terça-feira, 7 de julho de 2009

Boaco - A Esquina dos Estudantes

Janeiro de 1980. Após a passagem de ano, resolvi que faria uma viagem espiritual pela América Central. Constava à época dos meus dezenove anos e era minha primeira viagem internacional. Desembarquei no dia 04 de Janeiro no Aeoroporto de San José na Costa Rica e decidi-me a conhecer as belezas e encantos dos países da parte norte da América Latina. Enquanto estava na Costa Rica, tudo se apresentava de maneira agradável. O país era bem organizado, com uma capital moderna, população de origem espanhola, enfim, um país senão rico, cortêz. Ao denunciar minha intenção de subir de ônibus para o México, passando pelos países que ficavam no meio do caminho do citado destino, os costarriquenhos, advertiam-me que a Nicarágua seria o lugar mais perigoso que iria encontrar. Um lugar de gente bárbara, muita população indígena, pouco civilizados, um país pobre e pra completar, saído de uma revolução que deixara toda a burocracia de pernas pro ar. Meu espírito de jovem altaneiro, pouco se apoquentou com as advertências.

Eis-me em Manágua. A primeira impressão foi de susto. A diferença econômica entre a Costa Rica e a Nicarágua era abissal. Desembarquei na rodoviária de Manágua às 14:30 e estava morrendo de fome. Atravessei uma pista de quatro faixas que ficava na frente da rodoviária e entrei num restaurante simples, cheio de pessoas falando muito alto e que logo se aperceberam que eu era um turista. Olhavam-me de soslaio. Fiquei com medo de ser assaltado, principalmente ao lembrar-me das advertências dos costarriquenhos, que perguntavam se eu era louco de visitar a Nicarágua. Perguntei à garçonete o que ela tinha para almoçar e ela sugeriu uma galinha cabidela. Comi, pedi uma coca-cola e pedi a conta. A mulher falando muito baixo, talvez para que os outros clientes não ouvissem, disse-me que a refeição e o refrigerante custariam 1 dólar. Paguei e pela cara de satisfação da garçonete, ela deve ter saturado um pouco no preço. Percorri as imediações da rodoviária de Manágua e o aspecto sisudo dos habitantes tornou-me odioso o lugar. Resolvi que naquela tarde mesmo pegaria um ônibus pro interior, pois tinha o interesse em conhecer a essência dos lugares e ao meu ver, essa raiz só podia ser encontrada no interior, longe dos grandes centros urbanos. Olhei no mapa e decidi que iria para Matagalpa ou para Boaco. Cheguei no guichê e perguntei de que horas sairia o ônibus para Matagalpa. A mulher muito mal humorada disse que os dois ônibus para Matagalpa já haviam saído e que o próximo só embarcaria no outro dia pela manhã. Perguntei se tinha passagem para Boaco e ela disse que o ônibus sairia em 20 minutos. Comprei a passagem por 3,50 dólares. Embarquei num ônibus amarelo, muito velho, com as letras arredondadas escrito acima do vidro do motorista (Managua - Boaco).

Tudo naquele país parecia muito rústico e fastidioso. Decidi-me que não me demoraria em Boaco e que no próximo dia pegaria um ônibus de Boaco para Matagalpa, e posteriormente, de Matagalpa para Tegucigalpa, já em Honduras. Sentei-me na janela do ônibus, do lado esquerdo. Ainda hoje, tanto tempo depois, me recordo da paisagem do Lago Manágua ao longe, com o brilho do pôr do sol reluzindo naquele imenso espelho d´água. Na beira da estrada, avistava flores que pareciam terem sido plantadas por hábeis mãos humanas. Mas, essa idéia logo se dissipou de minha mente ao perceber que aquele canteiro formado por plantinhas de flores amarelas se estendia por vários quilômetros. Na estrada, muitas árvores de tronco fino, com a abóbada cheia de flores róseas, o céu meio nublado ao fundo. O ar era puro e pela primeira vez em território nicaraguense, senti-me relaxado. O caminho entre Manágua e Boaco durava em média duas horas e enquanto tentava captar na mente o máximo de informações visuais, avistava a chegada de um vilarejo, era a cidade de San Benito, onde o ônibus tomou o caminho à direita e seguiu uma estrada que estava em péssimo estado rumo a Boaco. No caminho muitos pinheiros e uma árvore que eles chamam de guayacanes que se mostrava muito presente por todo o caminho, com suas folhas amarelas ou róseas compunham um visual inesquecível para o viajante.

Cheguei em Boaco pela noite e parti à procura de algum hotel. Encontrei a pensão da sra. Lorena Gutierrez, que cobrou-me a pechincha de 2 dólares por diária. Resolvi sair da pensão, após tomar um banho gelado e encontrar o parque el cerrito, onde os jovens se encontravam. As pessoas me olhavam desconfiadas na rua. Tentei achar que tudo aquilo seria normal, em toda cidade de interior um forasteiro é malquisto, incialmente. Encontrei dois jovens a conversar num banco. Aproximei-me e puxei conversa, disse que era brasileiro e que estava conhecendo a América Central. Então, os jovens se mostraram satisfeitos por conhecerem alguém do Brasil e perguntaram por quê fui para Boaco e não para Manágua ou Matagalpa. Expliquei os imbróglios da viagem. Os jovens eram inteligentes e auspiciosos, porém se mostravam inquietos em falar de política, afinal, eu poderia ser um espião naqueles tempos de turbulência. Nos apresentamos e fiquei sabendo que eles se chamavam Tirzo Ramón, de 19 anos, e Edwind Almanza, de 17 anos. O primeiro estava tentando estudar numa universidade na Costa Rica ou em outro local que houvesse brecha para recebê-lo. O segundo também almejava mudar de país. Eles sugeriram que no próximo dia, às 18h eu os encontrasse naquele mesmo banco que eles me levariam à Esquina dos Estudantes, o único local onde haveria gente interessante em Boaco, segundo os próprios, pois o resto da população era ignorante.

