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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fogo

Título: Fogo

Autor: Odomiro Barreiro Fonseca Filho

Era uma terça-feira normal na cidade do Recife. Os estabelecimentos comerciais e burocráticos funcionavam a todo vapor. Os engarrafamentos no trânsito, os horários escolares e as obras da construção civil seguiam seu ritmo natural, corriqueiro. Numa rua do centro da cidade, um homem caminhava nervoso. Ele não atentava às pedras desajustadas na calçada, mas por imprimir um ritmo de caminhada cada vez mais veloz, atropelava o próprio desequilíbrio. Os infortúnios de sua vida tinham chegado a um estado de calamidade tão agravado que nesse dia resolvera sair de casa portando seu revólver calibre 38. Estava disposto a dar cabo de alguma coisa.

Este homem que aparentava seus trinta e cinco anos tinha sido abandonado pela esposa que, levara consigo os dois meninos do casal. Estava a sete anos trabalhando na empresa de abastecimento de água do Estado, um trabalho maçante e extenuante. Amanhecera de ressaca, tinha bebido uma garrafa de vodca de meia-qualidade na noite anterior, presente que um amigo que estudava russo havia dado no último natal, quando ainda vivia com a família, embora num estado de deterioração das faculdades morais do matrimônio. O homem acordara nessa terça-feira com uma tremenda dor de cabeça. Sorveu dois copos d’água gelada, vestiu a mesma roupa do dia anterior e chegaria muito atrasado ao trabalho. Não o preocupavam as possíveis represálias do chefe da seção, um Dr. Nogueira qualquer. Resolvera sair de casa portando seu revólver 38. Estava disposto a dar cabo de alguma coisa.

Não muito longe daquela rua do centro, dois jovens encontravam-se sentados embaixo de uma árvore, num banco de praça, aproveitando a formosa sombra que sobre eles se espraiava. Os jovens eram estudantes de uma universidade que ficava ali próximo de onde o nosso herói caminhava. Os mancebos, embriagados pelo fulgor juvenil, desatavam a rir de qualquer coisa, do formato de busto feminino numa árvore, dos desenhos multiformes que os galhos do pé de coração-de-nego faziam. Quando avistaram aquele homem do outro lado da calçada, tropeçando nas pedras desajustadas, a roupa desengomada, num contraste com o que sentiam os jovens rapazolas, passaram a observá-lo com maior curiosidade.

Ao trespassar a porta de casa, o homem carregava uma pasta na mão direita e o revólver na parte de trás da calça, por dentro da camisa que catingava o suor de ontem. Era tarde. Na verdade, eram 13:00 e ele ia pegar o segundo expediente. Sentia fome, mas não queria comer. O calor estava intolerável. Era mês de março, começo de março, e a cidade do Recife enfrentava uma onda de calor insuportável, até os ventos resolveram abandonar a cidade, deixando aos moradores apenas o mormaço como companhia. Mal deu quinze passos, o homem sentiu o bafo quente das ruas, quase ninguém se arriscava a andar sob o sol. Sua testa estava molhada de suor, sua face pálida por conta da ressaca, nem uma brisinha vinha ao seu socorro. Em sua cabeça, a imagem da mulher girava sem parar, desconfiava que ela iniciara um affair com um colega dos tempos de faculdade. Sentia vontade de acabar com tudo. Estava disposto a dar cabo de alguma coisa.

A confusão se apossava cada vez mais de seu espírito. A mulher beijando o colega da faculdade, as frases mecânicas que haveria de dizer na repartição, o embrulho no estômago, o calor, que calor miserável! Pensou em tomar uma coca-cola, mas não avistava nenhuma barraquinha ali perto da rua do Aragão, teria que andar uns duzentos metros até a Praça Maciel Pinheiro. Estava muito quente, sua camisa já estava empapada de suor. O fedor do dia anterior reaparecia. Cheirou o sovaco e não gostou do que sentiu. Deveria parar e fazer um lanche? Imaginou aqueles enroladinhos que se vendem nas cantinas sujas do centro e seu estômago embrulhou outra vez. Ah, maldita! Se outro cara estiver te comendo, mato os dois! Estava olhando pro chão, tinha ciência do calibre 38. Há poucos passos da Praça Maciel Pinheiro, parou. Sentiu uma confusão no espírito. Várias imagens circundavam-no. Vou dar cabo da minha vida, pensou. Apalpou o revólver. Não tinha certeza de muita coisa. Apenas do incômodo existencial, um buraco irremediável na alma. Tudo se apresentava sem saída. Mas, tinha medo de se precipitar. E se amanhã se sentisse menos indisposto? Era como o suicida que do alto do prédio, em sua confusão, olhava para baixo e ao se atirar do penhasco de concreto, num derradeiro pensamento, dizia para si próprio: meu Deus o que é que eu fiz?! Tinha lido essa história em algum lugar.

O homem se encontrava parado no meio da rua. Os jovens, com curiosidade, o observavam. Naquele calor infernal, um homem parado, todo suado, olhando para um bueiro no chão, apalpando as costas, distante do cotidiano que o circunda. De repente, os jovens observam o homem a retirar uma arma, negra, uma máquina de matar. Ele aponta para o seu rosto. Os jovens não se arriscam a se levantar, observam aquela cena rápida, inquietante. O homem fica a observar o cano da máquina. Aqueles rápidos segundos ganham proporções arrastadas, todo movimento é pausado. O homem aponta a arma para a lateral da testa, no meio da rua, naquele calor, ele é o centro do mundo. Tudo está em suspenso aguardando o momento definitivo em que seu corpo rígido desfalecerá sobre a rua de paralelepípedos cálidos. Alguém mais estaria presenciando aquela cena por uma janela? Na rua, ninguém se aventurava. Os rapazes na sombra. O silêncio da morte. De repente, num gesto difuso, retira a máquina de matar da cabeça e atira pra cima, em direção ao sol. Um barulho seco é ouvido na cidade.

O homem estava no meio da rua, com o braço esquerdo retesado para cima, o rosto apontando para o chão. Não tinha consciência do presente. Teria atentado contra si próprio? Sua vista enrubescia. Será o sangue jorrando pelos meus olhos, pensou por um instante. Olhava o dia, afogueado, deixara cair-se no chão. Caiu com as costas no paralelepípedo quente, a mão esquerda com o revólver, o olhar mirando o céu. E que céu! Vermelho como Roma nos sonhos de Nero. Tinha certeza que aquilo era a morte. O destino dos suicidas. O inferno era realmente vermelho. Mas, ele não tinha medo. Que espetáculo belo é a passagem para os subterrâneos do tormento. Era como na vida normal, com a diferença que a luz era rubra, o sol uma bola nitidamente vermelha, estendendo seus raios encarnados. Abriu um discreto sorriso. Percebeu que havia vida após a morte. Não sabia se era esse o fim que almejava. Sentiria as mesmas preocupações de antes?

Antes que pudesse esboçar um pensamento mais articulado sobre a morte, uma jovem senhora gritava pela rua: é o fim do mundo! Logo, as ruas se encheram de gente que saía dos escritórios, das lojas de móveis, dos guichês de bilhetes de passagem de ônibus. Uma algazarra pavorosa de perguntas desconexas. O céu tornara-se vermelho de repente. Um homem com uma bíblia embaixo do braço eleva-se no umbral da fonte d’água que fica na Praça Maciel Pinheiro e inicia a narrativa do livro do Apocalipse. Sua expressão facial adquire modos altaneiros, um transe, o momento mais esperado de sua vida, o discurso mais importante. Jovens moças saídas de uma escola pública invadiram uma loja de moda e carregaram o que puderam nos braços. O homem causador de tal embaraço saía atônito pelo meio da multidão. Os mancebos sentados no banco da praça permaneciam no mesmo local, perguntando-se se tudo aquilo era efeito da alucinação de suas mentes. Os aparelhos eletrônicos pararam de funcionar, assim como os telefones. Uma balbúrdia nunca vista. Homens tentavam ligar seus carros, sem sucesso. Todos corriam de um lado pro outro buscando respostas e a palavra que se ouvia era que o mundo estava se acabando. Um estudante interessado nessas revistas de ciências ocultas, dizia com precisão que um asteróide de fogo estava colidindo com a Terra. As moças perdiam as últimas fagulhas de pudor e se entregavam para o primeiro que aparecesse. O nosso herói encostou-se ao pastor e tentava dizer que ele tinha atirado no sol, mas o pastor sequer podia ouvir as vozes da multidão, inflava o peito e declamava as palavras sagradas. Alguém gritava que um tsunami invadiria a cidade a qualquer momento, pessoas corriam para os prédios altos, outros tentavam voltar para casa em disparada. Vidraças quebradas, tudo estava vermelho como se um óculos de papel celofane caísse sobre as retinas. Nosso herói perdido na multidão enlouquecida, tentava advertir aos cidadãos que ele tinha matado o sol. Pedia desculpas a todos. Ninguém o ouvia. Embriagado pelo fulgor do presente, correu de volta pra casa. Jogou a arma no bueiro. Amanhã alguém haveria de culpá-lo pela morte do sol. Pior se fosse Deus que não haveria de se esquecer de tamanha injúria. Aos prantos atravessou a porta de casa, cerrou as janelas, um som de gritos distantes o atormentava. O que os pacatos homens estariam fazendo no centro da cidade? O crepúsculo arroxeado consumia a urbe maurícia. Quando as trevas baixassem, quem seria por nós? Como estariam sua mulher e seus filhos? Nesse turbilhão de idéias, tomou consciência da fraqueza de sua razão. Chorava e amaldiçoava sua existência. Após longo período na escuridão de casa, encostou-se no sofá rasgado e dormiu. No outro dia, pela manhã, o sol levantou-se como habitualmente.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Uma Tarde no Centro de Artes

Passava das duas horas da tarde de um dia ensolarado. No Centro de Artes de uma conhecida universidade, um homem surge do escuro painel de vidro. Vestido de maneira decente, pára embaixo da marquise do prédio. Retira do bolso da camisa pólo a carteira de cigarros. Acende. Olha para o dia embrasado, poucas nuvens no céu. Não carrega muita coisa consigo, apenas um pequeno livro de bolso. Termina o cigarro e se dirige a uma pequena praça, onde jovens conversam embaixo da sombra de uma árvore.

