quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
2011, The Magic Year.
Logicamente, nem todos os dias foram de segurança e felicidade, também não é isso o que almejo. Viver sem dor é não ter carne, e ainda não somos robôs. Perdi amigos em 2011, passei mais da metade do ano sem ter dinheiro para ir no cinema, tédio e enfado visitaram-me com frequência. Mas, o pulo do gato foi dado nesse ano que teima em avisar, ainda tenho dez dias.
No último reveillon, estava na casa da família Perez, dos meus amigos-irmãos, Tiago e Hugo, quando à virada do calendário, pus-me a atacar os sonhos. Diante do mar quente de Itamaracá, decidi que iria viajar e que iria tentar a seleção de algum doutorado nalguma universidade brasileira. Eu que há tantos anos sonhava nas páginas de Tolstói e Dostoiévski, um dia sentir o cheiro da terra russa, tocar sua neve, escutar suas vozes, mesmo que por ecos distantes. Decidi-me que iria viajar para a terra dos meus escritores favoritos, nem que para isso vendesse tudo o que eu tivesse, e passasse quinze dias no inverno de Moscou. Quis o destino estar ao meu lado. Encontrei uma ONG chamada AIESEC que me levou, não pra sonhada Moscou, mas para uma cidade desconhecida do Tartaristão, onde vivi dois meses e meio de uma lua de mel única. Ainda passei quinze dias a percorrer as outras cidades que mais desejava, entre elas, a mítica Novgorod e a desejada Petersburgo. A Rússia foi um capítulo de páginas infindáveis de um livro que, com fé no destino, será reeditado.
Deixei, a contragosto, a terra que me abraçara de maneira maternal. Em quase três meses, a Rússia tinha me dado duas oportunidades de emprego, amizades, uma paixão abrasadora, lembranças inesquecíveis. Mas, por um capricho burocrático, tinha que voltar a Recife, onde não teria emprego, nem motivação. Passei um mês de ressaca. Até que resolvi procurar uma professora em São Paulo que nunca me negava orientação nos estudos. Falei que tinha um projeto para trabalhar o niilismo na obra de Dostoiévski. Meio sem acreditar, tentei a seleção do doutorado da USP, justamente no departamento que mais sonhava, o de Língua e Cultura Russa. Após quase dois meses de ansiedade, o resultado me foi positivo. Agora aguardo o momento da nova mudança.
Também foi o ano de vestir a camisa do tempo. Os trinta anos me caíram nos ombros, com aquela necessidade de solidez, montada no impetuoso fulgor dos vinte anos. Cada dia que passa, gosto mais de ficar em casa, com meus livros e minhas ríspidas inquietudes. O desejo de estabilidade ronda o cotidiano.
Pelos dois objetivos alcançados, e narrados anteriormente, o ano já teria sido magnífico. Mas, a vida nos reserva outras surpresas: a convivência com meus velhos pais e os pequerrotos sobrinhos, a boa defesa da dissertação do mestrado, a subida do Náutico de divisão, a presença afável de quem se aproximam nas asas metálicas de um avião... 2011 me cochicha, na surdina, que Deus fez o mundo em sete dias, por que não viver os próximos dez?
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
O Bom Momento do Futebol Russo
Nos últimos dias, estive a pensar em criar um blogue que falasse somente sobre o futebol russo. Pra quem acompanha este pequeno terreno virtual sabe que todos os caminhos conduzem às estepes russas. Aproveitando o bom momento vivido pelos clubes russos e por sua seleção nacional, pensei: "Por que não criar um blogue?" Um pequeno projeto para janeiro, se o destino aprouver. Mas, vamos ao que interessa! O que me motivou mesmo a escrever sobre o futebol russo foi a passagem dos seus quatro times às fases decisivas das competições europeias. Pela Liga dos Campeões, CSKA e Zenit (ambos ex-campeões da antiga Copa da UEFA na década de 2000) se classificaram para as oitavas de final da Champions. Pela Liga Europa (antiga Copa da UEFA, os tártaros do Rubin e os moscovitas do Lokomotiv, também garantiram ingresso nas fases decisivas.
Certa vez, um torcedor do Arsenal, ao protestar contra a compra de parte do patrimônio do clube pelos empresários norte-americanos reclamou com uma frase que simboliza a era super profissional do esporte bretão: "Antigamente, era futebol e um pouco de dinheiro. Hoje é dinheiro e um pouco de futebol." Sábias palavras do torcedor inglês. Ainda na década de 1980, clubes podiam despontar no cenário mundial, com os brios de atletas regionais e fazerem a fama épica de sua labuta futebolística. O escocês Aberdeen foi campeão da Recopa em 1983 com um time formado por jogadores escoceses da região, liderados por Sir Alex Ferguson, batendo o todo poderoso Real Madrid. O Nottingam Forest foi campeão da Liga dos Campeões em 1979 da mesma forma. E outros exemplos existem da época do futebol romântico. Hoje, sem o apoio financeiro, fica difícil ter um campeonato nacional forte e equipes se destacando em competições continentais. O futebol russo entrou de cabeça na era dos mega-negócios esportivos. Os principais patrocinadores dos times russos são empresas de extração de petróleo e gás: Lukoil, Gazprom, Bashneft, além de outras multinacionais.
O Campeonato Russo está parado, devido às nevascas do período e só deve retornar no final de março, começo de abril. Quem lidera o campeonato é o forte time do Zenit, aquele que menos oscila. O Zenit dispõe de vários jogadores internacionais (os portugueses Dani e Bruno Alves, o sérvio Lazovic e o belga Lombaerts, são alguns exemplos), mas também tem vários jogadores russos de qualidade, destacando-se o centroavante de área, Bukhárov, atual centroavante da seleção russa, com todos os méritos, pois tem jogado melhor que a pseudo-estrela do Tottenham, Pavliuchenko. O Zenit também conta com o caldeirão do Estádio Kirov, localizado às margens do Golfo da Finlândia, em São Petersburgo. A equipe é treinada pelo italiano Luciano Spaletti.
Outro time russo muito forte e que está em segundo lugar no campeonato russo é o CSKA. Confesso que o time que mais simpatizo, além do Rubin. O CSKA é um time muito bem arrumado taticamente pelo treinador Leonid Slutsky. A base do time é toda russa, começando pelo goleiro titular da seleção, Akinfeev. A zaga conta com o titularíssimo da seleção,, Ignashevich, e os irmãos Vitali e Alexei Berezutsky. No meio de campo, a experiência de Aldonin, além das promessas Mamaev e Dzagoev, ambos vistos como o futuro meio-de-campo da seleção. No ataque, o excelente marfinense Doumbia e o nosso conhecido Vágner Love. O CSKA, clube que desde a década de 1930 já recebia jogadores negros em seus elencos, parece ter uma torcida mais tolerante num mundo que ainda sofre com preconceitos raciais ridículos.
