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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Vida Após a Morte

Tem dias que a desilusão apossa-se do nosso espírito, prostrado diante de tantas inexplicáveis respostas, da incerteza do futuro e do iminente e inevitável contato com a morte, perguntamos a nós mesmos: Para quê viver? Qual a função do trabalho se numa seqüência rápida de algumas dezenas de meses, estarei soterrado pelo que me sustentava? O que motiva uma mente dotada de força poética a questionar esta finitude? O filósofo alemão Arthur Schopenhauer dizia que a morte era a musa da filosofia! O poeta, mortal, perdura na espécie, na futura geração que o lerá e o consagrará. O que nos motiva a viver neste tão curto intervalo que nos é oferecido é a possibilidade de alargar, imortalizar a espécie humana, onde cada um de nós oferece, como voluntariosas formigas, sua carga de experiência.

O escritor e poeta russo Igor Volguin, presidente da Fundação Internacional Dostoiévski, sugeriu em palestra realizada no dia 01 de dezembro de 2009, que o Mestre de Petersburgo nunca poderia imaginar que no início do século XXI, tantos congressos e palestras fossem proferidos para debater sua obra. Ele que passou toda a vida com dívidas e lutando para sobreviver, é, há muito tempo, um sucesso de vendas em todo o mundo e motivo de discussão e inspiração para todos que o lêem. Para o crítico Harold Bloom, o grande escritor/poeta só faz crescer com o tempo:

“A força desses fantasmas – que é sua beleza – aumenta na medida em que a distância do poeta concorrente cresce no tempo. Homero, um poeta maior no Iluminismo do que foi entre os helenos, é ainda maior agora em nosso Pós-Iluminismo.”

A influência poética, diz Bloom, é uma luta pela Eternidade, ou seja, o autor quer prolongar sua existência nos textos escritos. Quando Schopenhauer profere que a morte é a musa da filosofia, está sugerindo que o poeta/filósofo tem consciência de sua curta jornada, mas sua projeção na continuidade da espécie humana o motiva a pensar num tempo muito mais abrangente que sua vida natural. Assim, o grande escritor vive noutra geração que o deslê, como diz Bloom, e o revive noutra linguagem adaptada à outra realidade de outro presente, adiante.

Esta influência não se demonstra necessariamente na manutenção da linguagem, mas principalmente, no universo das idéias, da experiência. Quando fazemos uma leitura de Montaigne, nos surpreendemos, de início, com a incalculável quantidade de citações que o escritor da Gasconha apresenta de textos antigos, da retórica clássica. O universo clássico povoa sua visão do século XVI, servindo de suporte para sua interpretação do presente. Assim, a tradição/influência de Sêneca, Virgílio, Teócrito, Cícero, Lucrécio e outros, mantêm-se viva através de centenas de anos, sobrepujando inclusive, a consistência do granito, do mármore e do concreto. O pensamento mostra-se mais forte que qualquer monolítico monumental, e o poeta torna-se perpétuo em seus versos, mesmo contra sua vontade: salve o desobediente Max Brod!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dostoiévski e Turgueniev: Ímpetos Juvenis

Durante o segundo semestre de 1845, iniciou-se em São Petersburgo uma amizade entre dois dos maiores escritores russos de todos os tempos, os jovens Ivan Turgueniev, então com 25 anos e Fiódor Dostoiévski, com 24. Ambos respaldados pelo carinho e proteção do crítico Vissarion Bielinski. Dostoiévski estava vivendo a glória que todo o jovem escritor sonha, havia escrito seu primeiro romance, Pobre Gente, e era convidado para os mais importantes e respeitados bailes da capital. Os condes Odoiévski e Solugob, escritores da nobreza russa, disputavam sua presença em suas reuniões e saraus. O tímido escritor mergulhava num universo de sonhos e glórias. Turgueniev também lançava suas primeiras novelas no Almanaque de Petersburgo e causou uma impressão formidável no impressionável Dostoiévski, conforme podemos observar em carta redigida ao seu irmão mais velho, Mikhail Dostoiévski:

“O poeta Turgueniev regressou de Paris há pouco (você deve ter ouvido falar disso), e tomou-se de amores por mim à primeira vista, com tanta dedicação, que Bielinski diz que ele se apaixonou por mim! E que homem ele é, irmão! Quase me apaixono por ele também. Poeta, aristocrata, talentoso, simpático, rico, inteligente, bem-educado e com 25 anos de idade. E, para completar, um caráter nobre, extremamente direto e franco, e formado em boa escola. Leia seu conto Andrei Kolóssov nos Anais da Pátria; é a cara dele, embora ele não estivesse pensando em fazer um auto-retrato.” (FRANK, 2008;215)

A nova amizade, tão promissora, começou a dar espaço para a imensa vaidade de ambos, especialmente de Dostoiévski. Por trás de toda sua timidez e doença nervosa (primeiros sinais da epilepsia), Dostoiévski escondia uma vaidade profunda. Os outros literatos de seu tempo, do grupo de Bielinski, começaram a se incomodar com suas opiniões extremadas, quase sempre coléricas, suas defesas de que o socialismo nascente na França, nada mais era do que uma vertente do cristianismo. Dostoiévski cria que os ideais legítimos do cristianismo antes de ser corrompido pela igreja, de amor-mútuo e divisão dos bens, era o sustentáculo da nova fé européia, o socialismo de Fourier, Saint-Simon e Proudhon.

O comportamento excêntrico e doentio de Dostoiévski começou a afastá-lo de seus novos amigos. A esposa do escritor Panaiev, a senhora Avdótia Panaieva, dá um importante relato da figura do jovem Dostoiévski numa das reuniões no salão de sua magnífica residência:

“Dostoiévski visitou-nos pela primeira vez à noite, com Nekrassov e Grigorovitch, ambos começando suas carreiras literárias. Percebia-se logo que Dostoiévski era uma pessoa extremamente nervosa e impressionável. Era magro, baixo, cabelos claros, uma pele macilenta; seus olhos pequenos e cinzentos corriam inquietos de um objeto a outro, e seus lábios pálidos contorciam-se nervosamente. Ele já conhecia a maioria dos convidados, mas estava visivelmente embaraçado e esquivou-se das conversas. Todos procuraram integrá-lo na conversação, para ajudá-lo a vencer a timidez e fazê-lo sentir-se um membro do círculo.”

E continua o relato:

“Por causa de sua juventude e timidez ele não sabia se comportar, e dava claras demonstrações de presunção como escritor e da alta conta em que tinha seu talento literário. Transtornado pelo inesperado brilho dos primeiros passos na carreira, coberto pelos elogios de críticos literários de renome, e impressionável como era, não conseguia esconder seu orgulho diante dos outros jovens escritores que então se iniciavam modestamente na mesma carreira. Com a entrada de novos escritores no círculo, poderiam surgir problemas se eles se sentissem ofendidos, e Dostoiévski, como se fosse de propósito, ofendia-os com sua irritabilidade e seu tom arrogante, deixando claro que se achava imensamente superior aos demais.”

Como expressado pela senhora Panaieva, o círculo se sentia incomodado com a presença arrogante de Dostoiévski, mas não sabia como expurgar aquele homem, cuja alma pesava como chumbo no ambiente frequentado pela elite intelectual russa dos anos 1840. Coube ao ex-amigo Turgueniev a tarefa de chegar aos olhos e ouvidos e Dostoiévski que ele não mais era bem quisto. E assim como acontece em muitas cenas de sua longa carreira literária, a sua humilhação foi pública e dolorosa.

“As coisas chegaram ao auge no outono de 1846 quando, certo dia, Turgueniev excedeu-se nas zombarias. Mme. Panaiev descreve a cena da seguinte maneira: 'Certa noite, Turgueniev descreveu, na frente de Dostoiévski, um encontro que tinha tido na província com uma pessoa que se imaginava um gênio, e pintou com maestria o lado ridículo dessa pessoa. Dostoiévski ficou branco como uma folha de papel e, tremendo da cabeça aos pés, retirou-se apressadamente sem esperar pelo resto da história. Eu então comentei diante de todos: mas por que deixar Dostoiévski furioso dessa maneira? Mas Turgueniev estava muito inspirado, monopolizava a atenção de todos, de modo que ninguém percebeu a súbita retirada de Dostoiévski. […] Dessa noite em diante ele nunca mais nos visitou e até procurou evitar encontrar-se na rua com qualquer membro do nosso grupo. […] Só esteve com Grigorovitch que nos disse que Dostoiévski nos tinha insultado veementemente […], e dizia que tinha-se sentido muito decepcionado conosco e que nós éramos invejosos, cruéis e desprezíveis'. Em novembro de 1846, numa carta dirigida a Mikhail, Dostoiévski afirmou: 'Eles [a Plêiade] são todos uns patifes mortos de inveja.'” (FRANK, 2008; 216-217)

O rompimento de Dostoiévski com o círculo de Bielinski trouxe prejuízos incalculáveis para sua vida de escritor na década de 1840. Por ter sido quase que expulso do grupo por causa da pilhéria de Turgueniev, passou a freqüentar outros grupos, de pessoas mais radicais, até que chegasse no círculo de Petrachevski, onde todos os membros foram enviados para a Sibéria, inclusive Dostoiévski. Outro dano, talvez o pior, foi que a crítica literária, centralizada com toda a força na opinião de Vissarion Bielinski e seus membros do círculo, passaram a denegrir as novas obras de Dostoiévski que surgiam. O Duplo, ou O Sósia, segundo romance do escritor, foi recebido como uma obra comum, ou até pior do que isso. Nos dias de hoje, O Duplo é uma obra estudada, debatida e bem recebida pela crítica internacional. Muitos dos membros do círculo não são conhecidos nem na Rússia, hoje em dia, embora esse não seja o caso de Turgueniev e Bielinski.