O homem toma acento no banco, desprotegido das árvores, sofrendo com os raios quase perpendiculares do sol. Abre o livro de bolso. Entre o grupo de jovens que estavam conversando, um deles observa o homem a suar embaixo do sol úmido de Recife. Reconhece o título do livro: O Nariz, de Nicolai Gógol. Volta a conversar com seus parceiros, enquanto o homem com pinta de professor desconhecido fica lendo seu livro tranqüilamente, dourando.

De repente, o homem com pinta de professor irrompe numa gargalhada falsa, estrondosa. Ri cada vez mais alto, quase um grito bestial. Abre sua enorme boca, com dentes amarelos. Seu gesto toma formas caricaturais. Joga-se no chão, arremessa o livro contra uma árvore. Sua risada se torna mais nervosa. Passa a rolar no chão, como um doente em crise nervosa. As pessoas, por perto, se assustaram no primeiro movimento do louco. Seus trejeitos eram desarticulados, o que tornava imensamente bizarro o seu ato. Mas, com a continuidade da sua falsamente majestosa gargalhada, as pessoas passaram a rir, não pelo prazer do ato, mas como se quisessem ridicularizar o homem.

Quando as pessoas passaram a gargalhar do homem com pinta de professor, ele retomou a postura. Tomou o livro arremessado nas mãos. Fechou o semblante. Iniciou-se numa caminhada pontual, marchante. Em pouco tempo já não era visto nem lembrado. Terminou-se outra performance no Centro de Artes.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Musgo

No ano passado, para a vergonha do avô com quem morava, além do irmão, Alceu, Maria Aparecida fora mãe solteira. Dera a luz a uma menina, Nina, uma criança esperta de um ano e oito meses. O avô, um homem de mais de oitenta anos que se locomovia tão vagarosamente quanto uma tartaruga velha devido à artrose, cansava de aconselhar a neta para que não engravidasse muito jovem, de um pai qualquer, assim como sua mãe, Antônia, que falecera havia quatro anos por conta de uma infecção hospitalar no Hospital Getúlio Vargas. O velho usava seu próprio exemplo, tinha sido pai já com mais de trinta anos: “Tenham paciência, arranjem um emprego antes de ter menino.” Mas, Cida não ouvia seus conselhos e foi mãe com um pai qualquer. O velho passara algumas semanas sem falar com Cida durante a gravidez, mas à medida que a barriga crescia, seu coração amolecia. Coisas de gente velha, que não tem tempo pra guardar rancor. O velho, os dois netos e uma criança.

Eles moravam no Beco da Periquita, um logradouro no bairro da Várzea, constituído de pequenas casas dispostas muito próximas umas das outras. Uma rua estreita onde só passa moto e bicicleta. Na verdade, a “rua” é formada por placas velhas de concreto, onde segue, por baixo, um canal com água de esgoto, adicionados ao curso de um antigo riacho. Uma água meio verde, lodosa, pegajosa, que de vez em quando desfere um cheiro fétido para as residências. Como as placas são muito antigas, entre as rachaduras e falhas no concreto, os moradores observam aquele movimento quase silencioso das águas lodosas carregando lentamente o lixo das casas, algum pequeno animal morto ou a espuma branca dos shampoos e dos detergentes que saem das casas.

Apesar das dificuldades de se viver nesse ambiente, estava sendo um dia animado no Beco da Periquita. Nos últimos dias, tinha chovido bastante, até o riacho tinha ficado mais barulhento. Porém hoje, o sol deu o ar da graça. As crianças corriam de um lado de um pro outro, umas, à pé, outras, de bicicleta. Na frente das casas, senhoras corpulentas conversam sobre os mais variados assuntos, desde o aumento do preço do pão às fofocas e rixas entre vizinhos que vivem tão perto, dividindo suas realidades. No dia que Cida ficou grávida, a discussão com seu avô e seu irmão foi tão acalorada que todo o Beco descobriu que a moça estava barriguda. No dia seguinte pela manhã, enquanto ia comprar o pão, uma vizinha mais assanhada perguntou com uma risadinha cínica: “E aí, Cida, qual vai ser o nome do bebê?”

Cida trabalha de manicure e pedicure. Atende na residência dos clientes. Fica sonhando em abrir um salão na Avenida Polidoro. Já até conversou com sua amiga, Shallyene, que é cabeleireira, pra montarem um negócio e garantirem seu sustento. Mas, é preciso dinheiro pra começar e ela não consegue nem juntar com tanta despesa que tem com a criança. Seu irmão, Alceu, conseguiu convencer a tartaruga velha a tirar 79 reais da sua aposentadoria de 515 reais, para pagar uma moto num consórcio. Nesse último mês, a moto de Alceu saíra. Dizia para o avô que quando tivesse uma moto arranjaria um emprego mais facilmente. Agora, ele passa o dia na entrada do Beco, mostrando sua moto para as mocinhas que pedem para dar uma voltinha. De emprego, até agora, só apareceu uma proposta: seu melhor amigo, Fábio, convidou-o para fazer um assalto numa farmácia lá no Engenho do Meio. Uma parada rápida, não tem nem segurança, nem câmera. Alceu pensou nisso todos os dias, mas não teve coragem. Fábio acabou arranjando outro comparsa.

Às nove horas, Cida saiu para fazer as unhas de uma cliente em Camaragibe e deixara a criança sob os cuidados de Alceu e do avô. O rapaz pegou sua moto e foi brincar com a menina na garupa. Ele sabia que a sobrinha fazia sucesso com as garotas que passavam. Vrum! Vrum! E Nina desatava a rir! “Axeu, Axeu, vrum, vrum!” O velho saiu de casa com muito esforço pra ajudar Alceu a observar a menina. Estava olhando-a de longe, na porta de casa. “Bijô, Bijô!” A menina desceu da moto e partiu em direção ao “bijô”. Nina correu a todo vapor, trôpega, cambaiando no Beco. A casa ficava do lado direito do Beco e a menina, como um carro dasalinhado, quanto mais queria ir para a direita, mais se movia para a esquerda. Em seu olhar, via a imagem do bisavô, tremendo em sua saltitância. O que era o chão para Nina?

No concreto rachado, o espaço moldurado para o seu corpo. Alceu corre em direção ao buraco e abandona a moto no chão. A tartaruga velha se comprime dentro do casco, sem forças. O rapaz enfia a mão na água lodosa, tenta tatear o corpo macio, a água verde e cheia de musgo e fedor não o incomoda. Está atarantado. A gritaria toma conta do Beco. Traz uma marreta, Luiz, rápido! O rapaz tenta colocar as pernas dentro do buraco, procura aquele corpinho macio de criança e só encontra o líquido pegajoso. Levanta-se desesperado e tenta achar novas frestas na calçada. Em vão tenta arrancar com as mãos a placa de concreto. O homem da marreta chega.

Enquanto isso, Cida estava voltando pra casa. Mentira que iria atender uma cliente em Camaragibe, tinha ido ao Hospital Barão de Lucena. No ônibus pensava como iria dizer ao avô que estava grávida de novo de outro filho sem pai.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Um Superego Severo

Antônio Bonfim é um rapaz recém concursado da nossa cidade. Durante a vida toda, sobreviveu de mesada curta, se preocupava mais com a matemática do que a aparência. Seus pais moravam em Campina Grande. Tinha vindo para Recife fazer faculdade de Engenharia da Computação. Antônio era um rapaz de vinte e cinco anos e tinha acabado de passar num concurso para técnico de computação do Ministério Público. Ele que até então, vivia com o baixíssimo ordenado enviado com muito suor pelos pais, se via diante da independência. O que para a maioria dos homens se tornaria uma fortuna do destino, para Antônio representava um ligeiro embaraço, ao primeiro olhar.

