segunda-feira, 26 de julho de 2010

A Rússia de Dostoiévski *

*Artigo escrito por mim, Odomiro Fonseca, para uma disciplina do mestrado no início de 2009.


Homem do seu tempo, Dostoievski não fugiu do embate político com seus adversários contemporâneos naquilo que mais o importava, o destino que a Rússia designaria no papel de guiar a Humanidade. Enquanto toda a Europa desavergonhadamente subestimava aquela nação saída da barbárie, que carregava orgulhosamente os ideais que os países da Europa ocidental enxotavam como o tsarismo, a ortodoxia, o nacionalismo, o anti-liberalismo, Dostoievski ia se abastecer de todo este arsenal reacionário para disparar em suas obras seu ódio à cultura européia, à religião romana e à modernidade.

Em O Diário de um Escritor, Dostoievski vai relatar, quase jornalisticamente, sua percepção sobre uma Rússia que se expandia contraditoriamente, ora para a sua face ocidental, ora para sua face asiática. No Diário, Dostoievski parece querer esmiuçar toda sua filosofia e psicologia a respeito de sua religiosidade e cravar na terra suas idéias que vacilaram durante a juventude. Tendo sua própria vida como testemunha, Dostoievski vai afirmar que a salvação do homem e o sentido para a própria vida se encontram na crença inabalável na existência do espírito e na fé do evangelho. Assim como aconteceu consigo próprio, o homem deveria passar por uma transformação, passando de pecador a homem salvo pela graça. Essa transformação seria nacional e internacional. A Rússia haveria de se transformar e retomar sua tradição religiosa ortodoxa e servir de espelho convexo para toda a Europa, e posteriormente, todo o mundo.

O Diário de um Escritor foi escrito enquanto Dostoievski colhia fontes para o seu derradeiro romance, Os Irmãos Karamazov, terminado semanas antes de sua morte. Nesse último romance, Dostoievski vai lapidar seus personagens na tentativa de atribuir um sentido para a Rússia e para a humanidade, sendo o jovem Alexei Karamazov, o exemplo a ser seguido, e o starets Zóssima, seu filósofo da nova era. Alexei, esse homem novo, transformado, brando, capaz de amar e de profunda religiosidade, será o personagem que restará desta teodicéia/antropodicéia em que os répteis se devoram mutuamente. Nas páginas do Diário, Dostoievski, mais político do que nunca, vai lançar seu grito de ódio à cultura européia, vai defender a tradição russa iniciada com Pushkin e expressará abertamente sua visão reacionária de abarcar o mundo nos braços da igreja ortodoxa. Vejamos o que diz no discurso em homenagem a Pushkin:

“Qual o significado para nós da reforma de Pedro, O Grande? Constituiu somente em introduzir entre nós os costumes europeus, a ciência e as invenções? Reflitamos um pouco a respeito. Talvez Pedro, O Grande, o empreendesse, a princípio, somente com um fito inteiramente utilitário; mais tarde, porém, obedeceu com toda certeza a misterioso sentimento que o arrastava a preparar à Rússia imenso futuro. O próprio povo russo somente viu nele, a princípio, o progresso material utilitário, mas não tardou em compreender que o esforço que o obrigavam a compreender devia conduzi-lo mais longe e mais alto. Elevemo-nos para logo à concepção da universal unificação humana. De fato: o destino do russo é pan-europeu e universal. Chegar a ser russo verdadeiro signifique tão-somente ser irmão de todos os homens, homem universal, se assim posso me exprimir. A divisão entre eslavófilos e ocidentais nada mais é do que o resultado de gigantesco mal-entendido. O russo verdadeiro interessa-se tanto pelo destino da Europa, pelo destino de toda a grande raça ariana como pelo da Rússia. Quem quiser aprofundar a história da Rússia, desde Pedro, O Grande, verá que isso não é simples sonho meu. Ficará comprovado o nosso desejo, o desejo de todos, de união com todas as raças européias no caráter de nossas relações com elas, no caráter de nossa política de Estado. O que tem feito a Rússia durante dois séculos senão servir mais à Europa do que a si mesma? E tal não se poderia atribuir a ignorância dos nossos políticos. Os povos da Europa ignoram até que ponto os amamos. Todos os russos do futuro verão que mostrar-se verdadeiramente russo se importa em procurar um terreno de conciliação para todas as contradições européias; e a alma russa o proporcionará, a alma russa universalmente unificadora que pode englobar no mesmo amor todos os povos, nossos irmão e pronunciar, afinal, as palavras das quais resultará a união de todos os homens segundo o evangelho de Cristo. Sei perfeitamente que minhas palavras podem parecer eivadas de exagero e fantasia. Seja; mas não me arrependo de tê-las pronunciado. Tinha de pronunciá-las, sobretudo no momento em que honramos o nosso grande gênio russo, o que soube salientar da melhor maneira a idéia que as ditou.”[1]

Quando Dostoievski fala em abarcar “toda a grande raça ariana” não o diz com o significado preconceituoso que viria a rotular o pensamento fascista, até porque o próprio homenageado do discurso, Pushkin, era descendente de africano (Etíope) e não era, portanto, ariano.

