terça-feira, 1 de setembro de 2009

Yelena Sagarova

Um certo dia, eu conheci uma mulher russa, chamava-se Yelena Sagarova. Era um mulher cinza. Uma prataria esquecida no porão. Isso foi pelos anos de 2002, se não me engano. Mas, antes de chegar na história dessa mulher, carece que outros personagens adentrem na história. Era aluno do terceiro, talvez quarto período de História da UFPE. No intervalo das aulas, os alunos versavam sobre os mais variados temas, desde o tradicional futebol, passando pelas discussões sobre a utilização do marxismo, uns falam mal, outros fazem a defesa de tal professor. Entre tantos colóquios, recordo-me de dois colegas de sala, Flávio e Felipe, que discutiam calorosamente sobre a obra de um tal russo, Dostoievski. Estava num dia de mau humor, não queria ficar conversando no corredor, baixei a cabeça e prestei atenção na conversação. No dia seguinte, na aula de espanhol, uma garota da qual, silenciosamente, me afeiçoava, falou que entre os próximos livros que gostaria de ler, estava o do citado escritor russo. Para ter assunto para conversar com a distinta e jovem dama, corri na biblioteca e peguei o romance autobiográfico, O Jogador, além de um segundo romance chamado Humilhados e Ofendidos.

Comecei a ler com voracidade, sem me ater aos detalhes, queria terminar para poder falar sobre a idéia central, começar o segundo e ter ainda mais assunto para minha sonhada palestra com a estudante de espanhol. O livro O Jogador não deixara uma boa impressão em meu espírito. Pelo que ouvia falar de Dostoiévski, achava que em suas páginas haverias coisas muito mais surpreendentes que um simples relato de um viciado na roleta. Então, em nome à afeição que, calado, dedicava a estudante de espanhol, resolvi ler os Humilhados e Ofendidos. Nesse livro, Dostoievski me fisgou. A morte do cachorro Azorka despertou tamanha comoção em mim que ainda agora, ao escrever, posso reviver a torturante leitura feita dentro do ônibus de Engenho do Meio no horário das 13:00h.

Até então, as leituras eram feitas por prazer, sem uma análise mais aprofundada, sem buscar relações e significados com outros textos. Mas, aquele exótico mundo passava a fazer parte do meu cotidiano: ispravnnik, staretz, samovar, pomechtchik. Um outro amigo, Zé Mário, também me servia de espelho. Seus avanços na língua alemã tornavam possível que ele lesse Göethe e Nietzsche no original. Aquilo muito me impressionava. Não sei se por um pouco de excentricidade ou dedicação à obra de Dostoievski, resolvi que procuraria um professor de russo na cidade, e, mesmo que fosse caro o orçamento das aulas, faria todo esforço para aprender. O problema que em lugar algum era possível. Não havia curso de russo, escola de russo, nem professor particular. Minha empolgação inicial teve que ser freada. Passei alguns meses, talvez tenha completado um ano, e nada acontecia. Até que uma noite, assistindo uma matéria no NETV sobre as presas de outros países que se encontravam na colônia penal feminina do Bom Pastor, percebi uma mulher russa, falando um bom português, ela falava das dificuldades de adaptação e tal. Pensei comigo, vou ter aulas de russo com essa presidiária! Ela estará prestando um serviço comunitário, ocupando sua mente e o governo vai até louvar-me pela idéia. Já pensaram, as encarceiradas estrangeiras ensinando línguas para a comunidade carente?

Noi outro dia, estava na porta do Bom Pastor, dizendo-me estudante e pesquisador de história da Rússia e que gostaria de entrevistar a presa, saber como ela avaliava a transição do socialismo pro capitalismo. A assistente social ouviu-me com desdém, mas disse que se eu levasse um documento assinado pelo secretário do meu curso, eu poderia fazer a entrevista. Corri na sala do Professor Luciano Cerqueira e dois dias depois, estava na colônia penal de novo, dessa vez com a papelada. Mas, não foi possível. Estavam fazendo "pente-fino" nas celas e ninguém podia receber visitas. Me mandaram no outro dia útil, que seria na segunda-feira. Apenas neste dia pude conhecer a russa que deu entrevista na TV.

