segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Coração dos Aflitos

Nesta segunda-feira, 17 de outubro de 2011, o Clube Náutico Capibaribe assinará o contrato de parceria com uma grande empreiteira e o Governo do Estado, para que o clube passe a assumir o estádio da Copa do Mundo de 2014, a chamada Arena da Copa. Aliás, esse nome “arena” me incomoda. Por que não estádio ou coliseu? O estádio nos lembra que o esporte competitivo também é uma arte, um teatro à céu aberto que nos conduz, muitas vezes, às raias mais tensionadas da emoção.

O Náutico abandonará sua casa, o Estádio Eládio de Barros Carvalho, popularmente conhecido como Aflitos, nome do bairro onde se situa o clube, que por sua vez, possui este nome graças à capela de Nossa Senhora dos Aflitos. Dirigentes ávidos por mudanças assinarão um contrato em que o Náutico alugará o terreno do estádio para que construam algo rentável (um shopping, edifícios empresariais...) para as construtoras. Em troca do aluguel, terá uma renda mensal vantajosa para os padrões atuais, receberá a Arena da Copa (um estádio nos moldes mais modernos), melhorias estruturais no Centro de Treinamento da Guabiraba e a possibilidade de se tornar independente financeiramente.

As vantagens parecem incontestes do ponto de vista econômico. Mas, “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, e alguns fatores me deixam escaldado. O primeiro foi a rapidez em se resolver pela venda do estádio. Entre o surgimento da notícia, a votação pelos conselheiros e a assinatura do contrato, não teve o intervalo de três meses, sequer. Um, dois, três e pimba! Não houve uma pesquisa entre os amantes do clube, uma enquete séria com as grandes mídias, uma urna na entrada dos sócios para pedir-lhes a opinião. Mal os torcedores discutiam nos bares ao redor do estádio, a notícia já estava pronta, com as “vantagens” supracitadas.

Entretanto, assim como na reprodução do cotidiano, os sentimentos são esmagados pelos números convincentes do discurso econômico. Ufanam os entusiastas: “virão títulos, modernidade, seremos a maior força do Nordeste...” Mas, se esquecem que o maior patrimônio de um clube é a torcida. A relação do Náutico com seu (ainda) atual estádio é visceral. O Estádio dos Aflitos foi o palco do hexacampeonato; da mais dolorosa derrota da nossa história, a umbrática Batalha contra o Grêmio; é, acima de tudo, o caldeirão que faz a diferença nos últimos anos pró-Náutico (vide sermos o único clube invicto das duas principais divisões em seu mando). É o teatro lato sensu, onde se ri e se chora.

O Náutico não possui a maior torcida da capital, perdemos em números para o Santa Cruz e o Sport, porém a presença da comunidade em um estádio central como os Aflitos mostra à cidade a presença da nação alvirrubra. Os Aflitos deram visibilidade ao Náutico, pois quando o time joga em seu reduto, mesmo quem não gosta de futebol sabe: hoje o Timbu tá na área. Sem demérito à cidade de São Lourenço da Mata, o novo estádio dificultará o acesso de quem mora em cidades como Olinda, Paulista e Jaboatão, por exemplo. Sem contar que nos jogos que acabariam à meia-noite, seria perigoso pegar a BR-232 e voltar pra casa. Além do mais, essa conversa que "vamos construir isso e aquilo pra facilitar o acesso", fica ao gosto de quem acredita em promessas políticas.

Em suma, corremos o risco de termos uma Arena vazia, que satisfará uma minoria obsequiosa por dinheiro, em oposição ao legítimo sentimento da torcida de perda da identidade. O que me incomoda nesse processo relâmpago é a velocidade como a negociação foi conduzida. Por que não se maturou um pouco mais sobre o tema? Por que não fizeram uma pesquisa com torcedores em dias de jogos? Será que ainda há tempo de conter o irremediável? A cidade continua crescendo, atropelando a história e as afetividades, em nome da glória mercadológica. Há de se endurecer a alma um pouco a cada dia para se adaptar às necessidades do mundo descartável.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Valeu, Edwind!

Hoje, faleceu meu tio, Edwind Julio Almanza Baca, em Salvador, Bahia. As causas da morte, eu ainda não sei, tampouco me interessa. Não quero lembrar da ausência. Edwind veio da Nicarágua para o Brasil com pouco dinheiro e uma garrafa de whisky, ainda no final dos anos 1970, como ele mesmo contava. Homem boêmio e "desenrolado", conseguiu sobreviver num país estrangeiro, com pouquíssimos recursos e muito jogo de cintura. Morava na casa do estudante da UPE e guardava a marmita do almoço para completar a janta. Edwind não era meu tio de sangue. Mas, será mesmo que não? Se o coração é o distribuidor do sangue pelo corpo, como Edwind não era meu parente?

Edwind nos aproximou daquele minúsculo e despretensioso país, um dos mais pobres das Américas, marcado por conflitos entre caudilhos e populares, com fortes cicatrizes pelas trêmulas montanhas. Ainda assim, aquele desapercebido lugar, foi escolhido por mim, ao menos duas vezes durante a vida escolar, como exercício nas aulas de geografia. A salsa, as músicas de Bemvindo Granda, o rum Flor de Caña, as imagens de sua pequena cidade, Boaco. Graças a Edwind, a Nicarágua era maior que o México ou a Argentina, por exemplo.

