sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fogo

Título: Fogo

Autor: Odomiro Barreiro Fonseca Filho

Era uma terça-feira normal na cidade do Recife. Os estabelecimentos comerciais e burocráticos funcionavam a todo vapor. Os engarrafamentos no trânsito, os horários escolares e as obras da construção civil seguiam seu ritmo natural, corriqueiro. Numa rua do centro da cidade, um homem caminhava nervoso. Ele não atentava às pedras desajustadas na calçada, mas por imprimir um ritmo de caminhada cada vez mais veloz, atropelava o próprio desequilíbrio. Os infortúnios de sua vida tinham chegado a um estado de calamidade tão agravado que nesse dia resolvera sair de casa portando seu revólver calibre 38. Estava disposto a dar cabo de alguma coisa.

Este homem que aparentava seus trinta e cinco anos tinha sido abandonado pela esposa que, levara consigo os dois meninos do casal. Estava a sete anos trabalhando na empresa de abastecimento de água do Estado, um trabalho maçante e extenuante. Amanhecera de ressaca, tinha bebido uma garrafa de vodca de meia-qualidade na noite anterior, presente que um amigo que estudava russo havia dado no último natal, quando ainda vivia com a família, embora num estado de deterioração das faculdades morais do matrimônio. O homem acordara nessa terça-feira com uma tremenda dor de cabeça. Sorveu dois copos d’água gelada, vestiu a mesma roupa do dia anterior e chegaria muito atrasado ao trabalho. Não o preocupavam as possíveis represálias do chefe da seção, um Dr. Nogueira qualquer. Resolvera sair de casa portando seu revólver 38. Estava disposto a dar cabo de alguma coisa.

Não muito longe daquela rua do centro, dois jovens encontravam-se sentados embaixo de uma árvore, num banco de praça, aproveitando a formosa sombra que sobre eles se espraiava. Os jovens eram estudantes de uma universidade que ficava ali próximo de onde o nosso herói caminhava. Os mancebos, embriagados pelo fulgor juvenil, desatavam a rir de qualquer coisa, do formato de busto feminino numa árvore, dos desenhos multiformes que os galhos do pé de coração-de-nego faziam. Quando avistaram aquele homem do outro lado da calçada, tropeçando nas pedras desajustadas, a roupa desengomada, num contraste com o que sentiam os jovens rapazolas, passaram a observá-lo com maior curiosidade.

Ao trespassar a porta de casa, o homem carregava uma pasta na mão direita e o revólver na parte de trás da calça, por dentro da camisa que catingava o suor de ontem. Era tarde. Na verdade, eram 13:00 e ele ia pegar o segundo expediente. Sentia fome, mas não queria comer. O calor estava intolerável. Era mês de março, começo de março, e a cidade do Recife enfrentava uma onda de calor insuportável, até os ventos resolveram abandonar a cidade, deixando aos moradores apenas o mormaço como companhia. Mal deu quinze passos, o homem sentiu o bafo quente das ruas, quase ninguém se arriscava a andar sob o sol. Sua testa estava molhada de suor, sua face pálida por conta da ressaca, nem uma brisinha vinha ao seu socorro. Em sua cabeça, a imagem da mulher girava sem parar, desconfiava que ela iniciara um affair com um colega dos tempos de faculdade. Sentia vontade de acabar com tudo. Estava disposto a dar cabo de alguma coisa.

A confusão se apossava cada vez mais de seu espírito. A mulher beijando o colega da faculdade, as frases mecânicas que haveria de dizer na repartição, o embrulho no estômago, o calor, que calor miserável! Pensou em tomar uma coca-cola, mas não avistava nenhuma barraquinha ali perto da rua do Aragão, teria que andar uns duzentos metros até a Praça Maciel Pinheiro. Estava muito quente, sua camisa já estava empapada de suor. O fedor do dia anterior reaparecia. Cheirou o sovaco e não gostou do que sentiu. Deveria parar e fazer um lanche? Imaginou aqueles enroladinhos que se vendem nas cantinas sujas do centro e seu estômago embrulhou outra vez. Ah, maldita! Se outro cara estiver te comendo, mato os dois! Estava olhando pro chão, tinha ciência do calibre 38. Há poucos passos da Praça Maciel Pinheiro, parou. Sentiu uma confusão no espírito. Várias imagens circundavam-no. Vou dar cabo da minha vida, pensou. Apalpou o revólver. Não tinha certeza de muita coisa. Apenas do incômodo existencial, um buraco irremediável na alma. Tudo se apresentava sem saída. Mas, tinha medo de se precipitar. E se amanhã se sentisse menos indisposto? Era como o suicida que do alto do prédio, em sua confusão, olhava para baixo e ao se atirar do penhasco de concreto, num derradeiro pensamento, dizia para si próprio: meu Deus o que é que eu fiz?! Tinha lido essa história em algum lugar.