Ela era muito tímida, a roupa do presídio, suja, tornavam-na cinza, como já disse antes. O azul dos seus olhos era nublado também. Me respondeu muito educadamente. Pra não contrariar a Assistente Social que estava ao meu lado, fiz as perguntas sobre a transição do socialismo para o capitalismo. Ela me respondia que as coisas pouco tinham mudado e que o país continuava pobre. Pedi que me falasse sobre a Rússia, as regiões que ela conhecia. Então, ela me contou que tinha nascido numa cidade da Sibéria, mas que desde a morte do pai quando ela tinha 12 anos, foi morar com a mãe na cidade de Odessa, Ucrânia. Continuamos a falar sobre a Rússia, até que meus 40 minutos concedidos, tinham terminado. Pedi à assistente social que deixasse-a lecionar russo para mim. Ela disse que eu poderia visitar, mas as aulas não poderiam ser formais: com quadro, horário definido e etc. Além do mais, ela já estava há 2 anos e 8 meses presa e seria expulsa do país dentro de mais 3 meses.

Na segunda entrevista, a assistente social deixou-nos mais livre e podemos conversar sobre temas mais variados. Tomei a liberdade de perguntar o motivo de sua prisão. Então, Yelena começou a me contar sua história desde a infância. Ela tinha engravidado aos 15 anos e, então, com 24 anos, ela tinha três filhas. Quando ele me disse sua idade me assustei. Aquele rosto de 24 anos carregava sofrimentos e amarguras que estavam estampados no luto que carregava consigo. Parecia ser mais velha. Perguntei como tinha sido presa. Ela contou-me que receberia uma boa grana para fazer um traslado entre o Rio de Janeiro e Lisboa, carregando uma boa quantidade de coca, que chegava da Bolivia e que através de Portugal se espalhava pela Europa. Ela fazia o papel de mula. Passaria pelos aeroportos do Rio e Recife, e em Lisboa estaria livre e com a recompensa. Tudo certo no aeroporto do Rio, mas no de Recife... E se passaram 2 anos e 8 meses. Com raras notícias das filhas, a caçula tinha sido deixada com menos de 1 ano. Convivendo com a falta de privacidade. Dostoiévski, inclusive, reclamava que a pior coisa de se estar preso é a falta de privacidade, em momento algum do dia você está sozinho. Um tormento contínuo. Perguntei a Yelena se ela tinha vontade de voltar ao Brasil, pois o país é bonito em riquezas naturais e, infelizmente, ela só conhecia um triste pedaço de chão. Ela disse que não, muito abatida. Pela janela, pelo pátio, podia ver as árvores frondosas, o clima quente, a brisa suave, o grito das crianças, a vida que segue. Mas, que fôra reservado para ela, apenas o confinamento e que as lembranças que guardaria do Brasil, seriam dos tempos de privação. Da saudade das três filhas que cresciam distante da Mama, de andar em liberdade pela rua, das montanhas distantes e do Mar Negro. Perguntei o que iria fazer quando voltasse pra Ucrânia e ela disse que iria costurar junto com a mãe, pois com as freiras do convento que fica vizinho à colônia penal, ela tinha aprendido a costurar diversos tipos de modelos, que se não fossem da moda comercial, poderiam servir para forrar mesas e camas.

Depois de quatro entrevistas, onde ela me ensinou algumas palavras e um pouco do alfabeto, fui barrado de entrar nas outras cinco vezes que tentei fazer contato. Desisti. Meses depois, arranjei uma professora particular, a competentíssima Larisa Shevtchenko, com quem estudei por quatro anos e desejo regressar, tão breve seja possível pagar as aulas. Yelena Sagarova voltou para a Rússia, ficou a lembrança de sua palidez e do seu testemunho de vida. Quando contava sua história, muitas pessoas diziam que ela poderia estar mentindo para aliviar a pena, ou coisa parecida. Mas, sei que não. Ela carregava uma dor de mãe consigo, um arrependimento sem igual, uma força que nos faz lembrar certos personagens da literatura russa, cujas intempéries da vida só fortalecem sua personalidade.

3 comentários:

Jefferson Góes disse...

Uau! Que experiência!! Gostei muito do texto. Um abraço, amigo.

Úrsulla disse...

poxa, que história bonita, não conhecia esse pediconho da sua vida.
beijão migo!
e viva a Dostoievski!

Olivino disse...

Cara confesso que até eu gostaria de ter conhecido Yelena, ainda que acinzentada, mas que certamente tinha alguma nobreza em sua alma. Não sei se foi voce quem a desenhou assim em suas descrições, mas fiquei tocado. Ainda mais ao som de Clint Mansell seu texto tornou-se enredo de filme na minha imaginação.
Grato por essa manhã prazerosa, agora sou eu quem vai correr atras de Dostoievski...