O terceiro clube que analisamos é o Lokomotiv, detentor da terceira maior torcida de Moscou, um time irregular, embora tenha um excelente elenco, onde se destacam, no ataque, o experiente Sychev, ídolo maior do clube, o excelente equatoriano Caicedo, além do meia esquerdo Torbinsky, da seleção nacional. O Loko carece de uma boa sequência de vitórias pra merecer brigar pelo título desta temporada.
O quarto clube que analisamos é o Rubin Kazan, campeão russo em 2009, faz uma campanha regular este ano, embora também possua um brilhante elenco, onde se destacam o turco Karadeniz, o equtoriano Noboa, o atacante paraguaio Valdés e o africano Martins (ex-Inter de Milão). A grande decepção do time kazanense fica por conta do brasileiro Carlos Eduardo, ex-Grêmio, contratado junto ao Hoffenhein da Alemanha por nada menos que 20 milhões de euros e que quando não está machucado, não merece a titularidade. O Rubin está apenas em quinto no Campeonato Russo.
Os quatro times acima analisados são os que conseguiram vagas nas próximas fases das competições européias. Deles, o CSKA tem a missão mais difícil: enfrentará o Real Madrid. Mas, creio que uma boa partida no Estádio Luzhniki, pode dar chances aos krasnyi-sinyi moscovitas na partida de volta na capital espanhola. O Zenit enfrentará o Benfica, numa batalha, ao meu ver, sem favoritos. E como o Zenit é o mais estável dos times russos, confio que possa brigar ferrenhamente pela vaga nas quartas. Pela Liga Europa, o Rubin Kazan vai enfrentar o Olimpiacos da Grécia. Missão difícil, mas também não antevejo favoritos. Já o Lokomotiv enfrentará os bascos do Athletic Bilbao, uma equipe sempre difícil de ser batida, mas como disse anteriormente, o maior problema do Lokomotiv é a instibalidade, joga partidas boas e ruins de uma semana para a outra.
Deixo para uma outra postagem, as análises dos outros times russos, como o Spartak Moscou, clube de maior torcida do país, além do Dinamo Moscou, e da nova estrelas do business esportivo, o daguestano Anzhi Makhachkala. Quem sabe eu crio o blogue e posso falar, inclusive, da segunda divisão russa, donde tive a oportunidade de assistir dois jogos na casa do Kamaz, em Naberezhnye Chelny. Desejo boa sorte aos times russos, com especial ênfase ao CSKA e o Rubin, embora reconheça que a missão do rubro-azul de Moscou seja dificílima.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Recordação do Pôr do Sol no Monastério de Hayfa
Era noite de primavera naquele monastério distante, fronteira do Tartaristão com o místico Estado de Mari-El. O sol, numa ignorância poética, já havia partido rumo ao ocidente, restava apenas sua tinta dourada no céu azul. Um sino tocava de forma espaçada, fazendo concorrência aos salves sibilíticos dos pássaros. Ao redor, tudo era perfeita harmonia: a floresta, o lago com uma finíssima camada de gelo ao longe, quase ninguém.
Caminhando pelo bosque atrás da catedral ortodoxa lembrava da minha infância, de uma inocência perdida lá dentro da carne humana. Estava distante de casa, mas tão próximo da perfeição. O silêncio me invadia a alma, enquanto traçava uma analogia entre a vida e o crepúsculo. Não seria nossa passagem pela Terra, um melancólico, curto e esplendoroso pôr do sol?
De alguma maneira, gostaria de preservar aquela paz comigo. Mas, o tempo marchava e as trevas avançavam rumo ao ocidente na sua batalha campal diária. Também em mim, a noite retomaria seu espaço. Estava na hora de voltar à Kazan.
Alguns meses se passaram, oscilantes dicotomias de luz entre diferentes interpretações daquele pôr do sol. Um pequeno quadro do monastério de Hayfa, quase todos os dias esquecido na parede, trouxe-me a plácida reflexão daquela quase perfeição esquecida.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
O Coração dos Aflitos
O Náutico abandonará sua casa, o Estádio Eládio de Barros Carvalho, popularmente conhecido como Aflitos, nome do bairro onde se situa o clube, que por sua vez, possui este nome graças à capela de Nossa Senhora dos Aflitos. Dirigentes ávidos por mudanças assinarão um contrato em que o Náutico alugará o terreno do estádio para que construam algo rentável (um shopping, edifícios empresariais...) para as construtoras. Em troca do aluguel, terá uma renda mensal vantajosa para os padrões atuais, receberá a Arena da Copa (um estádio nos moldes mais modernos), melhorias estruturais no Centro de Treinamento da Guabiraba e a possibilidade de se tornar independente financeiramente.
As vantagens parecem incontestes do ponto de vista econômico. Mas, “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, e alguns fatores me deixam escaldado. O primeiro foi a rapidez em se resolver pela venda do estádio. Entre o surgimento da notícia, a votação pelos conselheiros e a assinatura do contrato, não teve o intervalo de três meses, sequer. Um, dois, três e pimba! Não houve uma pesquisa entre os amantes do clube, uma enquete séria com as grandes mídias, uma urna na entrada dos sócios para pedir-lhes a opinião. Mal os torcedores discutiam nos bares ao redor do estádio, a notícia já estava pronta, com as “vantagens” supracitadas.
Entretanto, assim como na reprodução do cotidiano, os sentimentos são esmagados pelos números convincentes do discurso econômico. Ufanam os entusiastas: “virão títulos, modernidade, seremos a maior força do Nordeste...” Mas, se esquecem que o maior patrimônio de um clube é a torcida. A relação do Náutico com seu (ainda) atual estádio é visceral. O Estádio dos Aflitos foi o palco do hexacampeonato; da mais dolorosa derrota da nossa história, a umbrática Batalha contra o Grêmio; é, acima de tudo, o caldeirão que faz a diferença nos últimos anos pró-Náutico (vide sermos o único clube invicto das duas principais divisões em seu mando). É o teatro lato sensu, onde se ri e se chora.