O imenso Brasil não foi de acolhida fácil. Edwind viveu em Recife, no sertão de Parnamirim, até se consolidar economicamente no Recôncavo Baiano. Quando chegou lá, já levava consigo sua bela família. Nesse tempo, ele já era o Tio Amendoim, que sempre vinha passar as férias na casa do meu avô, no bairro do Engenho do Meio, onde ainda hoje resido. Sua chegada era aguardada com ansiedade por todos na casa. Quando eles ligavam de algum ponto na estrada, dizendo que chegariam tal hora, meu avô Emílio punha-se na porta a esperar, quando o carro chegava, recordo-me de estar ao lado do meu avô, sempre vestido de branco, que soltava um uivo agudo de felicidade: "uiááá!" Eles vinham para ficar um mês inteiro! Ao seu redor, todos se sentiam à vontade, Edwind tinha o raríssimo dom de agradar a gregos e troianos, sem ser hipócrita ou forçado. Era sua espontaneidade que cativava e conquistava.

Há exatos onze dias, numa noite de quinta-feira, escutei um barulho de carro parar na frente de casa e um alvoroço. Abri a janela do primeiro andar e me reparo com aquela figura pitoresca: usando um chapéu de cowboy e gritando com aquele sotaque gostoso, meio nicaraguense, meio baiano: "Odomirinho!" Ele veio sem avisar! É assim que ele entra na vida da gente. Passamos três dias juntos. Sempre que vinha à Recife, ficava na nossa casa, mesmo sabendo que a hospedagem aqui é muito simples, mas era disso mesmo que ele gostava. Talvez, fosse uma lembrança de sua pobre e pequenina terra natal. Edwind nunca foi de escolher amizade por status social, pelo contrário, sua virtude maior era descobrir, em meio aos ambientes mais inusitados, a recôndita, simples e pura filosofia da vida. E por falar na musa do saber, seus conhecimentos da cultura grega e dos pensadores franceses e alemães era notável. Foi Edwind que abriu meus olhos para o pensamento de Arthur Schopenhauer e Nietzsche. Lia Aristóteles, e encontrava a razão para o mundo pós-moderno, na sabedoria clássica dos gregos. Mas, engana-se quem acha que estou falando de um professor universitário de filosofia. Não, Edwind era cirurgião-dentista! Uma exceção num mundo onde as pessoas se pegam interessadas apenas no trivial, na razão unilateral do conhecimento capitalista.

Hoje, ele se foi. A vida é um quase infinito abrir e fechar de portas. As mesmas que se abriram para que ele deixasse sua pequena Nicarágua e viesse pro nordeste do Brasil, que o conduziram pelo seu tortuoso, quase um passe de salsa, mas suave caminho, hoje se fecharam pela última vez. É o fim do baile, cabrón! Toda festa tem um fim. Valeu, Edwind! Eu estou triste, mas isso passa! Tenho certeza, amigo, que as recordações são fortes e boas! Trouxesses felicidade para o mundo! Agora, vives nas melhores lembranças! Saíste do baile pela porta da frente!

sábado, 20 de agosto de 2011

Liberdade é Desespero

Tu que bradas aos quatro ventos
teu primitivo uivo de liberdade:
Saibas, que te coroam,
como lúgubres vultos num acanhado espelho sem luz,
As grades invisíveis do desespero.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Viagem

Irineu estava inquieto. Desde ontem não encontrava descanso em seu pensamento, e este estado caótico de suas faculdades mentais, coincidiam, quase sempre, com os momentos que se seguiam a uma viagem de avião. Não sabia por que, mas antes de cada viagem, fazia questão de deixar as contas em dia, não queria deixar nada atravessado. Ia viajar de Recife para Petrolina, apenas uma hora, mas mesmo assim, o angustiava a possibilidade de deixar o mundo num acidente aéreo e as coisas não ficarem claras pra si próprio. Como sempre acontecia nas vésperas das viagens, Irineu repousou na questão de Deus.

Era ateu, mas não convicto. O milagre nunca se apresentara pra ele. Levava uma vida sem muitas turbulências, embora fosse professor de literatura, e as leituras clássicas de Poe e Lord Byron sempre o deixavam num estado de perturbação e de investigação sobrenaturais constantes. Então, Irineu passou a se questionar sobre a existência ou não de Deus, discussão que sempre que podia, evitava. “Ora, não tenho conhecimento suficiente, além do mais o universo é indefinido para o homem, não hei de me atormentar com isso.” E assim, sempre desviava da questão central da existência. Mas, estava às vésperas de mais uma viagem de avião, e como sempre, não queria “morrer” deixando dívidas com sua consciência.

Passou a desenvolver uma questão que o entreteu por muito tempo antes de dormir. Imaginou que todos os que creem, retornariam para uma nova vida, algo como o Eterno Retorno de Platão e Nietzsche. Assim, se um egípcio cria em Alá, ao morrer, em algum momento, voltaria, mesmo que na outra vida, viesse a ser cristão, budista ou ateu. A fé seria o passaporte para o retorno. Até o dia em que o homem, alimentado pela razão, atingiria o ateísmo e assim, ao morrer, encontraria, finalmente, o sossego da não-existência. Envolvido nesta idéia, relembrou do conceito de Santo Agostinho de distentio ameni, e que o tempo estaria apreendido em seu espírito e deste modo, com a morte de Deus dentro de si, já não haveria espírito e o ateu encontraria o repouso sem eternidade. Assim, neste divertimento de mediana intelectualidade, adormeceu.