Antônio estava muito longe de ser um rapaz fascinante. Era de estatura mediana, quase pequena. Seu porte físico não era magro por completo, porém chamava a atenção o jeito arqueado que se punha a andar. Talvez fruto das madrugadas que ficava acordado fazendo exercícios matemáticos no tempo em que freqüentava a Escola Técnica. Seu peito, ao contrário do padrão estufado dos nossos dias, parecia comprimir-se ao centro, murcho. Seu cabelo castanho não tinha brilho. Seu rosto demonstrava um desdém absoluto com relação à estética da sedução. Ele nunca tinha posado para aquelas fotos de sites de relacionamento dando aqueles sorrisos altaneiros. Seu sorriso era sempre tímido, pra dentro. Quase nunca achava um motivo pra se alegrar. Como vivia com pouco dinheiro, passava o dia em casa, de frente pro computador, jogando, estudando. Certa vez, conhecera uma moça nos corredores do prédio onde morava. Um prédio antigo, com apartamentos de um ou dois quartos, de aluguel barato. Estranhava o movimento de homens entrando e saindo no apartamento vizinho. Antônio se deu conta que sua vizinha era garota de programa. Uma vez por mês visitava-a. No começo, tentou freqüentar festas no Recife Antigo, mas sentia-se tão deslocado e diferente dos padrões da moda que decidira que o pouco dinheiro que restava com o lazer usaria de forma mais direta. Passou a visitar a casa de Shakira uma vez por mês. Ia no dia que ela tinha menos clientes, pois podia ficar mais tempo. Às vezes numa segunda ou terça-feira.

Dia desses, o primeiro salário de Antônio saiu. Ele foi ao centro da cidade comprar roupas, pois há quase um ano não adquiria peças novas. Além do mais, trabalhando cinco vezes por semana, teria que ter mais roupas do que habitualmente. Passou na frente de uma loja com vários jovens comprando roupas da moda: calças com rasgões alinhados e costuras bem transadas. Camisas cheias de números coloridos e desenhos de gostos duvidosos que vão de dragões cuspindo fogo às imagens de deuses indianos. Ao reparar-lo na entrada da loja, a vendedora se aproximou, fitou-o dos pés à cabeça. Ele estava como habitualmente: com um tênis branco meio surrado, uma calça coronha azul escura e uma camisa pólo que pelo modo encurvado como andava deixava uma mossa de ar no centro do seu peito. A vendedora desfez a cara de espanto - mais uma moça bonita que não gostava de estudar - e perguntou: “Oi amigo, vamos entrar na moda!?” Antônio olhou rapidamente os manequins e partiu da loja tão depressa quanto pudera. Sabia que aquele tipo de loja com muitos jovens descolados não serveria pra ele. Então, resolveu ir numa dessas grandes lojas que vendem todo tipo de roupas e sapatos, de maneira que rapidamente poderia se livrar do tormento de estar em contato com a opinião dos vendedores.

Antônio comprou quatro tênis, todos brancos, quatro calças jeans azuis e várias camisas pólo. Como suas pernas eram finas, todas as calças ficavam com espaços nas pernas, caberiam duas canelas dele ali. Dirigiu-se à parada de ônibus e tomou o ônibus para o subúrbio. Morava na zona oeste da cidade, perto da Universidade, de maneira que assim economizava as passagens caminhando até o centro de estudos. O ônibus quase vazio. Sentou-se ao seu lado uma senhorita vigorosa, bem-apessoada, uma moça que chama a atenção por onde quer que passe. Era relativamente alta - para Antônio era imensa - tinha os cabelos lisos e longos, castanhos, os olhos meio verdes, meio cor de mel. Usava uma calça jeans que se completava com seu corpo cheio, volumoso, viril. Usava uma sandalinha daquele tipo Melissa e uma blusinha que salientava seu busto bem delineado. Onde quer que ela passasse chamaria a atenção. Antônio percebeu-a quando tomou a direção da porta do ônibus. Pensou consigo: “Nossa, essa poderia estar na capa de uma revista!” Ela pagou a passagem e sem olhar pra ninguém se encaminhou na direção de Antônio. Sentou-se ao seu lado e permaneceu em silêncio por um bom período.

Antônio cheio de sacolas se espremia na cadeira para não incomodar a jovem dama. A moça ofereceu-se pra carregar uma ou duas sacolas. Quando ela começou a falar, Antônio percebeu que ela não era de Recife, seu sotaque era de alguma cidade do sul do Brasil. Antônio agradeceu e disse que podia carregar as sacolas sozinho. Antônio, decerto, não alimentava esperanças por aquela moça que deveria ser tão cobiçada. E sem o afã dos que tudo almejam, perguntou: “Você não é daqui também, né?” A moça disse que era de Curitiba. “_Ah!” E sem muito o que dizer, disse que era de Campina Grande. Também não ousou perguntar mais. A moça, para sua surpresa, puxou assunto: “E você estuda na Universidade também?” Antônio disse que estava terminando o curso de computação. Ficaram nessa conversa mole, até que resolveram se apresentar. Ela se chamava Ludmila Cesnauskas, curitibana, descendente de lituanos, estava fazendo mestrado em nutrição. Tudo aquilo soava tão excêntrico e fascinante. Mas, Antônio era feio e, ainda por cima, totalmente desalinhado. Desceram na mesma parada e se despediram. Ela morava no prédio vizinho ao dele. Antônio desviou logo o pensamento: “Ah, essas moças bonitas. Só me causariam problemas.”

Para sua imensa surpresa, no outro dia quando voltava do trabalho, o porteiro do prédio chamou-o e disse: “Antôim, uma bichona bonita, grandona, veio perguntar se tu morava aqui. Ludmila.” Disse que era uma amiga da faculdade. O coração do rapaz quase saltou pela boca. Subiu para o seu apartamento e ficou boa parte da noite a imaginar o que aquela mulher queria com ele. Conhecera-a no ônibus. Não sabia nem o que dizer. Antônio ficou tenso: “Que tipo de assunto vou falar com ela? Não entendo de cinema de arte, nem de mestres da pintura, nunca tive uma amiga mulher. Nunca tive amigos próximos!” Procurou sua vizinha, pediu para passar a noite lá. Era a única pessoa no mundo que o entendia. Pagaria pra ser o único cliente. Na casa dela, perfumada e colorida, sentia-se à vontade. Na cama, enquanto Shakira cochilava ao seu lado, começou a imaginar como seria a vida ao lado daquela deusa lituana.

As imagens que surgiam, torturavam-no mais do que o agraciavam. Se ela gostasse de ir à praia, exibir seu belo corpo, todos os homens ficariam a admirar-la, os mais assanhados soltariam gracejos para o namorado ridículo que ela tinha. E em todos os lugares, não teria paz. Possuir aquela bela jóia significaria protegê-la, coisa que ele não se sentia capaz de fazer. E toda a maravilha que se aproximou de seus olhos, todo arco-íris de possibilidades se acinzentava ante a muralha de sociabilidade que se apresentaria. Não, justo ele que sempre gostava de ficar sozinho, no seu cantinho, sem ser perturbado por ninguém, como um hamster. Essa idéia de ser um hamster o agradava. Quando precisasse ser um homem, Shakira seria a mulher. Quando ela ficasse velha, arranjaria outra e não teria problemas. “Sim, eu irei enlouquecer com a lituana!” No outro dia, pela manhã, o porteiro foi avisado que se aquela moça perguntasse por ele mais uma vez, dissesse que ele não morava ali mais. Antônio chegou, pontualmente, no horário de trabalho.

terça-feira, 30 de março de 2010

O Jogo

Após seis anos na cadeia, Adolfo botou a cabeça na rua. Era uma tarde quente ali pelas bandas do bairro do Curado. Os portões do presídio Aníbal Bruno batiam nas suas costas. Era a última vez que ele esperava ouvir aquele som chumboso. Nesse ínterim em que esteve preso, perdeu Nara que não viera lhe visitar mais do que uma vez, no primeiro mês. A família também se afastou. Sua mãe, uma mulher doente, rareou as visitas. Ele preferiu sair sem avisar a ninguém. Foi caminhando até a parada de ônibus com a mochila nas costas. Não sabia nem que ônibus iria pegar. Ficou parado embaixo de uma mangueira e começou a lembrar do fatídico dia em que sua vida se transformou para sempre.

Adolfo tinha vinte e sete anos. Estava fazendo pós-graduação em física na universidade. Morava no Recife desde os quinze anos, mas era natural de Petrolândia no sertão pernambucano. Havia dois meses conhecera uma moça muito bonita, vinda do interior também, só que de Belo Jardim. Tinha um sorriso tímido. Conhecera-a no quiosque onde tirava xerox. Ela gostava de forró, de comer sushi e era muito afetuosa. Seus cabelos castanhos, seu rosto afilado, suas curvas bem moduladas, uma magreza saudável. Ela era alvirrubra, assim como Adolfo. Tinham ido assistir alguns jogos juntos, contra times do interior. Nara passou a semana insistindo para assistir a partida final do campeonato. Adolfo relutou, era perigoso, mas aquiesceu. Náutico e Sport se enfrentariam no estádio da Ilha do Retiro.