O Náutico não possui a maior torcida da capital, perdemos em números para o Santa Cruz e o Sport, porém a presença da comunidade em um estádio central como os Aflitos mostra à cidade a presença da nação alvirrubra. Os Aflitos deram visibilidade ao Náutico, pois quando o time joga em seu reduto, mesmo quem não gosta de futebol sabe: hoje o Timbu tá na área. Sem demérito à cidade de São Lourenço da Mata, o novo estádio dificultará o acesso de quem mora em cidades como Olinda, Paulista e Jaboatão, por exemplo. Sem contar que nos jogos que acabariam à meia-noite, seria perigoso pegar a BR-232 e voltar pra casa. Além do mais, essa conversa que "vamos construir isso e aquilo pra facilitar o acesso", fica ao gosto de quem acredita em promessas políticas.
Em suma, corremos o risco de termos uma Arena vazia, que satisfará uma minoria obsequiosa por dinheiro, em oposição ao legítimo sentimento da torcida de perda da identidade. O que me incomoda nesse processo relâmpago é a velocidade como a negociação foi conduzida. Por que não se maturou um pouco mais sobre o tema? Por que não fizeram uma pesquisa com torcedores em dias de jogos? Será que ainda há tempo de conter o irremediável? A cidade continua crescendo, atropelando a história e as afetividades, em nome da glória mercadológica. Há de se endurecer a alma um pouco a cada dia para se adaptar às necessidades do mundo descartável.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Valeu, Edwind!
sábado, 20 de agosto de 2011
Liberdade é Desespero
terça-feira, 2 de agosto de 2011
A Viagem
Irineu estava inquieto. Desde ontem não encontrava descanso em seu pensamento, e este estado caótico de suas faculdades mentais, coincidiam, quase sempre, com os momentos que se seguiam a uma viagem de avião. Não sabia por que, mas antes de cada viagem, fazia questão de deixar as contas em dia, não queria deixar nada atravessado. Ia viajar de Recife para Petrolina, apenas uma hora, mas mesmo assim, o angustiava a possibilidade de deixar o mundo num acidente aéreo e as coisas não ficarem claras pra si próprio. Como sempre acontecia nas vésperas das viagens, Irineu repousou na questão de Deus.
Era ateu, mas não convicto. O milagre nunca se apresentara pra ele. Levava uma vida sem muitas turbulências, embora fosse professor de literatura, e as leituras clássicas de Poe e Lord Byron sempre o deixavam num estado de perturbação e de investigação sobrenaturais constantes. Então, Irineu passou a se questionar sobre a existência ou não de Deus, discussão que sempre que podia, evitava. “Ora, não tenho conhecimento suficiente, além do mais o universo é indefinido para o homem, não hei de me atormentar com isso.” E assim, sempre desviava da questão central da existência. Mas, estava às vésperas de mais uma viagem de avião, e como sempre, não queria “morrer” deixando dívidas com sua consciência.
Passou a desenvolver uma questão que o entreteu por muito tempo antes de dormir. Imaginou que todos os que creem, retornariam para uma nova vida, algo como o Eterno Retorno de Platão e Nietzsche. Assim, se um egípcio cria em Alá, ao morrer, em algum momento, voltaria, mesmo que na outra vida, viesse a ser cristão, budista ou ateu. A fé seria o passaporte para o retorno. Até o dia em que o homem, alimentado pela razão, atingiria o ateísmo e assim, ao morrer, encontraria, finalmente, o sossego da não-existência. Envolvido nesta idéia, relembrou do conceito de Santo Agostinho de distentio ameni, e que o tempo estaria apreendido em seu espírito e deste modo, com a morte de Deus dentro de si, já não haveria espírito e o ateu encontraria o repouso sem eternidade. Assim, neste divertimento de mediana intelectualidade, adormeceu.
O voo estava marcado para as seis da manhã, partindo do Aeroporto Internacional Gilberto Freyre. Irineu tomou seu assento no avião bimotor, havia espaço para 24 pessoas e restavam, talvez, duas ou três vagas, apenas. Ao seu lado, sentou-se uma senhora de uns 60 anos, bem vestida. Não travaram conhecimento, talvez um leve aceno de cabeça, quando ela conferiu o número da poltrona e o lugar vizinho ao seu. O avião correu na pista, levantou voo. Mas, não pegava muita altura e tremia bastante. O piloto disse que estava com problemas e ia tentar retornar. Um alarido foi ouvido dentro do pássaro prateado. Ao seu lado, a mulher começara a rezar: “Meu Deus, nos ajude. Ó Senhor, tenha piedade de nós!” As pessoas gritavam, em pânico, enquanto avião passava raspando entre os prédios do bairro de Boa Viagem, tremendo. O pânico se instalara. A mulher tentou se agarrar às suas mãos, abalada, já com lágrimas nos olhos. Irineu pensou em rezar, ou talvez pedir o tão aguardado milagre. Mas, lembrou-se de sua teoria, e num átimo, baixou a cabeça, esqueceu-se da velha e mergulhou na escuridão.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
O Inverno na Aldeia
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Sobre a Necessidade de Deus
quinta-feira, 7 de julho de 2011
кино
terça-feira, 28 de junho de 2011
The Earth is Blue
Notas Sobre a Pobreza
Ontem, eu assisti a propaganda do Governo Federal: “num sei quantos milhões deixaram a pobreza. Nossa próxima meta é extirpar a miséria.” Assim, a miséria está colocada num patamar acima da pobreza, restando à segunda opção, o posto de maior flagelo da humanidade. É onde eu gostaria de questionar essa imagem desestimuladora da pobreza, que a meu ver, molda muitos comportamentos dentro da moral e da ética do povo brasileiro.
A Rússia, em linhas gerais, apresenta uma população mais pobre que a brasileira. Lá, 90% da riqueza do país, se encontra nas mão de apenas 3% da população. São magnatas, homens-fortes do gás e do petróleo, membros do governo e ex-poderosos da KGB. Mas, o cidadão-comum, este sofre pra sobreviver. Vou dar um exemplo que ocorreu comigo: morei na casa de uma família que constava de quatro membros, todos adultos, e que trabalhavam oito horas por dia para conseguirem se sustentar. E mesmo com todos trabalhando, comer carne era um luxo dedicado aos finais de semana. E não era maminha, ou picanha, mas linguiça e outras carnes menos nobres. O cogumelo fritado substituía a iguaria animal, pois era bem mais barato. Mas, numa sociedade mais pobre que a nossa, de acordo com as leis econômicas, a violência deveria ser maior, uma explosão de saques e de banditismo. Mas não, mesmo a Rússia sendo pobre, durante os três meses que estive lá, não fui assaltado, e mais, nunca escutei relatos de amigos ou de conhecidos que reclamariam a perda da carteira, do carro, do celular, do dinheiro sacado no banco. Quando íamos para um barzinho e bebíamos até às duas da manhã, eu oferecia para uma amiga o dinheiro para que pegasse um táxi, pois não seria seguro para uma jovem dama caminhar sozinha na rua, pela madrugada. Ela me retrucava: “ora, deixe disso, não tem perigo.” No Brasil, principalmente em Recife, não dá pra imaginar uma cena dessas.