A raiz do pensamento do Dostoievski amadurecido está alicerçada profundamente no pensamento religioso e na crença da imortalidade da alma, sem a qual seria simplesmente impossível tolerar a vida e sustentar o amor à Humanidade. Dois dos mais interessantes personagens de Dostoievski: Ippolit, de O Idiota; e Kirilov, de Os Demônios, vão justificar o suicídio, porque “o homem é o senhor do próprio destino.”[2] Dostoievski cria o suicídio lógico, onde o homem se torna Deus e assume o controle do seu futuro. Esses demônios revolucionários seriam os comandantes de uma nova era: “quando a noite caísse sobre a Rússia e a terra chorasse por seus antigos deuses.”:[3]

“Em resumo: está claro que sem crenças, o suicídio se torna lógico e até inevitável para o homem que apenas se elevou acima das sensações da besta. Ao contrário, a idéia da imortalidade, prometendo a vida eterna, sujeita o homem mais fortemente à Terra. Nisto parece existir contradição. Se, distinta da vida terrestre, temos outra celeste, para que fazer muito caso desta aqui embaixo? Mas é somente pela fé na imortalidade que o homem se inicia no fim razoável da vida sobre a Terra. Sem a convicção na imortalidade da alma, o vínculo do homem em relação ao planeta diminui, e a perda do sentido supremo da vida conduz incontestavelmente ao suicídio. E se a crença na imortalidade da alma é tão necessária à vida humana é por ser o estado normal da Humanidade, provando que a imortalidade existe. Em uma palavra: esta crença é a própria vida e a primeira fonte de verdade e de consciência geral para a Humanidade.

Eis o objetivo do meu artigo, eis a conclusão a que desejava que cada um chegasse quando o escrevi.”[4]

A metamorfose do homem pecador em homem salvo pelas palavras do Cristo é um conceito muito presente na obra de Dostoievski, onde o Diário de um Escritor e Os Irmãos Karamazov parecem se completar, onde o primeiro é a explicação da obra de arte que vem em seguida. As resignações de Dimitri Karamazov, e de Raskolnikov também, constituem a mudança de uma nação, que substituirá a paixão pelo jogo, pelo álcool e pela libertinagem, por uma nova vida numa terra distante, a Sibéria, onde a terra será lavrada pelas lágrimas arrependidas e consoladas pela fé conquistada e inabalada. O Homem Ridículo também se encontra no Diário e também passa pelo batizado da fé e pela crença repentina, que acontece num momento de alucinação, num sonho ou numa crise epiléptica. Na sociedade russa, e também nas grandes cidades de todo o mundo, o paradoxo do desejo humano pela compreensão de alguma verdade produz os antagonismos sociais, onde aos querem tudo é dado o crime e aos que nada querem, é dado o suicídio.

“E, não obstante, todos os homens, desde o sábio até o último dos malfeitores, todos querem o mesmo, procurando-o por meios diferentes... Mas não posso equivocar-me demasiado, porque vi a Verdade, sei que todos os homens podem ser belos e felizes sem deixarem de viver sobre a Terra. (...)

Amai-vos uns aos outros, nada mais. Não seria preciso fazer mais; todo o mundo é capaz de compreender.

Trata-se de verdade antiga, repetida milhões e milhões de vezes, e que, entretanto, não criou raízes em lugar nenhum. É necessário continuar a repeti-la.”[5]

A fé verdadeira, para Dostoievski, passava distante da Santa Sé romana, onde a figura do papa é retratada como sendo o “satanás de tiara”(ZWEIG, 1935: 142-143), e onde o conto de Ivan Karamazov conhecido como O Grande Inquisidor vai romper definitivamente qualquer ligação de sua fé ortodoxa com a fé romana, quando o inquisidor nonagenário diz ao Cristo:

“Nós não estamos contigo, mas com o outro, desde oito séculos. Há exatamente oito séculos nós aceitamos dele, o que Tu rejeitaste com indignação: o último dom que ele Te ofereceu, mostrando-Te todos os reinos da Terra; nós aceitamos dele Roma e a espada de César, nos declaramos reis terrestres.”[6]

Dostoievski ajoelhava-se perante os ícones da Igreja Ortodoxa e murmurava as rezas redigidas em língua eslava arcaica. Assim como Alioscha Karamazov representava o novo homem russo, missionário, o starets Zóssima era o filósofo do Terceiro Reinado, que pregava a libertação da escravidão do amor-próprio através do amor ao próximo. Ambos os personagens viviam no humilde convento da despercebida cidade de Skotoprigonevsk (Staraya Russa), nos confins da velha Rússia, onde as tradições e os personagens típicos afloravam suas individualidades. Deste cenário rural e atrasado deveria emanar para a humanidade uma nova visão de mundo, uma missão:

“Nossa missão - e os russos começam a ter consciência disto – é grande entre as grandes missões. Deve ser universalmente humana. Deve consagrar-se ao serviço da Humanidade, não só da Rússia, não só do mundo eslavo, do paneslavismo, mas ao serviço da Humanidade inteira. Meditem e convirão em que os eslavófilos assim o reconheceram. Daí nos exortarem a que nos mostremos mais francamente russos, mais escrupulosamente russos, mais conscientes de nossa responsabilidade de russos; visto compreenderem que precisamente a missão característica da Rússia consiste na adoção dos interesses intelectuais de toda a humanidade.”

