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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pro Curar

“Digno do céu me sentia quando os terrenos apetites dominava. Mas, quando não o conseguia, um inefável prazer de mim se apoderava.” Provérbio alemão do século XVIII.

A noite de domingo é um dos momentos mais sublimes da semana. Nem de longe é a mais feliz. Ao contrário, muitas vezes está impregnada de tal melancolia que preenche todo o ar de um saudosismo inconcebível. Assim, tenho percebido nas retrospectivas dos cotidianos semanais, os solavancos de minha alma, a única pela qual posso responder.

Quando o fim de semana se aproxima, de alguma maneira o espírito se assanha, parece estar à procura de um desejo perdido. É a vontade pela vontade, sem nenhuma razão plausível. O linguajar torna-se arredio, esquivo, rebelde. E, no meu caso, raríssimas são as vezes em que consigo dizer “não” ao canto das sereias. Nesses dias, é o palavrão cuspido com vontade no estádio de futebol, o galanteio barato, a selvagem bebedeira, a imundície das ruas noturnas do centro, a busca pela saciedade do prazer mais vil ou o simples contemplar das vicissitudes alheias.

Mas, dias de erupção são minorias durante a semana. Em geral, de domingo a quinta, empenho-me em levar uma vida próxima da decência, se assim posso me exprimir. É o treino dedicado de artes marciais, o estudo compenetrado no místico e turbulento universo da literatura russa, a busca pelas paisagens de fronteira. E nunca posso me queixar da solidão nesse apartamento, estou sempre às voltas com meus amigos escritores, cineastas e músicos.

Bem, muitos de vocês devem se perguntar: o que danado este homem está querendo dizer com essas palavras? Que sua semana oscila?! Oh, esse não é um privilégio exclusivo seu, meu amigo! Acorde! Não percebes o desenfreado movimento humano ao teu redor?!

Na verdade, se recorro ao desabafo, é que estou farto, empanturrado de coisas dentro de mim, clamando por se livrarem da minha companhia, mas que eu não as liberto. Não, não vou falar do desapego da vida cotidiana, das relações pós-modernas de afetividade. Eu já desisti dessa choradeira. Mas, da minha dissertação mesmo! Ao lado desse computador, mais de cinqüenta páginas de citações, divididas em capítulos. Vários esqueletos esperando pelo preenchimento de suas formas. Há uma semana tento começar a escrever. Escuto o conselho dos amigos: “Escreva, mesmo que fique ruim, depois você conserta.” Tá, vou tentar. Mas, fica sempre muito ruim. Acostumei-me a tal ponto em fichar os textos que não consigo desenvolver o pensamento. É frase e ponto.

“O surgimento da cidade na História aparece junto com a necessidade de proteção. Uma defesa contra as forças da natureza, contra grupos de inimigos, uma resposta à necessidade de sobrevivência. Para viver em conjunto, o homem antigo teve que criar regras de convivência e de organização militar. Dentro de uma escala macro, a cidade era sua casa...”

Assim, sem conseguir fazer direito, estou diante da necessidade primordial de produzir, perseguido pelo tempo que sempre é mais veloz que nossa vontade, aprisionado pelo sentimento de fraqueza perante o desejo, resta-me continuar a tentar, procurar. Ainda são 23:27.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Semana Braba

Hoje completa uma semana que uma seqüência de fatos tem me tirado o juízo. “Esse azar sobre você como uma nuvem que não chove.” Na última quinta dirigia-me para a Ilha de Itamaracá intencionando divertir-me com uma rapaziada que alugou uma bela casa na praia de Enseada dos Golfinhos. Tudo perfeito, carro cheio: ventilador, colchonete, roupas de banho, amig@s. Mas, quando passava por Igarassu, meu fusquinha Jesus resolveu me abandonar. Na realidade, sou o culpado de tudo, pois esqueci de colocar óleo no motor. Tudo bem, já tenho me penitenciado todas as horas por essa idiotice. Resta-me esperar um milagre e que Jesus não tenha batido o motor. Ainda preciso fazer o reboque de Igarassu até a casa do mecânico Zezinho, homem de confiança de toda minha família há uns trinta anos. Ele me deu uma esperança que talvez resolva. Mas, falta-me a grana pra rebocar o abençoado do Fusca.

Não satisfeito com esse imbróglio em quatro rodas, minha cadela Lilica faleceu após quase 12 anos de convivência conosco. Uma morte triste e lenta. Tão lenta que tivemos que acelerar pra evitar o sofrimento da nossa amiga. Acredito que ela estava com algum câncer, porque muito rapidamente a pobre cadela definhou. Em cerca de três meses, ela tornou-se muito magra, quase que só com os ossos. Já não escutava nosso chamado, teimava com qualquer coisa. Ela nunca foi uma cadela obediente. Desde a primeira semana em que chegou aqui em casa no ano de 1999, mordia todo mundo com seus dois meses de vida. Minha mãe decretou que ela deveria voltar pra casa dos donos. Levamos, mas na primeira noite, sentimos falta dos seus dentes em nossos calcanhares. Fomos buscá-la no outro dia. Ela fazia companhia a todos. Entendia a linguagem dos homens. Quando a gente dizia a palavra “banho”, ela se emburacava embaixo de alguma cama e mordia quem se aproximasse. Eu fui vítima de suas mordidas umas boas cinco vezes. Lilica era uma vira-lata muito bonita. Seu pai era um russkie siberiano e sua mãe uma doberman. Sua vida de exclusividade canica ficou ameaçada com a chegada de Bianca, uma pitbull que hoje tem quase quatro anos. Ao contrário do que se possa imaginar a maioria das pessoas pela propaganda negativa que a televisão faz contra essa pobre raça canina, ela é mansa. Sempre foi criada solta, brinca com minha sobrinha de dois anos e é extremamente obediente, muito mais do que a recém-falecida Lilica.

Ontem, Lilica amanheceu muito debilitada. Não conseguia se levantar. Minha mãe colocou um pires com leite. Ela bebeu e vomitou. Seus olhos sempre tão espertos, estavam longe, pouco se mexiam. Sua respiração era lenta. Chovia e ela não saia da garoa. Uma situação de cortar qualquer coração. Resolvemos que seria melhor sacrificar a pobre cadela. Fui chamar a veterinária. Ela disse que chegaria em meia hora na nossa casa. Minha irmã começou a chorar. Minha mãe disse que ia embora pra não ver. Eu fiquei olhando pra ela. Deitada no chão. Ela não tinha consciência que aquela era sua última meia hora de vida. Independente da “vontade superior”, nós estávamos delimitando sua vida e sua morte. Aquilo me constrangia deveras. Pensava que poderia ligar pra doutora e cancelar aquele ato fúnebre de caridade. Talvez ela se recuperasse e voltasse a engordar e ter alegria. Trancamos a pitbull no quintal pra que ela não presenciasse o óbito de sua amiga cotidiana. A doutora chegou. Muito educada, tratou de me explicar como seria todo o processo. Reconheceu Lilica. Disse: “Ah, eu me lembro dela lá no consultório!” Lilica nunca teve problema de saúde, era um vira-lata legítimo! Deve ter ido com minha irmã tomar banho e cortar o pêlo. A doutora pegou na sua pata, ela deixou sem resistência. Aplicou a injeção com anestésico. Ela soltou um grito uivado. Levantou a cabeça. Parecia que estava percebendo o que estávamos fazendo. Que estávamos tirando sua vida. Olhava penosamente para mim, à medida que ia descansando sua cabeça no chão, revirou o corpo pela última vez. Naquela manhã, era a primeira vez que a via mudar de posição. A doutora aplicou a segunda injeção com o veneno. Ela tentou esboçar uma reação. Esticou-se, abriu o focinho e esticou a língua, urinou-se deitada no chão. Seus olhos foram ficando cada vez mais distantes. Naquele momento, pensei nos dias em que estivemos juntos. Nas madrugadas em que eu abria a porta do meu apartamento, sentava-me na escada e ficava a olhar para o céu. Contava-os aviões que chegavam. Enquanto um voava sobre minha casa, outro já se avistava no horizonte, pequenino, como uma estrela cintilante que se aproxima. E Lilica ficava ao meu lado, sentada, certamente a pensar no universo que compõe seu mundo canino. Agora, ela se estirava pela última vez, naquele chão molhado de manhã chuvosa, garoa triste que acompanhou seu passamento. Já não respirava nem esboçava sinal de vida. Morreu com os olhos abertos, olhando pra longe. O que se passava em seu pequenino cérebro naqueles vinte segundos em que acompanhou sua despedida da vida. Via sua vida se esvaindo e ficando apenas aquele físico preto, os olhos abertos. Minha irmã gritava de tanto chorar. O homem da carroça pegou-a e colocou no saco. Prometeu-nos que iria enterrá-la. Pagamos ao homem e a doutora. Ficou um espaço a menos em casa. Normalmente, a vida de um animal tem menos valor do que a de um ser humano. Aliás, que valor o resto da natureza tem para nós?! Saí pra passear com a outra cadela, Bianca, que até agora está triste e chorona. Na minha cabeça, tomei a melhor atitude em poupar seu sofrimento, mas desde ontem, a luta da cadela, mesmo naquelas condições fragilizadas, pela vida me comoveu. Ela parecia querer sugar um resto de alguma coisa que talvez só ela soubesse que existia.