O homem se encontrava parado no meio da rua. Os jovens, com curiosidade, o observavam. Naquele calor infernal, um homem parado, todo suado, olhando para um bueiro no chão, apalpando as costas, distante do cotidiano que o circunda. De repente, os jovens observam o homem a retirar uma arma, negra, uma máquina de matar. Ele aponta para o seu rosto. Os jovens não se arriscam a se levantar, observam aquela cena rápida, inquietante. O homem fica a observar o cano da máquina. Aqueles rápidos segundos ganham proporções arrastadas, todo movimento é pausado. O homem aponta a arma para a lateral da testa, no meio da rua, naquele calor, ele é o centro do mundo. Tudo está em suspenso aguardando o momento definitivo em que seu corpo rígido desfalecerá sobre a rua de paralelepípedos cálidos. Alguém mais estaria presenciando aquela cena por uma janela? Na rua, ninguém se aventurava. Os rapazes na sombra. O silêncio da morte. De repente, num gesto difuso, retira a máquina de matar da cabeça e atira pra cima, em direção ao sol. Um barulho seco é ouvido na cidade.

O homem estava no meio da rua, com o braço esquerdo retesado para cima, o rosto apontando para o chão. Não tinha consciência do presente. Teria atentado contra si próprio? Sua vista enrubescia. Será o sangue jorrando pelos meus olhos, pensou por um instante. Olhava o dia, afogueado, deixara cair-se no chão. Caiu com as costas no paralelepípedo quente, a mão esquerda com o revólver, o olhar mirando o céu. E que céu! Vermelho como Roma nos sonhos de Nero. Tinha certeza que aquilo era a morte. O destino dos suicidas. O inferno era realmente vermelho. Mas, ele não tinha medo. Que espetáculo belo é a passagem para os subterrâneos do tormento. Era como na vida normal, com a diferença que a luz era rubra, o sol uma bola nitidamente vermelha, estendendo seus raios encarnados. Abriu um discreto sorriso. Percebeu que havia vida após a morte. Não sabia se era esse o fim que almejava. Sentiria as mesmas preocupações de antes?

Antes que pudesse esboçar um pensamento mais articulado sobre a morte, uma jovem senhora gritava pela rua: é o fim do mundo! Logo, as ruas se encheram de gente que saía dos escritórios, das lojas de móveis, dos guichês de bilhetes de passagem de ônibus. Uma algazarra pavorosa de perguntas desconexas. O céu tornara-se vermelho de repente. Um homem com uma bíblia embaixo do braço eleva-se no umbral da fonte d’água que fica na Praça Maciel Pinheiro e inicia a narrativa do livro do Apocalipse. Sua expressão facial adquire modos altaneiros, um transe, o momento mais esperado de sua vida, o discurso mais importante. Jovens moças saídas de uma escola pública invadiram uma loja de moda e carregaram o que puderam nos braços. O homem causador de tal embaraço saía atônito pelo meio da multidão. Os mancebos sentados no banco da praça permaneciam no mesmo local, perguntando-se se tudo aquilo era efeito da alucinação de suas mentes. Os aparelhos eletrônicos pararam de funcionar, assim como os telefones. Uma balbúrdia nunca vista. Homens tentavam ligar seus carros, sem sucesso. Todos corriam de um lado pro outro buscando respostas e a palavra que se ouvia era que o mundo estava se acabando. Um estudante interessado nessas revistas de ciências ocultas, dizia com precisão que um asteróide de fogo estava colidindo com a Terra. As moças perdiam as últimas fagulhas de pudor e se entregavam para o primeiro que aparecesse. O nosso herói encostou-se ao pastor e tentava dizer que ele tinha atirado no sol, mas o pastor sequer podia ouvir as vozes da multidão, inflava o peito e declamava as palavras sagradas. Alguém gritava que um tsunami invadiria a cidade a qualquer momento, pessoas corriam para os prédios altos, outros tentavam voltar para casa em disparada. Vidraças quebradas, tudo estava vermelho como se um óculos de papel celofane caísse sobre as retinas. Nosso herói perdido na multidão enlouquecida, tentava advertir aos cidadãos que ele tinha matado o sol. Pedia desculpas a todos. Ninguém o ouvia. Embriagado pelo fulgor do presente, correu de volta pra casa. Jogou a arma no bueiro. Amanhã alguém haveria de culpá-lo pela morte do sol. Pior se fosse Deus que não haveria de se esquecer de tamanha injúria. Aos prantos atravessou a porta de casa, cerrou as janelas, um som de gritos distantes o atormentava. O que os pacatos homens estariam fazendo no centro da cidade? O crepúsculo arroxeado consumia a urbe maurícia. Quando as trevas baixassem, quem seria por nós? Como estariam sua mulher e seus filhos? Nesse turbilhão de idéias, tomou consciência da fraqueza de sua razão. Chorava e amaldiçoava sua existência. Após longo período na escuridão de casa, encostou-se no sofá rasgado e dormiu. No outro dia, pela manhã, o sol levantou-se como habitualmente.

2 comentários:

Dodô disse...

Eu já tinha postado esse conto anteriormente, mas o retirei pra tentar participar de algum concurso. Mas, como desisti da idéia, repostei.

Camila S. disse...

Bem que me lembrei dele, muito bom.