O voo estava marcado para as seis da manhã, partindo do Aeroporto Internacional Gilberto Freyre. Irineu tomou seu assento no avião bimotor, havia espaço para 24 pessoas e restavam, talvez, duas ou três vagas, apenas. Ao seu lado, sentou-se uma senhora de uns 60 anos, bem vestida. Não travaram conhecimento, talvez um leve aceno de cabeça, quando ela conferiu o número da poltrona e o lugar vizinho ao seu. O avião correu na pista, levantou voo. Mas, não pegava muita altura e tremia bastante. O piloto disse que estava com problemas e ia tentar retornar. Um alarido foi ouvido dentro do pássaro prateado. Ao seu lado, a mulher começara a rezar: “Meu Deus, nos ajude. Ó Senhor, tenha piedade de nós!” As pessoas gritavam, em pânico, enquanto avião passava raspando entre os prédios do bairro de Boa Viagem, tremendo. O pânico se instalara. A mulher tentou se agarrar às suas mãos, abalada, já com lágrimas nos olhos. Irineu pensou em rezar, ou talvez pedir o tão aguardado milagre. Mas, lembrou-se de sua teoria, e num átimo, baixou a cabeça, esqueceu-se da velha e mergulhou na escuridão.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Inverno na Aldeia

O Inverno na Aldeia é uma pintura à óleo do artista A. F. Gaush (1873-1947) e se encontra no Museu Nacional do Tartaristão, na cidade de Kazan.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sobre a Necessidade de Deus

Há exatos dois meses, minha indefinição perante o mundo tem me deixado bastante desassossegado. Estou envolvido num projeto que consiste na análise do pensamento do escritor Dostoiévski e sua relação com o surgimento dos grupos anarquistas, niilistas e terroristas na sua Rússia. Para tanto, vou me aprofundando nas leituras sobre Bielinski, Herzen, Bakunin, Tchernichevski e sobre as atuações de revolucionários como Korokózov e Netcháiev. Dostoiévski e seus amigos eslavófilos, defensores da ortodoxia cristã, combatiam através de seus discursos impressos em revistas e folhetins, a atuação desses grupos radicais conhecidos como a "nova geração", homens da década de 1860.

Para Dostoiévski, em linhas gerais, a crença era fundamental para o futuro do seu país. A religião seria o elo que uniria o povo russo e o conduziria a um grandioso futuro, governado pela fé em Cristo. Pausei minha pesquisa por um instante, preparei um copo de chá preto, eram duas da manhã, peguei meu hollywood de menta, e fiquei a meditar na janela do meu apartamento, acompanhado pelo silêncio da madrugada. Da janela, sentia-se a tranquilidade das ruas numa madrugada de quarta para quinta feira. De vez em quando chovia e fazia um clima bastante agradável nesses dias, de maneira que todo mundo estava dormindo no bairro. Havia um imperioso silêncio. Ouvia-se os fortuitos carros a trafegar na rodovia federal, ao longe. Envolto nesta tranquilidade, organizava meu inquieto pensamento. Pensava que a idéia de Dostoiévski é fundamentada numa bagagem histórica muito coerente: a sociedade precisa de Deus. São os mitos que unem os povos, para uns é Cristo, para outros Maomé ou Buda, mas é a divindade que dá sentido os povos. Sem a presença desta entidade mítica, caberia ao homem, sempre falho e egoísta, o papel de assumir o panteão mitológico que uniria um povo. Deste modo, no século XX, Stálin e Hitler, para citar apenas dois nomes, tornaram-se mitos em suas nações, abolindo a idéia de um deus, tornaram-se homens-mitos, e guiaram seus povos para o caminho que todos nós conhecemos. O mito é inevitável.

Para Dostoiévski, era Cristo o fim, e a Igreja Ortodoxa, o meio. Para outros, é o socialismo, o anarquismo, o budismo ou niilismo punk. Alguém sempre toma partido por alguma causa. Inquieta-me este voto nulo que confiro às entidades míticas. Não consigo tomar partido de nenhuma causa divina, nem política. Deus se perde na abstração cósmica do universo e nas suas escolhas aleatórias para com os seres humanos. As organizações políticas, por sua vez, pela própria imperfeição humana na concepção e execução de seus projetos estão sempre fadadas ao fracasso, mais cedo ou mais tarde. Poxa, como queria crer em Deus e encontrar a paz! Ou quem sabe, militar nalguma causa política devotamente, onde pudesse enxergar de modo cristalinos as benesses de uma causa positiva para a humanidade. Onde estaria a utopia?