Aliás, falando em cena, semana passada, enquanto estava preso no engarrafamento da Avenida Caxangá, presenciei a chegada de dois homens numa moto Titan 125 preta, à minha frente tinha um Fiat Uno, daqueles antigos, verde-escuro. O carro estava encurralado pelo engarrafamento e pela parada de ônibus do lado esquerdo. O motoqueiro ficou observando a situação e dando cobertura, enquanto seu comparsa desceu com um revólver preto, numa atitude rápida e agressiva, empurrou a arma contra a têmpora do motorista. Eu estava no fusca com a maioria dos meus pertences de valor: computador, mala com roupas e o próprio fusca. Não tenho muita coisa mesmo. O motoqueiro olhou para mim para se aperceber do meu comportamento, se eu estaria anotando a placa ou coisa parecida. Baixei a vista, ainda assustado pela possibilidade do segundo ataque, mas os bandidos fugiram na moto. Foi um minuto de respiração suspensa e adrenalina nas alturas. Mas, não é o assalto em si, o tema desta postagem, mas saber até que ponto a pobreza é motivação para o crime. Duvido que aqueles bandidos estivessem passando fome. O ladrão brasileiro rouba pra ostentar, pra demonstrar poder numa terra sem lei. Na sua favela, ele é o cara, manda e desmanda, e rouba pra ter mais, não pra suprir a necessidade alimentar. Ele rouba pra comprar droga ou uma camisa de marca, jamais para comprar feijão, por exemplo.
Aí entra um pensamento meu, que não é baseado em teorias ou pesquisas, o que pode até enfraquecer minha idéia, mas é a questão que o brasileiro tem vergonha da pobreza. Mesmo algumas pessoas mais pobres, gostam de ostentar certa imagem de importância, escamotear sua real situação. Na Rússia, as pessoas não tinham vergonha nenhuma em se assumirem pobres. Tive um rápido relacionamento com uma garota (só passei 3 meses lá) e a sua pobreza nunca foi motivo de vergonha, nem de empecilho, nem de qualquer obstáculo à sua nobreza de caráter. A miséria é deprimente, mas a pobreza chega a ser bonita em sua simplicidade. Conversando com meus amigos, Bebeto e Karuna, discutíamos sobre as aspirações financeiras para o futuro. Ter dinheiro para viajar é uma das maiores satisfações da vida, mas eu confessei pros meus amigos que tinha medo de ter muito dinheiro, porque a pobreza te mantém humilde, e este sentimento de humildade é uma das maiores riquezas espirituais possíveis. É lindo quando nos deparamos com uma pessoa muito rica, que não se envergonha de conviver com pobres, ajudar e participar de seu cotidiano. Mas, possuir uma grande quantidade de dinheiro, te deixa desconfiado dos que te rodeiam, te põe numa defensiva paranoia em relação às amizades e a sensação de poder experimentada pode, quase sempre, te levar à arrogância para com os irmãos.
Eu me considero pobre, mas tenho casa própria e um fusquinha, me divirto uma vez por semana, mas sou pobre. É preciso que haja a distinção entre a miséria e a pobreza, e que a segunda deixe de ser uma doença social ou um crime, e passe a ser enxergada com uma riqueza espiritual mais abrangente. Ser pobre é ter o básico. Mas, nosso mundo consumista quer nos empurrar para a catástrofe da competição, que coloca a pobreza no mais deplorável dos estados humanos, estimulando os homens a obter, a qualquer custo, a riqueza material dos seus semelhantes. O Brasil precisa ser, moralmente, repensado.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Vininha, Velho Saravá
Este é o terceiro disco da série de cinco que prometi postar. Não farei muitos adendos pra não ser repetitivo. Mas, esse "disquinho" de 1974 é uma jóia, todas as composições são agradáveis e com aquela majestade boêmia que os autores constroem, como ninguém.
domingo, 12 de junho de 2011
É Muita Chinfra!
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Os Negros da Oficina
Certas imagens que fazem parte do nosso passado se perdem na trivialidade da rotina, mas hoje, ao conduzir meu velho Volkswagen 78 para a biblioteca da universidade, observei naquela rua de barro, cheia de buracos, que o chefe da oficina que fica há dois quarteirões da minha casa e que funciona desde que me entendo por gente, estava velho, de cabelos brancos, e circundava uma Brasília antiga, meneando sua velha carcaça, buscando soluções. Hoje ele trabalhava sozinho, era manhã alta, umas 9 horas, os seus irmãos deveriam se juntar ao trabalho em breve, talvez estivessem dormindo ou não houvesse, simplesmente, trabalho. É uma oficina mecânica familiar, composta por três irmãos, negros fortes.
Durante muitos anos, aquela rua onde os irmãos da oficina trabalhavam, com seus carros velhos, a roupa suja de graxa, a casa escondida entre os pés de acerola e pitanga, com suas esposas e filhos a circundarem a garagem da oficina, a música de Roberto Carlos no começo de noite de domingo, representava pra mim um local de segurança em nosso bairro assombrado por bandidos espertos. Sempre que voltava da faculdade, tarde da noite, entrava naquela rua mal iluminada, apenas por confiar que naquela casa existiam homens fortes e valentes, que nenhum ladrão ou bandido consentiria em traquinar numa rua onde aqueles trabalhadores faziam a defesa do território. Eles eram os paladinos do bairro.
Minha visão sobre os negros da oficina tem uma explicação: quando eu era criança, meu pai tinha um pequeno comércio, que infelizmente, nunca deslanchava, mas estava sempre aberto no horário comercial. Passava as manhãs de férias com meu pai e, numa daquelas bem quentes de um dia qualquer, ouvimos um alarido na rua do lado. Uma gritaragem, um escarcéu provocado por uma voz feminina: ladrão, ladrão! O meliante tinha fugido com a bolsa e o relógio da mulher. Meu pai, sempre curioso com esses casos, precipitou-se pra rua e ordenou-me ficar tomando conta do pequeno comércio. Não tive dúvidas, desobedeci e fui atrás do velho. Quando dobrei a esquina, avistei o ladrão caído no chão a ser aporreado, como um cavalo atropelado na estrada é degustado pelos urubus, pelos negros da oficina. O ladrão ficou caído no chão, a polícia foi chamada. Os pertences da mulher foram restituídos. O bandido foi-se no camburão. A população agradecia aos irmãos mecânicos. Eles foram os heróis de uma manhã monótona no subúrbio do Recife.