No dia seguinte, aluguei uma Toyota e fui conhecer os vales e montanhas da região central da Nicarágua. Fui à vila de Santa Lucía e Terrabona, antes de regressar à ciudade de dós pisos, como é conhecida Boaco, pois como a cidade é construída numa região montanhosa, possui dois andares. Apressei-me para ser pontual e cheguei no horário marcado no banco em El Cerrito onde encontrei Tirzo e Edwind. Eles foram me explicando o que era a Esquina dos Estudantes. Era um local, onde os melhores estudantes da cidade se encontravam para formular charadas e que vencia a disputa aquele que formulasse a melhor pergunta sem que os adversários descobrissem a resposta. Era um grupo de 9 estudantes, todos vestidos à moda nicaraguense. Calça jeans na altura da barriga, cinto de couro, camisa de xadrez e chapéu de couro com abas nas pontas. Alguns portavam bigodes. Muitos tinham expressões faciais indígenas, outros eram mais parecidos com espanhóis, mas eram mestiços. As perguntas feitas na roda eram do tipo charada mesmo. Por exemplo: "Qual o nome da mãe de Nero?", ou ainda, "Qual a capital de Indonésia?", ou, "Em que ano morreu Albert Einstein?". E vencia aquele que fizesse a pergunta mais difícil e que não obtivesse resposta. Aliás, a resposta não era dada no momento da charada. No outro dia, os estudantes se lançavam na biblioteca atrás da resposta e o perguntador ganhava ainda mais respeito entre os colegas. Um jovem chamava a atenção no grupo, era o baixinho Chino, de aspecto muito intrigado. Andava sorrateiramente e sempre que chegava na roda fazia a pergunta mais difícil. Não que fosse o mais inteligente. Ele quase nunca respondia uma pergunta, mas parecia ficar procurando a charada mais complicada para fazer depois da aula. Assim, aqueles estudantes gastavam o tempo naquela cidade esquecida no interior do país, talvez, mais esquecido da América Central.

No outro dia pela manhã, parti de Boaco. Minha última lembrança da cidade foi quando subi no ônibus e vi um grupo de fazendeiros montados em seus cavalos a discutir um assunto o qual não consegui entender. Um parecia se destacar entre os cavaleiros, usava uma camisa de botão alaranjada e um relógio reluzente no braço direito. Parecia comandar as ações. O ônibus partiu para Matagalpa, parando ao meio-dia na cidade de Muy-Muy, onde almocei. Vocês devem se perguntar o que de tão fantástico aconteceu que merecesse ser relatado nessa típica literatura de viajante? Pois bem, vou explicar. Ontem, andando pelas ruas do bairro da Várzea, aqui no Recife. Parei num botequinho em péssimo estado de conservação, mas que é afamado por ter o caldinho de feijão mais gostoso do bairro. Resolvi tomar uma lapadinha de cachaça e um caldinho naquele fim de tarde. Então, chamou-me a atenção a conversação de dois homens que falavam um espanhol brabo, tão rápido que eu quase não conseguia decifrar nada. Pareciam engolir as palavras, num vocabulário acessível apenas aos dois. Comecei a reparar em suas fisionomias e teimei em acreditar que conhecia aqueles rostos de algum lugar. Perguntei ao Mário, o dono do estabelecimente, quem eram aquelas figuras que se distinguiam dos outros frequentadores do recinto, que variavam de pedreiros a policias, passando por funcionários públicos. Seu Mário disse que o senhor grisalho era Tirzo Ramón, professor de agronomia da Universidade Federal Rural de Pernambuco e o segundo era um dentista que morava em Salvador e que toda vez que vinha a Recife, aparecia para tomar uma no seu caldinho. Não tive dúvidas que eram Tirzo e Edwind da Esquina dos Estudantes. Fiquei a fitá-los de longe. Me perguntava o que faziam bebendo naquela espelunca, falando espanhol em bom tom e sendo perturbado, vez por outra, por algum bêbado importuno. Tirzo percebeu meu olhar curioso para a conversa, mas não me reconheceu e voltou as atenções para a conversa com seu parceiro. Paguei a conta e fui pra casa sem ter interrompido a conversa dos dois. Fiquei feliz em ver que aquela Esquina naquele começo de noite de um dia qualquer de 1980 conseguiu formar pessoas que emergiram daquele local esquecido, de pessoas rústicas, onde nada parecia acontecer. Não ousei me aproximar para não quebrar o encanto da minha resolução. Essa foi minha lembrança principal de Boaco e da Nicarágua, ampliada pelo encontro insperado.

2 comentários:

Shiu Almanza disse...

QUE VIVA NICARAGUA JODIDO!!!!!

ESTOS DOS, SON HOMBRES QUE SALIRAN DE UNA TIERRA ENCANTADA, DE MUY BUENA GENTE!!!!

Nathalie disse...

O SHiu.....

Um saiu da Nicarágua e a outra do catolé jejejej...dai saiu julhinha na Barra...evoluiu em fia hehehehehe

bjos
Paulinho