Passei todo o dia de ontem numa tristeza medonha. Pra completar, esse computador em que escrevo, não satisfeito com os problemas que me assolam, resolveu parar de funcionar. Meu amigo Juca (quem precisa consertar computador ligue para 81-8785 9785) esteve aqui, mas me avisou que meu HD está querendo morrer (dessa vez não vou sacrificá-lo). Preciso de um novo, de fazer logo um backup deste. Foda! Mais um problema. Enquanto escrevo essa postagem, meu computador já desligou sozinho uma vez. Só me falta essa! Já não me bastasse os débitos de dinheiro emprestado que pego com amigos, meu carro lá em Igarassu necessitando de reboque, a falta de dinheiro pra recarregar o celular, a internet atrasada onde fico suplicando aos funcionários do provedor que esperem mais uma semana, e minha bolsa que sairá semana que vem, findará tão breve o dinheiro caia na minha mão. A dissertação... prefiro nem comentar! Estou com centenas de anotações e citações, mas que não consigo ter a mesma desenvoltura que tenho pra escrever essa postagem, onde as palavras vomitam espontaneamente. Sempre coloco um imenso peso na primeira fase, de maneira que ela ainda não saiu. Enfim, estou prestes a enviar meu ceticismo para as cucuias e ir num terreiro forte pra tirar essa urucubaca. Por hoje é só. Espero que em breve possa aparecer por aqui com notícias mais consoladoras e um mínimo de instabilidade. Durante muito tempo, estive a procura de uma namorada, achando que a estabilidade amorosa me faria bem. Mas, calejado como estou, o melhor é ficar sozinho, deixando para a aleatoriedade da vida, os prazeres momentâneos. Nada de eterno! Adeus!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Uma Covarde Melancolia

Findou o filme, 500 Days of Summer, noutros tempos estaria com a cabeça enterrada no sofá. Mas, desta vez não. Com uma covarde melancolia associou o filme ao seu passado recente. Poderia contar seu drama amoroso com outro título, pensou por um instante, 180 Dias de L. Abriu a janela, uma brisa gostosa soprava. Quase meia-noite. O silêncio era tamanho que podia ouvir os carros passando pela rodovia interestadual. Caminhoneiros cruzavam aquelas estradas, pensava. Uma vida solitária na maior parte do tempo. A noite como companheira, o orvalho no teto de ferro, o canavial ao redor. Em seu romantismo, a vida de caminhoneiro não lhe parecia de todo ruim. A rara brisa soprava na janela. Desacostumado às carícias climáticas, fechou-a, após constatar o sepulcral silêncio vindo do lado de fora. Todos viajaram. A cidade estava deserta. Imaginou que naquelas condições, um passeio noturno o faria bem.

A lua estava minguando, mas ainda estava grande, prateada. Era a lua que ele mais gostava. Desde a adolescência escutava histórias sobre as paixões causadas pela lua cheia. E quantas vezes não saiu de casa na esperança de encontrar algo especial na noite de lua cheia e não acontecia nada. Por isso, a lua que minguava lhe interessava mais, era despretensiosa. Ela iluminava a frente do carro enquanto dirigia. No rádio, ele repetia inúmeras vezes a música “There’s a light that never goes out” dos Smiths. A mesma que a moça do filme cantarolava. Há algum tempo ele não ouvia Smiths! O filme, a lua minguando, a rua vazia. O sinal de trânsito fechado. Olhava as calçadas sem ninguém. A última vez que gostou de alguém foi de uma moça estrangeira. Ela se fora há um mês. Olhava aquelas ruas vazias. Achou ridículo viver ali. O que aquele lugar significava finalmente? Ela passou sete meses ali, era o suficiente. Mas ele, já ia completar trinta anos.

Não, tenha paciência por favor! Isso é culpa dessa dose de melancolia que derramaram, em excesso, no teu sangue. Isso passa. Comprou uma cerveja no posto. A polícia não estaria na rua naquele dia para vigiar os motoristas que bebem. Ninguém estava na rua. Desejou boa noite ao homem que trabalhava no caixa. O homem respondeu pelo ofício. Uma garoa caía. Dirigia sozinho. O refrão da música dizia: “And if a double-decker bus crashes into us. To die by your side is such a heavenly way to die.” Sorriu ao imaginar que se realmente colidisse com um ônibus, seria a solidão sua prazerosa parceira na viagem pro outro mundo.

sábado, 27 de março de 2010

A Cidade Morreu De...

Sábado a noite e troquei a mesmice noturna recifense pelo livro de Michel Serres, Hominiscências, e com absoluta certeza tomei a atitude mais correta! Logo no começo ele vai falar sobre o surgimento das cidades na antiguidade e que, inicialmente, "as metrópoles começaram como necrópoles". Ou seja, as casas eram locais onde se cultivava a memória dos ancestrais mortos, inclusive as relíquias. Mais adiante, ele faz uma análise que as civilizações, como os indivíduos, morrem de maneira incerta e imprevisível. Deste modo, comecei a pensar em como seriam as mortes das cidades que me vieram à cabeça. Irremediavelmente, comecei a rir das possibilidades. Permitam-me esta galhofice:

São Paulo morreu intoxicada
Nova Iorque num acidente aéreo
São Petersburgo morreu afogada
Veneza morreu de cirrose
Rio de Janeiro morreu numa cirurgia plástica
Paris levou um choque fatal
Bagdad tomou chumbo quente sem parar
Hamburgo foi esmagada por um container
Tóquio se jogou de um prédio
Jerusalém ficou velhinha e subiu aos céus
Pequim, de claustrofobia no elevador
Amsterdan, de overdose
E Recife morreu de gonorréia.

Sei que tem muitas cidades com características e estigmas preconceituosos. Quem quiser me ajudar nessa brincadeira...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Um Cochilo Acordado ou Romantismo Tardio

Existe uma cadeira de balanço no meu quarto. Ela é cor de vinho tinto. Fica próxima a janela que quase sempre está fechada. Ao redor, dois ou três livros. Minha cama do lado oposto a janela. Uma geladeira branca na frente. Quase nada me desvia a atenção. O chão às vezes fica sujo, empoeirado. Eu gosto. A música que vem da sala está em baixo volume. Um acorde de violino acompanhado do piano. Nick Cave e Warren Ellis. Deixo-me pender para trás e observo o teto. Penso que poderia estar num lugar longínquo nesse momento. Talvez em Ashgabat. Tenho às mãos um conto de Górki. “Ah! Viver sem que nada mude à volta da gente, que tormento amargo! Se uma tal monotonia não chega a matar a alma humana, que vida dolorosa ela lhe reserva." Novamente penso no vasto mundo. Decido que preciso fazer uma viagem.

Ponho-me a organizar uma empreitada turística. Caneta e papel. Dinheiro emprestado ao banco. Vou vender o fusca 78. Talvez retire o dinheiro das passagens e sobre alguma coisa. Não, só vou vendê-lo quando estiver com a data da viagem marcada. Tudo bem, ele me renderá quase três mil reais. Acredito que com dez mil reais posso passar dois meses em algum lugar como estudante. Sem luxo. Destino? Acho que deve ser São Petersburgo. Sim, não resta dúvidas. Estou pesquisando sobre esta cidade e já me sinto íntimo dela. Lá estou eu. Numa peliça espessa, exposto aos maus tratos do vento cortante de novembro. A observar dois homens no canal de Fontanka. Talvez seja apenas o Goliádkin. Mas, estando cá em Petersburgo, por que não visitar a antiga Courlândia. As noites brancas em Múrmansk. Descer para Novgorod. Se estou em Novgorod, atravesso o Lago Ilmen e vou para Staraia Russa, onde Dostoiévski se inspirou para escrever a saga dos Karamazov. Ah, e quantas aldeiazinhas estarão pelo caminho, jardins de cerejeira, bosques infinitos. Na porteira de uma grande propriedade eu vejo Catarina Tcherbatskaia passeando com seu pequeno rebento. Não me atrevo a interromper seu passo. Sou como o fantasma do Hermitage, apenas observo e teço comentários. Breves. Não quero tomar vosso tempo com divagações. Mas, estando já em Dorovoie, faltam cem quilômetros pra Moscou! Sim, preciso visitar todos esses lugares. Terei dois meses para tal e pouco dinheiro. A viagem para a Rússia é fundamental. Dois meses me fariam avançar imensamente em meus estudos da língua.

Levanto a cabeça. Olho ao redor, um camundongo na jaula. Percebo que é inútil. Abandono as contas. Acho os sonhos ridículos. Lembro-me da frase de Górki. A Rússia que me cativa não existe há cem anos. Anna Akhmátova passou a vida travando esse duelo moral com sua identidade nacional. A poetisa recebe visitas em Tsarskoie Seló. Não sou eu um daqueles jovens estudantes? A velha escritora se aproxima, sua franja na testa, seus olhos semicerrados. Um beijo de despedida, único, inesquecível. Alguma coisa nasce do silêncio. Abro a janela, a rua está calada como acontece em todas as noites de segunda. Sento-me na cadeira de balanço cor de vinho tinto. A cabeça está cansada. Um emaranhado de imagens. Adormeço. Não desejo sonhar. Mas, como controlar esse desejo involuntário? No sonho, nem nós mesmos somos capazes de nos encontrar. De alguma forma, tudo está mudado.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Retrospectiva 2009

Dois mil e nove está dando os últimos suspiros. Suspiros desacalentados. Pra mim, um ano complicado, prefiro imaginar que o futuro será menos arredio. Numa noite de domingo, um sujeito ressacado, sozinho por opção ou pela falta da mesma, tenta fazer um balanço de um período cronológico que se encerra. Na esquina, o taxista que trabalhou a semana toda, lava seu táxi com o som nas alturas: "Rimas de vento e de vela, vida que vem e que vai, a solidão que fica e entra me arrebentando contra o cais." Dá uma vontade irreprimível de chorar. Não que a música tenha tamanho poder de desmoronamento emocional, mas é porque a vida no domingo de noite, é triste mesmo. A rua vazia, apenas o taxista, um avião que chega não sei de onde, o pensamento como um radar tenta buscar uma idéia perdida, o tempo que inevitavelmente segue vagarosamente castigando: "a primeira hora de vossa vida é uma hora a menos que tereis para viver." Sêneca.

Todo esse lúgubre cenário me inspirou (ou não) a pensar o ano de 2009. Foi um ano de altos e baixos, como todos os outros anos, como toda a vida de qualquer um. Palavras cheias de mistérios são aquelas que os adivinhos nos emitem. Sempre que eu conhecia alguém, normalmente uma garota, e dizia que era do signo de áries, as reações eram as mais imprevisíveis. Muitas me deixavam falando sozinho, interjeitavam: "xiii, tu és problemático!" Ora bolas, por causa de um signo! Isso me deixava intrigado, à medida que ia me afastando de toda possibilidade de adivinhação do futuro. Quando trabalhei no Programa Parceria nos Morros da Prefeitura do Recife, durante os espaçosos momentos de ociosidade, lia o horóscopo do dia anterior para ver se batia. Esses horóscopos falam do futuro com esperança: Ano que vem, se você se abrir, um amor poderá surgir. Nos negócios, primeiro cautela, depois audácia. Me lembra a cartomante de Esaú e Jacó, livro de Machado de Assis, "coisas futuras, coisas futuras". Mas, até que tive uma surpresa. Como nasci na noite do dia 20 de abril, nunca sabia ao certo se meu signo era touro ou áries. Essa semana, resolvi consultar e aproveitei para fazer um tal de mapa astral (Eita, Dodô tá fudido mesmo!) e para minha surpresa, muitas coisas me retrataram com precisão. Eu me vi nessa análise:

"Sua excessiva generosidade combinada com a sua natureza superemotiva causam-lhe numerosos desapontamentos sociais e prejuízos financeiros. Você também é bastante parcial, imprudente, inconstante e tende a viajar e a comer em demasia. Você é muito carente emocional e sentimentalmente. Sua melancolia e pessimismo fazem com que os outros acabem por evitar-lhe. Sua timidez e falta de confiança em si mesmo, dificultam suas relações intimas com as pessoas do sexo oposto. Ë preciso corrigir esta tendência através de exercícios que aumentem a confiança e a auto-estima. Você necessita muito de amar e de ser amado. O amor e a beleza são muito importantes em sua vida e poristo deve fazer uso de seus talentos artísticos. Você é romântico e aprecia as qualidades femininas e masculinas em termos tradicionais."