Décadas depois, os dois escritores voltaram a se encontrar, na Alemanha. Turgueniev sempre foi conhecido como o mais ocidental dos escritores russos do período. O crítico Leonid Grossman chega a afirmar que tinha vergonha de ser russo. Um certo dia da década de 1860, quando Dostoiévski estava na Alemanha, no encalço da atriz Paulina Suslova, gastando todo seu parco dinheiro com hotéis e jogatina na roleta, foi ter com Turgueniev. Foi pedir-lhe dinheiro, pois havia perdido tudo na roleta. A atriz havia ido para a França e ele não tinha dinheiro nem para comer. Turgueniev lhe empresta algum dinheiro. Duas semanas depois, Dostoiévski volta à casa de Turgueniev para pedir-lhe mais dinheiro, pois havia perdido tudo novamente. Turgueniev nega-lhe o dinheiro e lhe expulsa de sua residência. Dostoiévski fica no hotel sem dinheiro nem para o chá. Essa nova cena de humilhação está descrita nas páginas do romance autobiográfico O Jogador.

Turgueniev influenciou Dostoiévski profundamente na década de 1860. Suas principais obras nesse período, Crime e Castigo e Notas do Subsolo, são respostas ou tentativas de interpretação do personagem niilista Evgueni Bazárov, do livro Pais e Filhos de Ivan Turgueniev. Este escritor criou a palavra niilista e introduziu este tipo de personagem na literatura russa.

Turgueniev e Dostoiévski, dois escritores contemporâneos, dois gênios do seu tempo, que começaram como amigos fraternos, depois deixaram-se envolver pela vaidade da fama literária, mas não podiam morrer sem que as questões ignóbeis de suas vidas fossem reelaboradas e esquecidas. Em junho de 1880, seis meses antes do próprio ocaso, Dostoiévski discursou no aniversário da morte de Púchkin e encantou toda a platéia, apesar de sua voz baixa e rouca de doente terminal. Dizem os jornais da época que o emotivo discurso fez jovens estudantes desmaiarem na platéia e uma onda de aplausos incansáveis foi escutada por vários minutos. Quando Dostoiévski desce do púlpito, Ivan Turgueniev o espera. Ambos se abraçam e fazem as pazes. E a literatura agradece ao gênio de ambos que ajudaram a construir e alicerçar a fabulosa pirâmide do romantismo russo.

sábado, 23 de outubro de 2010

O Câncer do Futebol Brasileiro


No último domingo, a maioria dos pernambucanos comemorou avidamente o acesso do Salgueiro, clube do sertão pernambucano, da cidade homônima de menos de 60 mil pessoas, para a série B do futebol nacional. Sem dúvida, um feito espetacular. E essa é a grande magia do futebol. No ano de 1983, o escocês Aberdeen bateu o poderoso Real Madrid na final da Recopa européia na cidade de Gotemburgo, com um escrete formado exclusivamente de jogadores locais, capitaneados pelo então desconhecido treinador Alex Ferguson. E muitos outros exemplos poderemos encontrar de clubes pequenos que alcançaram sua glória no mundo futebolístico. Mas, a vitória do Salgueiro sobre o Paysandu traz consigo um fantasma que há longa data assusta alguns grandes clubes do Brasil, especialmente do Norte e Nordeste, o sucateamento do futebol.

O futebol brasileiro é um produto de incalculável valor, poderíamos afirmar. O mundo inteiro se rende aos nossos dribles, aos nossos craques, aos nossos títulos em todas as modalidades. Porém, esse nosso produto não é bem vendido para um mundo sedento de consumi-lo. Para se ter uma idéia, o campeonato turco arrecada mais do que o brasileiro com direitos de transmissão. Os turcos vendem seus jogos para a Alemanha, Rússia e países árabes. Arrecadam uma boa bolada e podem manter os bons jogadores, além de contratar craques brasileiros para incrementar o nível futebolístico. Até o campeonato mexicano arrecada mais que o brasileiro! Na última Copa, exceto dois ou três jogadores, todos os jogadores da seleção mexicana atuavam dentro do seu próprio país. Mas, o Brasil, pentacampeão mundial, que possui clubes tradicionais e com imensas torcidas apaixonadas, não consegue vender seu campeonato para a Europa, nem para o Japão, muito menos para os países árabes, nem latinos. Vendemos apenas para a Globo. Consumo interno.

Será que ninguém se interessa pelo futebol brasileiro? Será que o campeonato turco é mais interessante que o nosso?! Para mim, é um problema de administração do alto escalão do futebol brasileiro. Lá em cima do Castelo de Kafka, onde ninguém consegue chegar nem saber o que acontece nas altas torres, os poderosos estão satisfeito com o “pouco” que recebem. Talvez porque se os americanos vierem a comprar esse produto, queiram colocar auditorias sobre a distribuição do dinheiro, ou então, se os ingleses comprarem, trarão os repórteres da BBC para fazer matérias de espionagem dentro de suas secretíssimas salas. Então, é melhor ficar com o consumo nacional, afinal de contas, a gente já é acostumado com as travessuras dos mandatários mesmo! E assim, o futebol brasileiro fica nesse descaso, as torcidas se acostumaram ao baixo nível dos espetáculos, jogador bom, só acima dos 30 anos ou com menos de 19. Mais de mil jogadores profissionais estão atuando fora do Brasil porque não conseguimos manter nossos craques. Para mim, só há duas possíveis respostas: ou o Clube dos 13 não sabe vender um produto que já faz a propaganda por si só, ou não quer se ver na companhia ingrata da imprensa internacional, a pesquisar suas contas.

No Brasil, o futebol é dividido: a CBF cuida da seleção, e o Clube dos 13 cuida do campeonato nacional. A CBF quase não tem trabalho, apenas engorda, pois vende todos os amistosos da seleção para uma empresa que põe o Brasil jogando lá pela Europa mesmo. Já o Clube dos 13, esse pinta e borda dentro do território nacional: divide as cotas de televisionamento do jeito que quer; marca jogos que terminam de madrugada; faz campanha com árbitros para que medalhões do seu elenco não sejam rebaixados e por aí vai. Quem está dentro desse quadro, conta com um mínimo de estabilidade, pois recebe um dinheirinho certo por ano. Quem está fora... Ah, quem está fora está comendo o pão que o diabo amassou! O Clube dos 13 divide as cotas de dinheiro do jeito que quer, entre eles, nas suas reuniões que acontecem pelas bandas do sul e sudeste, nas sedes de seus grandes clubes. E lá, definem: fulano vai ganhar X milhões, beltrano vai ganhar só Y. Fora do eixo sul-sudeste, apenas 4 clubes fazem parte do seleto e importante cenário do Clube dos 13: o Goiás, único clube do centro-oeste; o Sport, o Bahia e o Vitória, no nordeste. O Goiás, mesmo recebendo uma quantia pequena, mas perene, está sempre satisfeito. De vez em quando é rebaixado, mas logo sobe de novo para a Série A. Pode manter uma folha salarial de 800 mil reais, pagando em dia, mesmo que a torcida não compareça ou que nenhum patrocinador se interesse em aparecer junto à sua marca. Seus adversários goianos, coitados. Não possuem do mesmo privilégio. Eles precisam da torcida em massa, dos patrocinadores fortes e até da sorte, para competir com o afortunado adversário. E assim, o Goiás está sempre satisfeito e o Clube dos 13 se defende das críticas de ser “sulista”, dizendo: “olhe lá, temos representante no centro-oeste e no nordeste!”

O Paysandu vai ficar outro ano na terceira divisão. Acho que fui o único pernambucano que estava torcendo pelo Papão da Curuzu no último domingo. Eu que já estive em Belém e pude comprovar de perto, o amor que os paraenses alimentam pelos seus pobres clubes, esquecidos pelos poderosos do Clube dos 13. O Clube do Remo vai passar mais um ano na quarta divisão! E o Santa Cruz? Colocou mais de 50 mil pessoas num jogo contra o Guarany de Sobral e foi eliminado. Os times de torcida que jogam a série C e D, terão muita dificuldade em voltar para as séries A e B, porque eles possuem a ansiedade de seus torcedores, da imprensa, pouco dinheiro, patrimônio material caindo aos pedaços. Enquanto seus adversários: Guaratinguetá, Grêmio Barueri, São Caetano... são clubes de empresários, sem pressão, franco atiradores.

O dinheiro do Clube dos 13 fica preso nas torres do alto castelo. Enquanto isso, estamos a observar o desaparecimento gradual, lento, agonizante, do futebol norte-nordestino. É isso o que o Clube dos 13 quer: os paraibanos, potiguares, amazonenses, matogrossenses... torcendo pelos times do eixo Rio-São Paulo, além dos mineiros e gaúchos. O futebol para esses quatro estados apenas. E assim, o futebol brasileiro que poderia ser altamente rentável, ter cinco, seis divisões fortes, bancadas pela venda do campeonato para os países de todo o mundo, fica a mercê de uma esmola dada pela Globo, dividida por um pequeno grupo de clubes e o resto... o resto que se exploda!

domingo, 10 de outubro de 2010

O Dia das Crianças


O comércio criou uma data comemorativa para celebrar a infância, é o famoso dia 12 de outubro, dia das crianças. Não por acaso, fatura-se tanto com a venda de produtos para os infantes. A imaginação de uma criança é preciosa. Uma menina é capaz de ficar um longo tempo brincando com uma boneca e naquela relação homem x objeto, um universo de criações e fantasias se estabelecem. Os pequenos carrinhos de corrida ziguezagueam pelos obstáculos da casa, entretendo a mente por um longo tempo. Porém, quando crescemos e nos vemos diante dos encargos repressores da realidade, o mundo da fantasia é relegado ao status de coadjuvante de nossas atividades mentais.

Como não posso presentear as crianças que conheço ao mesmo tempo, tampouco imagino que muitas delas visitem este espaço, quero repartir com os adultos que por aqui passam, um pouco do sentimento que a infância deixa em nossas vidas e que, tantas vezes, ofusca-se nas atitudes estúpidas que tomamos quando envoltos estamos no mundo da realidade burocrática.