[7]

O conjunto da obra de Dostoievski não é afetado pelo seu furor religioso nem pelas suas concepções políticas reacionárias. Muitos pensadores subseqüentes, como Nietzsche e Freud, entre tantos outros, declararam a importância deste escritor para a literatura universal e para as ciências humanas, inclusive. Suas declarações são importantes relatos de um homem que viveu e sonhou transformar a realidade de seu país através do que acreditara ser o melhor, verdadeiramente, para seu povo. Dostoievski foi o missionário de uma Rússia que não existe mais, de um sonho ridículo. Espero ter conseguido mostrar como o mito religioso, na última década de sua vida, encontra-se perpetrado em sua literatura, sua relação política face à postura que a literatura russa deveria seguir nos embates com os adversários ocidentalistas. Seus personagens, em suas solidões e acessos de cólera, representam mais do que o simples discurso de si, mas ecoam uma voz nacional, um grito solitário que encontra guarita na universalidade da dor, do desespero e da esperança


[1] (DOSTOIEVSKI, 1967: P. 223-224)

[2] (NOGUEIRA, 1974: 37)

[3] (NOGUEIRA, 1974: 39-41)

[4](DOSTOIEVSKI, 1967 P. 165)

[5] (DOSTOIEVSKI, 1967: 193-194)

[6] (NOGUEIRA, 1974: 125)

[7](DOSTOIEVSKI, 1967: P. 103)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Num Lugar Distante

Hoje resolvi fazer minha primeira tradução do russo para o português. Trata-se da composição do multi-instrumentista armeno Mikael Tariverdiev. Chama-se "Где-то далеко", ou seja, "Num lugar distante". Deixarei ao final o link com o vídeo e a música para que possam baixar. Ela é interpretada por um dos maiores cantores soviéticos, o senhor Yossif Kobzon. Espero que gostem, é um letra inspiradora. Em russo, possui uma combinação de letra e melodia perfeita. Vou traduzir sem ter que rimar. Espero que gostem. Passei uma hora fazendo essa tradução com o dicionário!

"Где-то далеко" "Num Lugar Distante"

Я прошу: хоть ненадолго, Eu pergunto: mesmo que rapidamente,
Грусть моя, ты покинь меня, Minha tristeza, me abandonas.
Облаком, сизым облаком Nuvem, cinzenta nuvem
Ты полети к родному дому, Dispersa-te pra outra casa,
Отсюда к родному дому. Daqui pra outra casa.

Берег мой, покажись вдали, Orla minha, mostra a distância,
Краешком, тонкой линией, Linha fina, bordejante
Берег мой, берег ласковый, Orla minha, orla querida
Ах до тебя, родной, доплыть бы, Ah, pra ti, querida, nadam,
Доплыть бы хотя б когда-нибудь. Nadam embora sem chegar.

Где-то далеко, где-то далеко Num lugar distante, num lugar distante
Идут грибные дожди. Vai chover cogumelos.
Прямо у реки в маленьком саду Perto do rio num pequeno jardim
Созрели вишни, наклонясь до земли. Cereja madura caindo no chão.
Где-то далеко в памяти моей Num lugar distante dentro das minhas lembranças
Сейчас, как в детстве тепло, Agora, como na aconchegante infância,
Хоть память укрыта такими большими снегами. Mesmo que as lembranças estejam cobertas de forte nevasca.

Ты гроза, напои меня, Ó tempestade, dá-me de beber,
Допьяна, да не до смерти. Embriaga-me até próximo de morrer.
Вот опять, как в последний раз, Cá estou, pela última vez,
Я все гляжу куда-то в небо, A observar um ponto distante no céu,
Как будто ищу ответа... Como quem busca uma resposta...

Я прошу: хоть ненадолго, Eu pergunto: mesmo que rapidamente,
Грусть моя, ты покинь меня, Minha tristeza, me abandonas.
Облаком, сизым облаком Nuvem, cinzenta nuvem
Ты полети к родному дому, Dispersa-te pra outra casa,
Отсюда к родному дому. Daqui pra outra casa.



link para baixar a música: http://www.4shared.com/audio/RzEouOla/02-_-__-__.htm

terça-feira, 13 de julho de 2010

Uzyna Uzona

Existe dia comum? Eu acho que existe. São aqueles dias em que tudo é planejado: o horário do trabalho, as horas de estudo, o economizar da existência e tantas centenas de possibilidades. Mas, entre os dias comuns, existem dias que fogem um pouco da normalidade: o pneu do carro que fura indo pro trabalho, uma poesia que te joga pra fora da concentração antiga, uma horinha de happy-hour no cotidiano e mais outras tantas probabilidades. Há ainda aquele dia extraordinário, em que tudo fugiu ao controle: um foda-se ao trabalho, o entorpecimento completo pela arte ou o envenenamento dos deuses modernos. Quem foi assistir os quatro dias de encenação das Dionisíacas no matadouro de Peixinhos, certamente não dirá que qualquer uma daquelas noites foi um dia normal em sua vida.

