terça-feira, 28 de junho de 2011

The Earth is Blue

Eu tinha planejado estudar o dia todo hoje. Aliás, o plano ainda não foi abandonado. Se escrevo aqui é para me livrar de um pequeno fantasma que me aparece entre as páginas do livro de Joseph Frank. Um fantasma com rosto de anjo e que fez um grande reboliço neste coração velho. Talvez eu deva contar um pouquinho desta íntima história.

No dia 12 de abril de 1961, o cosmonauta russo, Yuri Gagárin, numa pequena lata de ferro, com uma janelinha de observação, pôs seus miúdos olhos na janela e se espantou com a figura de nossa grande mãe vista de longe. Ele viu o sulco dos rios cortando a terra, as fazendas e montanhas, e disse, poeticamente: "A Terra é azul". No dia 12 de abril de 2011, cinquenta anos após Gagárin, eu saía de uma palestra na faculdade de economia e business, INEKA, e conheci uma das moças da platéia, K. C., e sem saber muito o que conversar diante dos seus olhos azuis, perguntei, como um tolo, se ela estava feliz com o cinquentenário da ida do cosmonauta russo à órbita. E a Terra passou a ser azul pra mim também.

Hoje, ela me mandou uma foto no jardim, em pleno verão do hemisfério norte. E lá se
foi meu plano de estudar o dia todo... Como prometido, vou deixar o quarto disco dos cinco que marcaram a viagem: Damon and Naomi: The Earth is Blue (2005). Coincidência, ou não, era nosso álbum favorito. Não me permito falar muito mais, em respeito ao inefável e à esperança. Destaco as canções "second life" e a versão linda de "Araçá Azul" de Caetano Veloso. Após dividir essa angústia distante com vocês, vou tentar voltar aos livros, mergulhar no sonho outra vez, assim a nave vai...

Damon and Naomi - The Earth is Blue (2005): http://www20.zippyshare.com/v/32159177/file.htm

Notas Sobre a Pobreza

Ontem, eu assisti a propaganda do Governo Federal: “num sei quantos milhões deixaram a pobreza. Nossa próxima meta é extirpar a miséria.” Assim, a miséria está colocada num patamar acima da pobreza, restando à segunda opção, o posto de maior flagelo da humanidade. É onde eu gostaria de questionar essa imagem desestimuladora da pobreza, que a meu ver, molda muitos comportamentos dentro da moral e da ética do povo brasileiro.

A Rússia, em linhas gerais, apresenta uma população mais pobre que a brasileira. Lá, 90% da riqueza do país, se encontra nas mão de apenas 3% da população. São magnatas, homens-fortes do gás e do petróleo, membros do governo e ex-poderosos da KGB. Mas, o cidadão-comum, este sofre pra sobreviver. Vou dar um exemplo que ocorreu comigo: morei na casa de uma família que constava de quatro membros, todos adultos, e que trabalhavam oito horas por dia para conseguirem se sustentar. E mesmo com todos trabalhando, comer carne era um luxo dedicado aos finais de semana. E não era maminha, ou picanha, mas linguiça e outras carnes menos nobres. O cogumelo fritado substituía a iguaria animal, pois era bem mais barato. Mas, numa sociedade mais pobre que a nossa, de acordo com as leis econômicas, a violência deveria ser maior, uma explosão de saques e de banditismo. Mas não, mesmo a Rússia sendo pobre, durante os três meses que estive lá, não fui assaltado, e mais, nunca escutei relatos de amigos ou de conhecidos que reclamariam a perda da carteira, do carro, do celular, do dinheiro sacado no banco. Quando íamos para um barzinho e bebíamos até às duas da manhã, eu oferecia para uma amiga o dinheiro para que pegasse um táxi, pois não seria seguro para uma jovem dama caminhar sozinha na rua, pela madrugada. Ela me retrucava: “ora, deixe disso, não tem perigo.” No Brasil, principalmente em Recife, não dá pra imaginar uma cena dessas.

Aliás, falando em cena, semana passada, enquanto estava preso no engarrafamento da Avenida Caxangá, presenciei a chegada de dois homens numa moto Titan 125 preta, à minha frente tinha um Fiat Uno, daqueles antigos, verde-escuro. O carro estava encurralado pelo engarrafamento e pela parada de ônibus do lado esquerdo. O motoqueiro ficou observando a situação e dando cobertura, enquanto seu comparsa desceu com um revólver preto, numa atitude rápida e agressiva, empurrou a arma contra a têmpora do motorista. Eu estava no fusca com a maioria dos meus pertences de valor: computador, mala com roupas e o próprio fusca. Não tenho muita coisa mesmo. O motoqueiro olhou para mim para se aperceber do meu comportamento, se eu estaria anotando a placa ou coisa parecida. Baixei a vista, ainda assustado pela possibilidade do segundo ataque, mas os bandidos fugiram na moto. Foi um minuto de respiração suspensa e adrenalina nas alturas. Mas, não é o assalto em si, o tema desta postagem, mas saber até que ponto a pobreza é motivação para o crime. Duvido que aqueles bandidos estivessem passando fome. O ladrão brasileiro rouba pra ostentar, pra demonstrar poder numa terra sem lei. Na sua favela, ele é o cara, manda e desmanda, e rouba pra ter mais, não pra suprir a necessidade alimentar. Ele rouba pra comprar droga ou uma camisa de marca, jamais para comprar feijão, por exemplo.

Aí entra um pensamento meu, que não é baseado em teorias ou pesquisas, o que pode até enfraquecer minha idéia, mas é a questão que o brasileiro tem vergonha da pobreza. Mesmo algumas pessoas mais pobres, gostam de ostentar certa imagem de importância, escamotear sua real situação. Na Rússia, as pessoas não tinham vergonha nenhuma em se assumirem pobres. Tive um rápido relacionamento com uma garota (só passei 3 meses lá) e a sua pobreza nunca foi motivo de vergonha, nem de empecilho, nem de qualquer obstáculo à sua nobreza de caráter. A miséria é deprimente, mas a pobreza chega a ser bonita em sua simplicidade. Conversando com meus amigos, Bebeto e Karuna, discutíamos sobre as aspirações financeiras para o futuro. Ter dinheiro para viajar é uma das maiores satisfações da vida, mas eu confessei pros meus amigos que tinha medo de ter muito dinheiro, porque a pobreza te mantém humilde, e este sentimento de humildade é uma das maiores riquezas espirituais possíveis. É lindo quando nos deparamos com uma pessoa muito rica, que não se envergonha de conviver com pobres, ajudar e participar de seu cotidiano. Mas, possuir uma grande quantidade de dinheiro, te deixa desconfiado dos que te rodeiam, te põe numa defensiva paranoia em relação às amizades e a sensação de poder experimentada pode, quase sempre, te levar à arrogância para com os irmãos.

Eu me considero pobre, mas tenho casa própria e um fusquinha, me divirto uma vez por semana, mas sou pobre. É preciso que haja a distinção entre a miséria e a pobreza, e que a segunda deixe de ser uma doença social ou um crime, e passe a ser enxergada com uma riqueza espiritual mais abrangente. Ser pobre é ter o básico. Mas, nosso mundo consumista quer nos empurrar para a catástrofe da competição, que coloca a pobreza no mais deplorável dos estados humanos, estimulando os homens a obter, a qualquer custo, a riqueza material dos seus semelhantes. O Brasil precisa ser, moralmente, repensado.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Vininha, Velho Saravá


Este é o terceiro disco da série de cinco que prometi postar. Não farei muitos adendos pra não ser repetitivo. Mas, esse "disquinho" de 1974 é uma jóia, todas as composições são agradáveis e com aquela majestade boêmia que os autores constroem, como ninguém.