Tanta preocupação com o futuro e o passado! Desde Epicuro já sabemos que não vale a pena confiar tamanha carga nessas potências invisíveis. Mas, ao menos sobre o passado posso tecer certos comentários. Uma análise certamente embasada nessa momento em que escrevo, influenciado pelo disco de Jessé que o taxista está escutando, pela memória do que poderia ter sido, pelo inquieto silêncio da rua. Se 2009 teve pontos positivos, o mais importante, sem dúvida, foram as aulas do mestrado. Tive contato com textos que me marcaram profundamente, todas as disciplinas que cursei me trouxeram coisas novas e me deixaram excelentes impressões. Não estou aqui para jogar confete em professor, até evito citá-los para não parecer puxassaquismo Além do mais, eles não passam por aqui. Mas, ter conhecido professores como Anco Márcio, Roland Walther, Lourival Holanda, os excelentes textos da professora Ermelinda, salvaram o ano de uma imagem negativa, de fato.

Financeiramente, foi um ano ruim, mas que no final, deu pra respirar um pouco. Fiz três viagens para longe: Belém em janeiro (http://ceusemfronteiras.blogspot.com/2009/02/forum-social-mundial-um-outro-mundo-e.html) ; Rio de Janeiro em Julho ( http://ceusemfronteiras.blogspot.com/2009/07/uma-viagem-ao-rio-de-janeiro.html ) ; e uma para São Paulo recentemente em dezembro. Fiz novos amigos, como Karuna e Bebeto, entre outros, me afastei de alguns. Coisas da vida mesmo. Me apaixonei duas vezes. Continuo sozinho. Está na hora de 2009 acabar mesmo, seus altos e baixos já açoitaram demais minha carne. Se os astros são capazes de mudar alguma coisa pela simples mudança de um número ou pela chegada de uma nova estação, estou pronto para enfrentar, e que venha o melhor!

Desejo que o futuro seja melhor para todos nós. Ano que vem, terei que escrever uma dissertação e espero que o ano seja mais estável, ao menos no campo das paixões. Que a CAPES (ou qualquer outro fundo financiador) pague minha bolsa direitinho, que os amigos me compreendam e vice-versa, que o blog continue, que todos tenham saúde, que o Náutico seja campeão e volte para a primeira divisão. Beijo no coração!

p.s.: Vou deixar as três postagens que eu mais gostei de ter escrevido em 2009.




Esqueci de falar do mundo... o que é isso mesmo?!
Bom 2010!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Meu Presente de Natal


Amigos queridos, vocês sabem, amizade não tem preço. O natal está
aí e todos estão a ganhar presentes e a confraternizar. Pois bem, humildemente peço a algum Papai Noel desse Brasil, minha simplória e ordinária diversão. Se alguém estiver disposto a fazer a doação, me mande uma mensagem que eu retorno. Abaixo, maiores detalhes do presente e onde é possível comprá-lo. Agradecidamente,
Odomiro Fonseca (Dodô)




Uma réplica perfeita da Moscou de 1917 está sendo vendida na Rússia por US$ 3 milhões. A cidade em miniatura foi feita em 1977, para marcar os 60 anos da revolução Bolchevique, e está exposta na capital desde então.

O responsável pela construção da maquete foi o artista Efim Deshalyt, que comandou uma equipe de 300 pessoas que trabalharam na construção da cidade de cerca de 38 metros quadrados.

No prédio onde a detalhada maquete está exposta, há luzes especiais para criar efeito de dia e de noite sobre a pequena cidade.

Todas as janelas, tanto das casas quanto a dos barcos, têm luzes que podem ser acesas ao anoitecer.


A exibição vem recebendo menos visitantes e não arrecada dinheiro suficiente nem para pagar os custos de eletricidade, que vêm aumentando de preço. Por isso, a réplica histórica foi colocada à venda.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Morreu na Ucrânia o DJ Portanov

Na madrugada desta terça-feira, horário brasileiro, manhã fria na cidade de Odessa, sul da Ucrânia, foi encontrado em sua residência, desacordado, o famoso DJ ucraniano Yaroslav Sviatopolich Portanov, 30 anos, natural da mesma cidade ucraniana. Foi levado ao hospital, mas já na ambulância foi constatada sua morte decorrente de uma parada cardíaca. Os primeiros laudos médicos apontam para uma forte intoxicação que teria levado o DJ a desvanecer e, posteriormente, ao óbito. Amigos mais próximos contam que Portanov voltou muito abatido da última turnê na América do Sul, culminando com uma apresentação no Brasil em que chegou a ser ofendido pelo público. Além disso, uma paixão mal resolvida com uma garota alemã, teriam levado o artista ao fundo do poço emocional, internando-se por intervalos cada vez mais longos em sua residência (foto acima) e aumentando cada vez mais as dosagens de substâncias entorpecentes.

Após a divulgação da morte do DJ Portanov, milhares de pessoas foram prestar solidariedade à família, bem como levaram cartazes com dizeres do tipo: "Portanov eterno", ou ainda, "O show não pode parar." Uma multidão promete acompanhar as exéquias no cemetério Beresina, na cidade portuária. Portanov era famoso pela ecleticidade, variando seu estilo musical desde a música eletrônica, passando pela tendência cigana, ritmos latinos e, inclusive, música erudita. Na penúltima passagem pelo Brasil, em setembro, o artista organizou uma festa onde a alternância entre música eletrônica e erudita, ganhou merecido destaque da imprensa local, numa combinação explosiva que envolvia o Réquiem alemão de Johannes Brahms com freneticidade do DJ sérvio, Jesus Raves.


A morte de Portanov deixará uma lacuna na música internacional, sucessos consagrados pela sua verve musical ficarão esquecidos para sempre na noite brasileira. Quem, senão o DJ ucraniano, se atreveria a discotecar músicas como "a dança da bucetinha arreganhada", "as alucinações de Serguei", "agaetis byrjun", entre outras. Além da composição do Funk do Zaidan, interpretado uma única vez pelas Barbis de Olinda. A partir de hoje, tudo ficará apenas na memória. Deixamos à família nossas condolências e saudações ao mais brasileiro dos DJ´s do leste europeu.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Medo de Avião

Sempre me perguntei como alguém se dispunha a arriscar a vida, voando. Pois bem, resolvi experimentar dessa adrenalina que é entregar a vida à uma máquina que se movimenta a quase mil quilometros por hora, pesando num sei quantas toneladas e se sustentando única e exclusivamente sobre o ar.

Na ida, não tive tanto medo. Tomei um comprimido que um amigo me arranjou que me deixou um pouco "grogue". E pensava comigo, na nebulosa realidade, se algo de ruim acontecesse, não duraria nem um segundo, talvez. O céu estava limpo e rapidamente o avião se estabilizou. Apesar do medo, preferi ficar na janela. No dia em que a morte vier, quero fitá-la nos olhos, conhecer sua panóplia, escutar seu silencioso discurso. Pois bem, da janela pude ver o belo litoral brasileiro do alto. O avião partiu de Recife às 05 da manhã, o sol levantava-se à esquerda e as vilas praieiras no meu lado direito. O vôo não estava cheio. Pude trocar de lugar, inclusive. A mais bela imagem foi quando a cidade do Rio de Janeiro surgiu na janela. Era manhã, a ponte Rio-Niterói estava tão pequenina em seus 15 km de extensão. As praias com suas areais brancas, os navios imensos trafegando como formigas sobre a Baía da Guanabara. Enquanto passava desapercebido pelo alto, ficava imaginando meus amigos cariocas em suas atividades corriqueiras. Uns acordando tarde, outros dentro de algum coletivo, deslocando-se pro trabalho. Ninguém poderia conceber que, lá do alto, naquele pontinho prateado que risca o céu, havia alguém a os observar. E podia ver cada um fazendo uma atividade qualquer. E assim, a paisagem do Rio me abandonou, vindo as praias, mata atlântica e... as nuvens.

Não é à toa que São Paulo recebe a alcunha de Terra da Garoa. Faltando uns 15 minutos pro avião pousar, mergulhamo-nos numa espessa nuvem, com chuva e turbulência. O piloto advertiu a tripulação que passaríamos por um minuto de forte turbulência. O avião tremia pra todo lado e minha satisfação me abandonou cedendo lugar ao temor. Pousamos em Guarulhos entre nuvens e um friozinho gostoso de dezenove graus. Como narrado, na ida não tivemos muitos problmas. Já na volta...

Meus problemas já começaram pela minha má distribuição do dinheiro. Andado pelas ruas de São Paulo, dirigi-me à Rua 25 de Março na intenção de comprar um pen-drive baratinho. Pois bem, no meio do caminho tinha uma loja de fantasias, tinha uma loja de fantasias no meio do caminho. Gastei um quarto do dinheiro que tinha levado nessas fantasias carnavalescas. E continuo sem pen-drive. Pois bem, consegui a façanha de chegar no aeroporto sem 1 real na carteira. Se o vôo atrasasse, não teria dinheiro nem pra voltar pra casa das meninas na Lapa.