Hoje resolvi assistir pela segunda vez o filme A Viagem de Chihiro (Spirited Away) do diretor japonês Hayao Miyazaki, e senti-me assaltado de tantos desejos de dividir o que durante o filme ficou tão latente no espírito. Decerto, não retomarei a emoção do momento em que assistia, mas uma cena em especial me fez refletir sobre a infância e sobre a nossa relação com o tempo: quando a garotinha reencontra os pais no final do filme. O escritor argentino Jorge Luis Borges, tantas vezes nos joga num universo em que o tempo e o espaço adquirem uma sensação de inconformidade em relação ao presente ao qual estamos habituados. Assim, o momento em que a gota da chuva escorre por nossa testa pode ser suficiente para que um escritor finalize e revise todo um romance que há "tempo" havia planejado. Também os espaços adquirem formas enormes, esfumaçadas ou até límpidas demais, que se contrastarmos com o nosso arquivo real, não encontraremos parâmetro satisfatório. No livro IX das suas Confissões, Santo Agostinho diz sobre o tempo: "O que é afinal o tempo? Se ninguém me pergunta, sei; se alguém me pergunta e quero explicar, não sei mais." Santo Agostinho coloca-se diante do problema de se medir aquilo que não é. Após questionar-se a maior parte da vida sobre o tema, reelaborando os conceitos de Aristóteles e Plotino, Agostinho encerra que o passado e o futuro encontram-se no presente, o chamado Tríplice Presente. O tempo, resumidamente, para Santo Agostinho é medido dentro de nós.

Na Viagem de Chihiro, a garotinha empreende uma excursão por um universo mágico, cuja comparação com nosso mundo de monóxido de carbono e bolsas de valores não é possível de ser realizada. Tanto que enquanto ela esteve envolvida em suas aventuras, para seus pais, o tempo transcorrerá o suficiente para que a menina se perdesse no alto de um barranco e voltasse. Nesse caso, o tempo não foi o mesmo para Chihiro e para seus pais, embora no relógio tenha-se transcorrido o tempo habitual. Enquanto desaparece, a menina penetra num universo mágico, em que a imaginação distende-se até que um novo mundo se construa. Quando observamos uma criança a brincar com sua boneca ou com um carrinho, entre tantos tipos de brinquedo, não podemos supor que tipo de interação ficcional está ocorrendo naquela relação homem x objeto.

Hoje, após terminar de assistir o filme da garotinha Chihiro, uma onda de desolação me atingiu de modo profundo. Uma saudade inconsolável de ver o mundo com olhos de criança, distante da amarga e insensível relação de sociabilidade que nos torna homens sem rostos, nervosos em engarrafamentos, agressivos na fila do banco ou mentirosos na saciedade de nossos desejos libidinosos... Era uma tarde solitária de domingo neste bairro de subúrbio, quando a história da mocinha japonesa mudou minha relação com o tempo e o espaço. Fez-me renascer o espírito mágico da infância e transportou-me para um mundo de sonhos, ainda que a duração deste sentimento não se prolongue por muito tempo.

video da música final com tradução: http://www.youtube.com/watch?v=Z-Dr3IeTbrY

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Walter Benjamin em Moscou

Na década de 1930, o filósofo judeu-alemão Walter Benjamin empreendeu uma viagem por várias cidades da Europa, entre elas, a capital do Império Soviético, Moscou. Para um morador de Berlin, a experiência de se conhecer um país que, originalmente sempre foi tão diferente culturalmente, agora também no campo político, pois tratava-se de um modelo de governo que chamava a atenção de todos os outros governos no mundo que cultivavam com suspeita o olhar curioso sobre o Kremlin moscovita. Mas, para a surpresa de Benjamin, conhecer a Rússia, ou melhor, a União Soviética, foi um grande aprendizado para que pudesse entender a sua familiar Europa.

O fotógrafo, o pintor, o literato, o arquiteto... ambos, contam a história da cidade. Cada um carrega sua vivência urbana. Assim, como os milhares de olhares que se cruzam na multidão, as “visões” da cidade por parte das diferentes formas de contar a experiência vivida se entrecruzam nas ciências que estudam a sociedade. O relato desses intérpretes das cidades acaba por nos inserir em suas realidades e, assim, nos tornamos viajantes de uma experiência ficcional.

O nosso cotidiano espacial só pode ser interpretado após um estranhamento do mesmo, um mal-estar em relação ao ambiente vivido. Sem a experiência do contraste e da oposição, a análise empobrece-se. Quando Walter Benjamin afirma que “por meio de Moscou se aprende a ver Berlin mais rapidamente que a própria Moscou”, ele está reforçando essa imagem. Mais adiante, ele afirma: “Só quem, na decisão, fez com o mundo a sua própria dialética pode apreender o concreto.”

O morador de Berlin só vai se sentir apto a conhecer sua cidade quando em outra realidade se encontrava. A Moscou comunista da década de 1930, com suas ruas apinhadas de gente, num corre-corre contínuo, com o barulho da multidão, vai recriar a imagem da cidade em que morava. Não por acaso, a historiadora Sandra Jatahy Pesavento vai utilizar-se das técnicas do próprio Benjamin para justificar a transcendência do olhar do escritor:

“A idéia de contraste, produzindo a revelação ou a descoberta, seria desenvolvida por Walter Benjamin, ele próprio leitor de Baudelaire e amante de Paris. Cortando os vínculos genéticos passado/presente, o que Benjamin postula é a criação de contra-imagens que rompam o contínuo da história, oportunizando o que se chamaria 'o salto do tigre', que daria margem à inteligibilidade pelo contraste.”

Para Benjamin, o cruzamento de imagens contrárias são necessárias para que se possa obter uma imagem coerente do sentido de uma época, presente ou passada. Porém, essas cidades não necessariamente precisam ser reais. Nas Cidades Invisíveis, Italo Calvino tornou “visível” cidades que só existiam no mundo ficcional. O topos uranos de Jorge Luis Borges é outro estilo típico de criação de cidades de sonho e poesia. Mas, no caso de Benjamin, a viagem para Moscou fez com que a própria Alemanha passasse a ter outro significado em sua visão de mundo. As ruas de Berlin lembravam os desenhos de Grosz: silenciosas, vazias, limpas, maquetes. Uma oposição a Moscou, que pela narrativa do autor parece-se quase com certos recantos de cidades brasileiras, caso não fosse a presença da neve. Observemos:

“Em Moscou, as mercadorias irrompem por toda a parte das casas, se penduram nas cercas, se apóiam às cancelas, jazem no calçamento. A cada cinqüenta passos se encontram vendedoras de cigarros, de frutas, de doces. Ao lado tem um cesto de roupas com as mercadorias, às vezes também um pequeno trenó. Um pano de lã colorido proteje maçãs ou laranjas contra o frio; duas amostras ficam por cima. Ao lado, bonecos de açúcar, nozes, bombons. Faz pensar numa avozinha que, antes de sair de casa, olhou ao redor em busca de tudo com que pudesse surpreender seus netos. Agora, a caminho, estão na rua para repousar um pouco. As ruas de Berlin não conhecem tais sentinelas com trenós, sacos, carrinhos e cestas. Comparadas com a de Moscou, são como um velódromo vazio e recém-varrido, no qual avança uma pista de corredores de uma prova ciclística de seis dias.”

Um convite para entrecruzar caminhos e reconhecer-se noutras perspectivas...


domingo, 22 de agosto de 2010

O Amargo Remédio do Governo

“Realmente, em nenhum momento a compaixão se apossa tanto de nós como quando vemos a beleza tocada pelo hálito putrefato da devassidão.”

Nikolai Gógol

O que posso falar sobre música erudita para vocês, amigos leitores do blog? Muito pouca coisa, certamente. Nunca estudei teoria musical, tampouco possuo talento para envergar um violino, um clarinete, ou o mais popular dos instrumentos, o violão. A natureza não me beneficiou com seus dotes artísticos. Tenho a mão dura dos brutamontes e a impaciência dos ansiosos. Isso também vale para a escrita. Quantas vezes não desejei desenvolver um pensamento com maior destreza e desenvoltura e me vejo encarcerado pelos paredões da norma culta. A grande arte, seja qual for, é para corações e mentes sensíveis, no sentido mais amplo que esta palavra carrega.

O que tenho a dizer pode machucar os corações esquerdistas, os que se acham solidários e beneficentes, os que sonham com utopias socialistas e delírios democráticos. Não, não vou defender a elitização da sociedade. Que a sociedade ofereça mais e mais privilégios de equiparação social e lute contra a pobreza degenerante dos que sentem fome e não possuem o básico. Hei de defender essa idéia sã e justa. Ou não, talvez eu minta. Minta para agradar o leitor que me visita, meus amigos cheios de cartilhas partidárias. Não defendo nada que escape as minhas forças, nem nada que exija de mim a coletividade. Aprendi a dançar, mesmo que canhestramente, conforme a música.

Nesse agradável mês de agosto, aqui pela planície litorânea do Recife, desembarcou o Festival Chopin-Schumann dedicado aos 200 anos de nascimento desses dois compositores do século do Romantismo. Uma oportunidade para reunir grandiosos músicos do nosso país em devoção à arte maior da música. E tudo foi tão bem arquitetado! Escolheram dois excelentes teatros para as apresentações: o antigo e majestoso Santa Isabel e o aconchegante e acústico Teatro da UFPE. Os ingressos eram gratuitos, graças à contribuição de grandes empresas fomentadoras de maravilhosos eventos como este, além do apoio do Governo.

Apoiar a cultura, seja regional ou não, tem sido uma das tarefas mais festejadas pelos cidadãos no período eleitoral. O sempre necessário pão e circo. Acredito que até o ego de uma cidade pode ficar mais enaltecido quando os moradores observam, cotidianamente, o circular das mais variadas formas de arte. E o recifense, depois da geração manguebeat até a “nação multicultural” de hoje, é o maior exemplo. Depois dos cariocas, não conheço outro povo que se orgulhe mais de sua cultura popular. Mas, isso é outro assunto. Voltemos ao Festival Chopin-Schumann. No dia 12 de Agosto dirigi-me até o Teatro da UFPE na intenção de acompanhar o solo da pianista Andréia da Costa Carvalho. Cheguei uma hora antes e pude retirar o ingresso e acompanhar a chegada do público. Pois bem, de repente, quinze ônibus cheios de adolescentes, alunos das escolas públicas do Recife, começaram a chegar. Ao estacionar, já se ouvia a algazarra que faziam dentro do coletivo fretado pela Prefeitura. Vinham cantando músicas de brega e funk. Pensei comigo: “Eles devem ter selecionado os alunos mais interessados.”