O Teatro Oficina Uzyna Uzona, capitaneado por Zé Celso Martinez, baixou na cidade de Olinda, no Nascedouro (antigo Matadouro Municipal) de Peixinhos e embriagou o público com seu teatro surrealista, erótico e histórico (definições minhas, não sei se os críticos de teatro classificam desta forma...). Sim, histórico! Nos três dias em que freqüentei o espetáculo (não fui na quarta), tive a oportunidade de mergulhar na história do teatro brasileiro na peça sobre Cacilda Becker. A linguagem do teatro não é a mesma do historiador. É uma linguagem destinada à máxima expansão (ao menos no teatro de Zé Celso). A peça de Cacilda havia me chocado, nunca tinha visto nada parecido, nem na duração da peça que foi acabar às duas horas da madrugada, tendo começado às sete da noite. A atriz-principal comandando uma energia de movimentos tresloucados, corpos que se jogam sobre os abismos de nossas idéias. Voltei pra casa cansado, mas certo que no outro dia não haveria de ficar em casa por hipótese alguma. Era o dia das Bacantes de Eurípedes. Um texto de quase três mil anos. O tempo, por si só, já não é fascinante? Levei vinho e outros propulsores de consciência para assistir o espetáculo. Um misto de medo e desejo. Os atores, vez por outra, arrancam pessoas da platéia e inserem no ritual.

“Ele não sabe que o seu dia é hoje. Ele não sabe que o seu dia é hoje. Ele não sabe que o seu dia é hoje. Ele não sabe que o seu dia é hoje...” Repetindo esta frase, ao som de uma percursão alucinante, os atores armaram a cena para o ritual de sangramento do touro. Eu vi. Eu vi três touros sangrarem até a morte. E eles lutaram pela sobrevivência! Na batalha contra os homens e suas armadilhas, a natureza rendeu-se e o sangue fora derramado para o oferecimento aos deuses mais profanos. E quem disse que não estávamos num matadouro público?! As paredes pesadas, azulejos antigos, sangue, choque, nudez e morte. O matadouro de Peixinhos nunca mais será o mesmo. A comunidade compareceu, entre moleques baderneiros que estavam pra ver os corpos nus, haviam os que nunca mais seriam os mesmos. Dona Rosa, uma senhora de cabelos brancos e corpo de beleza bizarra, passou a integrar o espetáculo desde o momento em que sua nudez foi revelada, gerando uma euforia em todos os moradores de Peixinhos. Talvez, secretamente, desejassem aquela nudez para si. Despir-se de toda a censura corporal, num gesto de liberdade acima de tudo.

Peço desculpa por não saber o nome das atrizes. Mas, o corpo em sua liberdade revela mais que o erotismo animal. Em vida, poderei ver corpos femininos tão fascinantes como os de Cacilda e da Pombagira teuto-japonesa? Um sentimento de singeleza e agressividade. Se punham a tremer ardorosamente, para depois revelarem um tímido sorriso quando fora de cena se encontravam... Eu peço que vivam! E que sejam eternos os vossos corpos! A carne foi celebrada. E justo num matadouro!

Diálogos perdidos, visão enegrecida, embriaguez, frases assimiladas, beleza, feiúra, torpeza, sublimidade. Desde sábado queria encontrar algo pra dizer. Pensei em deixar a poeira sentar. Gostaria de ser frio como uma lâmina cabralina. Mas, cá estou, a sentir falta do soco de liberdade, da porrada surrealista. A noite solitária num bairro de subúrbio, silenciosa. A ausência da orgia. Deparo-me com as minhas obrigações mais cacetes, como dizia Graciliano. Bye bye, Brazil! O circo quando passa, arrasta as almas sonhadoras. Nessa noite, desejo sair pelo Brasil atrás desta companhia infernal. Abraçar-me com Pombagira num gozo diabólico e nunca mais voltar à vida.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ednardo


No ano de 2006, assisti um dos shows mais marcantes da minha vida, nesses 29 anos de existência. À época, tinha 25 anos, e Belchior cantava: "Tenho 25 anos de sonhos, de sangue e de América do Sul..." Entre uma canção e outra, o cearense Belchior, lembrando o velho Vinícius de Moraes, dava e pedia a benção aos grandes mestres da música nordestina e brasileira. Entre os artistas que ele citava, ele dizia: "Minha gente, escutem Ednardo. A juventude não conhece Ednardo!" E aquele nome que já tinha escutado noutras ocasiões, ficou na minha cabeça. Baixei um disco e nunca escutei. Ficou perdido numa das quatro pastas de música que tenho no meu computador. Há cerca de um ano e meio, resolvi escutar o tal disco de Ednardo, depois de tanto ouvir os pedidos de Belchior. E nessa manhã em que escrevo, amanheci ouvindo as trovas de Belchior e lembrei-me que nunca dediquei uma postagem sequer ao imenso talento de Ednardo.

Esse disco que divido com vocês, chama-se O Romance do Pavão Mysteriozo (1974). A mais famosa das canções, título do disco, foi gravada por Ney Matograsso. Mas, esse disco é de uma riqueza, de uma brasilidade incomum. Tem músicas de frevo, rock e cantoria. Atabaques e oboés dividem o mesmo espaço em harmonia. A bela voz de Ednardo, aliado às suas composições cheias de ricos significados, preenchem completamente o ambiente. Escuto esse disco há um ano e meio e, tenho certeza, estou muito longe de enjoar. Pra quem conhece, essa minha resenha é inútil. Mas, pra quem nunca se permitiu, taí uma boa oportunidade. Ednardo é cearense e começou a carreira musical junto com Belchior e Amelinha, num projeto chamado Pessoal do Ceará.