Mas, não atrasou. Entrei no avião, sem tomar o comprimido milagroso, esperando que o tempo melhorasse pra diminuir minha tensão. Mas, que nada! Quando o avião começou a taxear, caiu uma chuva muito forte, era 01:30 da madrugada, na janela muitas gotas fortes pingavam. Meu coração acelerava e meu corpo se contraía. A respiração tornara-se pesada, cheia de sopros tensionados. O avião apontou na reta e o comandante disse que a pista tinha sido liberada. O avião estava lotado, diferente da ida. O avião acelerou e demorava pra subir, corria rapidamente, mas não se desligava do solo, aqueles dois, três segundos em que aguardava que ele subisse, demoraram uma eternidade. Quando subiu, não pegava altura. Deu um rasante sobre as casas que ficam perto do aeroporto, tremia pra um lado, tremia para o outro. Até que conseguiu entrar numa nuvem. Balançava. Foi o maior teste cardíado desde que fiquei preso no alto de uma montanha, quando fazia rapel em Buíque. O avião não saía de dentro da nuvem. Um temporal caiu em São Paulo. Aliás, muitas pessoas morreram nos últimos dias. Da janela, via a asa do avião se tremendo, emitindo aquelas luzes coloridas e fortes que me confundiam pensando que eram raios. Sei lá, estava em pânico. O homem do meu lado, dormiu. A nuvem não acabava nunca. Pensei que quando chegasse no Rio de Janeiro poderia ver a cidade de novo, dessa vez de noite. Mas, o tempo passava e o máximo que podia ver eram as estrelas no alto. Fazia promessas que nunca mais viajaria de avião de novo. Preferiria passar dois dias dentro de um ônibus. Chegando perto de Salvador, as nuvens se dissiparam e podia ver as luzes dos vilarejos litorâneos. Logo veio Salvador. Aquele mar de luzes brancas e amarelas. Depois Aracaju e Maceió. Era hora de pousar. Começou a apontar pra baixo, diminuir a velocidade. Pude reconhecer o Recife. Nunca senti alegria semelhante ao ver a cidade da qual sou filho se aproximar. Reconheci o bairro de Dois Irmãos, Casa Amarela. Passei por cima do Engenho do Meio, veio o IPSEP, Imbiribeira e pousou. Ufa! Respirei fundo. Tive vontade de gritar de alegria. O corpo ainda estava todo contraído.

Enquanto estive lá em cima experimentando o medo, muitas coisas vieram à minha reflexão. Contentava-me que a morte não poderia ser uma coisa ruim. Nem sequer sentiria dor. Livraria-me da necessidade de entender essa coisa multiforme que é vida. Mas, também me sobreveio a idéia das coisas que ainda quero viver. Dos livros que preciso ler, das surpresas da vida, das próximas viagens, dos amores que ainda quero viver, de um amor que preciso reencontrar... Enfim, são várias as motivações pra viver, pensar e sofrer. "E sei que há gozos para mim guardados, entre aflições, desgostos e cuidados, inda a concórdia poderei cantar. Sobre prantos fingidos, triunfar. E, quem sabe, com sorrir de despedida brilhe o amor no sol-pôr de minha vida."

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ausência?

Fim de novembro, acho que esse foi o mês que menos escrevi no blog. Deve ter sido o mês que menos estudei também, mas não foi por falta de obrigações. Carreguei na avalanche os trabalhos e só Deus sabe como estão se desenvolvendo. A verdade é que foi/é um mês de acontecimentos. Minha bolsa saiu. Depois de um ano e meio devendo ao banco, a amigos, sem poder comprar livros, nem ir no cinema e outras privações deliberadas pela falta do dinheiro, cá estou tentando reorganizar a vida. Hoje acordei entristecido, sem forças, com vontade de chorar por horas a fio, quase como o personagem Oblomov de Ivan Gontcharov. Até que afastei a fadiga, comprei tinta, pincel, chemei um pintor da vizinhança e, juntos, mandamos brasa no apartamento que está, decerto, bem mais apresentável. Também comprei uma geladeira lá na comunidade Sapo Nu, por uma bagatela. Agora, ao final do dia, estou cansado.

Bem, se repararem, falei de um dia comum da minha vida. Aliás, se não corri ao teclado nos últimos dias é porque não houve tempo para reflexão. Tenho vivido, meus amigos. E viver, condiz com a possibilidade de gozar e sofrer. Meu coração fremiu nervosamente por esses dias. Ah, como me é doloroso. Ao mesmo tempo é divino. Falar de amor e não cair no ridículo é impossível. Além do mais, deixemos esse assunto de lado, como diria Petrarca: "Quem pode dizer a que ponto arde, arde bem pouco." Li essa citação num ensaio de Montaigne. Aliás, esse filósofo gascão tem sido um verdadeiro pai pra mim. Tomo seus conselhos e advertências, sua prudência perante o mundo, como um aluno que, dedicado ao seu mestre, presta atenção às mínimas interjeições. Minha alma é propensa aos abismos das paixões, às previsões do futuro, ao fulgor romanesco, e nisso tudo, consiste um triste caminho para o espírito. No mês que li menos, li Montaigne.

Hoje é sexta-feira e, que raro, não sinto vontade de sair. Hoje, comprei uma passagem de avião para São Paulo, vou assistir as palestras da semana sobre Dostoiévski no Centro Cultural Banco do Brasil, com os maiores nomes do universo dostoievskiano do Brasil e da Rússia. Uma ótima oportunidade pra fazer contatos, conhecer professores e alunos que, como eu, pesquisam sobre o escritor, falar um pouco em russo, quem sabe. Viajar. Quando viajo, minha cabeça adquire outra velocidade de raciocínio, o estranhamento oferece novas interpretações. E, se não escrevi recentemente, é porque o mundo já não me era tão estranho como de costume. Voltar a São Paulo vai ser bom, faz cinco anos que não ando por aquelas ruas cinzentas, cheias de pessoas apressadas, organizadas, cheias de objetivo. Eu gosto de São Paulo. Também será a oportunidade de perder o medo, ou não, de avião. Conheço várias cidades do Brasil, de norte a sul, sempre viajando de ônibus ou carro. Tenho medo de altura, de velocidade, de avião. Mas, vamos nessa. Talvez, por isso, resolvi falar um pouco de mim, sempre acho que se pode morrer mais facilmente numa viagem de avião do que em qualquer outra ocasião, embora as pesquisas e a opinião pública sugiram o contrário. Vou enfrentar esse medo. Moro no caminho para o aeroporto desde que nasci. Os aviões passam em cima da minha casa, habitam meus sonhos de madrugada, me acordam, me ninam, me espantam quando passam naquelas imensas alturas em que observamos aquele pequeno pássaro de prata a riscar a imensidão celeste. Que visão não deve ter um cidadão naquela janela. O mar imenso, a terra que divide as águas, o homem que sonha no quintal de sua casa.

Sabe, hoje não quero falar de algo que está externo a mim. Sei que uns dirão que o sujeito morreu. Que o homem é como um rosto desenhado na areia da praia, esperando a maré subir e apagá-lo num esquecimento desmemoriado. Mas, quero dizer coisas simples, que brotam dessa confusão que compõe meu pequeno universo. Quero dizer que acredito no amor. Mais do que nunca! Porque pude vê-lo de perto. Ó vida, faze desse escravo o que decidiste antes mesmo de existir! Arremessa-me pra fora do pássaro de prata. Faze-me voltar. Destina-me pra quem desejo tanto. Rouba-me sorrateiramente o ar enquanto durmo. Dize-me que o tempo já passou e não há nada que se possa ser feito perante à foice que se cobre de preto. Continuarei ausente. Estou indo pra São Paulo estudar aquele homem que me inspira há tantos anos, aquela fonte clara que jorra do âmago do mais impuro dos animais, o conflituoso mestre que soube captar essa roda gigante de sentimentos.


No Centro Cultural Banco do Brasil acontece, entre os dias 01 e 04 de dezembro, o Seminário “Dostoiévski Ontem e Hoje”
01/12 “Dostoiévski, nosso contemporâneo” – com Igor Vólguin (Rússia), Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra. Mediação de Bruno Gomide
02/12 “O Universo das Ideias na obra de Dostoiévski” – com Déborah Martinsen (EUA), Fátima Bianchi e Bruno Gomide. Mediação de Elena Vássina
03/12 “Dostoievski x Teatro e Cinema – Uma atração irresistível” – com Elena Vássina, Aury Porto e Cibele Forjaz. Mediação de Ruy Cortez
04/12 “Dostoiévski e a Vanguarda Russa na arte do século XXI: convergências contemporâneas” – com Frank Castorf (Alemanhã), Aurora Bernardini e Arlete Cavaliere. Mediação de Silvana Garcia

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Primeiro Aniversário do Blog

Em outubro do ano passado resolvi criar esse blog. Não imaginava quanto tempo duraria, quantas postagens iria publicar, se seria bem recebido pelos amigos e desconhecidos. Tinha a intenção de escrever sempre que possível para treinar para a prova da seleção do mestrado que estava a bater na minha porta. Quem visita esse endereço eletrônico deve reconhecer que a maioria das crônicas (que nome pesado para essa brincadeira) possui uma forte impressão das minhas visões de mundo. Talvez seja um defeito não conseguir me livrar da pessoalidade da visão de mundo, mas... é assim.

Neste mês de outubro em que escrevo agora, estou tremendamente ocupado com as entregas dos artigos do mestrado. Inventei de fazer um trabalho onde pretendo elencar os possíveis temas épicos no romance Os Irmãos Karamazov. Calma, antes que os xiitas da crítica dostoievskiana me apedrejem, devo adiantar que não pretendo analisar a obra como se tratando de um épico, pois trata-se de um romance autêntico. Mas, tentarei elencar algumas características épicas na temática do romance, como a recorrência ao relato histórico no capítulo do Grande Inquisidor, além do referencial mitológico, também nesse capítulo. Enfim, se eu conseguir fazer algo decente, apresentar-vos-ei por aqui. Além disso, até o dia primeiro de novembro, tenho que entregar um outro artigo sobre a relação do personagem Konstantin Liêvin, do romance Anna Karênina de Tolstoi, com a propriedade rural, sua visão de mundo que se opunha à vida citadina, seus conceitos de economia rural, a relação proprietário-servo. Enfim, tudo isso pelo viés da ecocrítica.