Minha mãe, mesmo depois de crescido, sempre me orientava: “Vá pela rua da oficina que é mais segura.” Involuntariamente, faço este percurso, como o fiz hoje, embora os negros da oficina já estejam velhos, de cabelos brancos e não se acordem mais tão cedo pra trabalhar.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Sleeping with Ghosts
http://www.4shared.com/file/250045058/301ac77/Sleeping_With_Ghosts__2003_.html
quinta-feira, 31 de março de 2011
Sossuil'ka
Oficialmente, estamos na primavera há mais de uma semana. Mas aqui, na Rússia, o inverno é forte e tarda a findar. Um amigo me escreve da cidade de Colônia, na Alemanha, e anuncia que a primavera é linda e que de dia, aconchegantes quinze graus são sentidos no caminhar pelas ruas ensolaradas da primeira semana da primavera. Aqui, ainda agora enquanto escrevo, neva. Aliás, desde que o tempo esquentou, neva quase todos os dias. Quando fazia -36 graus, no final de fevereiro, não nevava, aliás, nada caía do céu, apenas a secura intolerável do ar que queimava a pele com rudeza e obstinação. Mas agora, é tempo de transição, de meio-dia faz +3 e de noite -3, e nesse esquenta-esfria, também o gelo entra na dança e se mostra através da Sossuil’ka.
A Sossuil’ka é uma espécie de estalactite de gelo facilmente encontrada em qualquer telhado de qualquer cidade russa. É resultado do derretimento do gelo quando o sol aparece de dia e do esfriamento do tempo, do fim da tarde até a manhã seguinte. Surgem belíssimas formas de estalactites penduradas sobre os telhados. As crianças adoram chupar Sossuil’ka. Mas, a palavra de nome inofensivo, amiga das crianças, é, na verdade, um grande perigo aos moradores das cidades. Enquanto andamos preocupados olhando para o chão, com medo de levarmos um escorregão nas placas de gelo que ficam sobre a calçada, a Sossuil’ka está sobre nossas cabeças, muitas vezes tomando proporções inimagináveis. Na semana passada, na cidade de Tver, uma senhora estava sentada num banquinho de praça quando uma imensa Sossuil’ka caiu do telhado de um prédio e lhe afundou o crânio. A pobre senhora faleceu na hora.
Esse mês de abril será um mês de mudanças profundas no cenário russo. O gelo, finalmente, vai derreter e dará espaço para o tímido surgimento dos primeiros brotos nas árvores, já pela última semana de Abril. Amanhã inicia-se o mês e ainda temos temperatura abaixo de zero, temos muita mokra (lama), neve e Sossuil’ka. Mas, ao final do mês, teremos o renascimento do verde e a ampliação dos dias. Quando cheguei aqui no Tartaristão, o sol se punha às 15:45, hoje ele se põe depois das 18h, isso num intervalo de um mês e meio. No começo de maio, os dias findarão mais tarde, o sol se porá às 22, 23 horas. É no final de maio que teremos as famosas Noites Brancas em Petersburgo. Pena que não estarei mais aqui. Minha passagem pela Rússia é curta, como a Sossuil'ka,’mas espero que perene, e que eu cá esteja noutra oportunidade. Estou planejando uma última viagem pela Rússia. Tenho medo do dinheiro não ser suficiente, mas mesmo assim eu vou. A viagem se iniciará em 18 de abril, saindo daqui de Naberezhnye Chelny e indo pra belíssima cidade de Samara, onde pretendo ficar uma semana. No dia 24, pego um trem para o norte, ainda não me decidi pra onde, mas meu coração chama por Velikyi Novgorod, a cidade mais antiga de todas as Rússia. Lá, posso encontrar lindos conventos e monastérios. A cidade é conhecida como a capital ortodoxa da Rússia. Novgorod é caminho para São Petersburgo, onde já tenho hospedagem na casa de uma amiga entre 30 de abril e 5 de maio. Após isso, posso ficar mais dois dias na capital de Pedro ou partir para o centro do país, em direção à Moscou, ao fim da viagem, à volta pro Brasil, ao derretimento final deste sonho, Sossuil’ka.
quarta-feira, 9 de março de 2011
A Volta de Kazan
As cidades são corpos imensos, e como corpos, movem-se pela presença de um espírito, a alma da cidade. A alma de Kazan, se posso me arriscar a conhecer apenas por ter visitado por três dias em que a mesma se encontrava debaixo do branco véu, é harmoniosa. Diferente de Moscou, não possui tanto tráfego, multidão apressada, minhocas de aço a amaciar suavemente o subsolo de sua morada. Kazan é grande e pequena, naquilo que os adjetivos podem alargar de mais positivo. Ao andar por suas ruas, meu coração palpitou, assanhado, que aquele era o lugar desejado pra se viver por um bom tempo. Mas, em respeito à atmosfera onírica da capital tártara, vou-me embora antes que a realidade desfaça o sonho, e já escrevo de um ônibus velho que, cambaleante, atravessa o sertão gelado da minha solidão.
Entrego minha vida às mãos de um motorista pitoresco, com os dedos da mão direita tatuados, provavelmente indicando que o mesmo fez/faz parte dessa ou daquela máfia russa. O homem não tinha sequer um dente natural, todos de prata. Imaginei que aquele homem, talvez, tenha perdido os dentes numa briga de gangues e se afastara da vida bandida e hoje era motorista de ônibus, entre Kazan e Naberezhnye Chelny. A idéia se esvaiu quando tive que concordar com o sujeito, em seu prateado sorriso, que Pelé e Ronaldo eram brasileiros. Eu já estava dentro do ônibus velho, sentado ao lado de uma babushka espaçosa, torcendo pra que o motorista pitoresco fizesse as curvas mais devagar naquela pista alva e escorregadia. Lá fora, árvores sem vida, campos sem grama, a natureza hibernante e silenciosa. Aqui dentro, uma multidão quente de cidades, lembranças, soluços. E tudo o que escrevo é um inatingível esforço pra construir uma imagem perdida, marejada, de um intraduzível presente.
quarta-feira, 2 de março de 2011
12 dias
Após doze dias na Rússia, hoje pela manhã, tive a gratificante surpresa de me deparar com uma neve fininha, quase como uma garoa de algodão. As ruas cobertas de um veludo branco vislumbraram-se mais bonitas. Vinícius de Morais e Toquinho no ouvido e não havia habitante mais feliz naquela cidade tão óbvia. Escrevo de um shopping. Nunca frequentei tanto esse espaço na vida, como aqui na Rússia. É difícil ficar mais do que 30 minutos caminhando na rua. Os primeiros dez minutos são agradáveis, mas a constância do frio maltrata a pele.Acordei cedo pra ir na rodoviária comprar minha passagem para a antiga cidade de Kazan, capital do Tartaristão. Kazan é um cidade de longa história e tradição. Todos dizem que é uma cidade muito bonita, diferente da cidade em que vivo, Naberezhnye Chelny.