Sempre tento compartilhar com os amigos as músicas que gosto. Culpa desse meu espírito de DJ (o espírito de Portanov ainda ronda). É isso, não quero ficar enchendo linguiça. Espero que Ednardo não fique chateado por eu estar colocando suas músicas pra outras pessoas sem que ele ganhe nada com isso. Portanto, se vocês gostarem da música, comprem o CD. E Ednardo, faça um showzinho aqui por Pernambuco!

CD de Ednardo, O Romance do Pavão Mysteriozo (1974): http://www.4shared.com/file/9pLW9pw7/Ednardo_-_O_Romance_Do_Pavo_My.htm


terça-feira, 6 de julho de 2010

Fronteiras

Nesses tempos de Copa do Mundo (calma, sei que ninguém agüenta mais falar sobre isso!), é comum grupos de amigos se reunirem e debaterem sobre os países envolvidos na competição. Fazemos escolhas por determinada seleção e, de repente, parece que a Eslováquia ou Gana estão tão próximos de nós. Questionado se torceria pela Alemanha ou a Argentina, declarei-me torcedor da seleção européia, e alguns amigos questionaram que eu não tinha espírito latino-americano. Pois bem, não tenho mesmo! Como morador do Recife, sinto-me mais próximo da cultura africana e ibérica do que dos países do Cone sul. Além do mais, a convivência com outros sulamericanos é acidental. A pessoa mais próxima que tive/tenho contato é o colombiano Castro, uma figura de uma riqueza de personalidade incomum. No mais, se não fosse por Jorge Luís Borges e Julio Cortázar, a Argentina seria tão distante quanto a Mongólia.

Com o advento da era pós-moderna, as fronteiras caíram e as peculiaridades tendem a se tornar cada vez mais homogêneas. O cidadão de qualquer metrópole há de se entender, desde que encontre uma língua em comum, nos trâmites culturais com seu interlocutor. E não digo isso apenas em relação a outros países. Recentemente, em visita ao Vale do Piancó, na Paraíba, terra de meus ancestrais, tive a oportunidade de verificar a modernização do cotidiano de uma pequena cidade como Boa Ventura, que consta seus quase dez mil habitantes. Quando era criança e visitava a cidade dos meus pais, era levado para a missa com a melhor roupa, normalmente uma camisa de linho abotoada até o pescoço que me deixava num fricote aperreado. Depois, ia brincar na praça da cidade, onde muita gente se sentava pra assistir o Jornal Nacional na televisão pública. A trilha sonora desses momentos era o forró, que à época nem se chamava pé-de-serra, pois não havia o forró eletrônico naquele vale. Não quero parecer excessivamente romântico, mas hoje, bem ou mal, a missa é freqüentada por uma população senil que olha com desaprovação a indiferença dos jovens que passam o dia nos bares ouvindo em suas camionetas com sons explodindo pra todo lado, músicas que falam de raparigas, cachaça e carros potentes. A televisão pública é dispensável, pois todos têm televisão em casa com antenas parabólicas. Quem sou eu para julgar se estão certos ou errados, se não vivo a realidade deles? Mas, a distância cultural entre um jovem de 25 anos de Boa Ventura e de Recife foi reduzida imensamente, havendo ganhos e perdas nessa constatação.

Sinto vontade de afirmar àqueles que esperam alianças com o vizinho apenas pela proximidade de nossas residências, que essas fronteiras me são indiferentes. Há uma nova terra fronteiriça que eriça de minha pele, que escapa aos muros e cercas, mas que constitui o verdadeiro terreno de minha existência (e sei não apenas minha). Um mundo que se apinha e se choca entre a tradição e a modernidade, entre o Engenho do Meio e o planeta, entre o apego e a vivência num mundo de eternas mudanças. Entre o ideal e o real, existe ainda um abrigo seguro para poucas almas, o mundo das artes eternas, onde as fronteiras não levantam as barricadas, a morte não encontra o tempo e o homem sobrepuja a nacionalidade.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Semana Braba

Hoje completa uma semana que uma seqüência de fatos tem me tirado o juízo. “Esse azar sobre você como uma nuvem que não chove.” Na última quinta dirigia-me para a Ilha de Itamaracá intencionando divertir-me com uma rapaziada que alugou uma bela casa na praia de Enseada dos Golfinhos. Tudo perfeito, carro cheio: ventilador, colchonete, roupas de banho, amig@s. Mas, quando passava por Igarassu, meu fusquinha Jesus resolveu me abandonar. Na realidade, sou o culpado de tudo, pois esqueci de colocar óleo no motor. Tudo bem, já tenho me penitenciado todas as horas por essa idiotice. Resta-me esperar um milagre e que Jesus não tenha batido o motor. Ainda preciso fazer o reboque de Igarassu até a casa do mecânico Zezinho, homem de confiança de toda minha família há uns trinta anos. Ele me deu uma esperança que talvez resolva. Mas, falta-me a grana pra rebocar o abençoado do Fusca.