Aqui em mim, está tudo bagunçado, como sempre. Como é duro trabalhar! Mas, no disco, tudo na mais perfeita ordem, tudo na mais santa paz.









domingo, 12 de junho de 2011

É Muita Chinfra!


Eu prometi postar cinco discos que marcaram meus 3 meses na Rússia, pois bem, com um tanto de atraso vou tentar cumprir minha promessa. Ouvir música faz parte do meu viver, como se fosse uma trilha sonora constante de tudo o que faço. Escuto música até pra estudar, pois creio que a música barroca ajuda, tanto quanto um copo de café, na concentração. Hoje, dedico meu segundo disco da série Viagem à Rússia (calma, eu sei que parece que vou viver de um eterno efêmero passado) ao Trio Pouca Chinfra e a Cozinha, grupo de samba de Recife. O mais recente álbum da Chinfra (2010), é uma das melhores pérolas da música recente do Brasil, e confesso que sinto um tantinho de orgulho do sucesso da rapaziada e vou explicar o por que:

Não tenho muita certeza de qual ano foi fundado o citado grupo de samba, mas minha primeira lembrança do nome Pouca Chinfra foi quando meu velho amigo Carlos "Cacau" Holanda, me convidou pra um sambinha na cachaçaria da Rua da Moeda, Recife Antigo, por volta de 2005. Dizia ele: "Dodô, meu irmão Dedeco, tá tocando num grupo de samba que toca vários covers dos Demônios da Garoa, vamo nessa!" E fomos. Bem, das primeiras lembranças o que fica era aquela impressão de que tudo era improvisado e bagunçado, mas muito legal, levado no peito e na raça. Aos poucos, a pequena cachaçaria ficou pequena pra tanta gente que se espremia naquele calor infernal. Sempre com muita gente bonita acompanhando os shows, a Chinfra foi pro primeiro andar do Pina de Copacabana e, pra variar, casa lotada todas as sextas. O negócio começava a ficar sério e a rapaziada também começou a caprichar nas notas e na percussão. Bem, daí pro sucesso na cidade inteira foi um pulo. Hoje, eles apresentam este disco que vou deixar no final desta postagem pra vocês, muito bem elaborado, com letras inteligentes e uma jovialidade muito boa.

Esse disco do Pouca Chinfra me faz lembrar dois momentos em que o escutei enquanto estava na Rússia. O primeiro foi quando eu estava em Chelny, no Tartaristão. Era uma noite de segunda, estava na transição do inverno pra primavera, fazia -2 graus e eu não queria ficar em casa. Peguei o Ipod e decidi comprar cigarro e uma cerveja, enquanto dava uma volta pela vizinhança. Cheguei no mercadinho e pedi um Marlboro e, envolto na brasilidade da música, esqueci de pronunciar como os russos, ou seja, Marlbara (a letra O em russo, quase sempre tem som de A). A mulher disse que não tinha esse produto. E eu mostrava, "olha ele alí, olha ele alí". Pronto, um cigarro e uma Heinekken de meio litro. Caminhei pelo bairro da Zyab naquele frio e como me sentia próximo do Recife ao escutar a voz do meu amigo José "Macaco" Demóstenes. Poxa, chegava a ficar com olhos marejados ao me lembrar que desde o comecinho, naquela bagunça da cachaçaria, o Pouca Chinfra fazia, agora, um disco tão bonito, que merece ser escutado por todo mundo. A segunda lembrança foi mais alegre, estava caminhando na Avenida Niévski em São Petersburgo, distribuindo sorriso para as beldades que passavam, cheio de auto-confiança. Destaco as músicas "traseirando", "carmelita", "rainha da bateria" e "finarmente". Não duvide, meu caro, minha cara, você pode encontrar boas letras no cenário atual!


quinta-feira, 9 de junho de 2011

Os Negros da Oficina

Certas imagens que fazem parte do nosso passado se perdem na trivialidade da rotina, mas hoje, ao conduzir meu velho Volkswagen 78 para a biblioteca da universidade, observei naquela rua de barro, cheia de buracos, que o chefe da oficina que fica há dois quarteirões da minha casa e que funciona desde que me entendo por gente, estava velho, de cabelos brancos, e circundava uma Brasília antiga, meneando sua velha carcaça, buscando soluções. Hoje ele trabalhava sozinho, era manhã alta, umas 9 horas, os seus irmãos deveriam se juntar ao trabalho em breve, talvez estivessem dormindo ou não houvesse, simplesmente, trabalho. É uma oficina mecânica familiar, composta por três irmãos, negros fortes.

Durante muitos anos, aquela rua onde os irmãos da oficina trabalhavam, com seus carros velhos, a roupa suja de graxa, a casa escondida entre os pés de acerola e pitanga, com suas esposas e filhos a circundarem a garagem da oficina, a música de Roberto Carlos no começo de noite de domingo, representava pra mim um local de segurança em nosso bairro assombrado por bandidos espertos. Sempre que voltava da faculdade, tarde da noite, entrava naquela rua mal iluminada, apenas por confiar que naquela casa existiam homens fortes e valentes, que nenhum ladrão ou bandido consentiria em traquinar numa rua onde aqueles trabalhadores faziam a defesa do território. Eles eram os paladinos do bairro.

Minha visão sobre os negros da oficina tem uma explicação: quando eu era criança, meu pai tinha um pequeno comércio, que infelizmente, nunca deslanchava, mas estava sempre aberto no horário comercial. Passava as manhãs de férias com meu pai e, numa daquelas bem quentes de um dia qualquer, ouvimos um alarido na rua do lado. Uma gritaragem, um escarcéu provocado por uma voz feminina: ladrão, ladrão! O meliante tinha fugido com a bolsa e o relógio da mulher. Meu pai, sempre curioso com esses casos, precipitou-se pra rua e ordenou-me ficar tomando conta do pequeno comércio. Não tive dúvidas, desobedeci e fui atrás do velho. Quando dobrei a esquina, avistei o ladrão caído no chão a ser aporreado, como um cavalo atropelado na estrada é degustado pelos urubus, pelos negros da oficina. O ladrão ficou caído no chão, a polícia foi chamada. Os pertences da mulher foram restituídos. O bandido foi-se no camburão. A população agradecia aos irmãos mecânicos. Eles foram os heróis de uma manhã monótona no subúrbio do Recife.

