domingo, 8 de fevereiro de 2009

E o Carnaval já começou...

Depois de uma hibernação de mais de um mês, retomo minhas postagens aqui no blog para falar de um assunto que associa-se ao cotidiano de todos que moram na cidade maurícia, a folia de momo. Em italiano, folia significa loucura, o que não deixa de ser bastante justo. Ontem, o sábado quinze dias antes do carnaval oficial, aconteceu uma prévia de carnaval na avenida principal do bairro onde moro, o Engenho do Meio. Uma prévia daquelas bem populares, com trios elétricos tocando axé, brega e similares. Particularmente, eu não tinha o menor interesse de acompanhar tal evento, mas eis que o acaso... ah, o acaso.

Aqui em casa criamos dois canis domesticalis, Lilica e Bianca, esta última é um animal da raça pitbull. A pobre animal, por pertencer a uma raça tão mal comentada em nossa sociedade acaba pagando pelo mal juízo dos homens. Acordo que se um pitbull for criado sofrendo maus tratos e preso numa corrente, agressivo será. Mas, não é o caso da doce Bianca, que até brinca com minha sobrinha de 5 meses. Por ser um pitbull e ter fama de violenta, o cunhado do meu cunhado, que mora na rua onde o carnaval passaria, pediu que Bianca ficasse em sua casa para proteger de uma possível invasão dos foliões. Quando acordei no sábado, Bianca já não estava mais em casa, tinha ido cumprir sua missão de defender o patrimônio humano. O dia foi se passando e eu pouco me lembrava da nossa cadelinha. Até que a pândega proporcionada pela festa começou a chegar aos meus ouvidos. Então, minha mente fértil começou a imaginar cenas terríveis da qual Bianca seria a personagem principal. Os maloqueiros subindo no muro e atirando pedras nela, por ela ser um pitbull. Ou então, o barraqueiro jogando cerveja nela de longe, sem contar a imensa desordem que o som do trio elétrico não causaria aos seus ouvidos, muito mais sensíveis que os nossos. Antes que minha imaginação me enlouqecesse, parti para a casa do cunhado do meu cunhado para fazer companhia à cadela (os papéis se inverteram).

Ao me deparar com a rua, avistei uma série de jovens senhoras, vestidas em minúsculas indumentárias, coladíssimas ao corpo trepidante e simulando uma dança acasalamental. Minha rua que fica transvessal ao logradouro oficial da festa estava terminando e eis que já me encontrava no meio da multidão. Para as câmeras do helicóptero, eu era mais um na multidão, também era um folião. Cheguei à casa de Vágner (o cunhado do meu cunhado) e chamei pelo interfone a doméstica, senhora de religião protestante, muito assustada pelo carnaval e pelo pitbull ao redor da casa, jogou a chave para que eu pudesse entrar. Ao adentrar no lar, encontro Bianca extremamente nervosa, com o corpo todo trêmulo. Nunca tinha-a visto tão aterrorizada. Comecei a brincar com ela e a mesma foi se acalmando, mas sem relaxar um momento sequer. Não tinha como levar a cadela pra minha casa no meio da multidão e fiquei com pena de deixá-la sozinha naquele terror. Decidi que ia ficar na casa de Vágner até que o carnaval terminasse. Subi no muro da casa e lá de cima passei a acompanhar o baile assombroso de fazer inveja a qualquer freak show.

Como diria alguém que não me recordo (acho que Vinícius de Moraes), as feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental. Meus amigos, acho que alguém lá em cima passou uma vassoura e resolveu juntar toda a bizarrice nas ruas do Engenho do Meio na troça do bloco Barriga de Fora. Só joinha. Lá do alto, eu tentava observar o máximo de ações possíveis, desde a abrasada atuação policial ao tráfico de loló, as músicas, os camarotes improvisados, as danças e o burburinho sem fim das pessoas. Lá vem o primeiro trio elétrico, era a Frevioca, cantando sucessos dos carnavais antigos, músicas de Capiba, Nélson Ferreira, Edgard Morais. Entretanto, apenas poucos acompanhavam. Um clima quase familiar. Um pai com uma filha vestida de odalisca na cacunda fazia um passo cuidadoso. O sol das quatro da tarde tornava tudo agradável. Arrisquei um comentário qualquer com o vizinho do muro ao lado, até pra dizer que eu era parente de Vágner, pois percebi que ele estranhava minha presença no muro, na ausência do titular da casa.