Agora, Adolfo segura a bandeira antes de entrar no carro e pede pra Nara: “Linda, bota a bandeira pra frente senão o pano vai cair quando o carro acelerar.” E partiram pro estádio, seguindo pela Avenida Caxangá. Adolfo tocando a buzina clássica da equipe alvirrubra: Quer dançar, quer dançar, o timbu vai te ensinar! Ao chegarem próximo do estádio, cerca de um quilômetro, na rua Benfica, o sinal ficou amarelo. O carro da frente freou. O Fiat Uno de Adolfo também. Uma pequena fila de carros do lado direito. Um ônibus azul, vindo de Camaragibe ocupou todo o espaço do lado esquerdo do seu carro. Outro carro situou-se atrás de Adolfo. Estava preso no engarrafamento pelos cinqüenta segundos em que o sinal estava fechado.

No ônibus azul, cerca de trinta torcedores da torcida organizada Jovem do Sport praticavam surf no teto do ônibus e windsurf nas janelas. Gritavam aqueles funks galerosos. Discretamente e como quem fala tentando mexer pouco com os lábios, Adolfo pede a Nara que abaixe a bandeira rapidamente. Nesses rápidos segundos em que se desenrolou essa ação, cerca de dez torcedores vestidos de amarelo gritavam, pulavam e se aproximavam do carro de Adolfo. Da janela do ônibus, outro torcedor aponta um morteiro de doze tiros em direção ao carro. Os fogos explodem contra o vidro frontal e a lataria. Nara começa a gritar de pânico. A bandeira cai no asfalto. Um rapaz de cabelo pintado com água oxigenada começa a socar a frente do carro, se aproxima da janela a plenos pulmões, insuflado pelos gritos dos companheiros dentro do ônibus. Uh, a Jovem aê! A cabeça de Adolfo estava confusa, a mulher gritando ao seu lado, os homens sacolejando seu carro, o medo tremulando em sua carne, as idéias embaralhadas, o mijo descendo pelas pernas...

O que Nara não sabia e ele nunca ia querer revelar isso naquele começo de namoro promissor, era que possuía uma arma escondida no carro. Uma arma adquirida com um amigo da faculdade, Salviano, também de Petrolândia. Uma pistola prateada. Ele tinha dado uns tiros no meio do mato da última vez que fora passar o São João na terra de seus pais, pequenos comerciantes. Mas, nunca tinha feito um curso de tiro ou algo parecido. O revólver estava embaixo do banco de trás. Adolfo não tinha escapatória, estava preso no trânsito. Mais jovens saltavam do ônibus. Seria escorraçado ali, preso. Sua namorada também não seria tratada com galhardia pelos rapazes que se jogavam do ônibus. Miséria! Em pensar que tudo aquilo durou o tempo de um sinal vermelho! Rapidamente, Adolfo puxa a arma, abre a porta do carro. Os rapazes deram um passo pra trás. O que estava com o morteiro na janela se emburacou pra dentro do ônibus. Os outros torcedores começaram a pedir que o motorista arrancasse com o ônibus. Corre, corre! O cara tá armado, porra! Adolfo invertera a situação. O jovem que socava a frente do seu carro deu três passos para trás e foi alvejado com um tiro no ombro. Pá! Ele balançou e se virou correndo para a frente do ônibus. Mirou o revólver pro rapaz do morteiro, mas ele não estava mais ao alcance. Assim mesmo, deferiu mais dois tiros contra os torcedores de amarelo. Um foi atingido na cabeça. Outro tiro atravessou o ônibus e se chocou contra a parede de um supermercado. Nara gritava dentro do carro. Socorro! Minha Nossa Senhora! Adolfo volta pro volante. O semáforo ficara verde. O motorista do ônibus andou poucos metros, ficou buzinando loucamente. Adolfo entra no carro, um barulho de buzinas toma conta da Rua Benfica. Todos tentam chamar a polícia de alguma forma. Outros torcedores do Sport se solidarizam com os rapazes do ônibus. O carro de trás dá uma ré e se joga na lateral onde estava Nara. O suplício da garota é interminável. Adolfo consegue arrancar e tomar a Visconde de Suassuna tentando voltar para a Caxangá. Mas, nem andou um quilômetro e duas viaturas da polícia já o seguiam. Tenta engatar uma fuga, mas Nara gritava, segurava seu braço e pedia, aos prantos, que parasse o carro. Ele para. Vários policiais o cercam. Mão na cabeça, vagabundo!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Dia do Professor

Quem inventou de colocar o dia dos professores no dia 15 de outubro, exatamente na metade do mês, quando o homenageado já não dispõe de quase nenhum recurso financeiro para formosear-se com seus confrades nesta data comemorativa? Talvez por isso as escolas dispensem nossos heróis da jornada de trabalho, escamoteando em forma de feriado a triste realidade desta data. Mas, mesmo assim, houve quem ligasse naquele sábado à noite para convidar nosso professor para uma noitada no Recife Antigo. Ex-colegas de faculdade, professores que também trabalhavam no serviço público acompanhados de suas esposas ou namoradas, formavam uma grande mesa que se destacava na Rua Tomazina. Nosso herói, um professor com seus 27 anos, recém promovido ao cargo na província de Pernambuco, um homem bem afeiçoado, de boa compleição física, homem de histórias, resolvera a contragosto encontrar os amigos que há alguma data não congreçava. Como o salário havia entrado na conta no final do mês de setembro, na metade de outubro, nosso herói teve que raspar o cofre para se arriscar na noite recifense.

O professor saiu com 15 reais na carteira, decidido a não beber, pois o dinheiro seria insuficiente, além do mais, seu cartão de passagem tinha quebrado na semana que findava e ele ainda haveria que pagar a passagem de ida e volta, de maneira que, resolutamente, só poderia gastar 11 reais naquela noite. Durante um longo período debateu-se, intrigou-se, se realmente valeria à pena sair de casa naquela situação. Porém, vencido pelo tédio, decidiu que arriscaria um passeio pelo centro da cidade. E lá estava na Rua Tomazina, meio desconfiado, a observar o movimento das moças bonitas e dos vendedores de loló.

Em pouco tempo, todos estavam se confraternizando, brindando ao Papa, contando piadas sobre judeus, e questionando o porquê do nosso herói não participar da pândega. Ele sem querer dizer o verdadeiro motivo, inventava uma desculpa qualquer e cinco minutos depois enchiam um copo para ele. Nosso herói sabia que se tomasse o primeiro copo, participaria da conta que daria no mínimo 20 reais por pessoa. Resolveu que daria um passeio pelas ruas do centro, disse que voltava já. Chegou no primeiro bar e pediu um quartinho de Pitú e um limão cortadinho. Estava louco de vontade de beber! Tomou a primeira lapada e deu uma chupada forte no limão que o fez arrepiar. Heya! Dá-lhe outra! 3 reais. Voltou à Rua Tomazina e já se sentia com outra disposição. Tirou uma moeda de 1 real e pôs no bolso, dizendo para si mesmo: “essa daqui é pra voltar pra casa.” No domingo, a tarifa do ônibus é pela metade, ou seja, 95 centavos. Ficava na mesa conversando, cada vez mais acaloradamente. Passou a pedir o quartinho de Pitú no bar em que os amigos se reuniam mesmo, lá o quartinho era um pouco mais caro, 2 reais e ainda teria os 10% do garçom. Mas, tudo haveria de se arranjar. Logo puxou assunto com uma professora meio dentuça que ele conhecia de vista da nova escola em que começara a trabalhar havia dois meses. Não era muito interessante, mas àquela altura da madrugada...

O pior que a professora ficou dando linha e puxando o anzol. Nosso herói se abusou e trocou até de lugar. Mulher complicada, deve ser cheia de problemas. Faltavam 5 minutos para as três da manhã quando, em comum acordo, todos resolveram pagar a conta. Nosso herói pagou 8 reais pelas cachaças que tomou e ainda possuía 2 reais. O bacurau das três já estava perdido. Nosso herói ainda podia tomar uma latinha de cerveja enquanto aguardava o último bacurau que sai às quatro da manhã do Cais de Santa Rita. Partiu para a Rua da Moeda. Tentou conversar com algumas pessoas, mas àquela hora seu aspecto deveria estar deplorável, sem contar o bafo de cachaça. Então, recostou-se no muro de uma casa abandonada e tomou sua cerveja, concluindo que os planos que fizera em casa e que o motivavam a não sair, se concretizaram. Ou seja, voltaria bêbado, não encontraria nenhuma garota interessante, não arranjara uma carona, a noite tinha sido uma merda e gastara os únicos 15 reais que dispunha.

A despeito de todas as maldições que confabulava consigo, resolvera de última instância, olhar a vida por outro viés. Tentara olhar o presente por um lado menos negativo e que ao menos possuía um emprego fixo, onde nunca seria demitido. Nessas meditações percebera que faltavam 15 minutos para as quatro horas. Resolveu se dirigir para o Cais. Atravessou a Ponte Giratória cantando uma música do U2 chamada Sunday Bloody Sunday, em homenagem ao novo dia.