Gostaria de liberar mais meus devaneios por aqui, mas não está sendo fácil. Além do mais, não terei assunto para sempre. Essa postagem mesmo é uma falta de assunto! Mas, não poderia deixar passar em branco essa data: o blog fez um ano. Entre assuntos desnecessários, poesias estabanadas, convites musicais, odes ao futebol, opiniões literárias, pequenas histórias que escrevo no silêncio da madrugada, acredito que talvez daqui há algum tempo possa reunir algumas postagens aqui escritas e lançar algum livrinho no futuro. É isso, agradeço aos amigos que visitam, aos desconhecidos que, só Deus sabe como, chegam por aqui, e deixo o convite para quem quiser aparecer outras vezes. Sem mais, um abraço a todos!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Brinquedo

O destino me possibilitou nascer numa família em que nunca me faltou as necessidades básicas e sou muito grato por isso. Quando criança, tive à disposição uma vasta gama de brinquedos e videogames, pude estudar em colégio particular e ter boa alimentação. Por esses dias, estive recordando os brinquedos que fizeram parte da minha infância. Era uma criança que gostava de destruir tudo, não tinha muito zelo. Até hoje, minha mãe diz que gastou tanto pra comprar um carrinho "bate e volta" e no segundo dia, o carro já estava quebrado e desmontado. Antes isso tivesse aguçado em mim a aptidão de ser um engenheiro ou coisa parecida, mas não, não disponho do menor dom de consertar qualquer objeto. Mas, entre todos os presentes que ganhei, houve um que me chamou mais a atenção. Brincava com ele o dia todo, dentro de casa, na rua, levava pra casa dos primos e etc. Tratava-se de um globo terrestre.

Era um globo grande para uma criança de 6 anos, apertava-o contra a barriga e o peito. Era de plástico e podia jogá-lo contra a parede que ele voltava, chutá-lo e tudo mais. Dormia ao lado da minha cama. Minha maior diversão era arrmessá-lo para o alto e onde meu olhar fixasse um ponto, decorava o país e a capital. Aprendia o nome das cidades grandes de cada país. E nessa brincadeira, em pouco tempo, eu já sabia praticamente todas as capitais dos países do mundo. Naquele tempo, década de oitenta, a União Soviética não havia se desintegrado, a África tinha países com nomes diferentes dos atuais, como a Rodésia, por exemplo. Mianmar era Birmânia. Havia duas alemanhas. Mas, aos poucos e sem compromisso, fiquei sabendo quase todas as capitais e onde cada país se localizava, o nome dos lagos, dos mares, das ilhas do pacífico, dos estreitos e terras de príncipes da Antártida. Meus tios chegavam aqui em casa e ficavam me desafiando: Odomirinho, qual a capital da Indonésia? Prontamente, eu respondia: Jacarta, na ilha de Java. Lembro-me do meu tio Edwind, gritando com seu sotaque nicaraguense: Heya! Tem que levar esse menino pro Faustão!

Com o passar dos meses, meus primos vinham aqui pra casa e eu ficava ensinando as capitais do mundo pra eles, aplicava provas e deixava até alguns em recuperação! Tinha uma pequena lousa com giz no meu quarto. Depois de um ano, o globo estourou e como eu já estava ficando maiorzinho, passei a comprar os exemplares do Almanaque Abril. Na casa do meu avô, aqui perto no Engenho do Meio, tinha a coleção completa da Mirador Internacional, onde eu me deitava na sala a observar as fotos e os textos sobre os diferentes países ao redor do mundo. Meu avô era um grande entusiasta e me deixava brincar à vontade, mesmo quando uma tia, por (des)ventura, reclamava: vai sujar esses livros que Toinho deu pra papai!

Ainda nos dias de hoje, recordo-me de muita coisa que aprendi naquela infância, hoje distante. Não posso negar que as diferentes culturas ao redor do mundo me fascinam. Não que seja uma estúpida admiração em contraponto à cultura brasileira, mas me encanta saber que conjuntos de pessoas puderam dar diferentes significados em seu modo de se posicionar perante a natureza. Um dos livros que mais me impressionou nos últimos tempos (acho que já falei dele em algumas postagens anteriores) é o Il Milione de Marco Polo, onde ele faz um riquíssimo relato sobre o mundo oriental no século XIII, os costumes de cada cidade, sua localização geográfica e suas riquezas naturais. Posteriormente, Italo Calvino continuou essa viagem no livro Cidades Invisíveis. E também nós podemos continuar essa travessia, porque o mundo aí está, carente de nosso olhar e respeito. Um certo dia, estive num deserto perto da divisa da Argélia com a Mauritânia, a noite mais estrelada que um citadino jamais vira, não tinha medo de estar perdido, nem mesmo sabia como estivera alí...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Como Posso Estar Sozinho?!

Meia-noite. Devo dormir? Poderia dizer que estou fatigado, após longa viagem. Há quem não acredite, mas isso não me importa. Uns dirão que é humanamente impossível, outros que estou a galhofar. Mas, se exprimo a verdade de forma consciente, como posso me ocultar a relatá-la? Ah, meus amigos, a vida de viajante é turbulenta, em menos de 24h podemos escapar às crepitantes labaredas do inferno e enfrentarmos uma nevasca desoladora. Como numa agenda, deixem-me relatar o que aconteceu. Juro pelo que de mais sagrado há, que tudo, absolutamente tudo, é verdade, e ocorreu num intervalo de 1 dia:

Estive numa praça em Maceió com Graciliano.
Em Alexandria com Teócrito.
Em Roma com Virgílio.
Estive em Paris com John Cale e em Berlin com Nick Cave.
Visitei a tristeza de Schubert em Vienna.
Estive no Rio de Janeiro com Tom Jobim.
Vi Minsk ser pisoteada por uma garota.
Estive em Norilsk, na Sibéria, durante uma tempestade.

O diabo me apareceu e me propôs um pacto. Como sempre: poder!
Em contra-proposta, Deus me ofereceu a suavidade.
Leve gaivota me conduz pelo mundo: céu sem fronteiras!
Familiar jornada.
Barroco desejo de estar em todo lugar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O Sonhador

Existe pior malogro para um sonhador do que residir numa cidade grande? Quem nos obrigou a aceitar as leis sociais? Não, não, não! Não quero cair nos mesmos estereótipos! Como é difícil clarificar uma imagem! Imagine um homem que no cair da tarde caminha desolado pelas ruas do centro. Aquele centro do Recife que a qualquer dia da semana, no crepúsculo, oferece o mesmo decadente semblante. A música alta e de péssima qualidade, os prédios sujos, a rua que fede, os pedintes se arrastando com suas sacolas de estopa, um homem vestido decentemente caído no chão. O que terá acontecido com esse homem, pensa o sonhador? Teria a mulher o abandonado? O patrão o demitiu a agora não poderá dar de comer aos 3, 4 filhos? Está vestido com uma calça bege, camisa de botão. O nosso personagem parou em frente ao homem que balbuciava palavras incompreensíveis com os olhos fechados. Enconstado no gradil do Parque 13 de maio. A cidade é uma alucinação coletiva. Imaginem se cada homem fosse dar vazão aos seus sentimentos mais indignados no coração de uma cidade?! Ela se auto-destruiria em poucos minutos, talvez. O que mantém este corpus a funcionar é a dosagem diária de morphina que, sem que saibamos, está em nossa comida, na água mineral e no ar poluído dos canos de escape. Só pode ser isso, pensa o sonhador. Esse homem difícil de definir.

O homem se encontra na esquina da Conde da Boa Vista quando na prateleira do jornaleiro observa uma frase em letras garrafais: Concurso Para Professor do Estado. O nosso sonhador há muito tempo ambicionava uma vida distante dessa correria sem sentido, dos entroncamentos, dos compromissos inadiáveis. Imediatamente comprou o jornal e folheou-o na parada de ônibus. Viu que estavam precisando de professor de História na cidade de Buíque. Instantaneamente, remeteu sua imaginação para as fazendas que compõem a paisagem daquela cidade. Lembrou-se que trabalhou numa escavação arqueológica anos atrás e de outra viagem que fizera onde conhecera gente simples disposta a vender uns poucos hectares de boa terra por um preço bastante barato. Seria o momento ideal para aplicar suas poucas economias e se mudar para um lugar onde o sonho e o pensamento não fossem dicotomias inextricáveis.

O homem imaginou uma casa simples, com um bom telhado e uma pequena varanda onde no fim da tarde pudesse brincar com os cachorros, colocar a radiola com as caixas de som para fora e ouvir uma boa música sem ser incomodado por ninguém e, talvez, o melhor, não incomodar ninguém. Em seu apartamento no Recife, não podia ouvir seus estranhos discos em alto volume que logo apareceria alguém inventando que uma velhinha estava doente sem conseguir dormir. Ao redor de sua casa, teria um pequeno pomar, nada muito trabalhoso, pois o homem em questão era citadino e não cultivava o dom da agricultura. Tudo haveria de ser para o prazer e a satisfação. Além do mais, enquanto professor, receberia o pouco dinheiro necessário para a vida básica num lugar que não tem shopping center pra lhe sugar as poucas economias. Um poço artesanal garantiria a água durante todo o ano. Um corcel 75, com um toca-fitas antigo a tocar lo mejor de Benvenido Granda, seria sua distração nos dias em que precisasse se locomover até a cidade para lecionar. Ao cair da noite, os livros o fariam companhia. Na tranquilidade e no silêncio da madrugada poderia escrever as histórias que traz guardadas dentro de si: uma epopéia que se passa no Sri Lanka e a saga dos Herdeiros de Lampião. Quem sabe, após algum tempo, também o amor o agraciasse, naqueles distantes vales impenetráveis, longe da discórdia, da efemeridade e da descartabilidade das relações citadinas, encontre uma companheira que compreenda seu turbulento espírito. Os filhos poderiam estudar em Arcoverde e o pai haveria de os guiar através dos bons caminhos da leitura...

E assim, Maomé visitou os jardins de Alá ao mesmo tempo que uma garrafa se esvaziava. De repente, enquanto o homem estava fitando compenetrado através de uma janela que ficava na outra margem da Avenida Conde da Boa Vista: uma luz amarela, cortinas com desenhos de flores vermelhas, uma vaso sem esplendor; uma mulher muito magra e suja pede que a arranje qualquer moeda, pois disse que tinha cinco filhos para dar de comer. Mecanicamente, puxou qualquer trocado. O sonho se desfez, a natureza em seu aspecto virginal deu lugar às velhas maledicências dos transeuntes, o apitar nervoso dos táxis e todo o desolador cenário narrado anteriormente. A construção se desfez. Voltara ao ambiente onde a censura dos homens coibia qualquer abstração. O homem pôs-se de pé e passou a aguardar o ônibus que o levaria ao subúrbio, talvez já tivesse perdido um enquanto estava absorto em seus devaneios. Recolheu-se a razão e novamente separou as estradas do sonho e do pensamento, que, na cidade, conduzem a caminhos opostos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A Maternidade

O inverno de 2006 foi realmente inesquecível para mim e para os moradores das áreas de risco da cidade do Recife. Já imaginaram o que é dormir estando sujeito a ter sua casa arrastada por uma enxurrada de lama, lixo e esgoto? Pois é assim que meio milhão de pessoas vivem nos morros da nossa cidade maurícia. Esse é um dos tantos problemas com os quais a população das áreas de morro precisa conviver, excluiremos do nosso relato as complicações com violência, educação, desemprego, saneamento básico. Num dia muito atribulado de abril de 2006, após três dias de chuvas torrenciais que fizeram rios e córregos de nossa cidade transbordarem, o telefone da Defesa Civil tocou, eu e meu parceiro Fidel, ficamos responsáveis por avaliar a situação de uma maternidade abandonada no bairro de Dois Unidos. Os moradores pediam, por telefone, uma solução para as infiltrções, pois o teto estava estalando e poderia desabar, inclusive. Pegamos o Fiat Uno da Prefeitura e partimos do bairro da Guabiraba até o bairro de Dois Unidos, ambos na zona norte do Recife.