Lá vem o segundo trio elétrico. Ao longe, a música era indecifrável, apenas as mãos em sintonia batiam palmas ao ar, uma massa se deslocava para um lado e para o outro e a balburdia era total. O trio se aproxima sem cordão de isolamento. Comecei a me preocupar com tantas pessoas bêbadas e alucinadas de loló. E se alguém perder o controle e cair embaixo do caminhão? Certamente o motorista não olharia. Que desgraça seria! O trio já estava quase na minha frente quando o cantor solta uma música que enlouquece a multidão e cujo refrão dizia apenas assim: "É no gegé, é no gegé... é no gegé." Não me perguntem o que é gegé que eu não sei, mas acho que todo mundo sabe e gosta, pois as mulheres enlouqueciam e os rapazes (quase todos de cabelo tingido de louro, me senti quase na Finlândia) faziam roda de funk e ai de quem não se defendesse. Na minha frente, uma cena bizarra se desenrolava, duas mulheres mui afeiçoadas uma a outra, faziam uma dança erótica. A indumentária da que estava à frente era quase nenhuma e seu corpo avantajado esforçava-se em pulular sua adiposidade enquanto sua parceira atrás osculava-a no pescoço. Um açougue à céu aberto de fazer inveja às memórias de Aluísio de Azevedo. Mais à frente o cantor manda parar a música. Então o mesmo pede ao motorista que adiante o trio elétrico e pede auxílio do bombeiro que um homem havia sido esfaqueado. Começa um corre-corre na multidão e o cantor pede que as pessoas se afastem para que a vítima pudesse respirar. O cantor se despede do rapaz agonizante desejando boa recuperação e diz que a festa não pode parar. Assim que o carro do bombeiro, que a muito custo chegara no local, recolhe o rapaz, a multidão volta a pular como se nada tivesse acontecido. A todo momento os policias carregavam pessoas que vendiam ou consumiam loló, arranjavam confusões ou roubavam os foliões. Na casa à frente, nenhum sinal de vida. Ou o dono se trancou em casa e tentou se isolar da fanfarra que se desenrolava lá fora ou abandonou seu lar em busca de paz. Outro carro se aproximava, dessa vez não era um trio elétrico e sim uma caminhoneta da polícia cheio de infratores em cima. Todos muito apertados, sentados um no colo do outro e um rapaz forte atrás alegando ao policial que não caberia na carroceria. O policial muito delicadamente sopapeia o mesmo obrigando-o a subir na caminhoneta e se aconchegar com os outros. Outro trio elétrico se aproxima cantando músicas de Alceu Valença e Zé Ramalho. Pensei: "Pôxa, menos mal." Mas, parece que os cantores dos trios sabiam que eu estava lá e iria escrever no blog sobre as bizarrices de uma tarde de carnaval no subúrbio do Recife e, resolveu parar o trio na minha frente. A cantora disse: "Pára o carro, motorista. Vocês agora vão dançar coladinhos." E começou a tocar brega por quase meia hora. Eu olhava pra dentro da casa e Bianca já exausta de tanto latir olhava pra mim pedindo pra tirá-la daquele tormento. Mas não havia como, não naquela hora ainda.

Os trios se foram, as pessoas enlouqueceram e retornavam pras suas casas. Talvez para brigarem com suas mães ou esposas, outros arranjavam namoradas, senão para a vida toda ao menos para o suficiente presente. Paredes molhadas de urina. Sujeira no chão. São quase sete da noite. Há mais de uma hora não passava nenhum trio mais, mas a rua ainda estava cheia, embora desse para passar sem esbarrar em ninguém. Disse à doméstica que estava indo embora e levando a cadela, pois a festa já havia acabado e com a porta trancada, mal nenhum haveria de ocorrer. Ela disse que tinha fé que nada de mal ocorreria. Compreendi seu medo e sua coragem. Sai com Bianca mui cuidadosamente pelo meio do povo que ainda fechava a rua. As pessoas se afastavam e se assombravam: "Olhem, um pitbull!" Cheguei na minha rua, entrei em casa e a pobre cadela sentiu-se, finalmente, feliz. Tive a sensação de ter vivido por dias naquelas três horas em que voyeurizei o carnaval do Barriga de Fora. Eu adoro o carnaval, mas ontem passei a entender o por quê da necessidade desta festa. É o local onde podemos expôr nossas bizarrices escondidas sem medo da repressão alheia, onde nosso lado animal aflora e nos banqueteamos de nossas imundícies e prazeres.

2 comentários:

Úrsulla disse...

E meu filho, para alguns, isso ai é o carnaval, e a maioria deles não só gostam, como passam o ano inteiro a espera dele...

Visualizador disse...

Para mim é o melhor carnaval de todos!

ah se não fosse essas esquisitices...

somos seres abençoados. verdadeiros cristões, sem isso ninguem aguenta 40 dias de jejum.