Não satisfeito com esse imbróglio em quatro rodas, minha cadela Lilica faleceu após quase 12 anos de convivência conosco. Uma morte triste e lenta. Tão lenta que tivemos que acelerar pra evitar o sofrimento da nossa amiga. Acredito que ela estava com algum câncer, porque muito rapidamente a pobre cadela definhou. Em cerca de três meses, ela tornou-se muito magra, quase que só com os ossos. Já não escutava nosso chamado, teimava com qualquer coisa. Ela nunca foi uma cadela obediente. Desde a primeira semana em que chegou aqui em casa no ano de 1999, mordia todo mundo com seus dois meses de vida. Minha mãe decretou que ela deveria voltar pra casa dos donos. Levamos, mas na primeira noite, sentimos falta dos seus dentes em nossos calcanhares. Fomos buscá-la no outro dia. Ela fazia companhia a todos. Entendia a linguagem dos homens. Quando a gente dizia a palavra “banho”, ela se emburacava embaixo de alguma cama e mordia quem se aproximasse. Eu fui vítima de suas mordidas umas boas cinco vezes. Lilica era uma vira-lata muito bonita. Seu pai era um russkie siberiano e sua mãe uma doberman. Sua vida de exclusividade canica ficou ameaçada com a chegada de Bianca, uma pitbull que hoje tem quase quatro anos. Ao contrário do que se possa imaginar a maioria das pessoas pela propaganda negativa que a televisão faz contra essa pobre raça canina, ela é mansa. Sempre foi criada solta, brinca com minha sobrinha de dois anos e é extremamente obediente, muito mais do que a recém-falecida Lilica.

Ontem, Lilica amanheceu muito debilitada. Não conseguia se levantar. Minha mãe colocou um pires com leite. Ela bebeu e vomitou. Seus olhos sempre tão espertos, estavam longe, pouco se mexiam. Sua respiração era lenta. Chovia e ela não saia da garoa. Uma situação de cortar qualquer coração. Resolvemos que seria melhor sacrificar a pobre cadela. Fui chamar a veterinária. Ela disse que chegaria em meia hora na nossa casa. Minha irmã começou a chorar. Minha mãe disse que ia embora pra não ver. Eu fiquei olhando pra ela. Deitada no chão. Ela não tinha consciência que aquela era sua última meia hora de vida. Independente da “vontade superior”, nós estávamos delimitando sua vida e sua morte. Aquilo me constrangia deveras. Pensava que poderia ligar pra doutora e cancelar aquele ato fúnebre de caridade. Talvez ela se recuperasse e voltasse a engordar e ter alegria. Trancamos a pitbull no quintal pra que ela não presenciasse o óbito de sua amiga cotidiana. A doutora chegou. Muito educada, tratou de me explicar como seria todo o processo. Reconheceu Lilica. Disse: “Ah, eu me lembro dela lá no consultório!” Lilica nunca teve problema de saúde, era um vira-lata legítimo! Deve ter ido com minha irmã tomar banho e cortar o pêlo. A doutora pegou na sua pata, ela deixou sem resistência. Aplicou a injeção com anestésico. Ela soltou um grito uivado. Levantou a cabeça. Parecia que estava percebendo o que estávamos fazendo. Que estávamos tirando sua vida. Olhava penosamente para mim, à medida que ia descansando sua cabeça no chão, revirou o corpo pela última vez. Naquela manhã, era a primeira vez que a via mudar de posição. A doutora aplicou a segunda injeção com o veneno. Ela tentou esboçar uma reação. Esticou-se, abriu o focinho e esticou a língua, urinou-se deitada no chão. Seus olhos foram ficando cada vez mais distantes. Naquele momento, pensei nos dias em que estivemos juntos. Nas madrugadas em que eu abria a porta do meu apartamento, sentava-me na escada e ficava a olhar para o céu. Contava-os aviões que chegavam. Enquanto um voava sobre minha casa, outro já se avistava no horizonte, pequenino, como uma estrela cintilante que se aproxima. E Lilica ficava ao meu lado, sentada, certamente a pensar no universo que compõe seu mundo canino. Agora, ela se estirava pela última vez, naquele chão molhado de manhã chuvosa, garoa triste que acompanhou seu passamento. Já não respirava nem esboçava sinal de vida. Morreu com os olhos abertos, olhando pra longe. O que se passava em seu pequenino cérebro naqueles vinte segundos em que acompanhou sua despedida da vida. Via sua vida se esvaindo e ficando apenas aquele físico preto, os olhos abertos. Minha irmã gritava de tanto chorar. O homem da carroça pegou-a e colocou no saco. Prometeu-nos que iria enterrá-la. Pagamos ao homem e a doutora. Ficou um espaço a menos em casa. Normalmente, a vida de um animal tem menos valor do que a de um ser humano. Aliás, que valor o resto da natureza tem para nós?! Saí pra passear com a outra cadela, Bianca, que até agora está triste e chorona. Na minha cabeça, tomei a melhor atitude em poupar seu sofrimento, mas desde ontem, a luta da cadela, mesmo naquelas condições fragilizadas, pela vida me comoveu. Ela parecia querer sugar um resto de alguma coisa que talvez só ela soubesse que existia.