Era um dia cinzento, por todo o lado havia barro nas ruas, moradores zonzando pelas avenidas. Na subida do Alto do Refúgio, uma contenção antiga da Prefeitura havia se rompido, obrigando todos os automóveis e moradores a se espremerem em apenas uma faixa. A chuva continuava, persistente, torrencial. As janelas fechadas deixavam o vidro embassado e o clima pesado. Não sabíamos ao certo onde ficava essa "maternidade". Perguntamos e chegamos numa avenida movimentada, cujo nome não me recordo, às margens do transbordante, raivoso e barulhento, Rio Morno. Esse rio, nasce como um pequeno córrego, vindo das matas de Sítio dos Macacos, passa quase imperceptível pelo bairro da Guabiraba e, ao que ouvi falar, vai se juntar ao Rio Beberibe. Mas, quando o inverno é forte e chove em abundância por vários dias, esse tímido rio assume uma raivosa aparência. Expulsa de suas veias o lixo jogado pelos moradores, seu refluxo faz transbordar toda a merda social de volta num ato de vingança contínuo.

Chegamos na maternidade. O ambiente desolador. Quantas famílias viviam alí? De quê viviam? Na minha prancheta, deveria tomar todas as informações e dar um encaminhamento para os superiores da Prefeitura decidirem o que fazer. Essas amarrações da burocracia me fazem lembrar o Castelo de Kafka, onde o agrimensor não consegue chegar aos superiores. Pois bem, eu era a ramificação menor do Programa. Relatava como os moradores estavam vivendo e minha papelada ia para um superior, para depois passar a outro superior que decidiria o que fazer com os moradores após consultar o outro superior... imaginem como as relações de poder não se constituem em ambientes como esse?! O que eu poderia colocar nas cinco linhas em que o cadastro pedia que eu relatasse a situação dos moradores que viviam naquela maternidade abandonada? Não me recordo o que escrevi nas cinco linhas, mas algo como: "Retirar esses moradores o mais rápido possível para algum abrigo." Vou explicar melhor o que encontrei.

Essa maternidade é mais uma das imensas obras-fantasma que nossos governos fazem, levantam paredes e não concluem. Antes da metade da obra, a verba acaba. É, né. Há quem acredite. Com o excesso de chuvas, ela estava toda inundada, de maneira que em momento algum estivemos com menos de um palmo d´água chapiscando nossas pisadas. Não havia luz elétrica, apenas fiações elétricas que, como patas de aranha gigante, pareciam desgarrarem-se do teto. Por toda a parte havia infiltrações e a água pingava de montes no chão, nas camas improvisadas, nos poucos leitos abandonados. Gente descalça, sem camisa, uma criança com os olhos expressivos de febre deitada numa cama toda ensopada. Senhoras velhas se perguntando por quê não morreram ainda, paredes manchadas. Um cenário perfeito para um filme de terror. Era manhã, uma estranha luminosidade provocada pelas nuvens que cobriam o sol, deixava o aspecto da maternidade lúgubre, sombrio. Um homem mais articulado fazia perguntas e pedia respostas. Eu limitava-me a dizer que passaria o caso para os superiores e que eles entrariam em contato. Mostrei ao homem o que tinha escrito na prancheta e fui embora, pois ainda havia outros casos de deslizamento de barreiras pra avaliar, lonas plásticas a entregar.
Hoje, lembrei-me dessa maternidade e da experiência daquela manhã. Voltava para casa um tanto desolado, ressacado, e prontamente lembrei-me daquelas pessoas que vivem num estado deprimente. Com certeza, naquela maternidade abandonada, na beira de um rio, havia ratos e outros animais que podem trazer contágio ao homem. A água parada, chapiscando aos nossos pés, o olhar daquela criança pedindo que a tirasse daquele lugar, queimando de febre numa cama molhada... Ainda hoje, não sei que fim levaram aqueles moradores, que resolução os superiores tomaram. Aquele tinha sido mais um caso entre os dez, doze, que tínhamos que avaliar por dia naquela operação de inverno. Meu Deus, o que esperar de um mundo que cultiva ambientes como esse?!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Inverno

Triste da flor que nascida na época errada, desabrocha.
Sofrerá as arranhuras do tempo e da ambiência.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Uma Viagem ao Rio de Janeiro

Nos últimos dias estive ausente da condição de blogueiro devido a uma viagem que fiz para a capital imperial do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro. Quem lê uma manchete dessas deve pensar que estou muito bem de grana para estar passeando nas férias de julho, curtindo numa cidade cara como o Rio. Ah, mas apenas alguns sabem das dificuldades que enfrentei para que pudesse empreender tal viagem. Foi um tal de empresta daqui, pega isso alí, depois eu te pago e por ai vai. A passagem foi gratuita, a hospedagem também, fruto da gentileza de amigos cariocas que merecerão suas devidas honrarias adiante. Enfim, sai de Recife com 300 reais para passar 10 dias fora. Contando com um agravante que minha situação no banco não é das melhores, não teria como receber depósito na conta, portanto, teria que me virar com isso mesmo! Por outro lado, levei tudo o que fosse preciso para sobreviver, desde uma feirinha com biscoitos, leite, doces, passando por 8 litros de cachaça "meladinha" produzidas por mim em minha humilde residência. A situação era tão delicada que até a véspera da viagem oscilei entre a vontade de viajar e a segurança de estar em casa. Pois bem, tinha assuntos a resolver pelas bandas de lá, talvez a natureza quisesse que eu estivesse por lá, pois reservava-me algo especial. Enfim, eis-me no ônibus, atravessando as planícies e declives de nosso litoral pela BR-101.

Dois dias de viagem, banheiro de rodoviária, festinhas no ônibus, gritarias, hinos de louvor, pores do sol... Rio de Janeiro. O primeiro olhar foi de quase indiferença. Parecia que tudo já era bastante familiar, esforçava-me em achar tudo normal. Chegamos no Rio numa tarde de sábado, muito ressacados de viagem, fui recebidos pelos amigos cariocas Thiago Heise e Pedro Alô. Amigos que conheci nos ENEH´s anteriores e que mui prestativamente foram me receber na UFF para ajudarem-me a carregar minha bagagem. A casa onde ficaria a semana ficava há 5 minutos da universidade, caminhando. A despeito do cansaço, reselvemos sair naquela noite mesmo e o destino seria a Lapa, a velha lapa boêmia, imortalizada nas vozes de vários sambistas, especialmente na de Nélson Gonçalves, que meu pai ouvia naqueles discos de vinil quando eu era criança. Andamos bastante pelas ruas do centro, antes de cairmos numa festinha muito freak, uma festa muito parecida com as nossas daqui, num sobrado, com música de qualidade claudicante. Tudo era estranho aos meus olhos, apesar de ser tão familiar. Que contradição!
Segundo dia e eu fui pro Maracanã, assistir Flamengo x Botafogo. Fui pra torcida do Botafogo, lá na arquibancada. Quando entrei na arquibancada, me arrepiei com o tamanho do estádio. Fui um dos primeiros a adentrar no maior do mundo, achava que o jogo começaria às 16h, mas enganei-me, a peleja só se iniciaria às 18:30. Cheguei na bilheteria às 14:30 e comecei a caminhar pelas ruas do bairro, vários bares, gente conversando alto, pouca gente falando de futebol. Na verdade, nem parecia que estávamos nos momentos que antecedem um clássico dessa envergadura. Parei num boteco onde tinha muita gente de meia idade conversando calorosamente. Fiquei a espreitar a conversa. Ouvindo o sotaque carioca dos participantes, suas gozações. Os cariocas adoram zoar uns da cara dos outros. Se aproxiamava a hora do jogo. Paguei as três cervejas e me dirigi para o frio Maracanã. 16°C marcava o termômetro e eu vestido de bermuda e uma camisa da seleção francesa da copa de 86, manga curta. Que frio! Mas, o jogo foi quente! 2x2. O Botafogo entregou a vitória nos últimos minutos, coitado! O torcedor botafoguense é muito traumatizado. Quando o jogo tava 2x1 pro Fogão, eles tiveram duas chances de matar e fazer 3x1, mas a incompetência dos finalizadores deixava algo suspenso no ar: o Botafogo iria entregar! Os torcedores nervosos já pressentiam. Bola na área, o atacante do Flamengo ajeita e... pimba! Do meu lado, um senhor se levante e grita: "Puta que o pariu, esses filhos da puta toda vez entregam pro Flamengo!" Puxou o filho pelo braço e partiu para a saída. Do outro lado a torcida penta campeã brasileira gritava loucamente. Saí do estádio receoso de uma briga imensa entre as torcidas. Mas, que nada. Muito mais tranquilo que aqui no Recife. As torcidas passando uma pelo meio da outra, muitas crianças e mulheres, uma paz estranha. Dirigi-me pra Niterói pra curtir o que haveria de bom pelo encontro. Ah, ia me esquecendo, no domingo pela manhã apresentei meu trabalho que se encontra postado aqui no blog com o nome "O Milagre Secreto de Dostoievski".