Antes mesmo da pianista adentrar a algazarra era completa. O apresentador, José Mário Austregésilo, pedia silêncio para a juventude que respondia com gracejos, aproveitando-se do ocultismo da penumbra. Nem mesmo a pianista iniciara seu trabalho, ouvia-se “fiu-fiu”, “Tereza, rapariga!” e outras baixezas que só são permitidas em estádio de futebol. Levantei-me com um ódio profundo e voltei pra casa. Era pra ser uma noite de divertimento e devoção à música e terminou numa profunda dor de cabeça e reflexão sobre a promoção desse tipo de evento. Não se trata de preconceito contra alunos de escolas públicas. Se fossem alunos dos mais “respeitados” colégios do Recife, fariam o mesmo, ou parecido. O que me irrita é essa necessidade de casa cheia, de inserir a população na arte da música erudita como se fosse um remédio que se toma goela abaixo e fosse limpar a mazela social em que estão inseridos. Ora, não duvido que para alguns poucos alunos, aquele momento tenha sido sublime, mas para a grande maioria só deve ter feito aumentar o abismo interno em que se sentem em relação à classe culta. Mesmo gracejando, eles tinham consciência do quanto estavam incomodando, do desprezo da maioria da platéia por suas atitudes. Será que os organizadores desses eventos não percebem a agressão que estão cometendo para com o público, a artista que estudou a vida toda para atingir aquele grau de perfectibilidade, e o espírito dos compositores homenageados?! Ou estão cada vez mais interessados nas gordas verbas do Estado que exige apenas a participação popular? A grande arte não foi feita para a maioria e, não estou separando por classes sociais, mas por grau de sensibilidade. Faço côro ao filósofo Nietzsche quando põe na boca de Zaratustra que “a vida é um manancial de alegrias, mas onde quer que o populacho vá beber, todas as fontes se encontram envenenadas.”

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Dedo no Cu da História

Vou relatar uma história que aconteceu em outubro de 2005, na cidade de Aracaju, capital do Estado de Sergipe. Aquele que se predispõe a contar uma história assina um acordo com o leitor, partindo do princípio que o segundo haverá de acreditar na veracidade dos fatos por ele narrados. Ainda bem, que para dar o veredicto sobre minha história, dois mil historiadores são testemunhas. Até me sinto num dos contos de Borges ou Kafka: “dois mil historiadores testemunharam o fato!” Que evento maravilhoso poderia dispor de tão nobre e reconhecida platéia! Ah, mas o dia em questão, ou melhor, a noite, foi da abertura de um encontro de estudantes, o ENEH, Encontro Nacional dos Estudantes de História.

Quem já foi a um encontro de estudantes sabe como o negócio funciona. Um monte de jovens aglomerados, dormindo em barracas, chapando de hora em hora, fazendo ou desejando o sexo e dando vazão aos mais voluptuosos desejos. Assim, cada dia desta semana, vale mais do que um mês inteiro no cotidiano de um cidadão comum. Era o primeiro dia do ENEH de Aracaju. A delegação de Pernambuco resolveu colocar as barracas no fundão do acampamento, cercados pelos cariocas da UFF e da UFRJ. Lá no final, embaixo de uma marquise, fizemos uma favelinha muito disputada. Eu, com minha barraca quebrada, O Monstro dormindo numa rede a semana toda e O Baga num papelão. Imaginem, que visão!

Chegara a noite de abertura do Encontro. Haveria um show de música popular no centro de Aracaju, num lugar parecido com um mercado aberto de rua. Mas, calma. Chegaremos na festa. É preciso se deslocar primeiro. Durante todo o dia estivemos entretidos em nos bacantearmos. Beber, fazer escambo com os cariocas, ficar doido de verdade. À época, sempre que viajava, levava uma cachacinha pra vender, chamada Meladinha, uma mistura de cana de cabeça com canela, anis estrelado e melaço. Essa cachacinha era meu sustento durante o encontro. Levei o suficiente pra vender e pra beber. Nos deslocamos para o centro da cidade, só Deus sabe como. No meio do caminho, ainda uma 20 horas, talvez. Algum engraçadinho teve a idéia de adentrarmos num cabaré, cujas portas sempre convidativas se escancaravam no caminho do mercado. Paramos, assistimos uns shows. Moças mui talentosas. Mas, ninguém tinha dinheiro. Ficamos um tempo e o olhar ansioso das profissionais nos enxotava silenciosamente. Voltamos ao centro de Aracaju. Sim, porque apesar do cabaré ficar no centro da cidade, todos eles se parecem entre si. Voltamos para a rua, para o centro, e cada um se perdeu na sua intenção. Sai com a bolsa nas costas, cheia de garrafinhas de meladinha. Eu nem oferecia, a clientela se apressava em perguntar: “Você é de onde? O que é isso que você ta bebendo?” E qualquer conversa mole resolve a peleja.

Daqui a pouco, estou eu a convescotear com uma bela moça de Curitiba. Ela provou a cachaça e ficou chamando todo mundo da sua delegação pra experimentar. Ali mesmo, já tinha feito meu serviço. Fiquei ali, conversando com a moça, de esverdeado olhar, aquele sotaque diferente que inebria mutuamente o encontro. Na confusão dos meus olhos, via aquela senhorita como o desenrolar perfeito da minha noite. A gente ali conversando, olho no olho. Um forrozinho pé-de-serra tocando no palco. Todo mundo naquele clima de se conhecer e interagir. Sorrisos fartos distribuídos para todos os lados.

De repente, um grupo de pessoas forma um círculo no meio do “salão” e com doçura, observam um homem que aparentava seus 40 e poucos anos a dançar como uma bailarina no meio da multidão. Era um homem magro, com a camisa de botão aberta. Certamente, um morador do centro de Aracaju. Estava ali, rodando como uma bailarina, sendo saudado pela multidão de jovens embebedados de felicidade. O homem se empolga, começa por tirar a camisa de botão, depois o cinto da calça jeans, até que ficasse completamente nu. Aquele cidadão, do jeito que veio ao mundo, com o sorriso estampado abaixo do bigode, rodando como uma bailarina, despertou a atenção de todos. Todos aplaudiam-no. Ninguém queria mais prestar atenção à música. Apenas admirar aquele sujeito que fazia performances para a multidão. De repente, o homem rodando que nem uma bailarina, abaixa uma das mãos e enfia no seu ânus. A multidão foi ao delírio! Risadas e gritaragem irrompiam por todos os lados. Quem ainda não tinha visto a cena, corria para não perder o show. Enciumada, a cantora da banda de forró, ao constatar que ninguém dançava mais, pediu ao policiamento que retirassem aquele sujeito inconveniente da praça, pois estava atrapalhando o andamento do seu forrobodó.

Até então, apenas dois policias faziam a segurança da tranqüila e festiva praça. Os jovens policiais, encostados na viatura, provavelmente a observar o movimento de vistosas moças num cardápio variadíssimo, apressaram-se em deter o homem que fazia sua performance com o dedo no oiti-coró. Arrastaram-no da multidão e conduziam-no para a viatura. A platéia que se avolumava em torno do homem, começou a vaiar a atitude dos jovens policiais. Vocês sabem como são os historiadores, né? Entre o variado ramo dos estudantes, esses possuem a fama de serem os mais arredios. De tanto ouvirem falar em revoluções, sempre alimentam o sonho de encarar as forças repressoras e blá, blá, blá. A multidão começou a gritar, cantar: “ão, ão, ão, abaixo a repressão!” Os dois policiais ficaram atônitos com aquela massa que se deslocava em direção a eles, a gritar, cada vez mais alto. Seus globos oculares saltavam da face, de medo, eram jovens. Um estudante da UFF se aproximou pra conversar com um dos policiais e pedir que soltasse aquele pobre homem. Quando conseguiu chegar perto do miliciano, levou uma coronhada na testa que espirrou sangue por toda sua camisa. O policial ficou ainda mais atabalhoado. Os colegas de universidade do rapaz, acrescidos da multidão, até então, pacífica, arrodearam a viatura e começaram a atirar garrafas, cadeiras, pedras. Os policias colocaram os rapazes dentro do carro e enquanto um corre para o rádio, o outro protege-se atrás da porta e mira sua pistola contra a multidão.

Em poucos minutos começam a chegar várias viaturas nervosas. Entravam na rua dando cavalo de pau. Os homens desciam dos carros e já atiravam pra cima. Um policial desceu do carro e atirou-se ao primeiro jovem que estava à sua frente, deitou-o no chão, mirou a pistola frente o seu rosto. Nessa hora, eu já tinha me perdido da curitibana de olhos verdes, preferi não observar, apenas escutei o barulho seco do disparo. O policial, há poucos centímetros do rosto do rapaz caído, atirou-lhe perto da cabeça, o projétil disparou contra o chão. Quem pode imaginar o quanto durou esse momento pra esse aspirante a historiador? Mais e mais viaturas chegavam, o batalhão de choque foi acionado. A rua se transformou numa praça de guerra. Os policiais fizeram uma barreira e ninguém conseguia sair de dentro do mercado. Acuados, os estudantes só podiam gritar palavras de ordem, do tipo: “Puta que o pariu, essa polícia é a vergonha do Brasil.” Nesse momento, pelas minhas contas nada confiáveis, estimo que uns quinhentos policias, todos armados até os dentes, faziam um corredor polonês contra a multidão. Colocavam mais gente dentro das viaturas. E quanto mais a multidão gritava contra eles, mais o ódio lhes insuflava a face. Depois de um tempo, uma fileira de batedores de choque partiu contra a multidão, batendo em quem estivesse pela frente, sem distinguir qualquer pessoa ou gênero. Eu mesmo levei duas cacetadas, uma na coxa esquerda e outra na cabeça que me fez ver o mundo rodar definitivamente. Para minha sorte, um cara da universidade de São João del Rey me tirou da linha do policial, senão iria apanhar até Deus sabe quando! Fiquei caído no chão uns 15 segundos enquanto não conseguia distinguir o céu do inferno.

