
Assim como a maioria dos brasileiros e boa parte da população mundial, tenho acompanhado com fervor os jogos da Copa do Mundo 2010. Uma competição que começou fria, com jogos parados, times pouco ofensivos e uma culpada pela baixa qualidade técnica, a pobre coitada da bola Jabulani. Terminou a primeira fase e amanhã se realizará a última partida das oitavas de final entre Portugal e Espanha. Na hora da onça beber água, as grandes seleções mostraram suas garras: Brasil, Alemanha, Holanda e Argentina seguem favoritas. A França que entrou pela porta dos fundos com a ajuda da arbitragem e a Itália que ganhou a última Copa com um futebol pouco acima do regular, estão ausentes da disputa pelo título. Mas, o que mais me chamou a atenção nessa Copa foi a discussão sobre os erros de arbitragem.
No mesmo dia, um domingão de Copa com dois jogos entusiasmantes, o mundo constatou, perplexo, como é frágil a justiça também dentro das quatro linhas. A televisão com suas milhares de câmeras não deixa escapar absolutamente nada, desde os 33 centímetros que a bola entrou no gol não marcado da Inglaterra, como a mastigada de catota do técnico da Alemanha. Enquanto assistia o jogo com amigos em Itamaracá, surgiu a discussão se a televisão deveria interferir na decisão do árbitro ou não. E aí, gols históricos como “a mão de Deus” de Maradona em 1986, o “gol” da Inglaterra na final da Copa de 1966, não seriam mais validados. Em compensação, a justiça se aproximaria cada vez mais do ideal de perfeição futebolística, onde o melhor deveria vencer.
Será que foi a justiça que fez o futebol se tornar o esporte mais popular do mundo num intervalo de 150 anos? Na minha opinião, o erro faz parte do espetáculo. Se um médico soubesse que uma cirurgia terminaria no óbito do paciente, pensaria duas vezes em executá-la, assim também, o ladrão que amaldiçoa sua infeliz idéia de ter saído para assaltar sabendo do risco de cair na vigilância total da prisão. O erro intencional é o mais perigoso, a meu ver. A mão de Henry que colocou a França na Copa tem cheiro de dinheiro, de mutreta, de acordo comercial. Ora, a França é um mercado bem mais interessante que a Irlanda! Juízes comprados teriam suas vidas dificultadas pela intervenção da televisão.
A grande fascinação do futebol é que ele é o único esporte em que um time A ataca 30 vezes e um time B ataca apenas uma vez e pode sair vencedor. Ele é imprevisível, assim como quem será o vencedor do confronto entre Argentina e Alemanha. O futebol é amado porque é fatalista, injusto, cheio de “campeões morais”, enquanto faz a fama dos doces malandros e desonestos. Romário, Garrincha, Maradona, Stoichkov, nunca foram exemplos de seres humanos galhardos, mas ali dentro, foram os grandes mestres. É jogo, é coisa do diabo, de gente enganadora, que esconde a bola embaixo dos pés. O futebol é maldito. Em sua imperfeição, nós o amaremos até o fatídico dia em que ele for falível.
Porém, o futebol caminha para o mesmo caminho que o Homem: o da adaptação tecnológica. O impedimento de 3 centímetros, o pênalti que só a câmera que se sustenta na marquise do estádio pode flagrar, o escanteio que resvalou na orelha de um zagueiro... nada escapará aos vigilantes olhares dos sedentos de justiça, dos vingadores. Quem garante que o mesmo chip colocado dentro da bola pra delimitar o gol, não pode dar uma desviada no trajeto da bola pra beneficiar o país-sede, por exemplo? A desconfiança continuará.