Deixem-me falar da parte séria da viagem. No domingo, tinha que apresentar o trabalho às 9 da manhã, mas como tinha ido para a Lapa e chegado às 6 da manhã, só poderia cochilar 1 hora e meia antes de ir pra UFF (Universidade Federal Fluminense). Coloquei o despertador para me acordar às 07:30h. Acho que o despertador tocou e eu nem acordei. Quando abri o olho eram 09:50, tinha perdido minha apresentação. Bateu-me um desespero. Corri feito um louco, sem tomar banho, nem escovar os dentes, corri para a UFF, com a cara engilhada, voei pelas escadas e cheguei as 10:10 na sala de apresentação. Para minha sorte, pude apresentar meu trabalho depois de todo mundo. Ninguém se interessou em fazer perguntas, a não ser um namorado de uma moça carioca que tava apresentando que ao final, perguntou: "Desculpe-me a ignorância, sou estudante de engenharia. Mas, quem é esse tal de Dostoievski?" Na segunda-feira à noite teve a palestra com o professor Paulo Bezerra, o principal tradutor de Dostoievski da atualidade. Sempre cercado por vários alunos, não ousei interromper sua noite de autógrafos. Sua palestra foi muito interessante, na qual tentou explanar qual o terreno em que o tradutor deve trabalhar, até onde deve permanecer fiel à obra original, até onde vai seu processo de criação. Isso daria outra postagem. Na terça, fui a Sociedade Brasileira de Cultura Eslava, localizada na Lapa. Encontrei-me com a professora Sônia Branco da UFRJ que foi muitíssimo simpática comigo e lá pude encontrar outros estudantes de literatura russa. Fiquei entusiasmado naquele ambiente. Uma jovem que pesquisa sobre o teatro em Tchékhov. Depois uma palestra gratiuta sobre o mesmo Tchékhov, ministrada pelo professor, tradutor e escritor Rubens Figueiredo. Uma palestra riquíssima. Sai radiante daquele espaço. Minhas atividades intelectuais da semana se resumiram a esses três momentos: a apresentação do meu artigo, a palestra do professor Paulo Bezerra e o fim de tarde da Sociedade Brasileira de Cultura Eslava. Tá certo que poderia ter feito mais coisas, mas tudo em que me intrometi, teve a ver com minha pesquisa, sendo esses três momentos, muito importantes pra mim.

Numa viagem como essas, com o tempo cronometrado, não nos resta outra opção senão viver cada minutinho ao máximo e, foi assim, que tentei extrair essa experiência carioca. A quarta foi, aparentemente, o dia mais parado. Fui no MAC em Niterói, depois fui para a paradisíaca praia de Itacoatiara, com suas ondas perfeitas e visual arrebatador. Ah, meus amigos, quantas coisas deixamos de narrar. A experiência mais intensa da viagem não será narrada. Outras coisas bacanas ocorreram, como assistir o jogo do Náutico com o Botafogo na TV na quarta, comendo uma iguaria preparada pelo chef Pedro Emanuel e bebendo muito vinho no AP de Veridiana, namorada de Thiago. Subir o Morro do Fallet, foi uma experiência sociológica inesquecível. As festinhas na UFF com direito a muita loucura por parte dos encontristas.

Quero terminar essa postagem com mais dois momentos, pois já me alonguei bastante. A primeira foi visitar a Floresta da Tijuca. Três horas de trilha até que chegassemos ao Pico da Tijuca. Um local cheio de cachoeiras, riachos, ar puro, refrescante, um paraíso, legitimamente. Subimos exaustivamente até alcançarmos uma rocha. À partir dali, teríamos que subirmos agarrados a uma corrente de ferro da época de D. Pedro II, qualquer deslize, um abraço! O segredo seria não olhar pra trás, coisa nada fácil para um ser curioso como eu. O olhar tresloucadamente lisérgico, observava o Rio de Janeiro do alto. Lá em cima, as pernas tremiam. As nuvens passavam abaixo dos nossos pés, às vezes ficávamos dentro das nuvens! Quando uma clareira se abria no dia nublado, avistávamos o cenário da cidade quase inteiramente. Parecia que um mapa do Rio de Janeiro tinha se aberto aos nossos olhos. Nossos amigos cariocas, Pedro Alô e Pedro Emanuel, mostravam os bairros e favelas. O imperioso Maracanã, o maior do mundo, parecia uma tampinha de coca-cola no chão. Isso fazia minha pernas sacolejarem ainda mais. Sentei-me no chão pra me acalmar. A volta foi mais tensa, prometi não olhar pra outro lugar que não fosse a pedra e a corrente. Ufa! Enfim, terra firme e a descida. Anoitecia no parque e quem nos guiava de volta eram os vagalumes e o som das cachoeiras. Voltamos ao bairro da Tijuca e de lá, nossa maratona de volta para Niterói, com direito a um rasante de um avião sobre a barca que faz o trajeto entre a Praça XV e o centro de Nictheroy. Ao final do dia, tive a sensação que vivi um dos melhores dias da minha existência.

Chegara a última noite no Rio. O dinheiro rareava. Mas, como dito anteriormente, eu tinha levado vários litros de cachaça. Saímos para curtir a noite na Lapa, decididos a entrarmos numa festinha com clima de carnaval, muito samba e empolgação. Após uma longa pesquisa, descobrimos que a vibe seria irmos ao Teatro Odisséia. Pegamos o bondinho e fomos pra Santa Teresa, depois para a Lapa acompanhados pela garoa incessante. Ficamos bebendo num posto de gasolina na frente do Teatro Odisséia, entramos no show já no "brilho". Quando entramos a casa ainda estava vazia, mas o público ia chegando e o samba da banda Empolga às 9 ia temperando o caldo. Quando a festinha estava bombando, a vocalista da banda ia apresentando os músicos que eram aplaudidos com fervor. De repente, ela pede pra parar o show. O dono da casa de show toma o microfone e diz: "Atenção, pessoal fiquem calmos!" Pensei: "Fudeu, tá tendo tiroteio em algum lugar!" O cara continuou: "Está ocorrendo um pequeno incidente no posto de gasolina aqui na frente, o mais recomendável é que todo mundo venha pro fundo da casa, pois as paredes são antigas e seguras." Quando o segurança abriu a porta, uma fumaça preta tomava conta da rua. O posto de gasolina estava pegando fogo, iria explodia a qualquer momento. Gente sendo pisoteada, gitaria, desespero! As pessoas em dúvida se saíam do Teatro ou se ficavam para morrerem queimadas ali dentro feito um galeto esquecido na chapa.Os bombeiros habilmente domaram o fogo e a festa continuou até de manhã, empolgadíssima. Depois dessa experiência, minha visitação ao Rio poderia acabar.

Viajei preocupado com a violência do Rio, com a pouca grana, sem saber como o povo carioca se comporta em seu reduto. Enfim, cheio de dúvidas. Mas, ao final, só tenho a agradecer aos amigos com quem convivi na semana que passou: Thiago Heise, Pedro Alô, Léo, Pedro Emanuel, Veridiana, Gabi, além dos recifenses, Susana, Daniel e Camila. Infelizmente não pude encontrar Michele, Juliana Palmeira e Rodrigo Lamosa, mas tudo bem, fica para uma próxima. Meu chip do celular foi pro espaço no segundo dia de Rio de Janeiro, perdi toda a minha agenda telefônica, além do mais só entrei na net uma única vez nesse período pra passar meia horinha. Agradeço a todos que me receberam e foram atenciosos. Ao contrário do preconceito que se cria que o povo carioca é marrento e cabuloso, vi gente muito prestativa e educada, gente fina no melhor sentido da palavra. Não senti clima de assalto ou violência, o maior susto foi imaginar a Lapa ir pelos ares com a explosão do posto de gasolina. Quando estive andando pelas ruas de Niterói, comprei um livro das Viagens de Marco Polo no século XIII. Lá ele narra as impressões das cidades que visitava, assim também tento fazer, provavelmente com menos categoria, mas é inegável que o contraste causado pelo olhar de um estrangeiro sempre oferece um novo e prazeroso olhar sobre o local visitado. Obrigado Rio por ter me concedido uma das semanas mais prazerosas de minha vida. Alô Rio de Janeiro, aquele abraço!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Armênia e Azerbaijão

"Todas as culturas ensinam sobre elas mesmas e todas afirmam naturalmente sua supremacia sobre as demais."
Edward Said



Essa frase está no livro Reflexões sobre o Exílio do pensador social (não consigo definir se ele é cientista social ou historiador) Edward Said. Neste livro, Said tenta fazer uma análise do discurso dos países ocidentais e árabes, onde cada cultura tende a mitificar negativamente a outra, acentuando as diferenças e preconceitos, que por sua vez favorecem à animosidade entre os povos. Hoje, gostaria de falar sobre dois países vizinhos, espremidos pela geografia. Imagine você fazer uma viagem num trem superlotado tendo seu pior inimigo ao seu lado e no sacolejar constante, estabanar-se no rival. Assim, a natureza quis que esse dois povos estivessem lado a lado, com suas diferenças religiosas, resquícios da guerra, manuseio de grandes nações para fomentar o ódio entre eles. Entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, numa região chamada Cáucaso, local habitado desde os mais remotos tempos, onde a Bíblia pressagia suas experiências mais antigas, ponto de passagem dos conquistadores vindos do oriente e do ocidente, o Cáucaso foi palco de povos triunfantes, de destruições de impérios, extermínio de povos, diáspora de tribos.

Entre esses povos que foram expulsos de seu lugar "autóctone" está o povo armeno, que durante o fim da idade média teve que se alojar na costa da atual Turquia, mais ou menos ao norte da ilha de Chipre, para só na era moderna retornarem ao Cáucaso. O povo armeno é um exemplo de dedicação à identidade religiosa. Muito se falam dos judeus, quando dizem que sua religião é sua pátria (choraram tanto que deram uma terra, que se não escorre leite, escorre sangue com mel), mas os armenos permaneceram unidos em torno de sua unidade religiosa. Acredita-se que, atualmente, o rito armeno seja o mais próximo do que se concebia da igreja cristã antiga. Eles permanecem fiéis à tradição deixada pelos discípulos de Jesus ainda no século I d.C. A Armênia foi o primeiro Estado a reconhecer o cristianismo como religião oficial. Enquanto o Império Bizantino esteve de pé, a cultura armena floresceu, sua religião teve respaldo de uma grande nação e com isso, proteção. Mas, quando os turcos derrubam Constantinopla, esse povo vai passar a travar uma verdadeira luta pela sobrevivência de sua identidade cultural.