Após aplicarem uma sova nos estudantes, os policiais prepararam um corredor e obrigaram todos a se dirigirem para os ônibus que levaria a multidão de duas mil pessoas, talvez, de volta para a universidade. Ao chegarmos na UFSE, cada um tinha uma versão pra contar, uma zoada geral que se perpetrou até o dia raiar. Eu também tenho minha versão pra contar. Mas, o que mais me espanta, são os motivos que geram os grandes tumultos. Muita gente perde a vida por se estressar com situações banais: uma vaga no estacionamento, um discussão por causa de futebol e, naquela noite, todo esse imbróglio por mim narrado só se deu porque um cidadão resolveu enfiar o dedo no cu!

domingo, 15 de agosto de 2010

Sobre uma Palestra com Boris Schnaiderman em São Paulo


Em Dezembro de 2009, tive a oportunidade de participar de um seminário sobre a obra e pensamento do escritor russo Dostoiévski. Naquela ocasião, entre tão brilhantes palestrantes, pude conhecer o professor Boris Schnaiderman, o grande pioneiro nos estudos sobre literatura russa no Brasil. Antes dele, Otto Maria Carpeaux e Hamilton Nogueira, entre outros, haviam escrito brilhantes ensaios à respeito do escritor russo. Mas, Schnaiderman institucionalizou o estudo da língua e cultura russa no Brasil, quando capitaneou o Departamento de Língua e Cultura Russa na Universidade de São Paulo nos anos 1960. De lá pra cá, o aumento no interesse pelo pensamento de um povo tão longínquo do nosso, tem atraído dezenas de pesquisadores que se dividem na missão de criticar, traduzir e ensaiar as obras de diferentes escritores russos.

As quatro noites em que se debateu a obra de Dostoiévski em São Paulo, a platéia estava repleta de estudantes e admiradores da obra do escritor. Na primeira noite, cercado pelos competentíssimos pesquisadores: Bruno Gomide, Manuel Costa Pinto e Igor Volguin; Boris Schnaiderman pontuou sua palestra no embate entre razão e fé. Sua voz lenta e baixa, fez-se ecoar pela sala, numa demonstração de respeito por parte da platéia à sua contribuição cultural que resultou em várias traduções, livros e artigos. Sua fala foi concisa, em quinze minutos havia terminado seu colóquio, sendo reverenciado pelos presentes. Hoje, estive relendo meu caderno de anotações da viagem e encontrei algumas anotações que fiz enquanto o professor Boris palestrava.

A discussão sobre a religiosidade de Dostoiévski é intensa. É certo que ele propagava as idéias do cristianismo ortodoxo. Podemos encontrar indícios de sua pregação religiosa no seu último romance, Os Irmãos Karamazov, bem como em inúmeras crônicas escritas e compiladas nas páginas do Diário de um Escritor. Mas, até que ponto Dostoiévski acreditava no que escrevia? Para Joseph Frank, muitas vezes, Dostoiévski acreditava que a religião era fundamental para o povo, essa massa manobrável e sujeita a crenças muito mais perniciosas, como o socialismo, por exemplo. Schnaiderman então começou a palestra perguntando: “Que tipo de cristão ele era?” Ele responde usando uma expressão do pensador espanhol, Miguel Unamuno, em que dizia que Dostoiévski era um “cristão agônico”, ou seja, aquele que luta consigo mesmo e com os demais. Schnaiderman ainda afirmou que religião é discussão e que a tormenta e a dúvida fazem parte do processo de estruturação do pensamento.

Que Dostoiévski duvidou em sua fé é uma certeza ratificada por quase todos os críticos. Ivan e Alexei Karamazov representam duas fronteiras no pensamento do escritor russo, as fronteiras da negação e da certeza, respectivamente. Quando Dostoiévski compõe esses dois personagens está expulsando dois demônios que o atormentavam de longa data. E esse enxotamento dos demônios tinha que ser feito no derradeiro romance, pois o escritor tinha consciência que seu tempo de vida estava minguando, embora alimentasse o desejo de um desfecho no imaginário A Vida de um grande Pecador. Ivan, o racionalista ateu, e Alioscha, o agradável noviço, representam esse choque entre dois mundos: a tormenta e incerteza da razão e o conforto e a placidez da fé.

Schnaiderman citou uma carta escrita por Dostoiévski em fevereiro de 1854, quando ainda se encontrava na Sibéria em que dizia que “gostaria mais de ficar com Cristo do que com a Verdade.” Essa oposição entre Cristo e a Verdade é a aflição que carregará consigo até o fim de sua obra. Também é a mola propulsora de sua criação. Stefan Zweig dizia que Dostoiévski pregava uma fé que ele próprio não acreditava: “Prega a mentira que traz a felicidade, a fé do carvoeiro. (...) Para preservar os homens do tormento de Deus.” É esse tormento que enlouquece e mata Ivan e essa mentira que torna Alioscha um agradável rapaz, um exemplo do homem do futuro. A religiosidade de Dostoiévski, sublinhada por vários críticos e biógrafos, foi aprendida na prisão de Omsk. Seu catecismo foi popular, entre as criaturas mais torpes e bestiais, nos confins de uma Rússia distante.

Pontuando sua análise na questão da crença de Dostoiévski e na oposição entre o Cristo e a Verdade, Boris Schnaiderman propiciou aos ouvintes uma discussão fundamental da obra do escritor russo, tocando na chaga ideológica de seu pensamento, agarrando-se na pilastra primordial que separa a crítica religiosa e racionalista da obra de Dostoiévski.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Uzyna Uzona

Existe dia comum? Eu acho que existe. São aqueles dias em que tudo é planejado: o horário do trabalho, as horas de estudo, o economizar da existência e tantas centenas de possibilidades. Mas, entre os dias comuns, existem dias que fogem um pouco da normalidade: o pneu do carro que fura indo pro trabalho, uma poesia que te joga pra fora da concentração antiga, uma horinha de happy-hour no cotidiano e mais outras tantas probabilidades. Há ainda aquele dia extraordinário, em que tudo fugiu ao controle: um foda-se ao trabalho, o entorpecimento completo pela arte ou o envenenamento dos deuses modernos. Quem foi assistir os quatro dias de encenação das Dionisíacas no matadouro de Peixinhos, certamente não dirá que qualquer uma daquelas noites foi um dia normal em sua vida.

O Teatro Oficina Uzyna Uzona, capitaneado por Zé Celso Martinez, baixou na cidade de Olinda, no Nascedouro (antigo Matadouro Municipal) de Peixinhos e embriagou o público com seu teatro surrealista, erótico e histórico (definições minhas, não sei se os críticos de teatro classificam desta forma...). Sim, histórico! Nos três dias em que freqüentei o espetáculo (não fui na quarta), tive a oportunidade de mergulhar na história do teatro brasileiro na peça sobre Cacilda Becker. A linguagem do teatro não é a mesma do historiador. É uma linguagem destinada à máxima expansão (ao menos no teatro de Zé Celso). A peça de Cacilda havia me chocado, nunca tinha visto nada parecido, nem na duração da peça que foi acabar às duas horas da madrugada, tendo começado às sete da noite. A atriz-principal comandando uma energia de movimentos tresloucados, corpos que se jogam sobre os abismos de nossas idéias. Voltei pra casa cansado, mas certo que no outro dia não haveria de ficar em casa por hipótese alguma. Era o dia das Bacantes de Eurípedes. Um texto de quase três mil anos. O tempo, por si só, já não é fascinante? Levei vinho e outros propulsores de consciência para assistir o espetáculo. Um misto de medo e desejo. Os atores, vez por outra, arrancam pessoas da platéia e inserem no ritual.

“Ele não sabe que o seu dia é hoje. Ele não sabe que o seu dia é hoje. Ele não sabe que o seu dia é hoje. Ele não sabe que o seu dia é hoje...” Repetindo esta frase, ao som de uma percursão alucinante, os atores armaram a cena para o ritual de sangramento do touro. Eu vi. Eu vi três touros sangrarem até a morte. E eles lutaram pela sobrevivência! Na batalha contra os homens e suas armadilhas, a natureza rendeu-se e o sangue fora derramado para o oferecimento aos deuses mais profanos. E quem disse que não estávamos num matadouro público?! As paredes pesadas, azulejos antigos, sangue, choque, nudez e morte. O matadouro de Peixinhos nunca mais será o mesmo. A comunidade compareceu, entre moleques baderneiros que estavam pra ver os corpos nus, haviam os que nunca mais seriam os mesmos. Dona Rosa, uma senhora de cabelos brancos e corpo de beleza bizarra, passou a integrar o espetáculo desde o momento em que sua nudez foi revelada, gerando uma euforia em todos os moradores de Peixinhos. Talvez, secretamente, desejassem aquela nudez para si. Despir-se de toda a censura corporal, num gesto de liberdade acima de tudo.

Peço desculpa por não saber o nome das atrizes. Mas, o corpo em sua liberdade revela mais que o erotismo animal. Em vida, poderei ver corpos femininos tão fascinantes como os de Cacilda e da Pombagira teuto-japonesa? Um sentimento de singeleza e agressividade. Se punham a tremer ardorosamente, para depois revelarem um tímido sorriso quando fora de cena se encontravam... Eu peço que vivam! E que sejam eternos os vossos corpos! A carne foi celebrada. E justo num matadouro!