Ao chegar no Cais, entre dezenas de ônibus, avistou logo o bacurau da Várzea e adentrou. O motorista tirando um cochilo na boléia, o cobrador do lado de fora comprando um picolé. Nosso herói ficou um tempo do lado de fora também, observando a gritaragem dos vendedores de café, pipoca, picolé, refrigerante. O Cais de Santa Rita, definitivamente, nunca dorme. O mau cheiro, a escuridão, os passageiros bêbados assim como ele, o cobrador subiu. Nosso herói seguiu-o e retirou a moeda de Um real que desde o começo da história guardara, garantindo seu retorno ao lar, entregando-a ao cobrador e esperando o troco de cinco centavos. O cobrador questionou: “cadê o resto?” Nosso herói, então, argüiu: “Ora, hoje não é domingo?! É meia passagem!” O cobrador que, provavelmente, deveria passar por aquela situação em diversas madrugadas de sábado para domingo, adquiriu uma feição insolente e disse que a meia-passagem só valeria à partir das cinco horas da manhã. O nosso herói ficou aperreado e correu para o porta-moedas da carteira. Tinha uma soma de um real e setenta centavos. Ainda faltava 15 centavos para completar a passagem! Nosso herói então, perguntou se poderia passar faltando 15 centavos, mas o cobrador disse que de maneira alguma. O ônibus começava a ficar cheio e a controvérsia entre cobrador e passageiro começava a chamar a atenção de todos dentro do veículo. Então, o nosso herói sugeriu ao cobrador que ele ficasse com o dinheiro e que ele ficaria ali, quietinho, na frente e desceria sem fazer alarde e que, ainda assim, o cobrador ganharia um trocadinho por fora. Mas, o cobrador decidido a manter sua moral inabalável perante os passageiros do ônibus, levantou-se, sua panóplia de orgulho resplandecera ainda mais, encaminhou-se para os degraus e ordenou ao passageiro que descesse imediatamente ou chamaria a polícia. Nosso herói estava prestes a chorar e argumentava: “Seu cobrador, o senhor vai me deixar aqui no Cais essa hora da madrugada? O próximo ônibus só vai passar daqui à uma hora e meia. Vou ficar aqui sozinho nessa escuridão por causa de 15 centavos?” O cobrador, cada vez mais orgulhoso de seu escrúpulo, dizia: “Bora boy, se tu num descer agora eu vou chamar a polícia!” A situação era irreversível, o orgulho do cobrador estava ferido e ele estava disposto a cumprir a lei à risca. Afinal, é a lei que move a vida dos cidadãos, ela é o dogma irrefutável da urbe e coitado de quem escapa à sua tirania!

Nosso herói já estava conformado com sua derrota quando um homem que acompanhava toda a desavença resolveu se levantar e entregar três moedas cor de bronze no valor de cinco centavos cada, finalizando assim o tão sonhado objetivo do cobrador, o número mágico, a razão transcendental de sua força de trabalho, o seu orgulho proletário, o Um real e oitenta e cinco centavos!! Ao estar de posse do dinheiro necessário, o nosso herói deixou de ser um homem submisso e toda a sua então humildade revertera-se numa cólera de fazer sublinhar as palavras de Hesíodo em suas análises sobre a fúria sentimental. O motorista tocou o ônibus e o cobrador sentou-se em seu lugar para receber as moedas e antes mesmo de se acomodar na cadeira, nosso herói lançou-lhe as moedas com toda a força no rosto, resvalando contra o peito e a janela que ficava ao fundo. Nosso herói, completamente enfurecido, bradava para todo o ônibus, a tremer de ódio: “Chama a polícia agora, seu filho de uma puta! Vai contar essa merda pra ver se tá certo! Tu nunca deixarás de ser um cobrador de bacurau, porque não mereces crescer na vida. Seu merda!” Todos no ônibus arregalavam os olhos diante da medonha cena que se desenrolava. Nosso herói repetia que o motorista parasse na polícia. "Parem! Parem! Vá dizer que eu não paguei!" Assim o transtornado gritava. O nosso herói indagou o cobrador: “Você sabe que eu sou? Eu sou um professor! E se me faltava 15 centavos para pagar uma passagem de ônibus é porque essa merda de país não valoriza a educação e um idiota como você não consegue abstrair o lucro que teu patrão tá ganhando nas tuas costas. Vai dizer pro teu patrão que tu ganhasse 15 centavos para a empresa e aguarda a recompensa que ele te dará!” O cobrador limitara-se a resmungar: “Tu és um liso.” O professor e o cobrador ainda trocaram farpas por alguns minutos até chegarem na primeira parada da Conde da Boa Vista, quando novos passageiros subiram e a turba se acalmou.

Ao chegar em casa, nosso herói muito abatido, sentira remorso de alguns palavrões proferidos. Todos haviam perdido. Gastara os últimos quinze reais que tinha até a chegada do próximo salário que viria em duas semanas e decidira que nunca mais sairia de casa enquanto não pudesse pagar o dinheiro do táxi.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Passeio Noturno

Passava das 23 horas da segunda-feira, quando meu telefone tocou. Estivera inquieto durante todo o dia, trancado em meu apartamento, não suportava mais meus solilóquios, minhas culpas e reclamações à respeito do infortunado presente. Do outro lado da linha, uma voz que mais parecia uma gravação de um disco de vinil antigo, com aquele chuviscado ao fundo, dizia-me em russo uma simples frase: "Ivan Ilitch morrera!" E por mais dois ou três segundos escutava apenas o ruidoso silêncio da suposta gravação. Desliguei o telefone e recorrendo ao número, surpreeendi-me que a ligação não deixara registro algum. Talvez as excessivas preocupações dos últimos meses, acentuadas com o ascesso de uma possível esquizofrenia, estivessem me produzindo alucinações auditivas. Resolvi que abandonaria meu celular em casa e iria flanar um pouco pela noite mal iluminada. Com os moradores a dormir, trancados em casa, no silêncio da caminhada, respiraria um ar puro, distante da impoluta convivência do meu apartamento.

Atravessei todo o bairro do Engenho do Meio numa caminhada solitária, passara pelo convento do Bom Pastor onde uma agradável sinfonia se fazia ouvir, dirigia-me até as imediações da Avenida Caxangá. Nesse ínterim, percebi poucos transeuntes a arriscar um passeio por aquela já distante hora. O comércio fechado. Um bêbado a vaguear ao longe, um segurança apitando sob uma bicicleta. Resolvera voltar. Ao olhar para o céu percebi que nuvens avolumaram-se, enegrecera-se a noite, uma densa enxurrada se anunciava. Tempo estranho. Em setembro, a última tromba d'água antes do longo e cálido verão. Passava pela tubulação da COMPESA quando a forte chuva me alcançou, nem sequer teve a discrição de cair em pausada garoa. Apressei-me em direção ao convento do Bom Pastor onde na ida, escutara ao longe, uma sinfonia irreconhecível. Ao atravessar a praça do convento, podia avistar o arco de entrada. Um arco que se espairava por alguns metros, diferente da visão habitual, esse arco parecia mais um tunel. Ao me aproximar, pude perceber que o som que vinha do convento era a Marcha Eslava de Tchaikovski, em seus primeiros, sombrios e quase silenciosos acordes. À esse momento, minha roupa estava encharcada e fui me proteger na escuridão do estranho tunel da entrada do convento. Ainda mais excêntrico era imaginar que música tão pomposa fosse ouvida num convento àquela hora da noite, beirando a passagem do dia, numa altura imprópria para o ambiente.

Adentrei-me no tunel escuro. Fiquei próximo da saída, onde as luzes dos postes pudessem ilumiar ao menos minhas pernas. A música me entretia e estava até feliz de escutar a reconhecível sinfonia naquela hora inoportuna. Mas, ao retumbar das notas fortes acompanhadas do estrondo provocado pelos tímpanos e címbalos, percebo um vulto a aproximar-se. Um velho com um chapéu de cangaceiro estava prostrado ao meu lado e à medida que se aproxiamva da claridade advinda dos postes, sua imagem ia se clarificando pra mim. Usava uma roupa antiga, era um legítimo cangaceiro, seus olhos eram extremamente vermelhos, seus dentes amarelos. Sua aparição no exato momento em que o tom da música crescia, causou-me um espanto que meus cabelos só não se puseram de todo em pé porque estava todo molhado da chuva. O coração pulsava na garganta. Escutava-se no momento do encontro apenas a retumbante música e a estrondosa chuva. Cautelosamente, dirigi-me ao homem, balbuciando qualquer coisa que pudesse soar amistosa: "Que chuva, hein!?" O homem limitou-se a concordar com um expressivo balançar vertical de cabeça. Continuei: "Por um segundo, cheguei a acreditar que se tratasse de um fantasma, ora essa." O homem com um sotaque do interior, finalmente disse alguma coisa. "Estou procurando uma estrada de terra que vai pra São Paulo, me disseram que posso encontrá-la em Ponte dos Carvalhos." Expliquei-o que estávamos muito longe de Ponte dos Carvalhos, que fosse melhor ele tomar um ônibus em direção ao Cabo de Santo Agostinho, tão breve os ônibus voltassem a circular. O homem mal prestou atenção ao que eu dizia, cortando-me a fala antes que terminasse, disse-me que vinha andando desde o sertão da Paraíba e que sua última parada fôra em Itamaracá. Pôs-se a contar uma história que escutara quando da passagem pelas proximidades da Ilha da pedra que canta.