Minha mãe, mesmo depois de crescido, sempre me orientava: “Vá pela rua da oficina que é mais segura.” Involuntariamente, faço este percurso, como o fiz hoje, embora os negros da oficina já estejam velhos, de cabelos brancos e não se acordem mais tão cedo pra trabalhar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sleeping with Ghosts


Hoje eu começo a postar uma série de cinco discos que são a trilha sonora desses meus últimos meses. Peço perdão a quem costuma visitar o blog, mas nesses três meses de Rússia não tenho tido tempo para refletir. Até as leituras estão deficitárias. Comprei três livros e acho que só Palomar de Italo Calvino vai voltar pro Brasil com o carimbo de finalizado. A boa notícia é que estou falando russo muito bem, quer dizer, falo de tudo, mas gramaticalmente ainda erro bastante. O russo não é uma língua fácil. Bem, mas esse não é tema da postagem. Na verdade, por falta de assunto e de tempo para refletir, quero dividir alguns discos com vocês que, de certa maneira, estiveram comigo nesses últimos meses. Para começar, escolhi esse do Placebo. Acho que foi o disco que mais ouvi no Ipod. Um disco cheio de energia, de arranque e de chegada. Talvez o melhor disco do Placebo, certamente o mais jovial e agressivo. No meu segundo dia em Naberezhnye Chelny, resolvi fazer uma caminhada inóspita. Andar do shopping Torgovyi Kvartal até meu apartamento, apenas 40 minutos, nada de impossível se não fosse a temperatura de menos 36 graus no termômetro oficial da Prefeitura. Era cinco da tarde e já estava escuro, muito escuro, um vento malvado queimava o pequeno pedaço de pele que ficava descoberto que ia da metade da testa até o queixo. Ardia, ardia demais. Eu usava duas calças e uma cueca e os testículos doíam como se quisessem buscar abrigo dentro do corpo. Os ossos da perna caminhavam cada vez mais rápido para se aquecerem. Na verdade, eles tremiam. Mas, eu estava decidido a enfrentar o frio. Quando li Senhores e Servos de Lev Tolstói, me inquietava desconhecer aquele frio assassino que fustigava os homens no alto inverno russo. O corpo dóia, a pele do rosto ficava dura e enrugada. "Mas mesmo assim eu vou, eu vou." E me embalava esse disco do Placebo, uma música decidida, triste e raivosa como a aparência do inverno. E cheguei em casa, quarenta minutos depois, e pensei: que discaço! E passei a escutá-lo com frequência. Taí o recado, quem quiser baixar, segue o link abaixo:



http://www.4shared.com/file/250045058/301ac77/Sleeping_With_Ghosts__2003_.html

quinta-feira, 31 de março de 2011

Sossuil'ka



Oficialmente, estamos na primavera há mais de uma semana. Mas aqui, na Rússia, o inverno é forte e tarda a findar. Um amigo me escreve da cidade de Colônia, na Alemanha, e anuncia que a primavera é linda e que de dia, aconchegantes quinze graus são sentidos no caminhar pelas ruas ensolaradas da primeira semana da primavera. Aqui, ainda agora enquanto escrevo, neva. Aliás, desde que o tempo esquentou, neva quase todos os dias. Quando fazia -36 graus, no final de fevereiro, não nevava, aliás, nada caía do céu, apenas a secura intolerável do ar que queimava a pele com rudeza e obstinação. Mas agora, é tempo de transição, de meio-dia faz +3 e de noite -3, e nesse esquenta-esfria, também o gelo entra na dança e se mostra através da Sossuil’ka.



A Sossuil’ka é uma espécie de estalactite de gelo facilmente encontrada em qualquer telhado de qualquer cidade russa. É resultado do derretimento do gelo quando o sol aparece de dia e do esfriamento do tempo, do fim da tarde até a manhã seguinte. Surgem belíssimas formas de estalactites penduradas sobre os telhados. As crianças adoram chupar Sossuil’ka. Mas, a palavra de nome inofensivo, amiga das crianças, é, na verdade, um grande perigo aos moradores das cidades. Enquanto andamos preocupados olhando para o chão, com medo de levarmos um escorregão nas placas de gelo que ficam sobre a calçada, a Sossuil’ka está sobre nossas cabeças, muitas vezes tomando proporções inimagináveis. Na semana passada, na cidade de Tver, uma senhora estava sentada num banquinho de praça quando uma imensa Sossuil’ka caiu do telhado de um prédio e lhe afundou o crânio. A pobre senhora faleceu na hora.



Esse mês de abril será um mês de mudanças profundas no cenário russo. O gelo, finalmente, vai derreter e dará espaço para o tímido surgimento dos primeiros brotos nas árvores, já pela última semana de Abril. Amanhã inicia-se o mês e ainda temos temperatura abaixo de zero, temos muita mokra (lama), neve e Sossuil’ka. Mas, ao final do mês, teremos o renascimento do verde e a ampliação dos dias. Quando cheguei aqui no Tartaristão, o sol se punha às 15:45, hoje ele se põe depois das 18h, isso num intervalo de um mês e meio. No começo de maio, os dias findarão mais tarde, o sol se porá às 22, 23 horas. É no final de maio que teremos as famosas Noites Brancas em Petersburgo. Pena que não estarei mais aqui. Minha passagem pela Rússia é curta, como a Sossuil'ka,’mas espero que perene, e que eu cá esteja noutra oportunidade. Estou planejando uma última viagem pela Rússia. Tenho medo do dinheiro não ser suficiente, mas mesmo assim eu vou. A viagem se iniciará em 18 de abril, saindo daqui de Naberezhnye Chelny e indo pra belíssima cidade de Samara, onde pretendo ficar uma semana. No dia 24, pego um trem para o norte, ainda não me decidi pra onde, mas meu coração chama por Velikyi Novgorod, a cidade mais antiga de todas as Rússia. Lá, posso encontrar lindos conventos e monastérios. A cidade é conhecida como a capital ortodoxa da Rússia. Novgorod é caminho para São Petersburgo, onde já tenho hospedagem na casa de uma amiga entre 30 de abril e 5 de maio. Após isso, posso ficar mais dois dias na capital de Pedro ou partir para o centro do país, em direção à Moscou, ao fim da viagem, à volta pro Brasil, ao derretimento final deste sonho, Sossuil’ka.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Volta de Kazan

Nevou, insistentemente, durante todo o fim de semana em que estive em Kazan. As ruas se cobriram de um branco novo, recém-chegado dos céus. Mas, é fim de inverno, a neve é molhada, quente, pedindo pra virar chuva, e transforma as ruas da cidade em deslizante lamaçal. Ainda assim, para o olhar de um nordestino, tudo se afigura em novidade e deleite por um inverno antes apenas imaginado. As calçadas se cobrem, ora de uma tímida camada escorregadia de gelo, ora de um fofo tapete branco, e a milenar cidade se traveste de sonho, moldando suas arquiteturas na onipresente neblina.

As cidades são corpos imensos, e como corpos, movem-se pela presença de um espírito, a alma da cidade. A alma de Kazan, se posso me arriscar a conhecer apenas por ter visitado por três dias em que a mesma se encontrava debaixo do branco véu, é harmoniosa. Diferente de Moscou, não possui tanto tráfego, multidão apressada, minhocas de aço a amaciar suavemente o subsolo de sua morada. Kazan é grande e pequena, naquilo que os adjetivos podem alargar de mais positivo. Ao andar por suas ruas, meu coração palpitou, assanhado, que aquele era o lugar desejado pra se viver por um bom tempo. Mas, em respeito à atmosfera onírica da capital tártara, vou-me embora antes que a realidade desfaça o sonho, e já escrevo de um ônibus velho que, cambaleante, atravessa o sertão gelado da minha solidão.