Passei todo o dia de ontem numa tristeza medonha. Pra completar, esse computador em que escrevo, não satisfeito com os problemas que me assolam, resolveu parar de funcionar. Meu amigo Juca (quem precisa consertar computador ligue para 81-8785 9785) esteve aqui, mas me avisou que meu HD está querendo morrer (dessa vez não vou sacrificá-lo). Preciso de um novo, de fazer logo um backup deste. Foda! Mais um problema. Enquanto escrevo essa postagem, meu computador já desligou sozinho uma vez. Só me falta essa! Já não me bastasse os débitos de dinheiro emprestado que pego com amigos, meu carro lá em Igarassu necessitando de reboque, a falta de dinheiro pra recarregar o celular, a internet atrasada onde fico suplicando aos funcionários do provedor que esperem mais uma semana, e minha bolsa que sairá semana que vem, findará tão breve o dinheiro caia na minha mão. A dissertação... prefiro nem comentar! Estou com centenas de anotações e citações, mas que não consigo ter a mesma desenvoltura que tenho pra escrever essa postagem, onde as palavras vomitam espontaneamente. Sempre coloco um imenso peso na primeira fase, de maneira que ela ainda não saiu. Enfim, estou prestes a enviar meu ceticismo para as cucuias e ir num terreiro forte pra tirar essa urucubaca. Por hoje é só. Espero que em breve possa aparecer por aqui com notícias mais consoladoras e um mínimo de instabilidade. Durante muito tempo, estive a procura de uma namorada, achando que a estabilidade amorosa me faria bem. Mas, calejado como estou, o melhor é ficar sozinho, deixando para a aleatoriedade da vida, os prazeres momentâneos. Nada de eterno! Adeus!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Do the Evolution


Assim como a maioria dos brasileiros e boa parte da população mundial, tenho acompanhado com fervor os jogos da Copa do Mundo 2010. Uma competição que começou fria, com jogos parados, times pouco ofensivos e uma culpada pela baixa qualidade técnica, a pobre coitada da bola Jabulani. Terminou a primeira fase e amanhã se realizará a última partida das oitavas de final entre Portugal e Espanha. Na hora da onça beber água, as grandes seleções mostraram suas garras: Brasil, Alemanha, Holanda e Argentina seguem favoritas. A França que entrou pela porta dos fundos com a ajuda da arbitragem e a Itália que ganhou a última Copa com um futebol pouco acima do regular, estão ausentes da disputa pelo título. Mas, o que mais me chamou a atenção nessa Copa foi a discussão sobre os erros de arbitragem.

No mesmo dia, um domingão de Copa com dois jogos entusiasmantes, o mundo constatou, perplexo, como é frágil a justiça também dentro das quatro linhas. A televisão com suas milhares de câmeras não deixa escapar absolutamente nada, desde os 33 centímetros que a bola entrou no gol não marcado da Inglaterra, como a mastigada de catota do técnico da Alemanha. Enquanto assistia o jogo com amigos em Itamaracá, surgiu a discussão se a televisão deveria interferir na decisão do árbitro ou não. E aí, gols históricos como “a mão de Deus” de Maradona em 1986, o “gol” da Inglaterra na final da Copa de 1966, não seriam mais validados. Em compensação, a justiça se aproximaria cada vez mais do ideal de perfeição futebolística, onde o melhor deveria vencer.

Será que foi a justiça que fez o futebol se tornar o esporte mais popular do mundo num intervalo de 150 anos? Na minha opinião, o erro faz parte do espetáculo. Se um médico soubesse que uma cirurgia terminaria no óbito do paciente, pensaria duas vezes em executá-la, assim também, o ladrão que amaldiçoa sua infeliz idéia de ter saído para assaltar sabendo do risco de cair na vigilância total da prisão. O erro intencional é o mais perigoso, a meu ver. A mão de Henry que colocou a França na Copa tem cheiro de dinheiro, de mutreta, de acordo comercial. Ora, a França é um mercado bem mais interessante que a Irlanda! Juízes comprados teriam suas vidas dificultadas pela intervenção da televisão.

A grande fascinação do futebol é que ele é o único esporte em que um time A ataca 30 vezes e um time B ataca apenas uma vez e pode sair vencedor. Ele é imprevisível, assim como quem será o vencedor do confronto entre Argentina e Alemanha. O futebol é amado porque é fatalista, injusto, cheio de “campeões morais”, enquanto faz a fama dos doces malandros e desonestos. Romário, Garrincha, Maradona, Stoichkov, nunca foram exemplos de seres humanos galhardos, mas ali dentro, foram os grandes mestres. É jogo, é coisa do diabo, de gente enganadora, que esconde a bola embaixo dos pés. O futebol é maldito. Em sua imperfeição, nós o amaremos até o fatídico dia em que ele for falível.