Tratava-se da morte de um bebê numa vila de pescadores há muito tempo atrás. Um casal de noivos recém-matrimoniados tivera seu primeiro rebento. Um menino gordo, moreno, seria uma dos melhores pescadores que aquela ilha tivera. A mãe, um tanto fragilizada, de compleição enfraquecida, não conseguia dar conta da fome do recém-nascido. O menino passara a sugar o leite com tanta força que o peito da mãe criara um coagulo, um inchaço. Ela revezava os seios, mas não dava conta da vontade do bebê, que se punha a chorar, irritando de sobremaneira o pai. Após algumas semanas, os peitos da mãe se trasformaram em duas bolas inchadas, onde não podia nem apalpar. O menino continuava a gritar de fome. Sem explicação médica convincente, após uma noite de grandioso esforço para amamentar, a mãe da criança aparecera morta. O pai se esforçava em conseguir leite com os outros moradores da vila, mas a única ama de leite, estava com o peito quase seco. O pescador muito abalado pela perda da esposa e sem saber o que fazer com o filho desesperado de fome, tentava alimentá-lo, em vão, com água de coco, mas nada era suficiente. Na outra semana, o menino morrera. O pai, abalado, lançara-se ao mar e nunca mais fôra visto na comunidade, tendo sua embarcação regressado para ilha sem ninguém dentro. Após esse acontecimento, muitos pescadores de Itamaracá e região, dizem que no meio do silêncio do mar, em suas buscadas, escutam no meio do distante vão marítimo, um choro desesperado de criança com fome. Um choro tão atormentador que aposentou velhos barqueiros, que após escutarem o choro da criança nunca mais se arriscaram a enfrentar a vastidão do oceano em busca de alimento.

Eu escutava o relato do homem que falava vagarosamente e ao retumbar dos acordes da marcha que fazia cenário para sua narrativa, designava-me olhares expressivos, arregalados, cheios de sangue que pareciam encandecentes naqueles olhos ferventes. Quando o homem terminou de contar sua história, a chuva parou abruptamente. Não demorei-me e pedi licença ao homem, já me deslocando para fora do túnel. Disse-lhe rapidamente que fizesse uma boa viagem. Não olhei mais para trás até que estivesse distante uns 100 passos do arco do convento. Quando voltei meu olhar para o local onde a cena se desencadeara não havia sinal de qualquer pessoa, olhei para dentro do túnel e não havia vulto. Tomei o caminho errado de casa, aliás tudo parecia estranho, as construções pareciam antigas. Cheguei a uma larga rua onde não havia asfalto. O silêncio só não era absoluto devido às gotas d'água que caíam espassadamente da copa das árvores. Na escuridão da noite, avistei um farol de um caminhão que produzia um barulho excessivo. Um caminhão antigo, azul, com uma lona amarela na caçamba. Dentro, muitas pessoas. Famílias inteiras, víveres, medo e esperança perpetraram meu espírito durante os dez segundos em que avistei o caminhão chegar e passar. No fundo da caçamba, percebi o olhar de uma mulher que parecia minha mãe em seus retratos de juventude. Tentei acenar, mas o caminhão já se ia longe, espalhando lama pela estrada de barro. Entorpecido pela sequência de visões, corri feito um louco, ainda a música de Tchaikovski parecia me alcançar, me perseguir. Dobrei a última esquina do passado e vi-me novamente na rua de casa, defronte ao portão. Aconcheguei-me em casa, arremessei na rua meu disco de Tchaikovski.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O Sonhador

Existe pior malogro para um sonhador do que residir numa cidade grande? Quem nos obrigou a aceitar as leis sociais? Não, não, não! Não quero cair nos mesmos estereótipos! Como é difícil clarificar uma imagem! Imagine um homem que no cair da tarde caminha desolado pelas ruas do centro. Aquele centro do Recife que a qualquer dia da semana, no crepúsculo, oferece o mesmo decadente semblante. A música alta e de péssima qualidade, os prédios sujos, a rua que fede, os pedintes se arrastando com suas sacolas de estopa, um homem vestido decentemente caído no chão. O que terá acontecido com esse homem, pensa o sonhador? Teria a mulher o abandonado? O patrão o demitiu a agora não poderá dar de comer aos 3, 4 filhos? Está vestido com uma calça bege, camisa de botão. O nosso personagem parou em frente ao homem que balbuciava palavras incompreensíveis com os olhos fechados. Enconstado no gradil do Parque 13 de maio. A cidade é uma alucinação coletiva. Imaginem se cada homem fosse dar vazão aos seus sentimentos mais indignados no coração de uma cidade?! Ela se auto-destruiria em poucos minutos, talvez. O que mantém este corpus a funcionar é a dosagem diária de morphina que, sem que saibamos, está em nossa comida, na água mineral e no ar poluído dos canos de escape. Só pode ser isso, pensa o sonhador. Esse homem difícil de definir.

O homem se encontra na esquina da Conde da Boa Vista quando na prateleira do jornaleiro observa uma frase em letras garrafais: Concurso Para Professor do Estado. O nosso sonhador há muito tempo ambicionava uma vida distante dessa correria sem sentido, dos entroncamentos, dos compromissos inadiáveis. Imediatamente comprou o jornal e folheou-o na parada de ônibus. Viu que estavam precisando de professor de História na cidade de Buíque. Instantaneamente, remeteu sua imaginação para as fazendas que compõem a paisagem daquela cidade. Lembrou-se que trabalhou numa escavação arqueológica anos atrás e de outra viagem que fizera onde conhecera gente simples disposta a vender uns poucos hectares de boa terra por um preço bastante barato. Seria o momento ideal para aplicar suas poucas economias e se mudar para um lugar onde o sonho e o pensamento não fossem dicotomias inextricáveis.

O homem imaginou uma casa simples, com um bom telhado e uma pequena varanda onde no fim da tarde pudesse brincar com os cachorros, colocar a radiola com as caixas de som para fora e ouvir uma boa música sem ser incomodado por ninguém e, talvez, o melhor, não incomodar ninguém. Em seu apartamento no Recife, não podia ouvir seus estranhos discos em alto volume que logo apareceria alguém inventando que uma velhinha estava doente sem conseguir dormir. Ao redor de sua casa, teria um pequeno pomar, nada muito trabalhoso, pois o homem em questão era citadino e não cultivava o dom da agricultura. Tudo haveria de ser para o prazer e a satisfação. Além do mais, enquanto professor, receberia o pouco dinheiro necessário para a vida básica num lugar que não tem shopping center pra lhe sugar as poucas economias. Um poço artesanal garantiria a água durante todo o ano. Um corcel 75, com um toca-fitas antigo a tocar lo mejor de Benvenido Granda, seria sua distração nos dias em que precisasse se locomover até a cidade para lecionar. Ao cair da noite, os livros o fariam companhia. Na tranquilidade e no silêncio da madrugada poderia escrever as histórias que traz guardadas dentro de si: uma epopéia que se passa no Sri Lanka e a saga dos Herdeiros de Lampião. Quem sabe, após algum tempo, também o amor o agraciasse, naqueles distantes vales impenetráveis, longe da discórdia, da efemeridade e da descartabilidade das relações citadinas, encontre uma companheira que compreenda seu turbulento espírito. Os filhos poderiam estudar em Arcoverde e o pai haveria de os guiar através dos bons caminhos da leitura...

E assim, Maomé visitou os jardins de Alá ao mesmo tempo que uma garrafa se esvaziava. De repente, enquanto o homem estava fitando compenetrado através de uma janela que ficava na outra margem da Avenida Conde da Boa Vista: uma luz amarela, cortinas com desenhos de flores vermelhas, uma vaso sem esplendor; uma mulher muito magra e suja pede que a arranje qualquer moeda, pois disse que tinha cinco filhos para dar de comer. Mecanicamente, puxou qualquer trocado. O sonho se desfez, a natureza em seu aspecto virginal deu lugar às velhas maledicências dos transeuntes, o apitar nervoso dos táxis e todo o desolador cenário narrado anteriormente. A construção se desfez. Voltara ao ambiente onde a censura dos homens coibia qualquer abstração. O homem pôs-se de pé e passou a aguardar o ônibus que o levaria ao subúrbio, talvez já tivesse perdido um enquanto estava absorto em seus devaneios. Recolheu-se a razão e novamente separou as estradas do sonho e do pensamento, que, na cidade, conduzem a caminhos opostos.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Boaco - A Esquina dos Estudantes

Janeiro de 1980. Após a passagem de ano, resolvi que faria uma viagem espiritual pela América Central. Constava à época dos meus dezenove anos e era minha primeira viagem internacional. Desembarquei no dia 04 de Janeiro no Aeoroporto de San José na Costa Rica e decidi-me a conhecer as belezas e encantos dos países da parte norte da América Latina. Enquanto estava na Costa Rica, tudo se apresentava de maneira agradável. O país era bem organizado, com uma capital moderna, população de origem espanhola, enfim, um país senão rico, cortêz. Ao denunciar minha intenção de subir de ônibus para o México, passando pelos países que ficavam no meio do caminho do citado destino, os costarriquenhos, advertiam-me que a Nicarágua seria o lugar mais perigoso que iria encontrar. Um lugar de gente bárbara, muita população indígena, pouco civilizados, um país pobre e pra completar, saído de uma revolução que deixara toda a burocracia de pernas pro ar. Meu espírito de jovem altaneiro, pouco se apoquentou com as advertências.