Os otomanos vão passar a expandir sua influência por toda a eurásia. Quem gosta de ler os romances russos, já deve ter ouvido falar nos povos tártaros. Esses povos eram de origem turca, miscigenados com outras tribos e pequenos reinos, que foram dar origem aos países de nomes estranhos para nós, como Azerbaijão, Tadjiquistão, Turcomenistão. Não vamos demonizar a história desses povos, pois estes eram povos pacíficos (até que sua autonomia estivesse em xeque), comerciantes e propagador de uma cultura riquíssima, tanto nos arabescos como na música e na literatura popular. É uma pena que saibamos tão pouco dos povos daquela região e, quando os imaginamos seguidores do Islã, aí é que nosso preconceito se encorpa mais ainda. Ah, meus amigos, um dia lendo um livro de Fernand Braudel, ele falava sobre a expansão russa no século XVI e da tomada da cidade tártara de Astrakhan. Essa cidade era um dos maiores "shopping centers" daquela época, ponto de intersecção cultural, cidade portuária do Mar Cáspio, o maior mar sem saída para o oceano do mundo. Todo preconceito provém da ignorância em não chegar perto do "monstro". O Azeri foge muito do nosso conceito de muçulmano, onde as mulheres se escondem atrás de uma burka e são "beatas" rigorosas. Deixem-me narrar um episódio que um aluno que assiste aula no mestrado de letras como ouvinte e que faz doutorado nos EUA narrou na sala. Não vou dizer o nome desse competente estudioso porque não sei se ele quer que seu nome saia abertamente sem consulta. Numa palestra ocorrida numa universidade americana, uma filósofa muçulamana estava presente de burka e uma pessoa da platéia não aceitava que uma mulher tão sábia aceitasse se esconder atrás de tanto pano. Prontamente, a filósofa que não me recordo o nome, disse que a mulher ocidental se esconde muito mais do que ela, atrás das maquiagens e cosméticos. Qual mulher saíria de casa pela manhã,do jeito que acordara, com a cara amassada, os cabelos desgrunhados e iria se apresentar em público? O esconderijo é outro e tudo isso é questão cultural que temos que entender. Como diz o mestre Lourival Holanda, não é questão de tolerar, mas de entender. Quem tolera o faz de mal grado, para obedecer à regras sociais. É necessário entender o outro, seja nosso vizinho de muro ou um povo que se encontra distante.



Tenho uma amiga virtual no Azerbaijão, chama-se Refiqe. Ela mora na capital, Baku. Uma moça moderna que não perde em nada para nossas donzelas de shopping, fala russo perfeitamente, além do Azeri (língua do Azerbaijão semelhante ao turco) e o inglês. Não usa burka, porque essa indumentária é usada, apenas, em alguns países cuja cultura adquiriu tal aspecto. Pensaria uma muçulmana radical sobre as mulheres brasileiras: "Allah, coitadas daquelas mulheres. Que condição triste os homens a submeteram! Terem que andar com minúsculas indumentárias, mostrando suas partes íntimas para qualquer um!" E elas podem se escandalizar tanto quanto nós nos escandalizamos com a burka.



Os azerís e os armenos, em geral, se odeiam tanto quanto os judeus e palestinos, por exemplo. A questão é que esse tipo de informação não chega até nós. O Genocídio Armeno provocado pelos turcos no início do século XX e o contra-ataque armeno, ajudado pelas armas russas, que roubaram à força bruta uma parte do território azeri, no sudoeste do país, são as principais causas desse ódio mútuo, sem contar a intolerância religiosa entre cristãos armenos e muçulmanos azerís. Essa minha amiga, Refiqe, por exemplo, tem ódio mortal dos armenos. Já conversei com ela sobre isso, até coisa muito piegas do tipo, violência gera mais violência e etc. Mas, para quem está envolvido é muito difícil entender a realidade de outro ponto de vista. Imaginem se uma pessoa matasse sua mãe e você o visse passando na rua, tranquilamente, todos os dias? É difícil não pensar em vingança.






Como não posso ser juiz desse tipo de imbróglio, dedicar-me-ei a mostrar o quão são ricos os dois povos, para quem sabe pela vitude, encontrem algo de belo no outro. Continuando meu projeto de viagem ao mundo através da música que já passou por Smolensk e São João del Rei, hoje vou promover a paz musical entre Armênia e Azerbaijão, através de dois dos seus maiores compositores. O primeiro, na verdade, não é armeno de nascimento, mas é filhos de armenos, Mikael Tariverdiev. Uma dádiva, a música deste compositor, que trabalhou desde a música erudita até a música popular, passando por trilhas sonoras de cinema. Eu sou suspeito para falar de Tariverdiev, porque sou fã desse álbum que vou deixar pra vocês, traduzindo chama-se "17 momentos". O piano em сумерке в Берлине (сrepúsculo em Berlim) é emocionante! O outro artista, dessa vez, um azeri, é Uzeyir Hacibeyov e esse disco é da década de 1920, uma verdadeira relíquia, com um instrumental formidável, mesclando a cultura tradicional do Azerbaijão com a técnica composicional de Hacibeyov. As partes cantadas são na língua original, azeri. Repito que nosso preconceito provém de nossa ignorância. Espero que vocês se deixem tentar ouvir a música desses grandes compositores. Como seria bom se os dois países rivais conhececem o que de belo e delicado eles são capazes de produzir quando não estão envolvidos na estupidez da guerra. Deixo um forte abraço para todos e desejo um bom fim de semana.
















Ah, para terminar, hoje fiquei muito feliz ao visitar o Google Analytics e pude ver que meu blog foi visitado por gente de países muito distantes e, fiquei pensando, que eles não devem conseguir ler o que está escrito por ser em português. Tinha visita dos seguintes países: Brasil (lógico), Argentina, EUA, Canadá, Inglaterra, Escócia, Polônia, Alemanha, Holanda, Espanha, Portugal, Turquia, Grécia, Áustria, Romênia e Japão. Obrigado a todos os visitantes!




p.s.: as fotos depois do mapa são dos discos de Mikael Tariverdiev e de Uzeyir Hacibeyov, respectivamente.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Smolensk e Mikhail Glinka




Olá amigos visitantes do blog. Espero que estejam todos em paz. A partir de hoje vou fazer algumas postagens em que pretendo envolver dois temas que sempre gosto de analisar ou resgatar: as cidades e seus ilustres cidadãos. Hoje, gostaria de postar sobre o compositor russo Mikhail Glinka, um artista que pode ser considerado um dos pilares que sustentam a cultura russa no século XIX em seu período romântico. Glinka foi o primeiro a escrever óperas em língua russa. Também é considerado o pai da música erudita naquele país que, posteriormente daria ao mundo, artistas conceituados como Piotr Ilitch Tchaikhovski, Modest Mussorgskii, Rimski-Korsakov, Sergei Prokofiev, Sergei Rachmaninov, entre tantos outros. Assim como a literatura russa não poderia se desenvolver sem a competência de Pushkin, a música talvez não tivesse o mesmo impulso se não houvesse a presença histórica de Glinka.

Glinka nasceu em Smolensk, uma cidade muito antiga que já no século IX d.C. gozava de importante prestígio para o comércio do leste, pela rota do Rio Dnieper. A mãe das cidades russas, Kiev, era capital de um reino importante que servia de ligação entre o comércio realizado entre Vikings suecos, Bizantinos e até Árabes. Quando se imagina que a Idade Média é um período de estagnação e atraso, é porque os historiadores ficam muito presos ao que acontece na França, Inglaterra e Alemanha (aliás, esses nomes nem existiam como nação), porque no leste europeu era constante a troca de conhecimentos e comércio, desde o Báltico até o Mediterrâneo Bizantino.

A cidade de Smolensk é de uma importância transcedental para o povo russo. Ela é um símbolo de luta do povo e do amor que os mesmos tem em relação à fria terra. Smolensk foi destruída pelo menos três vezes, sendo reconstruída posteriormente. A primeira derrocada vem com a invasão dos mongóis no século XIII, sem falar nos assaltos feitos pelos Petchenegues, povos da estepe que causaram tormentos constantes ao Principado de Kiev. Smolensk padece para ser reconstruída no resplandecer do Império Russo. A cidade já esteve sob domínio da coligação Polônia-Lituânia, quando estes foram os maiorais do leste, após a retirada dos mongóis. Smolensk foi novamente arrasada quando da invasão napoleônica, na primeira década do século XIX. Queimada e reconstruída. A terceira importante devastação virá na invasão nazista em 1941-42, que possui no filme Vá e Veja (Иди и Смотри) um belíssimo, embora triste, relato da crueldade com que os germânicos invadiram a Belarus e a Rússia. Por essa capacidade de ressuscitar, Smolensk é uma das cidades mais importantes da Rússia, ainda hoje.

Essa ópera de Glinka que deixarei para vocês no final da postagem é interessante, além de ser belíssima (se os estruturalistas lessem isso...), porque narra a história de um camponês chamado Ivan Susanin, um homem simples, detentor de terras, que em lealdade ao Tsar russo Mikhail I Romanov encontrará a morte para defender essa região de fronteira das mãos do império polonês. Não duvidem amigos, aqueles povos do leste possuem diversas razões para rivalizarem entre si, pois toda aquela faixa de terra entre Varsóvia e Moscou foi disputada palmo a palmo com muito derramamento de sangue. Como essa ópera é nacionalista, vai exaltar as qualidades desse detentor de terras que conseguiu ser fiel ao Tsar, mesmo pagando com a morte. Espero que vocês gostem, tenho me deleitado bastante nas última semanas ouvindo Glinka. Ah, prometo para muito breve uma surpresa tupiniquim. Gostaria de dizer sobre a ópera Ivan Susanin: Uma Vida pelo Tsar, que os tenores são maravilhosos ou que no terceiro ato há uma mudança de notas altas para baixas. Mas não, não sou capaz de analisar a melodia como um músico. Não sou digno de fazer qualquer crítica, admito antes de tudo. Porém, nem Mallarmé, nem Ortega y Gasset, nem Barthes, poderão diminuir minha capacidade de me emocionar ao ouvir uma música de Beethoven ou de Glinka, simplesmente por não conhecer as notas ou não poder ler o som. Por hoje é só, segue abaixo os links para baixar a ópera completa, além dos arquivos em pdf. Após baixar as três partes que contabilizam duzentos e trinta e poucos megabytes, vai aparecer um pedido para digitar uma senha, esta se chama: "parol", que significa senha em russo, não se esqueçam. Saudações!

1ª parte: http://rapidshare.com/files/158886757/Glinka_Ivan_Susanin_MP3.part1.rar

2ª parte: http://rapidshare.com/files/158892891/Glinka_Ivan_Susanin_MP3.part2.rar

3ª e última parte:http://rapidshare.com/files/158894928/Glinka_Ivan_Susanin_MP3.part3.rar


senha: parol