Diálogos perdidos, visão enegrecida, embriaguez, frases assimiladas, beleza, feiúra, torpeza, sublimidade. Desde sábado queria encontrar algo pra dizer. Pensei em deixar a poeira sentar. Gostaria de ser frio como uma lâmina cabralina. Mas, cá estou, a sentir falta do soco de liberdade, da porrada surrealista. A noite solitária num bairro de subúrbio, silenciosa. A ausência da orgia. Deparo-me com as minhas obrigações mais cacetes, como dizia Graciliano. Bye bye, Brazil! O circo quando passa, arrasta as almas sonhadoras. Nessa noite, desejo sair pelo Brasil atrás desta companhia infernal. Abraçar-me com Pombagira num gozo diabólico e nunca mais voltar à vida.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Fronteiras

Nesses tempos de Copa do Mundo (calma, sei que ninguém agüenta mais falar sobre isso!), é comum grupos de amigos se reunirem e debaterem sobre os países envolvidos na competição. Fazemos escolhas por determinada seleção e, de repente, parece que a Eslováquia ou Gana estão tão próximos de nós. Questionado se torceria pela Alemanha ou a Argentina, declarei-me torcedor da seleção européia, e alguns amigos questionaram que eu não tinha espírito latino-americano. Pois bem, não tenho mesmo! Como morador do Recife, sinto-me mais próximo da cultura africana e ibérica do que dos países do Cone sul. Além do mais, a convivência com outros sulamericanos é acidental. A pessoa mais próxima que tive/tenho contato é o colombiano Castro, uma figura de uma riqueza de personalidade incomum. No mais, se não fosse por Jorge Luís Borges e Julio Cortázar, a Argentina seria tão distante quanto a Mongólia.

Com o advento da era pós-moderna, as fronteiras caíram e as peculiaridades tendem a se tornar cada vez mais homogêneas. O cidadão de qualquer metrópole há de se entender, desde que encontre uma língua em comum, nos trâmites culturais com seu interlocutor. E não digo isso apenas em relação a outros países. Recentemente, em visita ao Vale do Piancó, na Paraíba, terra de meus ancestrais, tive a oportunidade de verificar a modernização do cotidiano de uma pequena cidade como Boa Ventura, que consta seus quase dez mil habitantes. Quando era criança e visitava a cidade dos meus pais, era levado para a missa com a melhor roupa, normalmente uma camisa de linho abotoada até o pescoço que me deixava num fricote aperreado. Depois, ia brincar na praça da cidade, onde muita gente se sentava pra assistir o Jornal Nacional na televisão pública. A trilha sonora desses momentos era o forró, que à época nem se chamava pé-de-serra, pois não havia o forró eletrônico naquele vale. Não quero parecer excessivamente romântico, mas hoje, bem ou mal, a missa é freqüentada por uma população senil que olha com desaprovação a indiferença dos jovens que passam o dia nos bares ouvindo em suas camionetas com sons explodindo pra todo lado, músicas que falam de raparigas, cachaça e carros potentes. A televisão pública é dispensável, pois todos têm televisão em casa com antenas parabólicas. Quem sou eu para julgar se estão certos ou errados, se não vivo a realidade deles? Mas, a distância cultural entre um jovem de 25 anos de Boa Ventura e de Recife foi reduzida imensamente, havendo ganhos e perdas nessa constatação.

Sinto vontade de afirmar àqueles que esperam alianças com o vizinho apenas pela proximidade de nossas residências, que essas fronteiras me são indiferentes. Há uma nova terra fronteiriça que eriça de minha pele, que escapa aos muros e cercas, mas que constitui o verdadeiro terreno de minha existência (e sei não apenas minha). Um mundo que se apinha e se choca entre a tradição e a modernidade, entre o Engenho do Meio e o planeta, entre o apego e a vivência num mundo de eternas mudanças. Entre o ideal e o real, existe ainda um abrigo seguro para poucas almas, o mundo das artes eternas, onde as fronteiras não levantam as barricadas, a morte não encontra o tempo e o homem sobrepuja a nacionalidade.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Do the Evolution


Assim como a maioria dos brasileiros e boa parte da população mundial, tenho acompanhado com fervor os jogos da Copa do Mundo 2010. Uma competição que começou fria, com jogos parados, times pouco ofensivos e uma culpada pela baixa qualidade técnica, a pobre coitada da bola Jabulani. Terminou a primeira fase e amanhã se realizará a última partida das oitavas de final entre Portugal e Espanha. Na hora da onça beber água, as grandes seleções mostraram suas garras: Brasil, Alemanha, Holanda e Argentina seguem favoritas. A França que entrou pela porta dos fundos com a ajuda da arbitragem e a Itália que ganhou a última Copa com um futebol pouco acima do regular, estão ausentes da disputa pelo título. Mas, o que mais me chamou a atenção nessa Copa foi a discussão sobre os erros de arbitragem.

No mesmo dia, um domingão de Copa com dois jogos entusiasmantes, o mundo constatou, perplexo, como é frágil a justiça também dentro das quatro linhas. A televisão com suas milhares de câmeras não deixa escapar absolutamente nada, desde os 33 centímetros que a bola entrou no gol não marcado da Inglaterra, como a mastigada de catota do técnico da Alemanha. Enquanto assistia o jogo com amigos em Itamaracá, surgiu a discussão se a televisão deveria interferir na decisão do árbitro ou não. E aí, gols históricos como “a mão de Deus” de Maradona em 1986, o “gol” da Inglaterra na final da Copa de 1966, não seriam mais validados. Em compensação, a justiça se aproximaria cada vez mais do ideal de perfeição futebolística, onde o melhor deveria vencer.

Será que foi a justiça que fez o futebol se tornar o esporte mais popular do mundo num intervalo de 150 anos? Na minha opinião, o erro faz parte do espetáculo. Se um médico soubesse que uma cirurgia terminaria no óbito do paciente, pensaria duas vezes em executá-la, assim também, o ladrão que amaldiçoa sua infeliz idéia de ter saído para assaltar sabendo do risco de cair na vigilância total da prisão. O erro intencional é o mais perigoso, a meu ver. A mão de Henry que colocou a França na Copa tem cheiro de dinheiro, de mutreta, de acordo comercial. Ora, a França é um mercado bem mais interessante que a Irlanda! Juízes comprados teriam suas vidas dificultadas pela intervenção da televisão.

A grande fascinação do futebol é que ele é o único esporte em que um time A ataca 30 vezes e um time B ataca apenas uma vez e pode sair vencedor. Ele é imprevisível, assim como quem será o vencedor do confronto entre Argentina e Alemanha. O futebol é amado porque é fatalista, injusto, cheio de “campeões morais”, enquanto faz a fama dos doces malandros e desonestos. Romário, Garrincha, Maradona, Stoichkov, nunca foram exemplos de seres humanos galhardos, mas ali dentro, foram os grandes mestres. É jogo, é coisa do diabo, de gente enganadora, que esconde a bola embaixo dos pés. O futebol é maldito. Em sua imperfeição, nós o amaremos até o fatídico dia em que ele for falível.

Porém, o futebol caminha para o mesmo caminho que o Homem: o da adaptação tecnológica. O impedimento de 3 centímetros, o pênalti que só a câmera que se sustenta na marquise do estádio pode flagrar, o escanteio que resvalou na orelha de um zagueiro... nada escapará aos vigilantes olhares dos sedentos de justiça, dos vingadores. Quem garante que o mesmo chip colocado dentro da bola pra delimitar o gol, não pode dar uma desviada no trajeto da bola pra beneficiar o país-sede, por exemplo? A desconfiança continuará.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Mestre de Petersburgo

São 04:25 da manhã. Acabo de terminar o romance O Mestre de Petersburgo de J. M. Coetzee. Li o romance em dois dias. Normalmente, não gosto que seja assim, prefiro saborear a leitura, vagarosamente. Olhando pela janela do ônibus, esqueço os transeuntes e me ponho a pensar nos passos que o personagem dará à noite, nas imagens que minha mente cria. Mas, desta vez, não pode ser assim. Tenho pouco tempo. Confesso que não ter tempo é proveitoso. A necessidade de agir, devorar, colher o maior número de informações, é a condição do momento. A dissertação bate na porta. Mas, não estou aqui pra falar de mim. Quero falar dele, o diabólico Dostoiévski.

Calma, os ossos do homem não estão a se debater por minha causa. Na verdade, Coetzee mostra um Dostoiévski que poucos críticos tiveram coragem de expor. Um homem que apenas dizia “sim”, que se deixava mergulhar na corrente do pecado, que não se opunha aos riscos e traições. A maioria dos críticos fala de Dostoiévski (Coetzee escreveu um romance!) como um excelso de luz, o psicólogo da literatura, defensor dos ideais ortodoxos, padroeiro da moral russa, na pior das hipóteses, um cristão atormentado. E ele realmente o-é, em certo sentido. Mas, por trás do escritor há o homem carnal. Esse homem erótico, incapaz de refrear o pecado, que freqüenta o submundo e possui os desejos mais adúlteros e ímpios. Dostoiévski abandonou a primeira mulher, moribunda, para viajar pela Europa com uma atriz sensual, freqüentava roletas e champanhes. Em sua juventude, participava de grupos clandestinos de socialistas utópicos que rebelavam, em discursos ufanistas, conta o Tsar. Extorquia sua segunda mulher, Ana Snitkina, para jogar. Ao ponto da bondosa mulher, empenhar o anel de casamento para que ele perdesse tudo de novo na roleta. Oh, fatalista!

Ao narrar a chegada de Dostoiévski em Petersburgo para velar o corpo de seu filho adotivo, “morto num suicídio”, Pável Isaev, Coetzee vai mergulhar na psicologia (criatura e criador) de Dostoiévski de maneira cruel, fantástica e realista. Quem era mesmo que dizia: “Eu acredito num realismo que tangencia o fantástico.”? Dostoiévski desembarca em Petersburgo com o nome falso do pai de Pavel Isaev. Nessa época, o escritor foragido em Dresden, estava devendo à metade da capital imperial. No seu enlutamento, atrai as pessoas para junto de si, como uma aranha, conduzindo-as para o seu nicho, o abismo das contradições. “Sou parte dessa força que eternamente aspira o bem, mas que constantemente produz o mal.” Não, Odomiro, Goethe diz o contrário! Dostoiévski não é o santo que aprendemos no catecismo. E nunca poderia ser! Joseph Frank, o biógrafo mais famoso, chega a supor no seu primeiro volume que as extorsões de dinheiro que fazia ao seu pai, à época da Escola de Engenharia Militar, eram fruto de noitadas em recintos onde havia prostituição e jogatina.