Entrego minha vida às mãos de um motorista pitoresco, com os dedos da mão direita tatuados, provavelmente indicando que o mesmo fez/faz parte dessa ou daquela máfia russa. O homem não tinha sequer um dente natural, todos de prata. Imaginei que aquele homem, talvez, tenha perdido os dentes numa briga de gangues e se afastara da vida bandida e hoje era motorista de ônibus, entre Kazan e Naberezhnye Chelny. A idéia se esvaiu quando tive que concordar com o sujeito, em seu prateado sorriso, que Pelé e Ronaldo eram brasileiros. Eu já estava dentro do ônibus velho, sentado ao lado de uma babushka espaçosa, torcendo pra que o motorista pitoresco fizesse as curvas mais devagar naquela pista alva e escorregadia. Lá fora, árvores sem vida, campos sem grama, a natureza hibernante e silenciosa. Aqui dentro, uma multidão quente de cidades, lembranças, soluços. E tudo o que escrevo é um inatingível esforço pra construir uma imagem perdida, marejada, de um intraduzível presente.

quarta-feira, 2 de março de 2011

12 dias

Após doze dias na Rússia, hoje pela manhã, tive a gratificante surpresa de me deparar com uma neve fininha, quase como uma garoa de algodão. As ruas cobertas de um veludo branco vislumbraram-se mais bonitas. Vinícius de Morais e Toquinho no ouvido e não havia habitante mais feliz naquela cidade tão óbvia. Escrevo de um shopping. Nunca frequentei tanto esse espaço na vida, como aqui na Rússia. É difícil ficar mais do que 30 minutos caminhando na rua. Os primeiros dez minutos são agradáveis, mas a constância do frio maltrata a pele.Acordei cedo pra ir na rodoviária comprar minha passagem para a antiga cidade de Kazan, capital do Tartaristão. Kazan é um cidade de longa história e tradição. Todos dizem que é uma cidade muito bonita, diferente da cidade em que vivo, Naberezhnye Chelny.

Naberezhnye Chelny é uma cidade projetada na era soviética. É uma imensa COHAB. No período soviético chamava-se Brezhnev. A cidade é dividida em complexos, todos com quatro, cinco ou seis prédios, todos iguais. Apesar de não ser uma cidade grande, tem quase 600 mil pessoas, mas eu me sinto mais perdido aqui do que em São Paulo ou Rio de Janeiro, por exemplo. As ruas são todas iguais e os prédios também. A única construção que se destaca na paisagem é a torre de negócios chamada Tubiteika, que para minha imensa sorte, fica do lado do apartamento onde moro, então sempre me posiciono pela torre. Como a cidade não oferece atrações turísticas, devido à obviedade de sua existência, quando as pessoas me encontram na rua, me transformo num estrangeiro numa cidade de interior. Desta constatação, resultam duas possibilidades: ou as pessoas são muito amáveis, ou são chatas e mal-educadas. Na grande maioria das vezes, as pessoas são extremamente gentis e bem educadas, apenas um bêbado ficou gargalhando comigo quando me escutou pedir uma água mineral num barzinho perto de casa. Sua risada era provocadora e ele queria confusão. Mas, cá entre nós, a última coisa que quero num país distante é parar na polícia por causa de briga, coisa que nunca aconteceu nem no Brasil. Deixei passar. Para se ter uma idéia da excentricidade que minha estadia aqui representa, anteontem, concedi uma entrevista para a TV local! Eles queriam saber o que um brasileiro estava fazendo em Chelny, porque escolheram aquela cidade que nenhum estrangeiro escolhe. Contei um pouco da minha vida pra eles.

Tenho muita vontade de ficar aqui na Rússia, mas não em Chelny. Vou terminar meu estágio de dois meses e já estou correndo atrás de algum emprego em algum lugar. Gosto do frio, gosto do inverno, das pessoas. Meu russo melhora a cada dia, progressivamente. Tinha medo de não me adaptar ao clima, mas já me sinto triste pelo ocaso próximo do inverno. É muito gostoso andar aquecido no frio, as noites de sono são pacíficas e sem pesadelos. A maior dificuldade é andar. No meu segundo dia eu levei quatro quedas na rua. Há 8 dias eu não caio porque aprendi que em certos trechos não se deve andar, mas patinar. Se quiser andar com dureza, certamente vai cair. O caminhar tem que ser leve e escorregadio. As coisas aqui são mais baratas que no Brasil, mas só aqui em Chelny. Em Moscou, tudo foi muito caro, desde a compra de um chapka (chapéu típico de inverno) até os lanchinhos numa cafeteria. Às vezes, bate uma tristeza, mas é normal. Não é tristeza de saudade, ainda, mas é uma solidão de algo inexplicável, talvez a falta de alguém que aqueça o coração. Não sei. Paro por aqui, esse foi meu 12º dia, é bom escrever em português porque até quando sonho tem sido em língua estrangeira, só falo inglês e russo, o tempo todo. Sem mais, um abraço a todos e vamos trocando notícias.

Do Zvedanya, druz’ya!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Agradecimentos da Disssertação

Em primeiro lugar, agradeço este trabalho a minha mãe, Francisca Alvino de Lima Barreiro, que nunca se esquivou das dificuldades e agruras financeiras para nos proporcionar (para mim e minha irmã, Maria Ercília) uma educação de boa qualidade. Minha mãe é a pessoa mais presente e minha maior incentivadora. Também agradeço ao meu pai, Odomiro Barreiro Fonseca, homem sertanejo, o mais velho dos cinco filhos de José Barreiro, e por ter tido esta sina primogênita, teve que cuidar da roça e não pôde estudar mais do que até o ginásio. Mas, se orgulha de ter financiado os estudos dos irmãos mais novos com o suor de seu trabalho campesino. Meu pai é uma fonte inesgotável de sabedoria popular e das lendas que habitavam o cotidiano dos moradores do Vale do Piancó, no sertão paraibano. Também não posso deixar de citar meu avô materno, Emílio Martins de Lima, o meu “Ulisses”, que não pensava duas vezes em juntar uma família de quatorze filhos e lançar-se mundo afora em busca de dias melhores. Ele, que naquele “sertão brabo” sempre ouvia piadinhas do tipo: “Escola é pra filho de rico, homem!” E não havia maior riqueza do que aprender com os livros, onde a palavra era alimento imperecível.

Também quero agradecer a professora Christine Dabat do Departamento de História da UFPE, por ter acreditado em mim quando eu mesmo duvidava da possibilidade de engatar minha pesquisa. Com sua freqüente doçura e sinceridade, disse-me que não poderia ajudar-me, mas indicou um professor que talvez o pudesse. Numa tarde de quinta-feira, bati pela primeira vez à porta do professor Lourival Holanda. Porta sempre aberta, escancarada, porque seu espírito tem fome de comunhão, sua sabedoria é desapegada e com imensa facilidade transformava os mais hermético dos temas em suave poesia em sala de aula. Quando por longa e desconhecida estrada andamos, norteamo-nos pelos signos de segurança. O professor Lourival orienta por sua simples presença. E, entre nós, norte e oriente só nos podem levar à Rússia. Obrigado, Professor!