Eis-me em Manágua. A primeira impressão foi de susto. A diferença econômica entre a Costa Rica e a Nicarágua era abissal. Desembarquei na rodoviária de Manágua às 14:30 e estava morrendo de fome. Atravessei uma pista de quatro faixas que ficava na frente da rodoviária e entrei num restaurante simples, cheio de pessoas falando muito alto e que logo se aperceberam que eu era um turista. Olhavam-me de soslaio. Fiquei com medo de ser assaltado, principalmente ao lembrar-me das advertências dos costarriquenhos, que perguntavam se eu era louco de visitar a Nicarágua. Perguntei à garçonete o que ela tinha para almoçar e ela sugeriu uma galinha cabidela. Comi, pedi uma coca-cola e pedi a conta. A mulher falando muito baixo, talvez para que os outros clientes não ouvissem, disse-me que a refeição e o refrigerante custariam 1 dólar. Paguei e pela cara de satisfação da garçonete, ela deve ter saturado um pouco no preço. Percorri as imediações da rodoviária de Manágua e o aspecto sisudo dos habitantes tornou-me odioso o lugar. Resolvi que naquela tarde mesmo pegaria um ônibus pro interior, pois tinha o interesse em conhecer a essência dos lugares e ao meu ver, essa raiz só podia ser encontrada no interior, longe dos grandes centros urbanos. Olhei no mapa e decidi que iria para Matagalpa ou para Boaco. Cheguei no guichê e perguntei de que horas sairia o ônibus para Matagalpa. A mulher muito mal humorada disse que os dois ônibus para Matagalpa já haviam saído e que o próximo só embarcaria no outro dia pela manhã. Perguntei se tinha passagem para Boaco e ela disse que o ônibus sairia em 20 minutos. Comprei a passagem por 3,50 dólares. Embarquei num ônibus amarelo, muito velho, com as letras arredondadas escrito acima do vidro do motorista (Managua - Boaco).

Tudo naquele país parecia muito rústico e fastidioso. Decidi-me que não me demoraria em Boaco e que no próximo dia pegaria um ônibus de Boaco para Matagalpa, e posteriormente, de Matagalpa para Tegucigalpa, já em Honduras. Sentei-me na janela do ônibus, do lado esquerdo. Ainda hoje, tanto tempo depois, me recordo da paisagem do Lago Manágua ao longe, com o brilho do pôr do sol reluzindo naquele imenso espelho d´água. Na beira da estrada, avistava flores que pareciam terem sido plantadas por hábeis mãos humanas. Mas, essa idéia logo se dissipou de minha mente ao perceber que aquele canteiro formado por plantinhas de flores amarelas se estendia por vários quilômetros. Na estrada, muitas árvores de tronco fino, com a abóbada cheia de flores róseas, o céu meio nublado ao fundo. O ar era puro e pela primeira vez em território nicaraguense, senti-me relaxado. O caminho entre Manágua e Boaco durava em média duas horas e enquanto tentava captar na mente o máximo de informações visuais, avistava a chegada de um vilarejo, era a cidade de San Benito, onde o ônibus tomou o caminho à direita e seguiu uma estrada que estava em péssimo estado rumo a Boaco. No caminho muitos pinheiros e uma árvore que eles chamam de guayacanes que se mostrava muito presente por todo o caminho, com suas folhas amarelas ou róseas compunham um visual inesquecível para o viajante.

Cheguei em Boaco pela noite e parti à procura de algum hotel. Encontrei a pensão da sra. Lorena Gutierrez, que cobrou-me a pechincha de 2 dólares por diária. Resolvi sair da pensão, após tomar um banho gelado e encontrar o parque el cerrito, onde os jovens se encontravam. As pessoas me olhavam desconfiadas na rua. Tentei achar que tudo aquilo seria normal, em toda cidade de interior um forasteiro é malquisto, incialmente. Encontrei dois jovens a conversar num banco. Aproximei-me e puxei conversa, disse que era brasileiro e que estava conhecendo a América Central. Então, os jovens se mostraram satisfeitos por conhecerem alguém do Brasil e perguntaram por quê fui para Boaco e não para Manágua ou Matagalpa. Expliquei os imbróglios da viagem. Os jovens eram inteligentes e auspiciosos, porém se mostravam inquietos em falar de política, afinal, eu poderia ser um espião naqueles tempos de turbulência. Nos apresentamos e fiquei sabendo que eles se chamavam Tirzo Ramón, de 19 anos, e Edwind Almanza, de 17 anos. O primeiro estava tentando estudar numa universidade na Costa Rica ou em outro local que houvesse brecha para recebê-lo. O segundo também almejava mudar de país. Eles sugeriram que no próximo dia, às 18h eu os encontrasse naquele mesmo banco que eles me levariam à Esquina dos Estudantes, o único local onde haveria gente interessante em Boaco, segundo os próprios, pois o resto da população era ignorante.

No dia seguinte, aluguei uma Toyota e fui conhecer os vales e montanhas da região central da Nicarágua. Fui à vila de Santa Lucía e Terrabona, antes de regressar à ciudade de dós pisos, como é conhecida Boaco, pois como a cidade é construída numa região montanhosa, possui dois andares. Apressei-me para ser pontual e cheguei no horário marcado no banco em El Cerrito onde encontrei Tirzo e Edwind. Eles foram me explicando o que era a Esquina dos Estudantes. Era um local, onde os melhores estudantes da cidade se encontravam para formular charadas e que vencia a disputa aquele que formulasse a melhor pergunta sem que os adversários descobrissem a resposta. Era um grupo de 9 estudantes, todos vestidos à moda nicaraguense. Calça jeans na altura da barriga, cinto de couro, camisa de xadrez e chapéu de couro com abas nas pontas. Alguns portavam bigodes. Muitos tinham expressões faciais indígenas, outros eram mais parecidos com espanhóis, mas eram mestiços. As perguntas feitas na roda eram do tipo charada mesmo. Por exemplo: "Qual o nome da mãe de Nero?", ou ainda, "Qual a capital de Indonésia?", ou, "Em que ano morreu Albert Einstein?". E vencia aquele que fizesse a pergunta mais difícil e que não obtivesse resposta. Aliás, a resposta não era dada no momento da charada. No outro dia, os estudantes se lançavam na biblioteca atrás da resposta e o perguntador ganhava ainda mais respeito entre os colegas. Um jovem chamava a atenção no grupo, era o baixinho Chino, de aspecto muito intrigado. Andava sorrateiramente e sempre que chegava na roda fazia a pergunta mais difícil. Não que fosse o mais inteligente. Ele quase nunca respondia uma pergunta, mas parecia ficar procurando a charada mais complicada para fazer depois da aula. Assim, aqueles estudantes gastavam o tempo naquela cidade esquecida no interior do país, talvez, mais esquecido da América Central.

No outro dia pela manhã, parti de Boaco. Minha última lembrança da cidade foi quando subi no ônibus e vi um grupo de fazendeiros montados em seus cavalos a discutir um assunto o qual não consegui entender. Um parecia se destacar entre os cavaleiros, usava uma camisa de botão alaranjada e um relógio reluzente no braço direito. Parecia comandar as ações. O ônibus partiu para Matagalpa, parando ao meio-dia na cidade de Muy-Muy, onde almocei. Vocês devem se perguntar o que de tão fantástico aconteceu que merecesse ser relatado nessa típica literatura de viajante? Pois bem, vou explicar. Ontem, andando pelas ruas do bairro da Várzea, aqui no Recife. Parei num botequinho em péssimo estado de conservação, mas que é afamado por ter o caldinho de feijão mais gostoso do bairro. Resolvi tomar uma lapadinha de cachaça e um caldinho naquele fim de tarde. Então, chamou-me a atenção a conversação de dois homens que falavam um espanhol brabo, tão rápido que eu quase não conseguia decifrar nada. Pareciam engolir as palavras, num vocabulário acessível apenas aos dois. Comecei a reparar em suas fisionomias e teimei em acreditar que conhecia aqueles rostos de algum lugar. Perguntei ao Mário, o dono do estabelecimente, quem eram aquelas figuras que se distinguiam dos outros frequentadores do recinto, que variavam de pedreiros a policias, passando por funcionários públicos. Seu Mário disse que o senhor grisalho era Tirzo Ramón, professor de agronomia da Universidade Federal Rural de Pernambuco e o segundo era um dentista que morava em Salvador e que toda vez que vinha a Recife, aparecia para tomar uma no seu caldinho. Não tive dúvidas que eram Tirzo e Edwind da Esquina dos Estudantes. Fiquei a fitá-los de longe. Me perguntava o que faziam bebendo naquela espelunca, falando espanhol em bom tom e sendo perturbado, vez por outra, por algum bêbado importuno. Tirzo percebeu meu olhar curioso para a conversa, mas não me reconheceu e voltou as atenções para a conversa com seu parceiro. Paguei a conta e fui pra casa sem ter interrompido a conversa dos dois. Fiquei feliz em ver que aquela Esquina naquele começo de noite de um dia qualquer de 1980 conseguiu formar pessoas que emergiram daquele local esquecido, de pessoas rústicas, onde nada parecia acontecer. Não ousei me aproximar para não quebrar o encanto da minha resolução. Essa foi minha lembrança principal de Boaco e da Nicarágua, ampliada pelo encontro insperado.

