Prof. Dr. Lourival Holanda
Disciplina: Estudos Comparativos.
Título: O Milagre Secreto de Dostoievski.
Quem conhece a história da vida de Dostoievski sabe o quão tribulada foi a experiência sofrida pelo escritor russo, desde sua infância na fria relação com o pai, ou dos arrochos financeiros enfrentados nas errâncias pelos confins da Rússia ou pela Europa. Mas, nenhum momento foi tão decisivo na vida do escritor russo quanto o dia 22 de dezembro de 1849. Dostoievski estava condenado ao fuzilamento por alta traição ao governo imperial russo, representado pela figura do tsar Nikolai II. Dostoievski freqüentava o círculo de Petratchévski, um pequeno líder dos descontentes com o tsarismo, que fora descoberto pelo espião de codinome Antonelli e entregue à polícia investigativa. Era o fim de uma breve carreira literária que tinha encontrado seu ápice nos dois primeiros romances, Gente Pobre e O Duplo (ou O Sósia). Constava Dostoievski à época dos seus 28 anos.
Aos que se predispõe a ler a coletânea de ficções do escritor argentino Jorge Luís Borges, encontrarão entre tantas histórias, literalmente, fantásticas, a ficção que narra a condenação do escritor tcheco Jaromir Hladík, chamada O Milagre Secreto. Nessa ficção, que se passa na cidade de Praga, sitiada pelos nazistas durante a segunda guerra mundial, mais precisamente no dia 14 de março de 1939, o escritor Jaromir Hladík, um descendente de judeus, tradutor de obras ligadas a cultura judaica, além de uma Vindicação da eternidade e de uma inconclusa tragédia em versos, que seria a grande obra guardada em seu espírito, desejosa de se eternizar para a humanidade, chamada Os Inimigos, será conduzido a um quartel com o intuito de ser investigado e, se comprovada sua ligação com o povo semita, será levado ao fuzilamento pelos policiais da Gestapo.
Nesse ponto da ficção de Borges, iremos encontrar um cruzamento com a situação vivida por Dostoievski, quase cem anos antes. Ambos os escritores estão presos, sujeitos ao fuzilamento, investigados por conspirarem contra o regime em vigor, fragilizados como um rato numa tocaia, à espera do julgamento de seus algozes. O que une ambos os escritores, além dos sentimentos de medo e aflição, é um fio de esperança, que alguma salvação repentina os tire desse lúgubre enlace. Ante a morte que se aproxima, essa salvação não poderia advir de seres carnais, mas apenas uma intervenção divina seria capaz de tirar nossos heróis de seus respectivos calabouços. E essa esperança numa salvação divina irá motivar os pedidos de ambos.
Quando falamos em esperança, falamos de projeto, de desejo de construção, da realização de uma obra que de alguma maneira vai resgatar o que só o escritor tem dentro de si, e que ele precisa narrar para o mundo, seja uma angústia, uma saída, uma palavra de conforto ou uma demonstração de desespero. Da esperança a ação. A esperança é a mola propulsora da vontade humana, é a busca do objetivo que dá sentido a existência, capaz de mudar as bases do presente fastidioso.
A humanidade entregou seu destino a grandes idéias de homens que fundaram tradições, lançaram utopias e profetizaram um futuro perfeito em oposição à realidade, sempre incompleta. Na doutrina cristã, o paraíso é atingido através da ação humana na terra. Um conceito progressista, onde a salvação é alcançada pelos atos desenvolvidos em vida. No socialismo, o vislumbrar de uma sociedade perfeita, onde não houvesse desigualdades econômicas, levou nações a agir em nome do dogmatismo comunista. Em ambos os casos, a esperança de uma obra futura leva o homem a agir, a construir e modificar. Uma nova humanidade é/seria possível.
Na literatura, esse desejo de construir, essa esperança em estar na próxima geração, é capturada por Harold Bloom nos livros: Um Mapa da Desleitura e A Angústia da Influência, onde o autor, em sua busca pela eternidade, se entranha naquele que irá influenciar
[1]. É a voz que não pode morrer, ela se eterniza nos leus leitores, dessa forma Homero permanece vivo por mais de 2.800 anos. O poeta sabe que tem algo a dizer, que talvez, não seja interpretado por sua geração, mas pela vindoura, mas sua voz precisa ecoar, precisa emergir seu pensamento até que encontre intérpretes além dos limites da folha escrita.
A palavra esperança fez parte de vários capítulos da vida de Dostoievski, desde os momentos em que estivera preso na Fortaleza Pedro-Paulo em Petersburgo, passando pelas intempéries do presídio em Omsk, das privações financeiras na Suíça ou na Alemanha, na correria para entregar uma obra cujo dinheiro já havia sido empenhado, o desejo de levar uma vida sossegada que não foi feita para ele. Dostoievski esteve sempre lutando contra e pela vida.
Na ficção de Borges, o escritor Hladík, enquanto estava preso, já sabendo de sua condenação por fuzilamento, que se daria em poucos dias, solicita a Deus um milagre que o salve do momento final. Deixarei que o próprio Borges o faça pedir: “Um ano inteiro solicitara a Deus para terminar seu trabalho: um ano lhe outorgava sua onipotência. Deus laborava para ele um milagre secreto: matá-lo-ia o chumbo alemão, na hora determinada, mas em sua mente um ano transcorria entre a ordem e a execução da ordem.”