Naberezhnye Chelny é uma cidade projetada na era soviética. É uma imensa COHAB. No período soviético chamava-se Brezhnev. A cidade é dividida em complexos, todos com quatro, cinco ou seis prédios, todos iguais. Apesar de não ser uma cidade grande, tem quase 600 mil pessoas, mas eu me sinto mais perdido aqui do que em São Paulo ou Rio de Janeiro, por exemplo. As ruas são todas iguais e os prédios também. A única construção que se destaca na paisagem é a torre de negócios chamada Tubiteika, que para minha imensa sorte, fica do lado do apartamento onde moro, então sempre me posiciono pela torre. Como a cidade não oferece atrações turísticas, devido à obviedade de sua existência, quando as pessoas me encontram na rua, me transformo num estrangeiro numa cidade de interior. Desta constatação, resultam duas possibilidades: ou as pessoas são muito amáveis, ou são chatas e mal-educadas. Na grande maioria das vezes, as pessoas são extremamente gentis e bem educadas, apenas um bêbado ficou gargalhando comigo quando me escutou pedir uma água mineral num barzinho perto de casa. Sua risada era provocadora e ele queria confusão. Mas, cá entre nós, a última coisa que quero num país distante é parar na polícia por causa de briga, coisa que nunca aconteceu nem no Brasil. Deixei passar. Para se ter uma idéia da excentricidade que minha estadia aqui representa, anteontem, concedi uma entrevista para a TV local! Eles queriam saber o que um brasileiro estava fazendo em Chelny, porque escolheram aquela cidade que nenhum estrangeiro escolhe. Contei um pouco da minha vida pra eles.
Tenho muita vontade de ficar aqui na Rússia, mas não em Chelny. Vou terminar meu estágio de dois meses e já estou correndo atrás de algum emprego em algum lugar. Gosto do frio, gosto do inverno, das pessoas. Meu russo melhora a cada dia, progressivamente. Tinha medo de não me adaptar ao clima, mas já me sinto triste pelo ocaso próximo do inverno. É muito gostoso andar aquecido no frio, as noites de sono são pacíficas e sem pesadelos. A maior dificuldade é andar. No meu segundo dia eu levei quatro quedas na rua. Há 8 dias eu não caio porque aprendi que em certos trechos não se deve andar, mas patinar. Se quiser andar com dureza, certamente vai cair. O caminhar tem que ser leve e escorregadio. As coisas aqui são mais baratas que no Brasil, mas só aqui em Chelny. Em Moscou, tudo foi muito caro, desde a compra de um chapka (chapéu típico de inverno) até os lanchinhos numa cafeteria. Às vezes, bate uma tristeza, mas é normal. Não é tristeza de saudade, ainda, mas é uma solidão de algo inexplicável, talvez a falta de alguém que aqueça o coração. Não sei. Paro por aqui, esse foi meu 12º dia, é bom escrever em português porque até quando sonho tem sido em língua estrangeira, só falo inglês e russo, o tempo todo. Sem mais, um abraço a todos e vamos trocando notícias.
Do Zvedanya, druz’ya!
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Agradecimentos da Disssertação
Em primeiro lugar, agradeço este trabalho a minha mãe, Francisca Alvino de Lima Barreiro, que nunca se esquivou das dificuldades e agruras financeiras para nos proporcionar (para mim e minha irmã, Maria Ercília) uma educação de boa qualidade. Minha mãe é a pessoa mais presente e minha maior incentivadora. Também agradeço ao meu pai, Odomiro Barreiro Fonseca, homem sertanejo, o mais velho dos cinco filhos de José Barreiro, e por ter tido esta sina primogênita, teve que cuidar da roça e não pôde estudar mais do que até o ginásio. Mas, se orgulha de ter financiado os estudos dos irmãos mais novos com o suor de seu trabalho campesino. Meu pai é uma fonte inesgotável de sabedoria popular e das lendas que habitavam o cotidiano dos moradores do Vale do Piancó, no sertão paraibano. Também não posso deixar de citar meu avô materno, Emílio Martins de Lima, o meu “Ulisses”, que não pensava duas vezes em juntar uma família de quatorze filhos e lançar-se mundo afora em busca de dias melhores. Ele, que naquele “sertão brabo” sempre ouvia piadinhas do tipo: “Escola é pra filho de rico, homem!” E não havia maior riqueza do que aprender com os livros, onde a palavra era alimento imperecível.
Também quero agradecer a professora Christine Dabat do Departamento de História da UFPE, por ter acreditado em mim quando eu mesmo duvidava da possibilidade de engatar minha pesquisa. Com sua freqüente doçura e sinceridade, disse-me que não poderia ajudar-me, mas indicou um professor que talvez o pudesse. Numa tarde de quinta-feira, bati pela primeira vez à porta do professor Lourival Holanda. Porta sempre aberta, escancarada, porque seu espírito tem fome de comunhão, sua sabedoria é desapegada e com imensa facilidade transformava os mais hermético dos temas em suave poesia em sala de aula. Quando por longa e desconhecida estrada andamos, norteamo-nos pelos signos de segurança. O professor Lourival orienta por sua simples presença. E, entre nós, norte e oriente só nos podem levar à Rússia. Obrigado, Professor!