O cigarro já estava na metade, quando o silêncio da madrugada começou a ser rompido por um barulho que crescia de modo progressivo. Era uma moto que vinha em disparada, vrum, vrum, vruuum, as marchas trocavam rapidamente e as lombadas da rua pareciam ser obstáculos menores. Para minha infelicidade, em frente à janela de casa há uma lombada e um cruzamento. A moto diminui sua aceleração e pude ver dois homens se aproximarem sem capacete. O da frente dirigia concentrado, como quem vem numa fuga alucinante. O de trás vinha sem camisa, tinha o corpo moreno e era magro. Possuía um revólver na mão direita. A cena toda, desde a percepção do ruído do motor, não durou mais do que oito, talvez dez segundos. Ao perceber um espectador e a luz acesa da sala, o homem da garupa apontou a arma em direção à minha janela, enquanto eu só tive tempo de me esquivar. Mesmo que ficasse parado, a bala não me atingiria, mas explodiu ruidosamente contra a madeira de cerejeira da janela. Pá! Corri para o meio da sala e apaguei a luz. Escutava ao longe a gargalhada do bandido desaparecendo pela rua, assim como o motor da moto. Fiquei uns dois minutos sentado no chão, no breu da madrugada, com o coração disparado e morrendo de medo. Alguns vizinhos acendiam as luzes para ver o que tinha se passado. Voltei pra janela, havia um projétil encravado na madeira de cerejeira. E agora, devo acreditar em Deus ou no anarquismo?

quinta-feira, 7 de julho de 2011

кино


Pronto, este é, finalmente, o último dos cinco discos prometidos da série "Holiday in Tatarstan" (na verdade, não tem nome). Poxa Dodô, fosse na Rússia e não postasse nenhum disco de música russa? Pois bem, chegou a hora. Enquanto os outros discos faziam parte da minha seleção (todos estavam no Ipod), esse eu aprendi a gostar durante a viagem. A banda кино (lê-se Kinô, e significa Cinema) foi pioneira no punk rock soviético. Liderada por Viktor Tsoy, compositor e vocalista, o кино recebia as influências do ocidente que entravam pelas fronteiras enfraquecidas da União Soviética e lançava tendência num país onde as pessoas possuíam um nível educacional alto, mas uma qualidade de vida material deprimente. Conversei com a mãe de uma amiga e ela dizia que nos anos 80, durante o inverno, as pessoas comiam durante cinco meses apenas: leite, pão preto, batatas, chá e salsichas. E nada mais! Excepto se alguém plantasse um condimento na varanda dos pequenos apartamentos. É famosa a dureza do inverno.

O кино é respeitado por todo mundo. Nas praças, se um jovem empunha um violão e faz uma roda, logo junta uma rapaziada e, se ele ainda não cantou uma música do кино, a platéia puxa rapidinho. Acho que no Brasil não há referência de popularidade, talvez o Legião Urbana, talvez Raul Seixas. Vou deixar pra vocês o disco clássico deles Ночь (lê-se Nôtch, e significa Noite) de 1986. Eu tenho vários discos deles, mas acho que esse é o melhor. Recordo-me de Tata, uma bela moça que conheci em São Petersburgo cantando "Mama Anarkhia" nas escadas rolantes do metrô após termos bebido duas garrafas de vinho chileno. Outra música marcante é a primeira: Videly Noch, onde em qualquer praça as pessoas cantam e repetem efusivamente o refrão. Espero que gostem, tem muito punk-rock clássico e new wave, bem típico dos anos 80.

terça-feira, 28 de junho de 2011

The Earth is Blue

Eu tinha planejado estudar o dia todo hoje. Aliás, o plano ainda não foi abandonado. Se escrevo aqui é para me livrar de um pequeno fantasma que me aparece entre as páginas do livro de Joseph Frank. Um fantasma com rosto de anjo e que fez um grande reboliço neste coração velho. Talvez eu deva contar um pouquinho desta íntima história.

No dia 12 de abril de 1961, o cosmonauta russo, Yuri Gagárin, numa pequena lata de ferro, com uma janelinha de observação, pôs seus miúdos olhos na janela e se espantou com a figura de nossa grande mãe vista de longe. Ele viu o sulco dos rios cortando a terra, as fazendas e montanhas, e disse, poeticamente: "A Terra é azul". No dia 12 de abril de 2011, cinquenta anos após Gagárin, eu saía de uma palestra na faculdade de economia e business, INEKA, e conheci uma das moças da platéia, K. C., e sem saber muito o que conversar diante dos seus olhos azuis, perguntei, como um tolo, se ela estava feliz com o cinquentenário da ida do cosmonauta russo à órbita. E a Terra passou a ser azul pra mim também.

Hoje, ela me mandou uma foto no jardim, em pleno verão do hemisfério norte. E lá se
foi meu plano de estudar o dia todo... Como prometido, vou deixar o quarto disco dos cinco que marcaram a viagem: Damon and Naomi: The Earth is Blue (2005). Coincidência, ou não, era nosso álbum favorito. Não me permito falar muito mais, em respeito ao inefável e à esperança. Destaco as canções "second life" e a versão linda de "Araçá Azul" de Caetano Veloso. Após dividir essa angústia distante com vocês, vou tentar voltar aos livros, mergulhar no sonho outra vez, assim a nave vai...