[2]O tempo parara para Hladik. Tendo à sua disposição apenas a memória, passou a talhar, entre a ordem do interlocutor militar, a gota de chuva que molhara seu rosto e o disparo do chumbo, sua obra, assim como pedira na noite anterior à execução:
“Não trabalhou para a posteridade, nem ainda para Deus, de cujas preferências literárias pouco sabia. Minucioso, imóvel, secreto, urdiu no tempo seu labirinto invisível. Refez o terceiro ato duas vezes. Eliminou algum símbolo demasiado evidente: as repetidas badaladas, a música. Nenhuma circunstância o importunava. Omitiu, abreviou, amplificou; em certos casos, optou pela versão primitiva. Chegou a querer o pátio, o quartel; um dos rostos diante dele modificou sua concepção do caráter de Roemerstadt. Descobriu que as árduas cacofonias que tanto alarmaram Flaubert são meras superstições visuais: debilidades e moléstias da palavra escrita, não da palavra sonora... Pôs fim a seu drama: não lhe faltava resolver senão um único epíteto. Encontrou-o; a gota d água resvalou em sua face. Iniciou um grito enlouquecido, moveu o rosto, o quádruplo disparo o derrubou.”
[3]Aproxima-se o dia do fuzilamento, Dostoievski mergulhado no inferno da ansiedade, exclam

a numa carta endereçada ao seu irmão mais velho, Mikhail, a vontade que desejara que um milagre ocorresse em sua vida, que aquele tormento da morte não passasse de mais uma de suas visagens. Diz Fiódor ao irmão: “Ah, se eles me deixassem não morrer! Que coisa vasta seria cada minuto a mais, meu Deus.”
[4] Porém, o dia do fuzilamento chegara e os seis condenados se encontravam no pátio para a descarga fatal. Três homens já estavam amarrados ao poste, com a arma apontada para a nuca. Dostoievski estaria no segundo time de executados. Quando se abre a contagem, o “milagre” pedido por Dostoievski acontece. Um soldado adentra no pátio com uma carta do tsar Nikolai II perdoando os condenados e demonstrando a piedade da qual o grupo desdenhava. Iriam para os trabalhos forçados na Sibéria, perto de Omsk. O choque da sensação de ter a morte cronometrada enlouquecera para sempre um dos acusados, o rebelde Grigoriev. Essa tortura psicológica onde o mesmo, assim como Hladik, apoquentava-se sobre o segundo final antes da bala perfurar sua nuca, veio a ser tratada no livro O Idiota, quando o Príncipe Mischkin pede a Adelaída Epantchiná que pinte o quadro de um homem que estaria a segundos de ter sua cabeça decepada por uma lâmina guilhotinante. Ainda em seus relatos sobre a vertigem causada pela “sensação de torre” da epilepsia, iremos encontrar vestígios de seu drama momentos antes da execução. Os personagens Ivan Karamazov, Smerdiakov e o Príncipe Mischkin são relatos dessa “sensação de torre”, experimentada por Dostoievski.
A partir de então, Dostoievski vai oscilar em sua fé. Da descrença de sua juventude até o débito vital com a divindade, essa dualidade vai ser personalizada em vários de seus personagens, mas especialmente em Ivan Karamazov, que de certa forma, é uma faceta do escritor. Dostoievski vai conviver com toda espécie de criminosos da Rússia e, irá agradecer por ter a oportunidade de sofrer, pois seu cristianismo não fora aprendido nos catecismos da Igreja, mas da relação com os homens mais bestiais. Dizia Dostoievski: “Os impedidos de descer ao inferno nunca farão idéia do paraíso.”
[5] Anos depois, leremos essa mesma frase nas palavras de um certo personagem enigmático de Nietzsche: “Só onde há sepulturas é que há ressurreições.”
[6] Assim falava Zaratustra.
Já na Sibéria, Dostoievski escreve novamente ao seu irmão, bastante comovido, diz:
“Mikhail, não me sinto abatido, não perdi a coragem. Seja onde for, a vida é sempre a vida, a vida está dentro de nós e não fora de nós. Haverá seres humanos junto de mim, e ser um homem entre os homens e permanecer humano para sempre, não desesperar nem desistir, seja em que circunstâncias for, por mais dolorosas e miseráveis _ eis a razão de ser da vida. Assim o compreendi. Esta idéia penetrou-me na carne, no sangue. Sim, é verdade! A mente que concebera e vivera a mais elevada vida de artista e se acostumara às mais elevadas exigências do espírito – foi banida.”
[7]Essa renovação do espírito através do sofrimento, essa expurgação estará presente em personagens como Raskolnikov e Dmitri Karamazov, onde ambos são condenados a trabalhos forçados na Sibéria e aceitam a pena com devoção, pois só dessa maneira poderão limpar as maleficências e deficiências de seus caráteres. Do sofrimento na fortaleza Pedro-Paulo em Petersburgo surgira a esperança, que se o milagre de viver fosse concedido, quantas coisas grandiosas nosso escritor russo escreveria. Como muito bem sublinhou o crítico Stefan Zweig, Dostoievski é um prisioneiro emparedado das galés da literatura, sempre disposto a quitar sua dívida com os homens e com o espírito.
[8]