terça-feira, 30 de março de 2010

O Jogo

Após seis anos na cadeia, Adolfo botou a cabeça na rua. Era uma tarde quente ali pelas bandas do bairro do Curado. Os portões do presídio Aníbal Bruno batiam nas suas costas. Era a última vez que ele esperava ouvir aquele som chumboso. Nesse ínterim em que esteve preso, perdeu Nara que não viera lhe visitar mais do que uma vez, no primeiro mês. A família também se afastou. Sua mãe, uma mulher doente, rareou as visitas. Ele preferiu sair sem avisar a ninguém. Foi caminhando até a parada de ônibus com a mochila nas costas. Não sabia nem que ônibus iria pegar. Ficou parado embaixo de uma mangueira e começou a lembrar do fatídico dia em que sua vida se transformou para sempre.

Adolfo tinha vinte e sete anos. Estava fazendo pós-graduação em física na universidade. Morava no Recife desde os quinze anos, mas era natural de Petrolândia no sertão pernambucano. Havia dois meses conhecera uma moça muito bonita, vinda do interior também, só que de Belo Jardim. Tinha um sorriso tímido. Conhecera-a no quiosque onde tirava xerox. Ela gostava de forró, de comer sushi e era muito afetuosa. Seus cabelos castanhos, seu rosto afilado, suas curvas bem moduladas, uma magreza saudável. Ela era alvirrubra, assim como Adolfo. Tinham ido assistir alguns jogos juntos, contra times do interior. Nara passou a semana insistindo para assistir a partida final do campeonato. Adolfo relutou, era perigoso, mas aquiesceu. Náutico e Sport se enfrentariam no estádio da Ilha do Retiro.

Agora, Adolfo segura a bandeira antes de entrar no carro e pede pra Nara: “Linda, bota a bandeira pra frente senão o pano vai cair quando o carro acelerar.” E partiram pro estádio, seguindo pela Avenida Caxangá. Adolfo tocando a buzina clássica da equipe alvirrubra: Quer dançar, quer dançar, o timbu vai te ensinar! Ao chegarem próximo do estádio, cerca de um quilômetro, na rua Benfica, o sinal ficou amarelo. O carro da frente freou. O Fiat Uno de Adolfo também. Uma pequena fila de carros do lado direito. Um ônibus azul, vindo de Camaragibe ocupou todo o espaço do lado esquerdo do seu carro. Outro carro situou-se atrás de Adolfo. Estava preso no engarrafamento pelos cinqüenta segundos em que o sinal estava fechado.

No ônibus azul, cerca de trinta torcedores da torcida organizada Jovem do Sport praticavam surf no teto do ônibus e windsurf nas janelas. Gritavam aqueles funks galerosos. Discretamente e como quem fala tentando mexer pouco com os lábios, Adolfo pede a Nara que abaixe a bandeira rapidamente. Nesses rápidos segundos em que se desenrolou essa ação, cerca de dez torcedores vestidos de amarelo gritavam, pulavam e se aproximavam do carro de Adolfo. Da janela do ônibus, outro torcedor aponta um morteiro de doze tiros em direção ao carro. Os fogos explodem contra o vidro frontal e a lataria. Nara começa a gritar de pânico. A bandeira cai no asfalto. Um rapaz de cabelo pintado com água oxigenada começa a socar a frente do carro, se aproxima da janela a plenos pulmões, insuflado pelos gritos dos companheiros dentro do ônibus. Uh, a Jovem aê! A cabeça de Adolfo estava confusa, a mulher gritando ao seu lado, os homens sacolejando seu carro, o medo tremulando em sua carne, as idéias embaralhadas, o mijo descendo pelas pernas...

O que Nara não sabia e ele nunca ia querer revelar isso naquele começo de namoro promissor, era que possuía uma arma escondida no carro. Uma arma adquirida com um amigo da faculdade, Salviano, também de Petrolândia. Uma pistola prateada. Ele tinha dado uns tiros no meio do mato da última vez que fora passar o São João na terra de seus pais, pequenos comerciantes. Mas, nunca tinha feito um curso de tiro ou algo parecido. O revólver estava embaixo do banco de trás. Adolfo não tinha escapatória, estava preso no trânsito. Mais jovens saltavam do ônibus. Seria escorraçado ali, preso. Sua namorada também não seria tratada com galhardia pelos rapazes que se jogavam do ônibus. Miséria! Em pensar que tudo aquilo durou o tempo de um sinal vermelho! Rapidamente, Adolfo puxa a arma, abre a porta do carro. Os rapazes deram um passo pra trás. O que estava com o morteiro na janela se emburacou pra dentro do ônibus. Os outros torcedores começaram a pedir que o motorista arrancasse com o ônibus. Corre, corre! O cara tá armado, porra! Adolfo invertera a situação. O jovem que socava a frente do seu carro deu três passos para trás e foi alvejado com um tiro no ombro. Pá! Ele balançou e se virou correndo para a frente do ônibus. Mirou o revólver pro rapaz do morteiro, mas ele não estava mais ao alcance. Assim mesmo, deferiu mais dois tiros contra os torcedores de amarelo. Um foi atingido na cabeça. Outro tiro atravessou o ônibus e se chocou contra a parede de um supermercado. Nara gritava dentro do carro. Socorro! Minha Nossa Senhora! Adolfo volta pro volante. O semáforo ficara verde. O motorista do ônibus andou poucos metros, ficou buzinando loucamente. Adolfo entra no carro, um barulho de buzinas toma conta da Rua Benfica. Todos tentam chamar a polícia de alguma forma. Outros torcedores do Sport se solidarizam com os rapazes do ônibus. O carro de trás dá uma ré e se joga na lateral onde estava Nara. O suplício da garota é interminável. Adolfo consegue arrancar e tomar a Visconde de Suassuna tentando voltar para a Caxangá. Mas, nem andou um quilômetro e duas viaturas da polícia já o seguiam. Tenta engatar uma fuga, mas Nara gritava, segurava seu braço e pedia, aos prantos, que parasse o carro. Ele para. Vários policiais o cercam. Mão na cabeça, vagabundo!

2 comentários:

dani_aloha disse...

Que representações você tem sobre a TJF?? Enfim...Não posso negar que achei interessante o desfecho. Quem é o vagabundo??

Galega.

Camila S. disse...

Impactante!!!
Daqueles momentos que nem chegam a formar minutos, mas se têm a sensação de ter durado horas.