Damon and Naomi - The Earth is Blue (2005): http://www20.zippyshare.com/v/32159177/file.htm

Notas Sobre a Pobreza

Ontem, eu assisti a propaganda do Governo Federal: “num sei quantos milhões deixaram a pobreza. Nossa próxima meta é extirpar a miséria.” Assim, a miséria está colocada num patamar acima da pobreza, restando à segunda opção, o posto de maior flagelo da humanidade. É onde eu gostaria de questionar essa imagem desestimuladora da pobreza, que a meu ver, molda muitos comportamentos dentro da moral e da ética do povo brasileiro.

A Rússia, em linhas gerais, apresenta uma população mais pobre que a brasileira. Lá, 90% da riqueza do país, se encontra nas mão de apenas 3% da população. São magnatas, homens-fortes do gás e do petróleo, membros do governo e ex-poderosos da KGB. Mas, o cidadão-comum, este sofre pra sobreviver. Vou dar um exemplo que ocorreu comigo: morei na casa de uma família que constava de quatro membros, todos adultos, e que trabalhavam oito horas por dia para conseguirem se sustentar. E mesmo com todos trabalhando, comer carne era um luxo dedicado aos finais de semana. E não era maminha, ou picanha, mas linguiça e outras carnes menos nobres. O cogumelo fritado substituía a iguaria animal, pois era bem mais barato. Mas, numa sociedade mais pobre que a nossa, de acordo com as leis econômicas, a violência deveria ser maior, uma explosão de saques e de banditismo. Mas não, mesmo a Rússia sendo pobre, durante os três meses que estive lá, não fui assaltado, e mais, nunca escutei relatos de amigos ou de conhecidos que reclamariam a perda da carteira, do carro, do celular, do dinheiro sacado no banco. Quando íamos para um barzinho e bebíamos até às duas da manhã, eu oferecia para uma amiga o dinheiro para que pegasse um táxi, pois não seria seguro para uma jovem dama caminhar sozinha na rua, pela madrugada. Ela me retrucava: “ora, deixe disso, não tem perigo.” No Brasil, principalmente em Recife, não dá pra imaginar uma cena dessas.

Aliás, falando em cena, semana passada, enquanto estava preso no engarrafamento da Avenida Caxangá, presenciei a chegada de dois homens numa moto Titan 125 preta, à minha frente tinha um Fiat Uno, daqueles antigos, verde-escuro. O carro estava encurralado pelo engarrafamento e pela parada de ônibus do lado esquerdo. O motoqueiro ficou observando a situação e dando cobertura, enquanto seu comparsa desceu com um revólver preto, numa atitude rápida e agressiva, empurrou a arma contra a têmpora do motorista. Eu estava no fusca com a maioria dos meus pertences de valor: computador, mala com roupas e o próprio fusca. Não tenho muita coisa mesmo. O motoqueiro olhou para mim para se aperceber do meu comportamento, se eu estaria anotando a placa ou coisa parecida. Baixei a vista, ainda assustado pela possibilidade do segundo ataque, mas os bandidos fugiram na moto. Foi um minuto de respiração suspensa e adrenalina nas alturas. Mas, não é o assalto em si, o tema desta postagem, mas saber até que ponto a pobreza é motivação para o crime. Duvido que aqueles bandidos estivessem passando fome. O ladrão brasileiro rouba pra ostentar, pra demonstrar poder numa terra sem lei. Na sua favela, ele é o cara, manda e desmanda, e rouba pra ter mais, não pra suprir a necessidade alimentar. Ele rouba pra comprar droga ou uma camisa de marca, jamais para comprar feijão, por exemplo.

Aí entra um pensamento meu, que não é baseado em teorias ou pesquisas, o que pode até enfraquecer minha idéia, mas é a questão que o brasileiro tem vergonha da pobreza. Mesmo algumas pessoas mais pobres, gostam de ostentar certa imagem de importância, escamotear sua real situação. Na Rússia, as pessoas não tinham vergonha nenhuma em se assumirem pobres. Tive um rápido relacionamento com uma garota (só passei 3 meses lá) e a sua pobreza nunca foi motivo de vergonha, nem de empecilho, nem de qualquer obstáculo à sua nobreza de caráter. A miséria é deprimente, mas a pobreza chega a ser bonita em sua simplicidade. Conversando com meus amigos, Bebeto e Karuna, discutíamos sobre as aspirações financeiras para o futuro. Ter dinheiro para viajar é uma das maiores satisfações da vida, mas eu confessei pros meus amigos que tinha medo de ter muito dinheiro, porque a pobreza te mantém humilde, e este sentimento de humildade é uma das maiores riquezas espirituais possíveis. É lindo quando nos deparamos com uma pessoa muito rica, que não se envergonha de conviver com pobres, ajudar e participar de seu cotidiano. Mas, possuir uma grande quantidade de dinheiro, te deixa desconfiado dos que te rodeiam, te põe numa defensiva paranoia em relação às amizades e a sensação de poder experimentada pode, quase sempre, te levar à arrogância para com os irmãos.