Também quero dedicar homenagem aos meus amigos, especialmente Rodrigo Acioly Peixoto e Daniel Oliveira Breda, com quem aprendi muito, fosse numa discussão séria ou numas de nossas jornadas carnavalescas. Também quero deixar registrada a importância de Mariana Azevedo, Danielle Camelo, Daniel Duarte, Antonioni “Spengler” Martins, Hugo José, Janaína Guimarães, Manuela Oliveira, Tiago e Hugo Perez, Bruno Vila Cruz, Ricardo Hermes, Manuel Souto Maior, Cristiano Randau, Tiago Peixoto, Alberto Rio, Karuna Sindhu, Henrique Viana Brandão, Yuri Holanda, Ursulla Machado, Mariana e Patrícia do Amaral, Marcela Vieira, Carlos “Cacau” Holanda, Michely Peres, Diogo Luna, Hannah Lima, Edson Alvino, Paulo Emilio Lima Cirilo, José Alvino, Emilio Melo... Ainda tantos merecem destaque, mas os que não citei hão de me perdoar e se espelharão certamente noutros que aqui foram citados. Uma ressalva a Juliana Pinheiro, a “culpada” de ter colocado Dostoiévski no meu caminho e aos colegas do mestrado.
Agradeço aos professores que me inspiraram desde a infância até a universidade. Não quero terminar esse trabalho sem lembrar do professor Michel Zaidan Filho, Antônio Paulo Rezende, Marcus Carvalho, José Maria, Anco Márcio Tenório, Ermelinda Ferreira, Saulo Neiva, Roland Walther e todos os outros da PG Letras, alguns dos quais não tive oportunidade de ter aulas e me aprofundar em seus conhecimentos. Com todo carinho, registro a importância da professora Larissa Shevchenko, minha professora de russo, por me aproximar a cada semana do universo da cultura russa. Também agradeço a professora Elena Vássina, pelo suporte, mesmo de longe, às minhas pesquisas e pelos convites para participar dos congressos. Agradeço aos órgãos fomentadores de bolsas para os estudantes, pelo suporte financeiro nessa difícil jornada.
Quero finalizar, agradecendo a um escritor que há 130 anos não está entre nós. Pode parecer estranho homenagear o objeto da pesquisa. Mas, se não fosse o amor que dedico à obra de Dostoiévski não sei se suportaria conviver oito, às vezes dez horas por dia, com sua densa escrita e sua presença de chumbo. O que mais me admira na personalidade do escritor é o seu sincero amor e entrega na execução de sua arte. Abandonou uma vida segura de engenheiro militar para criar um coral de vozes atormentadas, que em seu sofrimento e aflição, nos ensinam verdadeiras lições à respeito da vida. Obrigado, Mestre e mestres!
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Próxima Estação: Esperança
Tolstói inaugura o romance Anna Karênina dizendo que as famílias felizes se parecem entre si, enquanto as infelizes, cada uma o é à sua maneira. Pois bem, as grandes cidades se parecem demais umas com as outras: muito trânsito, corre-corre e a distância contratual da coletividade. Desembarquei em Moscou às 2 da madrugada do dia 18 de fevereiro. Fazia menos 24 graus. As ruas escorregadias por causa do gelo eram o primeiro obstáculo, o frio incendeava o rosto. Cheguei na casa das gentis Anna Voronkova e Cecília Rosas e fui imensamente bem tratado. Parti para o centro, sempre escorregando nas calçadas até chegar na Biblioteca Lênin. Adivinhem quem estava à porta? Ele mesmo, totalmente por acaso, me deparei com a estátua, imensa, de Dostoiévski. Subi no montante de neve para me aproximar da estátua do Mestre e, simbolicamente, escorreguei. Embora nas conversas coloquiais os russos não afirmem dar tanta importância aos clássicos da literatura, eles estão em todo lugar, como estátuas, estações de metrô, avenidas e museus. A companhia das anfitriãs, acrescidas de Ilona Elufimova e Nikita Kuldiushev, tornaram o passeio agradabilíssimo, apesar dos quase menos 30 graus. Hoje eu entendo o porque do aspecto espectral, fantasmagórico, de São Petersburgo nas novelas de Gógol e Dostoiévski: o frio deixa as luzes dos carros, dos postes e das casas borradas. Parece que estamos dentro de um sonho...
Nesse momento em que escrevo sâo 03:42 da madrugada, estou no trem que cruza a província de Vladímir. A paisagem é monótona, neve e árvores delgadas com as copas brancas. O maquinista disse que está fazendo menos 35 graus. Estou viajando no mais barato compartimento do trem, no último vagão. Num pequeno espaço existe uma família de homens (avô, filho e dois netos de aproximadamente 9 e 11 anos). Além deles, uma senhora com olhar triste e que não puxou conversa em momento algum. Quando disse que era brasileiro, o filho de 32 anos, à moda russa, encheu um copo de vodca, pegou um pedaço de pão preto, uma linguiça de bode e um dente de alho, e me ofereceu. Não pude negar, era um tratado de amizade, além do mais vamos passar ainda 20 horas nesse cubículo, dividido em seis camas, três beliches. Minha cama fica na parte de cima de um beliche e só cabe minhas malas. Por isso escrevo, mesmo após três viagens de avião, um dia agitado e congelado em Moscou, não consigo dormir por cima das malas. O espaço é realmente pequeno, menor do qualquer cozinha no Brasil.
Para mim, apesar desse “infortúnio”, está sendo a melhor parte da viagem. Ninguém aqui fala inglês e todos querem falar comigo, me escutar com meu sotaque diferente, saber o que estou indo fazer no Tartaristão... O trem é antigo, com todo o jeitão soviético: tudo parece ter ao menos quarenta anos de utilização. Está muito frio, de verdade. No meu netbook são 21:56, ainda está no horário da terra natal. No Brasil, em Recife, meus amigos estão partindo para alguma curtição pré-carnavalesca. Mas, me sinto tão entusiasmado que não há comparação. Estou cercado de pessoas muito simples, num cubículo, mas eles fazem questão de dividir suas comidas, histórias e explicar que aquilo é típico de tal lugar e falam de suas vidas, assim como nós, brasileiros.
No final do trem tem a área de fumantes e lá não tem aquecimento, faz um frio de congelar e endurecer o corpo. As paredes de metal, absorvem o frio que está lá fora, de forma que este cubículo, o derradeiro espaço do trem, parece muito mais um frigorífico do que uma área de fumantes. O limite tolerável é fumar um cigarro e sair. Há uma pequena janela, toda coberta de gelo, com a mão e o isqueiro faço um buraco no gelo e consigo visualizar a estrada que fica para trás. A lua cheia e a neve branca formam um cenário límpido, encantador. No meio da madrugada, sozinho, frequentei este lugar inóspito e hostil e eis que foi o lugar que mais gostei. A todo tempo trens carregados de vagões cheios de minerais e gás passam na direção contrária, em direção à Moscou. Os comunistas criaram uma organização ferroviária que a Rússia atual dificilmente conseguiria igualar. Os brasileiros socialistas criticam a União Soviética, mas se vissem a estrutura organizacional das ferrovias e os destinos que conseguem dar à suas riquezas minerais, toda a organização do país é da época do exército vermelho. Aliás, a Rússia querendo ser ocidental é a parte mais chata desse processo de conhecimento. A música pop russa, aquela que toca nas rádios, shoppings e bares, é insuportável.