O ápice da idéia de Coetzee é o encontro entre o escritor e o anarquista Netcháiev, seu futuro Stavroguin. O diálogo entre esses camaleões que se escondem nos subúrbios de Petersburgo, com objetivos tão diferentes, é a cereja do bolo: “um réptil devora o outro”, dizia Ivan Karamazov. Assim, naturalmente, Dostoiéski se deixa levar pelo fulgor nada inocente de Netcháiev. Quem é o Mestre de Petersburgo? Netcháiev estimula o Judas no maduro escritor, mas ele tem o Cristo fortemente cravado em seu coração e não vai trocar de papéis como uma criança indefesa. Cristo e Dostoiévski: o desejo do escritor. Marias Madalenas, pobres trabalhadores insolentes e traidores. Algo em comum? Esse mergulho no submundo é a sua força, o atrito entre vetores discrepantes é a sua principal fonte, o alimento de sua existência. Atiça Deus para que saia de seu silêncio. Nisso se parece com Ivan Karamazov!

Só queria recomendar esse livro, O Mestre de Petersburgo, que é de um desnudamento arrebatador. Dizem que o sono organiza as idéias. O dia amanhece atrás de mim. É hora de me deitar. Deixarei tudo bagunçado, como num diário que ninguém mais vai ler. O tempo das coisas organizadas, revisadas, é para a posteriori. Por enquanto, o caos, bem dostoievskiano.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Opinião Pernambuco

Hoje recebi por e-mail a triste notícia que o programa Opinião Pernambuco que ia ao ar pela TV Pernambuco às 20h saiu do ar. Desconheço as causas da extinção do programa. É difícil julgar as coisas tendo como certeza apenas o fato concreto do ocaso. Mas, para não perder o ensejo, pronunciar-me-ei contra a triste notícia da morte do Opinião Pernambuco. Um programa que falava de humanidades, artes e cultura no horário nobre, valendo-se da participação de vários professores das universidades locais, alunos e pesquisadores que faziam o canal direto com a população através do meio de comunicação mais popular que existe. O Opinião era capitaneado pelas hábeis mãos do jornalista e crítico literário Cristiano Ramos. Talvez, os mandas-chuvas achassem que o IBOPE estivesse baixo demais pra concorrer com o Jornal Nacional ou o Show da Fé. Ou ainda, o conteúdo dos debates fosse inacessível para o grosso da população. Não sei o que realmente aconteceu e fica o pedido de um esclarecimento. Como telespetador, gostaria de saber o por quê. Enquanto a resposta oficial não chega, formulo outra pergunta: Por que um programa como o Opinião Pernambuco não se mantém num Estado "tão rico culturalmente" como Pernambuco?

Enojam-me as pessoas que levantam a bandeira desse Estado pobre, semi-analfabeto, orgulhoso de um período colonial que se sustentava de trabalho escravo (veja a quantidade de prédios de classe média cujos nomes usam a palavra "colonial". Vende-se, e muito!) e se auto-intitula, ridiculamente, de Nova Roma de altos coqueiros. Nova Roma... temos pretensões de abarcarmos os estados vizinhos novamente? E me dói ouvir as entrevistas de gente que se diz orgulhosa de ser pernambucana. E quais as razões? O maracatu? A multiculturalidade? Porque nós torcemos pelos nossos torpes times de futebol em detrimento dos fortes times do eixo Rio-São Paulo?! Nessa província, as elites gostam de ostentar, parecer-ser o que de fato não são. Somos uma Nova Roma, sim, de bárbaros, que invadem em hordas, com panos cobrindo o rosto e armas em punho, o império da classe média assustada. A auto-reflexão dói. Saber-se uma doença, uma chaga, um corpo que apodrece, a consciência da fraqueza, não é pra qualquer um. Para qualquer um, é dada a alieNação, o carnaval multicultural, a novela e o pastor. Um programa que levava pensadores e instigava o telespectador à leitura, ao debate e à libertação através do conhecimento, não poderia continuar em Pernambuco.

Isso é um desabafo de alguém que se sente cada dia mais acuado nesse manguezal. Caranguejo, definitivamente, não anda pra frente.

Há 161 anos...

O dia 22 de abril, data da última reunião na casa de Petrachévski, foi um dia de chuva torrencial; às seis horas da tarde, Dostoiévski passou pela casa do Dr. Ianóvski para se secar da chuva e tomar uma xícara de chá. O médico presumiu que Dostoiévski estivesse a caminho da casa de Petrachévski, e nada do que lhe disse o amigo levou-o a modificar essa impressão. Dostoiévski até pediu um dinheiro emprestado para o táxi por causa da longa distância que separava a casa de Ianóvski da de Petrachévski. Ou Ianóvski foi traído pela memória nesse caso, ou Dostoiévski deliberadamente escondeu-lhe seu destino, pois o fato é que ele passou a noite na casa de Grigoriev, talvez discutindo com este e outros os planos para o funcionamento da prensa manual.

Às quatro horas da madrugada, Dostoiévski voltou para casa e foi dormir; mas pouco depois foi acordado por leve som metálico em seu quarto. Abrindo os olhos, meio adormecido, viu de pé, à sua frente, o chefe da polícia do seu distrito, ostentando um par de exuberantes costeletas, e um tenente-coronel vestido com uniforme azul-claro da polícia secreta, cuja espada, pendente do seu cinturão, batia-lhe contra as botas, produzindo o suave ruído metálico que acordou o escritor. O policial solicitou gentilmente a Dostoiévski que se levantasse e se vestisse e, enquanto ele o fazia, seu quarto foi revistado e seus papéis lacrados. Uma moeda de 15 copeques bastante gasta em cima da mesa atraiu a atenção; e quando Dostoiévski perguntou brincando se era falsa, isso foi solenemente adicionado às provas. Um sargento recebeu ordens para revistar a prateleira em cima da lareira, e subiu na mesa para alcançá-la. Mas caiu estrondosamente no chão quando o friso da prateleira cedeu e, com isso, a busca foi dada por encerrada. Por último, Dostoiévski foi conduzido até uma carruagem que estava à espera, acompanhado pelo chefe de polícia, pelo tenente-coronel, por sua senhoria apavorada e pelo criado desta, Ivan, também assustado, mas que olhava tudo com uma expressão de estupefata solenidade, muito apropriada à ocasião. Quando Dostoiévski saiu do quarto e entrou na carruagem, deixou para trás a vida relativamente normal que vinha levando até então - exceto pelo seu breve aprendizado como conspirador clandestino - para ingressar num extraordinário mundo novo.

Esse mundo novo ia pôr à prova até o limite sua capacidade de resistência emocional e espiritual e ampliar incomensuravelmente os horizontes de sua experiência moral e psicológica. O que ele conhecera antes apenas pela leitura das mais exageradas fantasias metafísicas ou sociais dos românticos iria converter-se agora na essência e matéria de sua existência. Iria conhecer o tenebroso desespero da solidão total do cárcere; sentiria a opressiva angústia do perseguido; passaria pela aterradora agonia do condenado à morte que se apega desesperadamente aos últimos instantes preciosos de vida; mergulharia nas camadas mais baixas da sociedade, onde viveria lado a lado com os párias e os criminosos e ouviria a conversa dos sádicos e dos assassinos, para os quais a própria noção de moral era uma farsa; e também passaria por momentos de sublime harmonia interior, momentos de fusão com o princípio divino que governa o universo, naquela "aura" de êxtase que precede os ataques epilépticos. Quando regressar à sociedade e começar a redescobrir-se como escritor, o horizonte das suas criações estará então delimitado por ste novo mundo e suas esmagadoras revelações. E tudo isso permitirá a Dostoiévski produzir obras de uma extensão imaginativa incomparavelmente mais profunda e sutil do que poderia ter feito na década de 1840, quando os estereótipos românticos eram seu único meio de aproximação desse mundo.

domingo, 28 de março de 2010

A Grande Inquisidora

Nos últimos dias o Brasil tem acompanhado o julgamento da família Nardoni. Nesse momento, o leitor vai se perguntar: Puta merda, até esse cara falando desse assunto!? Mas, calma, quero falar por outro ponto de vista. Estive a pensar no poder que a mídia exerce sobre a vida dos cidadãos comuns e, embora todos nós saibamos do resultado da questão e que grandes filósofos já versaram sobre o assunto, sinto-me com vontade de expor minha estupefação com esses veículos divulgadores de notícias.

Certo dia, em sala de aula, uma aluna começou a explanar sobre as atividades do Tribunal do Santo Ofício na Baixa Idade Média, e que em regiões da Espanha foram responsáveis por um controle do cotidiano de tal forma que levaram ao suplicio muitos milhares de hereges. Heresia é uma palavra do grego clássico que significa “escolha”. Ou seja, os hereges são aqueles que escolheram viver de forma diferente do pensamento dominante, no caso medieval, da Igreja. Pois bem, ao final, ela perguntou: Quem representaria o Tribunal do Santo Ofício no mundo atual? Ou seja, quem seria a controladora do pensamento dominante e sentenciaria como herege os que não se adaptam ao que é comum a maioria?

A imprensa, com seu fortíssimo poder de penetração na sociedade, modula o comportamento da maioria (pessoas com quase nenhum senso crítico porque lêem pouco, principalmente) conduzindo-os em suas escolhas, desde políticas a culturais. Toda manhã está lá, impávido em sua panóplia, um troféu de cidadania, guiando os bons cidadãos como um legítimo pastor, dono de imenso rebanho, o senhor Alexandre Gracia. E ele, do alto de seu prestígio, julga os certos e os errados, tece condenações contra os inimigos da imprensa (que é o mais excelso exemplo de liberdade), os políticos corruptos, os que fazem propaganda antes das eleições. Não estaria ele certo? Claro que sim, é o Alexandre Garcia.