Eu me considero pobre, mas tenho casa própria e um fusquinha, me divirto uma vez por semana, mas sou pobre. É preciso que haja a distinção entre a miséria e a pobreza, e que a segunda deixe de ser uma doença social ou um crime, e passe a ser enxergada com uma riqueza espiritual mais abrangente. Ser pobre é ter o básico. Mas, nosso mundo consumista quer nos empurrar para a catástrofe da competição, que coloca a pobreza no mais deplorável dos estados humanos, estimulando os homens a obter, a qualquer custo, a riqueza material dos seus semelhantes. O Brasil precisa ser, moralmente, repensado.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Vininha, Velho Saravá


Este é o terceiro disco da série de cinco que prometi postar. Não farei muitos adendos pra não ser repetitivo. Mas, esse "disquinho" de 1974 é uma jóia, todas as composições são agradáveis e com aquela majestade boêmia que os autores constroem, como ninguém.

Aqui em mim, está tudo bagunçado, como sempre. Como é duro trabalhar! Mas, no disco, tudo na mais perfeita ordem, tudo na mais santa paz.









domingo, 12 de junho de 2011

É Muita Chinfra!


Eu prometi postar cinco discos que marcaram meus 3 meses na Rússia, pois bem, com um tanto de atraso vou tentar cumprir minha promessa. Ouvir música faz parte do meu viver, como se fosse uma trilha sonora constante de tudo o que faço. Escuto música até pra estudar, pois creio que a música barroca ajuda, tanto quanto um copo de café, na concentração. Hoje, dedico meu segundo disco da série Viagem à Rússia (calma, eu sei que parece que vou viver de um eterno efêmero passado) ao Trio Pouca Chinfra e a Cozinha, grupo de samba de Recife. O mais recente álbum da Chinfra (2010), é uma das melhores pérolas da música recente do Brasil, e confesso que sinto um tantinho de orgulho do sucesso da rapaziada e vou explicar o por que:

Não tenho muita certeza de qual ano foi fundado o citado grupo de samba, mas minha primeira lembrança do nome Pouca Chinfra foi quando meu velho amigo Carlos "Cacau" Holanda, me convidou pra um sambinha na cachaçaria da Rua da Moeda, Recife Antigo, por volta de 2005. Dizia ele: "Dodô, meu irmão Dedeco, tá tocando num grupo de samba que toca vários covers dos Demônios da Garoa, vamo nessa!" E fomos. Bem, das primeiras lembranças o que fica era aquela impressão de que tudo era improvisado e bagunçado, mas muito legal, levado no peito e na raça. Aos poucos, a pequena cachaçaria ficou pequena pra tanta gente que se espremia naquele calor infernal. Sempre com muita gente bonita acompanhando os shows, a Chinfra foi pro primeiro andar do Pina de Copacabana e, pra variar, casa lotada todas as sextas. O negócio começava a ficar sério e a rapaziada também começou a caprichar nas notas e na percussão. Bem, daí pro sucesso na cidade inteira foi um pulo. Hoje, eles apresentam este disco que vou deixar no final desta postagem pra vocês, muito bem elaborado, com letras inteligentes e uma jovialidade muito boa.

Esse disco do Pouca Chinfra me faz lembrar dois momentos em que o escutei enquanto estava na Rússia. O primeiro foi quando eu estava em Chelny, no Tartaristão. Era uma noite de segunda, estava na transição do inverno pra primavera, fazia -2 graus e eu não queria ficar em casa. Peguei o Ipod e decidi comprar cigarro e uma cerveja, enquanto dava uma volta pela vizinhança. Cheguei no mercadinho e pedi um Marlboro e, envolto na brasilidade da música, esqueci de pronunciar como os russos, ou seja, Marlbara (a letra O em russo, quase sempre tem som de A). A mulher disse que não tinha esse produto. E eu mostrava, "olha ele alí, olha ele alí". Pronto, um cigarro e uma Heinekken de meio litro. Caminhei pelo bairro da Zyab naquele frio e como me sentia próximo do Recife ao escutar a voz do meu amigo José "Macaco" Demóstenes. Poxa, chegava a ficar com olhos marejados ao me lembrar que desde o comecinho, naquela bagunça da cachaçaria, o Pouca Chinfra fazia, agora, um disco tão bonito, que merece ser escutado por todo mundo. A segunda lembrança foi mais alegre, estava caminhando na Avenida Niévski em São Petersburgo, distribuindo sorriso para as beldades que passavam, cheio de auto-confiança. Destaco as músicas "traseirando", "carmelita", "rainha da bateria" e "finarmente". Não duvide, meu caro, minha cara, você pode encontrar boas letras no cenário atual!


quinta-feira, 9 de junho de 2011

Os Negros da Oficina

Certas imagens que fazem parte do nosso passado se perdem na trivialidade da rotina, mas hoje, ao conduzir meu velho Volkswagen 78 para a biblioteca da universidade, observei naquela rua de barro, cheia de buracos, que o chefe da oficina que fica há dois quarteirões da minha casa e que funciona desde que me entendo por gente, estava velho, de cabelos brancos, e circundava uma Brasília antiga, meneando sua velha carcaça, buscando soluções. Hoje ele trabalhava sozinho, era manhã alta, umas 9 horas, os seus irmãos deveriam se juntar ao trabalho em breve, talvez estivessem dormindo ou não houvesse, simplesmente, trabalho. É uma oficina mecânica familiar, composta por três irmãos, negros fortes.

