um corredor polonês contra a multidão. Colocavam mais gente dentro das viaturas. E quanto mais a multidão gritava contra eles, mais o ódio lhes insuflava a face. Depois de um tempo, uma fileira de batedores de choque partiu contra a multidão, batendo em quem estivesse pela frente, sem distinguir qualquer pessoa ou gênero. Eu mesmo levei duas cacetadas, uma na coxa esquerda e outra na cabeça que me fez ver o mundo rodar definitivamente. Para minha sorte, um cara da universidade de São João del Rey me tirou da linha do policial, senão iria apanhar até Deus sabe quando! Fiquei caído no chão uns 15 segundos enquanto não conseguia distinguir o céu do inferno.

Após aplicarem uma sova nos estudantes, os policiais prepararam um corredor e obrigaram todos a se dirigirem para os ônibus que levaria a multidão de duas mil pessoas, talvez, de volta para a universidade. Ao chegarmos na UFSE, cada um tinha uma versão pra contar, uma zoada geral que se perpetrou até o dia raiar. Eu também tenho minha versão pra contar. Mas, o que mais me espanta, são os motivos que geram os grandes tumultos. Muita gente perde a vida por se estressar com situações banais: uma vaga no estacionamento, um discussão por causa de futebol e, naquela noite, todo esse imbróglio por mim narrado só se deu porque um cidadão resolveu enfiar o dedo no cu!

3 comentários:

HVB disse...

é impressionante o quanto somos involuidos! esse texto é digno do finado PauNoCuDaHumanidade, meu caro Dodoievisk...

Thiago disse...

EU SOBREVIVI!

gagarin disse...

o quê uma dedada no briôco não pode fertilizar, hein!!!