Também quero dedicar homenagem aos meus amigos, especialmente Rodrigo Acioly Peixoto e Daniel Oliveira Breda, com quem aprendi muito, fosse numa discussão séria ou numas de nossas jornadas carnavalescas. Também quero deixar registrada a importância de Mariana Azevedo, Danielle Camelo, Daniel Duarte, Antonioni “Spengler” Martins, Hugo José, Janaína Guimarães, Manuela Oliveira, Tiago e Hugo Perez, Bruno Vila Cruz, Ricardo Hermes, Manuel Souto Maior, Cristiano Randau, Tiago Peixoto, Alberto Rio, Karuna Sindhu, Henrique Viana Brandão, Yuri Holanda, Ursulla Machado, Mariana e Patrícia do Amaral, Marcela Vieira, Carlos “Cacau” Holanda, Michely Peres, Diogo Luna, Hannah Lima, Edson Alvino, Paulo Emilio Lima Cirilo, José Alvino, Emilio Melo... Ainda tantos merecem destaque, mas os que não citei hão de me perdoar e se espelharão certamente noutros que aqui foram citados. Uma ressalva a Juliana Pinheiro, a “culpada” de ter colocado Dostoiévski no meu caminho e aos colegas do mestrado.

Agradeço aos professores que me inspiraram desde a infância até a universidade. Não quero terminar esse trabalho sem lembrar do professor Michel Zaidan Filho, Antônio Paulo Rezende, Marcus Carvalho, José Maria, Anco Márcio Tenório, Ermelinda Ferreira, Saulo Neiva, Roland Walther e todos os outros da PG Letras, alguns dos quais não tive oportunidade de ter aulas e me aprofundar em seus conhecimentos. Com todo carinho, registro a importância da professora Larissa Shevchenko, minha professora de russo, por me aproximar a cada semana do universo da cultura russa. Também agradeço a professora Elena Vássina, pelo suporte, mesmo de longe, às minhas pesquisas e pelos convites para participar dos congressos. Agradeço aos órgãos fomentadores de bolsas para os estudantes, pelo suporte financeiro nessa difícil jornada.

Quero finalizar, agradecendo a um escritor que há 130 anos não está entre nós. Pode parecer estranho homenagear o objeto da pesquisa. Mas, se não fosse o amor que dedico à obra de Dostoiévski não sei se suportaria conviver oito, às vezes dez horas por dia, com sua densa escrita e sua presença de chumbo. O que mais me admira na personalidade do escritor é o seu sincero amor e entrega na execução de sua arte. Abandonou uma vida segura de engenheiro militar para criar um coral de vozes atormentadas, que em seu sofrimento e aflição, nos ensinam verdadeiras lições à respeito da vida. Obrigado, Mestre e mestres!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Próxima Estação: Esperança

Tolstói inaugura o romance Anna Karênina dizendo que as famílias felizes se parecem entre si, enquanto as infelizes, cada uma o é à sua maneira. Pois bem, as grandes cidades se parecem demais umas com as outras: muito trânsito, corre-corre e a distância contratual da coletividade. Desembarquei em Moscou às 2 da madrugada do dia 18 de fevereiro. Fazia menos 24 graus. As ruas escorregadias por causa do gelo eram o primeiro obstáculo, o frio incendeava o rosto. Cheguei na casa das gentis Anna Voronkova e Cecília Rosas e fui imensamente bem tratado. Parti para o centro, sempre escorregando nas calçadas até chegar na Biblioteca Lênin. Adivinhem quem estava à porta? Ele mesmo, totalmente por acaso, me deparei com a estátua, imensa, de Dostoiévski. Subi no montante de neve para me aproximar da estátua do Mestre e, simbolicamente, escorreguei. Embora nas conversas coloquiais os russos não afirmem dar tanta importância aos clássicos da literatura, eles estão em todo lugar, como estátuas, estações de metrô, avenidas e museus. A companhia das anfitriãs, acrescidas de Ilona Elufimova e Nikita Kuldiushev, tornaram o passeio agradabilíssimo, apesar dos quase menos 30 graus. Hoje eu entendo o porque do aspecto espectral, fantasmagórico, de São Petersburgo nas novelas de Gógol e Dostoiévski: o frio deixa as luzes dos carros, dos postes e das casas borradas. Parece que estamos dentro de um sonho...

Nesse momento em que escrevo sâo 03:42 da madrugada, estou no trem que cruza a província de Vladímir. A paisagem é monótona, neve e árvores delgadas com as copas brancas. O maquinista disse que está fazendo menos 35 graus. Estou viajando no mais barato compartimento do trem, no último vagão. Num pequeno espaço existe uma família de homens (avô, filho e dois netos de aproximadamente 9 e 11 anos). Além deles, uma senhora com olhar triste e que não puxou conversa em momento algum. Quando disse que era brasileiro, o filho de 32 anos, à moda russa, encheu um copo de vodca, pegou um pedaço de pão preto, uma linguiça de bode e um dente de alho, e me ofereceu. Não pude negar, era um tratado de amizade, além do mais vamos passar ainda 20 horas nesse cubículo, dividido em seis camas, três beliches. Minha cama fica na parte de cima de um beliche e só cabe minhas malas. Por isso escrevo, mesmo após três viagens de avião, um dia agitado e congelado em Moscou, não consigo dormir por cima das malas. O espaço é realmente pequeno, menor do qualquer cozinha no Brasil.

Para mim, apesar desse “infortúnio”, está sendo a melhor parte da viagem. Ninguém aqui fala inglês e todos querem falar comigo, me escutar com meu sotaque diferente, saber o que estou indo fazer no Tartaristão... O trem é antigo, com todo o jeitão soviético: tudo parece ter ao menos quarenta anos de utilização. Está muito frio, de verdade. No meu netbook são 21:56, ainda está no horário da terra natal. No Brasil, em Recife, meus amigos estão partindo para alguma curtição pré-carnavalesca. Mas, me sinto tão entusiasmado que não há comparação. Estou cercado de pessoas muito simples, num cubículo, mas eles fazem questão de dividir suas comidas, histórias e explicar que aquilo é típico de tal lugar e falam de suas vidas, assim como nós, brasileiros.

No final do trem tem a área de fumantes e lá não tem aquecimento, faz um frio de congelar e endurecer o corpo. As paredes de metal, absorvem o frio que está lá fora, de forma que este cubículo, o derradeiro espaço do trem, parece muito mais um frigorífico do que uma área de fumantes. O limite tolerável é fumar um cigarro e sair. Há uma pequena janela, toda coberta de gelo, com a mão e o isqueiro faço um buraco no gelo e consigo visualizar a estrada que fica para trás. A lua cheia e a neve branca formam um cenário límpido, encantador. No meio da madrugada, sozinho, frequentei este lugar inóspito e hostil e eis que foi o lugar que mais gostei. A todo tempo trens carregados de vagões cheios de minerais e gás passam na direção contrária, em direção à Moscou. Os comunistas criaram uma organização ferroviária que a Rússia atual dificilmente conseguiria igualar. Os brasileiros socialistas criticam a União Soviética, mas se vissem a estrutura organizacional das ferrovias e os destinos que conseguem dar à suas riquezas minerais, toda a organização do país é da época do exército vermelho. Aliás, a Rússia querendo ser ocidental é a parte mais chata desse processo de conhecimento. A música pop russa, aquela que toca nas rádios, shoppings e bares, é insuportável.