Durante muitos anos, aquela rua onde os irmãos da oficina trabalhavam, com seus carros velhos, a roupa suja de graxa, a casa escondida entre os pés de acerola e pitanga, com suas esposas e filhos a circundarem a garagem da oficina, a música de Roberto Carlos no começo de noite de domingo, representava pra mim um local de segurança em nosso bairro assombrado por bandidos espertos. Sempre que voltava da faculdade, tarde da noite, entrava naquela rua mal iluminada, apenas por confiar que naquela casa existiam homens fortes e valentes, que nenhum ladrão ou bandido consentiria em traquinar numa rua onde aqueles trabalhadores faziam a defesa do território. Eles eram os paladinos do bairro.

Minha visão sobre os negros da oficina tem uma explicação: quando eu era criança, meu pai tinha um pequeno comércio, que infelizmente, nunca deslanchava, mas estava sempre aberto no horário comercial. Passava as manhãs de férias com meu pai e, numa daquelas bem quentes de um dia qualquer, ouvimos um alarido na rua do lado. Uma gritaragem, um escarcéu provocado por uma voz feminina: ladrão, ladrão! O meliante tinha fugido com a bolsa e o relógio da mulher. Meu pai, sempre curioso com esses casos, precipitou-se pra rua e ordenou-me ficar tomando conta do pequeno comércio. Não tive dúvidas, desobedeci e fui atrás do velho. Quando dobrei a esquina, avistei o ladrão caído no chão a ser aporreado, como um cavalo atropelado na estrada é degustado pelos urubus, pelos negros da oficina. O ladrão ficou caído no chão, a polícia foi chamada. Os pertences da mulher foram restituídos. O bandido foi-se no camburão. A população agradecia aos irmãos mecânicos. Eles foram os heróis de uma manhã monótona no subúrbio do Recife.

Minha mãe, mesmo depois de crescido, sempre me orientava: “Vá pela rua da oficina que é mais segura.” Involuntariamente, faço este percurso, como o fiz hoje, embora os negros da oficina já estejam velhos, de cabelos brancos e não se acordem mais tão cedo pra trabalhar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sleeping with Ghosts


Hoje eu começo a postar uma série de cinco discos que são a trilha sonora desses meus últimos meses. Peço perdão a quem costuma visitar o blog, mas nesses três meses de Rússia não tenho tido tempo para refletir. Até as leituras estão deficitárias. Comprei três livros e acho que só Palomar de Italo Calvino vai voltar pro Brasil com o carimbo de finalizado. A boa notícia é que estou falando russo muito bem, quer dizer, falo de tudo, mas gramaticalmente ainda erro bastante. O russo não é uma língua fácil. Bem, mas esse não é tema da postagem. Na verdade, por falta de assunto e de tempo para refletir, quero dividir alguns discos com vocês que, de certa maneira, estiveram comigo nesses últimos meses. Para começar, escolhi esse do Placebo. Acho que foi o disco que mais ouvi no Ipod. Um disco cheio de energia, de arranque e de chegada. Talvez o melhor disco do Placebo, certamente o mais jovial e agressivo. No meu segundo dia em Naberezhnye Chelny, resolvi fazer uma caminhada inóspita. Andar do shopping Torgovyi Kvartal até meu apartamento, apenas 40 minutos, nada de impossível se não fosse a temperatura de menos 36 graus no termômetro oficial da Prefeitura. Era cinco da tarde e já estava escuro, muito escuro, um vento malvado queimava o pequeno pedaço de pele que ficava descoberto que ia da metade da testa até o queixo. Ardia, ardia demais. Eu usava duas calças e uma cueca e os testículos doíam como se quisessem buscar abrigo dentro do corpo. Os ossos da perna caminhavam cada vez mais rápido para se aquecerem. Na verdade, eles tremiam. Mas, eu estava decidido a enfrentar o frio. Quando li Senhores e Servos de Lev Tolstói, me inquietava desconhecer aquele frio assassino que fustigava os homens no alto inverno russo. O corpo dóia, a pele do rosto ficava dura e enrugada. "Mas mesmo assim eu vou, eu vou." E me embalava esse disco do Placebo, uma música decidida, triste e raivosa como a aparência do inverno. E cheguei em casa, quarenta minutos depois, e pensei: que discaço! E passei a escutá-lo com frequência. Taí o recado, quem quiser baixar, segue o link abaixo:



http://www.4shared.com/file/250045058/301ac77/Sleeping_With_Ghosts__2003_.html

quinta-feira, 31 de março de 2011

Sossuil'ka



Oficialmente, estamos na primavera há mais de uma semana. Mas aqui, na Rússia, o inverno é forte e tarda a findar. Um amigo me escreve da cidade de Colônia, na Alemanha, e anuncia que a primavera é linda e que de dia, aconchegantes quinze graus são sentidos no caminhar pelas ruas ensolaradas da primeira semana da primavera. Aqui, ainda agora enquanto escrevo, neva. Aliás, desde que o tempo esquentou, neva quase todos os dias. Quando fazia -36 graus, no final de fevereiro, não nevava, aliás, nada caía do céu, apenas a secura intolerável do ar que queimava a pele com rudeza e obstinação. Mas agora, é tempo de transição, de meio-dia faz +3 e de noite -3, e nesse esquenta-esfria, também o gelo entra na dança e se mostra através da Sossuil’ka.



