sábado, 27 de março de 2010

O que virá após o Pós?

A disciplina do professor Lourival Holanda no mestrado de literatura traz à discussão a tentativa de entendimento das motivações humanas no perpassar do tempo. A literatura é, nesse ponto, um exemplo vivo e que se renova das aspirações, inquietudes e da busca de sentido para a interpretação do mundo. É a terceira disciplina que assisto com o mestre citado e, entre os temas abordados em suas disciplinas estão a esperança, a utopia, a igualdade, a autonomia, a razão. Lourival, mui argutamente, nos instiga a questionar o por quê do desencantamento da nossa geração em relação aos projetos de futuro. Por quê a utopia não faz mais parte do caráter do homem pós-moderno?

O descrédito da razão é uma das poucas certezas de nosso tempo. Vivemos o que Lourival chama de nictotropismo, ou seja, a noite como centro do universo. O principal reflexo dessa desesperança encontra-se no manancial de alegorias que produzimos em que a principal temática é “a morte do homem”, “o apocalipse” e o descrédito em relação ao futuro. Em oposição a este presente, voltemos dois séculos no tempo. Estaríamos sob as luzes do Iluminismo. Ao menos, sua luz forte ainda brilhava sobre os espíritos criativos. Para esse período, o mestre deu o nome de heliotropismo, ou seja, a luz como centro fundador de paradigmas. O que perdemos/ganhamos nesse intervalo entre as luzes e as trevas? Ou será que os intervalos de luminosidade não fazem parte do movimento de rotação da história humana? Numa de suas aulas, citando Rilke, dizia: “O amor só é possível em intervalos de solidão.” Estaríamos no período do interlúdio entre o amor, com suas projeções e aspirações, e o orgiástico recreio dos que desafeiçoam?

A modernidade, essa cria do nosso desejo, conduz o homem a ultrapassar seus limites, principalmente físicos. O que é essência (palavra tão difícil de definir) só faz sentido ou encontra respostas se estiver num processo de mutação para algo está sempre por vir. É a era do pós-humano, da pós-modernidade, pós-rock... Até o prefixo neo está ultrapassado. Conversando com um amigo sobre um álbum da violinista Anja Lechner e do pianista Vassilis Tsabropoulos, tentei defini-los como neoclássico. Mas não, o estilo neoclássico pertenceu a uma geração anterior, década de 40, 50. Hoje, tem que ser pós-clássico! E rimos disso tudo. Esse desejo de transpor significados é o que causa o descrédito do homem comum (categoria que pleiteio) com o tempo presente. Os exemplos de fracasso da razão dilaceraram demais a carne humana. O tempo das certezas nos conduziu ao choque, que por ato-reflexo, paralisou-nos enquanto aspiradores de um projeto social de futuro.

Mas, enquanto o homem permanece em seu estado de choque, o universo pós-moderno ao seu redor, molda-o com uma armadura ideológica fortíssima, conduzindo-nos a um corpo anti-natural, a um planeta que nos rejeita, somos marionetes tristes do nosso tempo, desejando o dia do airoso fim. Mas, como diz o professor, ainda assim chegaremos atrasados no paraíso. E com a hostil imagem dos portais fechados, do nosso futuro mecanizado, só nos resta vislumbrar, num misto de desdém e alegria, a chegada do fim, a materialização do pós ou o que virá após. Criemos um novo epíteto!

5 comentários:

Dodô disse...

Relendo o texto, temo que tenha terminado a postagem mostrando uma visão pessimista do professor Lourival. Quando na verdade, não se trata de pessimismo, mas de tentativa de buscar respostas. Essa é "minha" interpretação. Algo que os textos e suas aulas me conduziram a pensar. Instigou-me a escrever. Que, na noite, isto fique claro!

Sr. Anísio disse...

Caríssimo,

Eu entendo (no sentido que sinto) onde você chega. Eu mesmo vivo por esse abismo, mas, conversando com outro amigo nosso esses dias, ele falava dessa saudade dos tempos de certeza, e da monotonia hodierna. Apesar de "entender" sempre vejo outra coisa no "pós", vejo que é um nome (menos ainda que um nome, uma palavra, menos ainda e ainda mais ao mesmo tempo, saca?) que marca mais pela indeterminação do que pelo que pretende dizer. É um tempo muito estranho, de certa forma difícil de "comparar" com outros, mas não ter mais certeza é um privilégio que poucos povos tiveram.
Com esse amigo findamos a conversa (infindável) com uma certa "volta para dentro", um "voltar-se". Depois do homem talvez haja um abismo que permanece obscuro, tempo da noite e do silêncio, o qual precisamos, mais do que tudo adentrar. Qual Orfeu sem Eurídice, ou Ulisses sem profecia no nosso Hades.
Enfim, já estou me alongando em demasia. Chega até mesmo ser uma quetão ética, como se posicionar ante o "mundo" sem certeza?
Depois teminamos a interminável conversa.
Aew

Caetano disse...

queria acrescentar a esse debate indicando esse artigo aqui: http://www.ces.uc.pt/misc/Do_pos-moderno_ao_pos-colonial.pdf
Abraços aos dois

dani_aloha disse...

Queria mesmo era esse debate ao vivo. Oh delícia de se pertubar!!!

Galega.

aromab disse...

muito bom o texto, dodo!
ms esta lembrança nostalgica e este pensamento sobre o pos do pos é coisa q só um moderno faria!
entao percebemos q estes dois tempos coincidem, coexistem, colidem, dialogam.

conversemos!