Vou abandonar esta escrita, minhas costas já estão doendo. Todos estão dormindo no trem, em seus cubículos entupidos de gente e malas. Estou escrevendo da entrada do banheiro, o penúltimo cubículo deste último vagão, o último vocês já sabem qual é. Fico a imaginar os soldados russos partindo para a guerra, na época não tinham aquecedor no trem, a velocidade do trem faz com que o frio seja ainda maior. A bateria do netbook também está no fim, tenho tantas coisas pra dizer da viagem de trem, mas vou deixar pra outra ocasião. Estar entre as pessoas simples me faz feliz aqui, apesar das adversidades. Consigo conversar com eles. Em três horas bebendo vodca, petiscando e conhecendo a família que vive comigo no cubículo, aprendi mais russo do que um ano inteiro no Brasil. O melhor é que estou entendendo suas conversas e me fazendo entender. Depois eu conto mais.

Do Zvedanye, Brazilya!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Allegro Molto e Vivace

Reconhecidamente desconhecedor da música erudita em sua forma, embora apreciador dos seus estímulos sonoros, posso compreender que o movimento Allegro se diferencia do Adagio pela velocidade mais acelerada de execução dos músicos, por exemplo. Pois bem, escolhi esse movimento para dividir com vocês, leitores do blog, minha atual condição de euforia, júbilo e esperança. O novo ano é como uma primavera aguardada por longos meses de solidão. Sinto a chegada do frescor primaveril e do desabrochar de sua existência. Então, vamos celebrar a abertura de uma nova jornada!

Neste mês de fevereiro, mais precisamente no dia 14, estarei defendendo minha dissertação de mestrado, sob o título “A Cidade de São Petersburgo na Obra do Jovem Dostoiévski”, onde tratei do conflito entre a tradição idealista alemã, da literatura fantástica, com o recente fervor socialista baseado nas idéias francesas utópicas de Saint-Simon, Fourier e Proudhon, na literatura naturalista. Este confronto de idéias e de formas e estruturas literárias formularam um turbulento e agressivo choque de convicções na cabeça do jovem, intempestivo e promissor escritor. A dissertação, a meu ver, poderia ter ficado mais esmerada, mais alongada, mas esta necessidade de entregar no prazo é o maior obstáculo que todo estudante de pós-graduação encontra. Reconheço que haverão falhas, talvez em demasia, ausências. Mas, também tenho certeza que a execução desta obra se deu de maneira integral, com amor e dedicação. Ficar, às vezes mais de dez horas por dia, na companhia de Dostoiévski não é uma tarefa divertida ou gáudia, mas um exercício de amor à sua literatura e de respeito aos seus ensinamentos, embora discordemos de seu afã religioso. Tenho certeza que a defesa desta dissertação não será um ponto final na minha relação com o escritor, mas uma vírgula, rápida, na tomada de novas perspectivas.

Estudar um escritor estrangeiro sem conhecer sua língua materna de modo profundo, é uma deficiência que o pesquisador deve se imbuir em dissipar. Na língua original, o autor demonstra sua rudeza ou suavidade de seus personagens, aproxima-nos de seu cotidiano contextual através do uso da palavra. Há quase sete anos, tenho, lentamente, me aproximado deste universo linguístico da obra de Dostoiévski através dos meus estudos da língua russa com o auxílio da excelente professora Larissa Chevtchenko, aqui em Recife. Mas, sempre me faltou uma experiência de convivência com a língua, escutar diferentes vozes, gírias, dialetos, neologismos e provérbios. Aproximar-me mesmo do povo, estar lá, conhecer a cultura de perto, interferir e deixar-se impactar. Pois bem, essa hora chegou! No dia 17 de fevereiro, três dias após a defesa do mestrado, estarei viajando para a Rússia, para trabalhar durante quase três meses numa ONG internacional chamada AIESEC. Lá, junto com mais nove estudantes de

diferentes regiões do mundo, vamos assumir as aulas de inglês da rede pública de ensino e seremos embaixadores culturais de nossos países e continentes. A Rússia é um país que, recentemente, tem mostrado uma triste face xenófoba, agressiva e repugnante. O projeto em que estaremos envolvidos tem a intenção de levar conhecimento aos jovens das escolas públicas, para que enxerguem nos negros, latinos, chineses, paquistaneses e etc, irmãos da mesma espécie, da mesma raça humana.

Estarei em breve me mudando para uma região de uma impressionante riqueza cultural. Não vou para Moscou ou São Petersburgo, metrópoles mundiais, mas para a cidade de Naberezhnye Chelny, na República do Tartaristão, o país dos tártaros. Quando meu avião desembarcar em Moscou (assim espero!), enfrentarei uma viagem de 22 horas de trem em direção ao oriente, ao leste, em direção aos Montes Urais, passarei pela antiga e importante cidade de Kazan, capital-mãe dos tártaros, e chegarei 250 km depois, a cidade de Chelny, com seus quase 600 mil habitantes, seis vezes menor do que Recife. Esta semana que passou, a temperatura alternou entre -22 e -12º celsius. Mas, para ser sincero, quero mesmo sentir este frio agressivo na pele. No seu conto Senhores e Servos, Lev Tolstói pinta de forma magistral a convivência do povo com o frio extremo e, ir na Rússia e não sentir o frio a machucar, queimar a pele, não seria a mesma coisa. Também preferi viajar de trem, mesmo sabendo que a viagem para Chelny de avião poderia durar apenas 1 hora e meia, eu ainda prefiro ver o país pelas brancas imagens que se afigurarão pela janela do rápido que me levará ao país dos tártaros. Quando partiu de Varsóvia para Petersburgo, o príncipe Míchkin via pela janela do trem essa mesma monótona paisagem gelada...

Mas, estar no Tartaristão será diferente de estar noutras regiões da Rússia. É uma região dividida entre a cultura muçulmana e o cristianismo ortodoxo, de um povo de etnia miscigenada, parte otomana, parte mongol e parte eslava. Dizem que dessa mistura, surgem as mais belas moças russas. Certas opiniões só poderei conferir de perto, ainda bem! Esta região é antiga, era território dos Búlgaros do Volga no século IX d.C. Este povo nada tem a ver com o atual país localizado no Mar Negro. Estarei no limite entre a placa européia e a placa asiática. Os Montes Urais são consequência desse encontro de placas tectônicas. Certamente, terei muitas histórias para contar e espero dividi-las com vocês, não como um diário de viagem ou um álbum de fotos, mas contar um pouco da História dessa região, dos lugares onde passarei, daquilo que julgar relevante.