Na vida comum, enxergo o papel transformador da imprensa em dois exemplos que acho que posso citar com conhecimento de causa. Gosto de freqüentar dois espaços que são, como a imprensa diz, democráticos: o futebol e o carnaval. Lá estão os ricos e os pobres, dividindo o mesmo espaço. Gente da direita, da esquerda, anarquistas, velhos e moços. E, posso estar enganado, desde que comecei a freqüentar tais espaços na minha pré-adolescência observo a mudança do comportamento geral das pessoas devido à presença da imprensa. Há doze anos, o carnaval de Olinda era a residência do satanás na Terra: brigas o tempo todo; homens beijando as moças forçosamente; mulher nua em cima de uma porta carregada pelo povão. Todo tipo de baixaria. Quando a mídia passou a transmitir o espetáculo, o comportamento das pessoas mudou. Repito, posso estar enganado, mas que uma forte mudança de atitude atuou sobre os carnavalescos, disso não tenho dúvidas. A televisão com câmeras espalhadas inibe, de certa forma, os exageros, como uma mulher subir em cima da porta. E onde ela está, a segurança é multiplicada, é propaganda. No futebol, as brigas ocorrem do lado de fora do estádio, pois dentro todos tem medo de serem flagrados em atos animalescos. Eu mesmo corro dos depoimentos da mídia quando um jogo acaba. Em 1999, fui vítima do poder da imprensa, embora não estivesse fazendo nada demais. O Náutico tinha um atacante chamado Célio Jacaré, era o brasileiro da terceira divisão. O atacante fez um gol e subiu no alambrado na minha direção. Automaticamente, subi também e apertei a mão do jogador. No outro dia, eu estava na capa do Jornal do Commercio, em cima do alambrado, apertando a mão de Célio Jacaré.

A imprensa julgou a família Nardoni antes mesmo da justiça. No primeiro dia do julgamento oficial, poucos indivíduos foram pedir a condenação do casal que matou a criança. Ah, mas quatro dias depois, tinha gente com a bandeira do Brasil, faixa na cabeça com o nome “justiça”. Um espetáculo visual de indignação. Todos queriam estar na matéria principal do Jornal Nacional. Ou, quem sabe, dar sua opinião naqueles programas feitos para velhas semi-mortas da RedeTV: Cozinhando para os Netinhos. Para mim, a verdadeira condenação do casal, se eles são culpados, seria a “liberdade”! Dentro de uma cela, longe dos julgamentos sociais, eles poderão ter paz e tranqüilidade. Nas ruas, seriam lembrados de suas atrocidades o tempo todo. Pois bem, se temos sede de sangue, gritemos pela liberdade. Mas, a imprensa convenceu-nos que o pior castigo foi isolá-los numa cadeia. E todos estamos satisfeitos. E assim, a opinião pública torna-se a vontade dos julgadores midiáticos . Para as crianças: TV Globinho. Para os adolescentes: Malhação. Para os adultos, mais opções: Alexandre Garcia ou Arnaldo Jabor. Para os velhos: Ana Maria Braga. E viver sem heresia é como seguir receita de bolo.

sábado, 27 de março de 2010

O que virá após o Pós?

A disciplina do professor Lourival Holanda no mestrado de literatura traz à discussão a tentativa de entendimento das motivações humanas no perpassar do tempo. A literatura é, nesse ponto, um exemplo vivo e que se renova das aspirações, inquietudes e da busca de sentido para a interpretação do mundo. É a terceira disciplina que assisto com o mestre citado e, entre os temas abordados em suas disciplinas estão a esperança, a utopia, a igualdade, a autonomia, a razão. Lourival, mui argutamente, nos instiga a questionar o por quê do desencantamento da nossa geração em relação aos projetos de futuro. Por quê a utopia não faz mais parte do caráter do homem pós-moderno?

O descrédito da razão é uma das poucas certezas de nosso tempo. Vivemos o que Lourival chama de nictotropismo, ou seja, a noite como centro do universo. O principal reflexo dessa desesperança encontra-se no manancial de alegorias que produzimos em que a principal temática é “a morte do homem”, “o apocalipse” e o descrédito em relação ao futuro. Em oposição a este presente, voltemos dois séculos no tempo. Estaríamos sob as luzes do Iluminismo. Ao menos, sua luz forte ainda brilhava sobre os espíritos criativos. Para esse período, o mestre deu o nome de heliotropismo, ou seja, a luz como centro fundador de paradigmas. O que perdemos/ganhamos nesse intervalo entre as luzes e as trevas? Ou será que os intervalos de luminosidade não fazem parte do movimento de rotação da história humana? Numa de suas aulas, citando Rilke, dizia: “O amor só é possível em intervalos de solidão.” Estaríamos no período do interlúdio entre o amor, com suas projeções e aspirações, e o orgiástico recreio dos que desafeiçoam?

A modernidade, essa cria do nosso desejo, conduz o homem a ultrapassar seus limites, principalmente físicos. O que é essência (palavra tão difícil de definir) só faz sentido ou encontra respostas se estiver num processo de mutação para algo está sempre por vir. É a era do pós-humano, da pós-modernidade, pós-rock... Até o prefixo neo está ultrapassado. Conversando com um amigo sobre um álbum da violinista Anja Lechner e do pianista Vassilis Tsabropoulos, tentei defini-los como neoclássico. Mas não, o estilo neoclássico pertenceu a uma geração anterior, década de 40, 50. Hoje, tem que ser pós-clássico! E rimos disso tudo. Esse desejo de transpor significados é o que causa o descrédito do homem comum (categoria que pleiteio) com o tempo presente. Os exemplos de fracasso da razão dilaceraram demais a carne humana. O tempo das certezas nos conduziu ao choque, que por ato-reflexo, paralisou-nos enquanto aspiradores de um projeto social de futuro.

Mas, enquanto o homem permanece em seu estado de choque, o universo pós-moderno ao seu redor, molda-o com uma armadura ideológica fortíssima, conduzindo-nos a um corpo anti-natural, a um planeta que nos rejeita, somos marionetes tristes do nosso tempo, desejando o dia do airoso fim. Mas, como diz o professor, ainda assim chegaremos atrasados no paraíso. E com a hostil imagem dos portais fechados, do nosso futuro mecanizado, só nos resta vislumbrar, num misto de desdém e alegria, a chegada do fim, a materialização do pós ou o que virá após. Criemos um novo epíteto!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Um Cochilo Acordado ou Romantismo Tardio

Existe uma cadeira de balanço no meu quarto. Ela é cor de vinho tinto. Fica próxima a janela que quase sempre está fechada. Ao redor, dois ou três livros. Minha cama do lado oposto a janela. Uma geladeira branca na frente. Quase nada me desvia a atenção. O chão às vezes fica sujo, empoeirado. Eu gosto. A música que vem da sala está em baixo volume. Um acorde de violino acompanhado do piano. Nick Cave e Warren Ellis. Deixo-me pender para trás e observo o teto. Penso que poderia estar num lugar longínquo nesse momento. Talvez em Ashgabat. Tenho às mãos um conto de Górki. “Ah! Viver sem que nada mude à volta da gente, que tormento amargo! Se uma tal monotonia não chega a matar a alma humana, que vida dolorosa ela lhe reserva." Novamente penso no vasto mundo. Decido que preciso fazer uma viagem.

Ponho-me a organizar uma empreitada turística. Caneta e papel. Dinheiro emprestado ao banco. Vou vender o fusca 78. Talvez retire o dinheiro das passagens e sobre alguma coisa. Não, só vou vendê-lo quando estiver com a data da viagem marcada. Tudo bem, ele me renderá quase três mil reais. Acredito que com dez mil reais posso passar dois meses em algum lugar como estudante. Sem luxo. Destino? Acho que deve ser São Petersburgo. Sim, não resta dúvidas. Estou pesquisando sobre esta cidade e já me sinto íntimo dela. Lá estou eu. Numa peliça espessa, exposto aos maus tratos do vento cortante de novembro. A observar dois homens no canal de Fontanka. Talvez seja apenas o Goliádkin. Mas, estando cá em Petersburgo, por que não visitar a antiga Courlândia. As noites brancas em Múrmansk. Descer para Novgorod. Se estou em Novgorod, atravesso o Lago Ilmen e vou para Staraia Russa, onde Dostoiévski se inspirou para escrever a saga dos Karamazov. Ah, e quantas aldeiazinhas estarão pelo caminho, jardins de cerejeira, bosques infinitos. Na porteira de uma grande propriedade eu vejo Catarina Tcherbatskaia passeando com seu pequeno rebento. Não me atrevo a interromper seu passo. Sou como o fantasma do Hermitage, apenas observo e teço comentários. Breves. Não quero tomar vosso tempo com divagações. Mas, estando já em Dorovoie, faltam cem quilômetros pra Moscou! Sim, preciso visitar todos esses lugares. Terei dois meses para tal e pouco dinheiro. A viagem para a Rússia é fundamental. Dois meses me fariam avançar imensamente em meus estudos da língua.

Levanto a cabeça. Olho ao redor, um camundongo na jaula. Percebo que é inútil. Abandono as contas. Acho os sonhos ridículos. Lembro-me da frase de Górki. A Rússia que me cativa não existe há cem anos. Anna Akhmátova passou a vida travando esse duelo moral com sua identidade nacional. A poetisa recebe visitas em Tsarskoie Seló. Não sou eu um daqueles jovens estudantes? A velha escritora se aproxima, sua franja na testa, seus olhos semicerrados. Um beijo de despedida, único, inesquecível. Alguma coisa nasce do silêncio. Abro a janela, a rua está calada como acontece em todas as noites de segunda. Sento-me na cadeira de balanço cor de vinho tinto. A cabeça está cansada. Um emaranhado de imagens. Adormeço. Não desejo sonhar. Mas, como controlar esse desejo involuntário? No sonho, nem nós mesmos somos capazes de nos encontrar. De alguma forma, tudo está mudado.