quarta-feira, 9 de março de 2011

A Volta de Kazan

Nevou, insistentemente, durante todo o fim de semana em que estive em Kazan. As ruas se cobriram de um branco novo, recém-chegado dos céus. Mas, é fim de inverno, a neve é molhada, quente, pedindo pra virar chuva, e transforma as ruas da cidade em deslizante lamaçal. Ainda assim, para o olhar de um nordestino, tudo se afigura em novidade e deleite por um inverno antes apenas imaginado. As calçadas se cobrem, ora de uma tímida camada escorregadia de gelo, ora de um fofo tapete branco, e a milenar cidade se traveste de sonho, moldando suas arquiteturas na onipresente neblina.

As cidades são corpos imensos, e como corpos, movem-se pela presença de um espírito, a alma da cidade. A alma de Kazan, se posso me arriscar a conhecer apenas por ter visitado por três dias em que a mesma se encontrava debaixo do branco véu, é harmoniosa. Diferente de Moscou, não possui tanto tráfego, multidão apressada, minhocas de aço a amaciar suavemente o subsolo de sua morada. Kazan é grande e pequena, naquilo que os adjetivos podem alargar de mais positivo. Ao andar por suas ruas, meu coração palpitou, assanhado, que aquele era o lugar desejado pra se viver por um bom tempo. Mas, em respeito à atmosfera onírica da capital tártara, vou-me embora antes que a realidade desfaça o sonho, e já escrevo de um ônibus velho que, cambaleante, atravessa o sertão gelado da minha solidão.


Entrego minha vida às mãos de um motorista pitoresco, com os dedos da mão direita tatuados, provavelmente indicando que o mesmo fez/faz parte dessa ou daquela máfia russa. O homem não tinha sequer um dente natural, todos de prata. Imaginei que aquele homem, talvez, tenha perdido os dentes numa briga de gangues e se afastara da vida bandida e hoje era motorista de ônibus, entre Kazan e Naberezhnye Chelny. A idéia se esvaiu quando tive que concordar com o sujeito, em seu prateado sorriso, que Pelé e Ronaldo eram brasileiros. Eu já estava dentro do ônibus velho, sentado ao lado de uma babushka espaçosa, torcendo pra que o motorista pitoresco fizesse as curvas mais devagar naquela pista alva e escorregadia. Lá fora, árvores sem vida, campos sem grama, a natureza hibernante e silenciosa. Aqui dentro, uma multidão quente de cidades, lembranças, soluços. E tudo o que escrevo é um inatingível esforço pra construir uma imagem perdida, marejada, de um intraduzível presente.

Um comentário:

Gabriela disse...

Oi Dodo, que legal o seu texto sobre o final do inverno, é um pouco cinza, mas ao mesmo tempo alegre, a primavera tá chegando e as primeiras florzinhas brancas vao~ surgir. kkk E cuidado pra nao~ escorregar. muito sucesso pra vc. beijos