Estou viajando de peito aberto, mas consciente que tenho que voltar para cá, para o Brasil. Tenho família, grande amigos, laços culturais e perspectivas aqui. Ainda quero voltar a estudar a obra de Dostoiévski, desta vez com um novo tema que não posso dividir ainda com vocês, mas hei de fazer quando as coisas estiverem bem encaminhadas. Confesso que se houver a possibilidade de ficar mais um tempo, vou tentar ficar mais uns meses, quem sabe... Quero agradecer aos meus familiares e amigos, pois sem vocês e suas ajudas financeiras e motivacionais, essa viagem seria impossível, com absoluta certeza. A vida segue, fazemos planos e projeções, mas sem a garantia de que realizaremos. A primavera está aí, outra sessão se inicia, o eterno retorno das vontades humanas. Eu apenas quero viver um pouco mais, adiar o xeque-mate inevitável da morte nesta angustiante partida de xadrez. Allegro!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Cosmos

Viver sem questionar a existência e a localização de nosso espírito no universo que nos circunda, deve ser uma maneira um tanto vazia de atravessar a vida, creio eu. Estamos cercados pelo desconhecido, e sua presença oculta nos leva a formular as mais diversas formas de superstição, mitos e lendas religiosas em torno daquilo que não podemos explicar, das coisas que extrapolam nosso alcance, da metafísica. Uma ida ao jardim de casa, lugar habitual, pode revelar a grandeza de um universo nunca antes explorado por nossos olhares descuidados. As raízes das plantas sugando alimento da terra, circulando por seus galhos, as formigas carregando folhas, as gotas da chuva a revirar o solo, misturando os elementos. Eu passei toda a vida a andar pelo jardim, mas apenas recentemente me apercebi do volume de vida existente naquele pequeno espaço do universo. E, ainda assim, não consigo formar mais que um minúsculo panorama dos acontecimentos que se desenvolvem naquele pequeno espaço o tempo todo.

No filme Stalker, de Andrei Tarkovsky, o protagonista, ao chegar na Zona, abraça a terra, agarrando-a entre seus dedos, esfrega o rosto contra o chão. Parece buscar uma relação com a natureza, justamente num local proibido aos homens, já que a Zona tem suas fronteiras vigiadas. A vida moderna nos proporcionou um distanciamento da natureza, do contato direto com a matéria viva que nos circunda. Trancados em nossos prédios e repartições, esquecemos que os nichos ecológicos, florestas e oceanos, estão em atividade constante e que dependem de nossas atitudes para que continuem existindo. Na grande cidade, motivado pela busca incessante do lucro, da racionalidade e oprimido pela burocracia, achamos que a vida só se dá no curto intervalo de tempo em que somos adultos gananciosos. Estados brasileiros como Tocantins e Mato Grosso, por exemplo, estão sendo avassaladoramente devastados por fazendeiros de soja e criadores de gado, aleijando assim, o mais importante centro de equilíbrio da parte não submersa do planeta. Tudo em nome do lucro de uma geração, desses agricultores do presente, que pouco se importam com o futuro dos que estão por vir, nossos filhos.

Recentemente, me deparei com uma série que foi ao ar na televisão nos anos 1980, chamada Cosmos, comandada e idealizada por Carl Sagan. Seus treze capítulos desnudam o universo em que vivemos desde o surgimento da primeira molécula até a mais remota e inimaginável esquina do espaço sideral. Nossa época é um período de crise, de tensão. Sei que é batido repetir esse tema: crise, pós-modernidade, morte do homem... Mas, desde a Segunda Guerra Mundial, ficou claro que chegamos num limiar de tecnologia destrutiva que, se mal utilizado, pode decretar o fim da raça humana. Carl Sagan nos mostra em sua série, o quão milagrosa é a vida no nosso planeta, se comparada com tudo o que nos circunda, principalmente com os planetas mais próximos: o abrasador Vênus, e o poeirento e frio, Marte. O desenvolvimento das eras geológicas, dos desdobramentos da biologia e da química natural, proporcionaram o aprimoramento das constituições genéticas, as adaptações climáticas, até que chegássemos em nós, homo sapiens, que escrevemos e pensamos nossa existência, que projetamos o futuro, que contamos histórias de tempos quase esquecidos.

Mais do que qualquer religião ou pregador fanático, essa série desnudou aos meus olhos o milagre da vida, desde o mais microscópico elemento que circula pelos meus vasos capilares, até o mais distante dos milhões de sóis que existem nas galáxias mais distantes das infindáveis raias celestiais. O nosso planeta é pequenino. Mas, ao observarmos as imagens e condições dos outros, como ele se torna maternal, aconchegante, vital. É o único pontinho miúdo neste oceano infinito do céu em que a vida pode desabrochar. Poxa, nesses últimos três dias, surgiu em mim um carinho diferente pela Terra. Por isso, quero dividir essa experiência com vocês. Baixem os episódios e assistam. O cosmos é uma palavra tão abrangente que não me arrisco a explicá-lo em rápidas palavras. Carl Sagan precisou de treze episódios para transmitir a importância deste conjunto de forças visíveis e invisíveis.

Em Guerra e Paz (Voyná i Mir), Tolstói escreve um longo enlace da relação do povo com o solo materno. Quando os russos expulsam Napoleão, não estavam reconquistando apenas o território onde dormiam e plantavam e viviam, mas algo ainda mais grandioso. A palavra Mir, que também é o nome do projeto espacial russo, significa, na realidade, cosmos, em russo. Sua tradução como “paz” é correta. Mas, na língua original, Mir tem um significado de amplitude maior do que a própria paz (que, certamente, é o significado mais próximo se tratando de um período de guerra), também é harmonia com o solo-mãe, com as práticas culturais, com o universo. Hoje, num período de avanço tecnológico tão acentuado, descobrimos curas para doenças antes terminais, somos capazes de viajar o mundo de um dia pro outro com nossas fabulosas máquinas, comunicamo-nos com o mundo inteiro conectados pela internet, é importante lembrar o significado da palavra Cosmos, da sua implicância em nossa sobrevivência enquanto espécie. Para mim, leigo em astrofísica, Carl Sagan explanou de maneira agradável e inteligente a aventura da vida através das eras. Espero que para vocês também. Vamos cuidar da nossa casa.

Cosmos – parte 1: http://laranjapsicodelica.blogspot.com/2010/12/cosmos-parte-1-1980.html

Cosmos – parte 2: http://laranjapsicodelica.blogspot.com/2010/12/cosmos-parte-2-1980.html

Cosmos – parte 3: http://laranjapsicodelica.blogspot.com/2010/12/cosmos-parte-3-1980.html

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Vida Após a Morte

Tem dias que a desilusão apossa-se do nosso espírito, prostrado diante de tantas inexplicáveis respostas, da incerteza do futuro e do iminente e inevitável contato com a morte, perguntamos a nós mesmos: Para quê viver? Qual a função do trabalho se numa seqüência rápida de algumas dezenas de meses, estarei soterrado pelo que me sustentava? O que motiva uma mente dotada de força poética a questionar esta finitude? O filósofo alemão Arthur Schopenhauer dizia que a morte era a musa da filosofia! O poeta, mortal, perdura na espécie, na futura geração que o lerá e o consagrará. O que nos motiva a viver neste tão curto intervalo que nos é oferecido é a possibilidade de alargar, imortalizar a espécie humana, onde cada um de nós oferece, como voluntariosas formigas, sua carga de experiência.

O escritor e poeta russo Igor Volguin, presidente da Fundação Internacional Dostoiévski, sugeriu em palestra realizada no dia 01 de dezembro de 2009, que o Mestre de Petersburgo nunca poderia imaginar que no início do século XXI, tantos congressos e palestras fossem proferidos para debater sua obra. Ele que passou toda a vida com dívidas e lutando para sobreviver, é, há muito tempo, um sucesso de vendas em todo o mundo e motivo de discussão e inspiração para todos que o lêem. Para o crítico Harold Bloom, o grande escritor/poeta só faz crescer com o tempo:

“A força desses fantasmas – que é sua beleza – aumenta na medida em que a distância do poeta concorrente cresce no tempo. Homero, um poeta maior no Iluminismo do que foi entre os helenos, é ainda maior agora em nosso Pós-Iluminismo.”