A Sossuil’ka é uma espécie de estalactite de gelo facilmente encontrada em qualquer telhado de qualquer cidade russa. É resultado do derretimento do gelo quando o sol aparece de dia e do esfriamento do tempo, do fim da tarde até a manhã seguinte. Surgem belíssimas formas de estalactites penduradas sobre os telhados. As crianças adoram chupar Sossuil’ka. Mas, a palavra de nome inofensivo, amiga das crianças, é, na verdade, um grande perigo aos moradores das cidades. Enquanto andamos preocupados olhando para o chão, com medo de levarmos um escorregão nas placas de gelo que ficam sobre a calçada, a Sossuil’ka está sobre nossas cabeças, muitas vezes tomando proporções inimagináveis. Na semana passada, na cidade de Tver, uma senhora estava sentada num banquinho de praça quando uma imensa Sossuil’ka caiu do telhado de um prédio e lhe afundou o crânio. A pobre senhora faleceu na hora.



Esse mês de abril será um mês de mudanças profundas no cenário russo. O gelo, finalmente, vai derreter e dará espaço para o tímido surgimento dos primeiros brotos nas árvores, já pela última semana de Abril. Amanhã inicia-se o mês e ainda temos temperatura abaixo de zero, temos muita mokra (lama), neve e Sossuil’ka. Mas, ao final do mês, teremos o renascimento do verde e a ampliação dos dias. Quando cheguei aqui no Tartaristão, o sol se punha às 15:45, hoje ele se põe depois das 18h, isso num intervalo de um mês e meio. No começo de maio, os dias findarão mais tarde, o sol se porá às 22, 23 horas. É no final de maio que teremos as famosas Noites Brancas em Petersburgo. Pena que não estarei mais aqui. Minha passagem pela Rússia é curta, como a Sossuil'ka,’mas espero que perene, e que eu cá esteja noutra oportunidade. Estou planejando uma última viagem pela Rússia. Tenho medo do dinheiro não ser suficiente, mas mesmo assim eu vou. A viagem se iniciará em 18 de abril, saindo daqui de Naberezhnye Chelny e indo pra belíssima cidade de Samara, onde pretendo ficar uma semana. No dia 24, pego um trem para o norte, ainda não me decidi pra onde, mas meu coração chama por Velikyi Novgorod, a cidade mais antiga de todas as Rússia. Lá, posso encontrar lindos conventos e monastérios. A cidade é conhecida como a capital ortodoxa da Rússia. Novgorod é caminho para São Petersburgo, onde já tenho hospedagem na casa de uma amiga entre 30 de abril e 5 de maio. Após isso, posso ficar mais dois dias na capital de Pedro ou partir para o centro do país, em direção à Moscou, ao fim da viagem, à volta pro Brasil, ao derretimento final deste sonho, Sossuil’ka.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Volta de Kazan

Nevou, insistentemente, durante todo o fim de semana em que estive em Kazan. As ruas se cobriram de um branco novo, recém-chegado dos céus. Mas, é fim de inverno, a neve é molhada, quente, pedindo pra virar chuva, e transforma as ruas da cidade em deslizante lamaçal. Ainda assim, para o olhar de um nordestino, tudo se afigura em novidade e deleite por um inverno antes apenas imaginado. As calçadas se cobrem, ora de uma tímida camada escorregadia de gelo, ora de um fofo tapete branco, e a milenar cidade se traveste de sonho, moldando suas arquiteturas na onipresente neblina.

As cidades são corpos imensos, e como corpos, movem-se pela presença de um espírito, a alma da cidade. A alma de Kazan, se posso me arriscar a conhecer apenas por ter visitado por três dias em que a mesma se encontrava debaixo do branco véu, é harmoniosa. Diferente de Moscou, não possui tanto tráfego, multidão apressada, minhocas de aço a amaciar suavemente o subsolo de sua morada. Kazan é grande e pequena, naquilo que os adjetivos podem alargar de mais positivo. Ao andar por suas ruas, meu coração palpitou, assanhado, que aquele era o lugar desejado pra se viver por um bom tempo. Mas, em respeito à atmosfera onírica da capital tártara, vou-me embora antes que a realidade desfaça o sonho, e já escrevo de um ônibus velho que, cambaleante, atravessa o sertão gelado da minha solidão.


Entrego minha vida às mãos de um motorista pitoresco, com os dedos da mão direita tatuados, provavelmente indicando que o mesmo fez/faz parte dessa ou daquela máfia russa. O homem não tinha sequer um dente natural, todos de prata. Imaginei que aquele homem, talvez, tenha perdido os dentes numa briga de gangues e se afastara da vida bandida e hoje era motorista de ônibus, entre Kazan e Naberezhnye Chelny. A idéia se esvaiu quando tive que concordar com o sujeito, em seu prateado sorriso, que Pelé e Ronaldo eram brasileiros. Eu já estava dentro do ônibus velho, sentado ao lado de uma babushka espaçosa, torcendo pra que o motorista pitoresco fizesse as curvas mais devagar naquela pista alva e escorregadia. Lá fora, árvores sem vida, campos sem grama, a natureza hibernante e silenciosa. Aqui dentro, uma multidão quente de cidades, lembranças, soluços. E tudo o que escrevo é um inatingível esforço pra construir uma imagem perdida, marejada, de um intraduzível presente.