Vou abandonar esta escrita, minhas costas já estão doendo. Todos estão dormindo no trem, em seus cubículos entupidos de gente e malas. Estou escrevendo da entrada do banheiro, o penúltimo cubículo deste último vagão, o último vocês já sabem qual é. Fico a imaginar os soldados russos partindo para a guerra, na época não tinham aquecedor no trem, a velocidade do trem faz com que o frio seja ainda maior. A bateria do netbook também está no fim, tenho tantas coisas pra dizer da viagem de trem, mas vou deixar pra outra ocasião. Estar entre as pessoas simples me faz feliz aqui, apesar das adversidades. Consigo conversar com eles. Em três horas bebendo vodca, petiscando e conhecendo a família que vive comigo no cubículo, aprendi mais russo do que um ano inteiro no Brasil. O melhor é que estou entendendo suas conversas e me fazendo entender. Depois eu conto mais.
Do Zvedanye, Brazilya!
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Allegro Molto e Vivace
Reconhecidamente desconhecedor da música erudita em sua forma, embora apreciador dos seus estímulos sonoros, posso compreender que o movimento Allegro se diferencia do Adagio pela velocidade mais acelerada de execução dos músicos, por exemplo. Pois bem, escolhi esse movimento para dividir com vocês, leitores do blog, minha atual condição de euforia, júbilo e esperança. O novo ano é como uma primavera aguardada por longos meses de solidão. Sinto a chegada do frescor primaveril e do desabrochar de sua existência. Então, vamos celebrar a abertura de uma nova jornada!
Neste mês de fevereiro, mais precisamente no dia 14, estarei defendendo minha dissertação de mestrado, sob o título “A Cidade de São Petersburgo na Obra do Jovem Dostoiévski”, onde tratei do conflito entre a tradição idealista alemã, da literatura fantástica, com o recente fervor socialista baseado nas idéias francesas utópicas de Saint-Simon, Fourier e Proudhon, na literatura naturalista. Este confronto de idéias e de formas e estruturas literárias formularam um turbulento e agressivo choque de convicções na cabeça do jovem, intempestivo e promissor escritor. A dissertação, a meu ver, poderia ter ficado mais esmerada, mais alongada, mas esta necessidade de entregar no prazo é o maior obstáculo que todo estudante de pós-graduação encontra. Reconheço que haverão falhas, talvez em demasia, ausências. Mas, também tenho certeza que a execução desta obra se deu de maneira integral, com amor e dedicação. Ficar, às vezes mais de dez horas por dia, na companhia de Dostoiévski não é uma tarefa divertida ou gáudia, mas um exercício de amor à sua literatura e de respeito aos seus ensinamentos, embora discordemos de seu afã religioso. Tenho certeza que a defesa desta dissertação não será um ponto final na minha relação com o escritor, mas uma vírgula, rápida, na tomada de novas perspectivas.
Estudar um escritor estrangeiro sem conhecer sua língua materna de modo profundo, é uma deficiência que o pesquisador deve se imbuir em dissipar. Na língua original, o autor demonstra sua rudeza ou suavidade de seus personagens, aproxima-nos de seu cotidiano contextual através do uso da palavra. Há quase sete anos, tenho, lentamente, me aproximado deste universo linguístico da obra de Dostoiévski através dos meus estudos da língua russa com o auxílio da excelente professora Larissa Chevtchenko, aqui em Recife. Mas, sempre me faltou uma experiência de convivência com a língua, escutar diferentes vozes, gírias, dialetos, neologismos e provérbios. Aproximar-me mesmo do povo, estar lá, conhecer a cultura de perto, interferir e deixar-se impactar. Pois bem, essa hora chegou! No dia 17 de fevereiro, três dias após a defesa do mestrado, estarei viajando para a Rússia, para trabalhar durante quase três meses numa ONG internacional chamada AIESEC. Lá, junto com mais nove estudantes de
Estarei em breve me mudando para uma região de uma impressionante riqueza cultural. Não vou para Moscou ou São Petersburgo, metrópoles mundiais, mas para a cidade de Naberezhnye Chelny, na República do Tartaristão, o país dos tártaros. Quando meu avião desembarcar em Moscou (assim espero!), enfrentarei uma viagem de 22 horas de trem em direção ao oriente, ao leste, em direção aos Montes Urais, passarei pela antiga e importante cidade de Kazan, capital-mãe dos tártaros, e chegarei 250 km depois, a cidade de Chelny, com seus quase 600 mil habitantes, seis vezes menor do que Recife. Esta semana que passou, a temperatura alternou entre -22 e -12º celsius. Mas, para ser sincero, quero mesmo sentir este frio agressivo na pele. No seu conto Senhores e Servos, Lev Tolstói pinta de forma magistral a convivência do povo com o frio extremo e, ir na Rússia e não sentir o frio a machucar, queimar a pele, não seria a mesma coisa. Também preferi viajar de trem, mesmo sabendo que a viagem para Chelny de avião poderia durar apenas 1 hora e meia, eu ainda prefiro ver o país pelas brancas imagens que se afigurarão pela janela do rápido que me levará ao país dos tártaros. Quando partiu de Varsóvia para Petersburgo, o príncipe Míchkin via pela janela do trem essa mesma monótona paisagem gelada...
Mas, estar no Tartaristão será diferente de estar noutras regiões da Rússia. É uma região dividida entre a cultura muçulmana e o cristianismo ortodoxo, de um povo de etnia miscigenada, parte otomana, parte mongol e parte eslava. Dizem que dessa mistura, surgem as mais belas moças russas. Certas opiniões só poderei conferir de perto, ainda bem! Esta região é antiga, era território dos Búlgaros do Volga no século IX d.C. Este povo nada tem a ver com o atual país localizado no Mar Negro. Estarei no limite entre a placa européia e a placa asiática. Os Montes Urais são consequência desse encontro de placas tectônicas. Certamente, terei muitas histórias para contar e espero dividi-las com vocês, não como um diário de viagem ou um álbum de fotos, mas contar um pouco da História dessa região, dos lugares onde passarei, daquilo que julgar relevante.