sábado, 18 de abril de 2009

O Assalto

A metrópole é a alma e o corpo da modernidade. Na grande cidade encontramos as rodovias que são como veias e artérias da incessante corrente de desespero que se transmutam em compromissos inadiáveis que, por sua vez, constituem o objetivo e a essência do adiposo e infartante corpo urbanístico. Ai do descuidado! Ai daquele que por estar absorto num pensamento transcedental caia num descuido ao atravessar uma dessas rodovias! A vida, nesses casos, muito raramente oferecerá uma segunda chance. Como se não bastasse a paranóia do trânsito de automóveis, o arroxo financeiro pelo qual a imensa maioria das pessoas passa (alguém quer patrocinar esse blog?), o desgaste das relações humanas, ainda temos que nos policiar nos momentos em que estamos, aparentemente, seguros.

Dia desses resolvi visitar um amigo no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife e, deixando-me levar pela amistosa conversa, dei-me conta que já passava das 22 horas e que já seria uma boa hora para retornar à minha residência. Tomei acento no ônibus número 440 que faz a linha CDU-Caxangá-Boa Viagem. Um ônibus bem iluminado, com muitas cadeiras disponíveis, de tal forma que tive a oportunidade de escolher sentar-me numa janela do lado esquerdo, ou seja, do lado do motorista. Atrás da minha cadeira encontrava-se um sujeito de mais ou menos 40 anos, mal vestido, com uma rôta camisa de botão, alguns dentes ausentes e visivelmente ébrio, a cantarolar uma música de Wando. Ainda havia dentro do ônibus algumas jovens senhoras que deveriam estar largando do trabalho no shopping, estudantes e homens vestidos decentemente. Ao chegar na parada da delegacia de Boa Viagem, uma boa leva de cidadãos sobem no ônibus, de tal maneira que os locais ficaram quase todos ocupados. Um homem corpulento sentara-se ao meu lado. Bastante espaçoso, deixou uma perna para a frente da cadeira e a outra colocou no corredor do ônibus. O coletivo seguiu caminho normalmente até o bairro da Imbiribeira, nas imediações do viaduto Tancredo Neves, quando dois jovens muito parecidos entre si adentraram no ônibus.

Pelo título da postagem vocês já devem entender do que se trata e adivinham que esses rapazolas eram os protagonistas de mais um capítulo de degradação da vivência nesta aldeia tecnocrata. O primeiro dos rapazes, um sujeito magro, com rosto cavado pelas olheiras, pele morena clara, com orelhas bem abertas (para não dizer de abano) e o cabelo escondido por um boné branco que tinha escrito a palavra QuickSilver, rendeu o cobrador e muito rapidamente escondia nos bolsos a bolada conseguida. O segundo rapaz estava sem boné, tinha a pele mais escurecida, o cabelo encaracolado ainda tinha resquícios de uma coloração recente, talvez tenha tingido o cabelo de vermelho. Usava uma camisa vermelha e uma bermuda de estilo surfista. Quando entendi do que se tratava, fiquei nervoso e ainda cogitei uma maneira de descer do ônibus antes do ataque fatal que, inevitavelmente, chegaria até mim. Entretanto, o senhor corpulento impediu qualquer possibilidade de arriscar uma saída do ônibus. O segundo rapaz anunciou o assalto, muito trêmulo, com o revólver muito distante do tronco, chegava a passar perto do rosto dos passageiros aquela máquina negra de matar. Começou a dizer que estava perdido (nós tínhamos perdido) e que ninguém reagisse ou iria levar chumbo quente na carne. A tristeza invadiu-me profundamente. Tinha ido pagar minha parcela do ingresso do show do Iron Maiden, algo em torno de 30 reais e ainda tinha 65 reais na carteira que me serviriam de uso para um bom tempo, tendo em vista que esse período de mestrado sem bolsa não me possibilita quase nenhum recurso financeiro. Mas, enfim, como já havia anunciado o meliante, todos nós tínhamos perdido.

O assaltante pediu para que todos nós entregássemos as carteiras e não deu qualquer sinal de que devolveria os documentos. As pessoas começaram a entregas as bolsas, relógios, celulares e tudo que pudesse ter algum valor de troca. Entreguei minha carteira logo após o senhor corpulento. O segundo assaltante seguiu para a parte de trás do ônibus enquanto o primeiro já havia descido. Enquanto este se dirigia para a rabeira do coletivo, o senhor corpulento atracou-se rapidamente com o meliante, numa cena rapidíssima dominou o segundo assaltante e o motorista, abriu a prota traseira e só escutei o barulho do corpo do senhor corpulento caindo na calçada por cima do segundo assaltante. O primeiro deve ter fugido nesse momento. Outros dois jovens que estavam no ônibus desceram pela porta traseira e foram ajudar o senhor corpulento. De repente, começamos a ouvir barulhos secos de tiros. Quatro, cinco, seis tiros. As pessoas dentro do coletivo gritavam aterrorizadas para que o motorista fosse embora. O medo de que alguma bala escapasse de sua trajetória primeira e se afeiçoasse de alguém no ônibus paralizava-me. Comecei a me contorcer na cadeira a imaginar em que parte do corpo o desnorteado projétil atingiria-me. Ficava esperando o beliscão. Protegia a cabeça com as mãos. O motorista avançou aproximadamente cinquenta metros e parou a pedido dos amigos dos dois jovens que foram ajudar o senhor corpulento. As pessoas começaram a gritar que o assaltante estaria atirando contra o ônibus. Por aproximadamente dois minutos o terror tomou conta dos passageiros.

De repente o barulho cessara e os mais curiosos desceram para ver o que tinha acontecido. Os ladrões tinham fugido e o senhor corpulento falava ao celular chamando reforço policial. O homem não quis entrar em detalhes sobre o acontecido e quando a viatura chegou conversava em tom de mistério com os policiais. Na minha cabeça, ele deveria ser um deles. Não quis saber os detalhes sobre a vida do senhor corpulento, pois me encontrava em estado de choque. Meus braços se contorciam como se quisessem entrar para dentro do corpo. Algumas mulheres pediam ao motorista que continuasse a viagem. Os materiais roubados foram restituídos aos passageiros. Mais à frente um Palio verde encontrava-se parado e uma mulher tinha sido atingida no ombro, enquanto estava sentada no banco do passageiro na hora do tiroteio. Estava passando no local errado, na hora errada. Ainda teve a sorte de ser atingida na parte posterior do ombro direito e estava em pé e dando relato aos policiais antes de se dirigir ao hospital, conduzida pelo marido (?) no próprio Palio.

Depois de alguns minutos de altíssima tensão, o ônibus seguiu sua viagem sem o senhor corpulento e com as pessoas mesclando um sentimento de terror e alívio. Uma senhora foi atendida pelos outros passageiros, pois parecia estar com a pressão alta. O bêbado que estava atrás da minha cadeira cantando uma música de Wando, chorava, pedindo para chegar logo em casa. Não vou negar que seu desespero era engraçado e no meio daquela tensão toda, eu dava gargalhadas espasmadas, contidas, do medo em que o bêbado se encontrava, pois era hilária sua situação e sua demonstração de terror, seu choro mal articulado pelas palavras errantes, seu odor de cachaça. Todos no ônibus desejavam voltar para suas casas e relatarem para seus parentes os momentos de aflição vividos dentro daquele ônibus numa noite de terça-feira. Talvez encontrar algum conforto entre queridos ou rememorar sua condição humana. Valorizar a desprestigiada vida. Assim a cidade segue seu caminho: os carros continuam raspando nos pedestres e ciclistas; os horários são feitos para serem cumpridos; projetos e mais projetos são viabilizados para que o fermento social continue sua progressão aritmética; os índices da economia continuam a oscilar; e eu continuo a caminhar pelas ruas da cidade na espera de encontrar algum sentido nesse nervosismo paranóico-suicídico. Desde que fomos expulsos do Éden, vivemos a sonhar com um lugar perfeito onde haja sossego e harmonia. Essa flor azul que se esconde em nossa memória coletiva. Abraço a todos e cuidado com os destinos da vida!