A influência poética, diz Bloom, é uma luta pela Eternidade, ou seja, o autor quer prolongar sua existência nos textos escritos. Quando Schopenhauer profere que a morte é a musa da filosofia, está sugerindo que o poeta/filósofo tem consciência de sua curta jornada, mas sua projeção na continuidade da espécie humana o motiva a pensar num tempo muito mais abrangente que sua vida natural. Assim, o grande escritor vive noutra geração que o deslê, como diz Bloom, e o revive noutra linguagem adaptada à outra realidade de outro presente, adiante.

Esta influência não se demonstra necessariamente na manutenção da linguagem, mas principalmente, no universo das idéias, da experiência. Quando fazemos uma leitura de Montaigne, nos surpreendemos, de início, com a incalculável quantidade de citações que o escritor da Gasconha apresenta de textos antigos, da retórica clássica. O universo clássico povoa sua visão do século XVI, servindo de suporte para sua interpretação do presente. Assim, a tradição/influência de Sêneca, Virgílio, Teócrito, Cícero, Lucrécio e outros, mantêm-se viva através de centenas de anos, sobrepujando inclusive, a consistência do granito, do mármore e do concreto. O pensamento mostra-se mais forte que qualquer monolítico monumental, e o poeta torna-se perpétuo em seus versos, mesmo contra sua vontade: salve o desobediente Max Brod!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Prédio

Como descrever com precisão a imagem de um lugar onde não se sabe ao certo se estive ou não dentro dele? Não é minha função buscar respostas, ao que parece, mas, ainda assim, é minha tarefa tentar explicar alguma coisa. Há uma estranha névoa aqui também donde escrevo. O certo era que o lugar era amplo, como uma infinita enfermaria de um hospital sucateado. Talvez o local se parecesse com uma imensa universidade. Talvez fosse mesmo uma grande cidade que vivia ali, dentro daquele vasto prédio. Um vulto passa perto de mim e inquire: “Não seria um desses moderníssimos prédios chineses ou tailandeses de cento e vinte andares? Uma cidade inteira caberia neles.” Mas não. Era um lugar bem decadente, quase uma repartição instalada num labirinto pré-digital: cheios de prontuários, receitas médicas, senhas e contas; que caiam em câmera lenta de um teto abobadado, cuja estranha claridade parecia impedir qualquer definição. Talvez o deus do prédio vivesse lá...

Olhando com mais atenção, observamos uma grande escada de ferro que range ao passar das subidas e descidas de seus transeuntes. Estou inclinado a afirmar que toda uma cidade vive dentro deste prédio que, em algumas paredes, possui um azulejo azul celeste parecido com os dos hospitais. Mas, pelo andar frenético dos passantes, assemelhasse mais a uma portentosa e antiga universidade. Ou talvez, seja mesmo uma cidade, por que não definimos assim de tal modo... Está difícil delimitar as coisas. Se tivesse mais janelas, poderíamos ver o exterior, mas não vejo nenhuma daqui, tampouco me recordo de ter passado perto de alguma janela. Há uma imensa escada no centro deste prédio, larga, onde não cessa a multidão de se movimentar. E range sua estrutura de ferro corroído. Nas periferias da grande escada central, curtos corredores conduzem a novas escadas, mais estreitas, onde a multidão se avoluma mais e quase se toca e se cumprimenta. Quanto mais próximos da escada central, mais denso se torna o nevoeiro. Que danado de lugar é este? À primeira impressão pensei se tratar de um imenso prédio dividido em vinte andares, talvez, Mas, subindo uma das escadas laterais da direita, cheguei à conclusão que todas as escadas laterais encontravam-se conectadas à grande escada central, de maneira que essa grande escada central era o próprio sustentáculo e caminho vital deste enorme prédio de um único andar, mas de altura incalculável aos nebulosos olhos. Eu próprio já não tinha certeza. E como pude afirmar que estava na escada da direita se o tal prédio não tinha referências exteriores?

Assim como quem acorda de um sonho, toda a multidão precipitou-se a andar ainda mais obstinada e uma grande ação coletiva estava prestes a irromper daquele ambiente. Uma voz de locutor de televisão principiou-se a narrar o itinerário de dois grupos de rebeldes rivais que começavam a se caçar dentro da estrutura labiríntica do imenso prédio. Eram centenas de jovens vestidos com as camisas pretas que indicavam um grupo e do outro lado, os de camisa vermelha, ambos se caçando dentro do prédio. Eles passavam em grandes grupos portando porretes, tacos de beisebol, serrotes, paus com pregos na ponta, marretas e muitos martelos de variados tamanhos. Quando se encontravam em algumas das escadas laterais, toda a multidão neutra corria e se atropelava. Alguns mesmos caíam no precipício. Assim como o céu era de uma claridade inexplicável, o fundo do prédio era escuro como um espelho sem luz. Até então, toda a multidão se locomovia em silêncio, mas quando a voz narrativa, locutora, passou a narrar o andamento da disputa entre os grupos rivais, um alvoroço e algazarra passaram a tomar conta de todas as escadarias.

Do fundo da escada central, mais e mais rebeldes com camisas alvinegras subiam as escadas e outros tantos na mesma proporção desciam do alto da escada central com as camisas coloradas. De repente, pareceu-me que toda a multidão tomava partido para um dos lados e me preocupava a neutralidade de minha posição, que parecia encontrar coro apenas na voz locutora que surgia sabe-se lá de onde! A voz narrava em tom de desespero, gritava e quase chorava de tanta comoção: “Minha Nossa Senhora, que absurdo! Alguém tome uma providência, o rapaz está abrindo a cabeça do outro com o martelo! Que cena lamentável!” Eu corria atrás de uma pequena multidão que se espremia numa apertada escada lateral onde as pessoas subiam e tentavam alcançar outra escada que daria em algum lugar-nenhum. Enquanto eu empurrava e era empurrado, o locutor conclamava alguém que fizesse parar a guerra entre os vândalos ensandecidos que arremessavam seus martelos uns contra os outros. A escada central e as laterais começavam a se encher de corpos mutilados e o sangue descia pelos cantos enferrujados delas. “Estão batendo nesse rapaz, na cabeça dele com um martelo. Façam alguma coisa, pelo amor de Deus!” Pranteava a voz narrativa. Uma moça chorava em desespero numa escada que passava perto. Eu quase alcancei sua mão clemente da escada onde estava. Eu temia perguntar algo, apenas fugia da multidão de rebeldes que se enfrentava bravamente e se buscavam obstinadamente nas escadas laterais. Todas as mortes se davam por espancamento incessante e persistente. E se alguém achasse que eu pertencia a algum grupo? Empurrava as pessoas que subiam as escadas enquanto a narração dos espancamentos tornava-se ainda mais comovente. Estava prestes a acreditar que quanto mais reprovativa era a locução, mais obstinada era a batalha selvagem. Não havia quem impedisse tamanha barbaridade e brutalidade? Deixei-me acocorar numa escada à procura de sair de interminável tormento. Onde estariam as portas e janelas? Eu apenas quero sair daqui!

O cachorro está latindo. Busco o relógio ao lado da cama. Ainda vai demorar umas duas horas para amanhecer.