Porém, o futebol caminha para o mesmo caminho que o Homem: o da adaptação tecnológica. O impedimento de 3 centímetros, o pênalti que só a câmera que se sustenta na marquise do estádio pode flagrar, o escanteio que resvalou na orelha de um zagueiro... nada escapará aos vigilantes olhares dos sedentos de justiça, dos vingadores. Quem garante que o mesmo chip colocado dentro da bola pra delimitar o gol, não pode dar uma desviada no trajeto da bola pra beneficiar o país-sede, por exemplo? A desconfiança continuará.

domingo, 13 de junho de 2010

Nostalgia

Cena 01. Andrei:

Na infância eu havia adoecido. Montanhas de medo na minha memória. Recordo-me de um frescor. E caminho, caminho... ora me vejo sentado na escadaria, ora caminhando em delírio. De repente sinto calor, desabotôo o colarinho... Eis que soam as trombetas, uma luz se move... minha mãe está lá, pairando sobre a rua e acena com as mãos. E já se vai voando! E agora eu a vejo em sonho toda de branco. Na infância eu havia adoecido...

Cena 02. Domenico:

Qual ancestral fala atrás de mim? Eu não posso viver ao mesmo tempo com a minha cabeça e o meu corpo. Por isso não consigo ser uma só pessoa. Sou capaz de sentir infinitas coisas ao mesmo tempo. O grande mal de nosso tempo é não haver mais grandes mestres. A estrada de nosso coração está repleta de sombras. Devemos ouvir as vozes que parecem inúteis e que no cérebro cheio de coisas aprendidas na escola, no asfalto e na prática assistencial, e com o zumbido dos insetos que entram na minha orelha. Precisamos encher os olhos e as orelhas daquelas coisas que existem no início de um grande sonho. Todos devem gritar que construiremos uma pirâmide, não importa se não a construirmos! O que importa é alimentar os desejos, temos que tirar a alma de todas as partes, como se fosse um lençol que cobre o infinito. Para o mundo ir em frente, devemos dar as mãos, misturar os assim chamados sãos, com os que são chamados doentes. E vocês sãos, o que significa a saúde? Todos os olhos do mundo vêem o precipício em que estamos caindo. A liberdade é inútil, se não tem coragem de olhar com os olhos da face, e de comer conosco, e de beber conosco, e de dormir conosco. Os assim chamados sãos, foram os que conduziram o mundo a catástrofe. Homem, escute! Em você, água, fogo e depois cinzas. E os ossos dentro das cinzas. Os ossos e as cinzas!

Cena 03. Domenico:

_ Onde estão quando não estão na realidade e nem na imaginação? Faço um novo pacto com o mundo: que haja sol à noite, e que neve em agosto. As coisas grandes acabam, só as coisas pequenas ficarão. A sociedade deve se unir novamente, e não continuar fragmentada. Vamos observar a natureza, pois a vida é simples, devemos voltar ao começo, ao ponto onde pegaram o caminho errado. Devemos voltar as bases principais da vida, sem sujar a água. Que raio de mundo é esse, se um louco lhe diz que devo envergonhar-me! Música agora.

_ Música! Música!

_Tinha me esquecido disto. Oh, mãe! Oh, mãe! O ar é aquela coisa rápida que gira em torno da cabeça, e se torna mais clara quando você ri.

(Domenico ateia gasolina sobre o corpo)

_ A música não está funcionando. Ajudem-me!

(Corpo em chamas. Nona sinfonia de Beethoven. Allegro Assai)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Insídia Divina

Bordejando o rebentar das ondas,

um casal perdido na praia.

Em seus braços, a decepção mortal,

uma estátua de Deusa.

O belo sexo,

marmóreo,

oração da perfeição,

semblante da serenidade.

No seu olhar,

recôndita saudade dos fugidios amantes.

Em busca de uma teogonia,

atormentado,

clama aos céus,

clama ao sol:

detêm-te!

Mas, só a beleza é infinita.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Demônio

"Quando não me era ainda insossa
cada impressão da vida outrora
- rumor de bosque, olhar de moça,
canção de rouxinol na aurora -
e quando a liberdade, o amor,
a glória, as artes, o melhor
da inspiração e altas idéias
turvavam-me o sangue nas veias,
um certo espírito nefando,
trazendo angústia e me anuviando
horas confiantes de prazer,
passou, em sigilo, a me ver.
O nosso encontro era sombrio
e ele sorria com o olhar
cheio de escárnio ao me instilar
dentro da alma um veneno frio.
Pois caluniava sem receio
e desafiava a Providência,
julgava o Belo - um devaneio,
a Inspiração - tolice imensa,
o amor e a liberdade - vis.
E, olhando altivo, com profundo
desprezo, a vida, ele não quis
abençoar nada em todo o mundo."

Aleksandr Sergueievitch Púshkin, poeta russo.

tradução de Nelson Ascher e Boris Schnaiderman.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Musgo

No ano passado, para a vergonha do avô com quem morava, além do irmão, Alceu, Maria Aparecida fora mãe solteira. Dera a luz a uma menina, Nina, uma criança esperta de um ano e oito meses. O avô, um homem de mais de oitenta anos que se locomovia tão vagarosamente quanto uma tartaruga velha devido à artrose, cansava de aconselhar a neta para que não engravidasse muito jovem, de um pai qualquer, assim como sua mãe, Antônia, que falecera havia quatro anos por conta de uma infecção hospitalar no Hospital Getúlio Vargas. O velho usava seu próprio exemplo, tinha sido pai já com mais de trinta anos: “Tenham paciência, arranjem um emprego antes de ter menino.” Mas, Cida não ouvia seus conselhos e foi mãe com um pai qualquer. O velho passara algumas semanas sem falar com Cida durante a gravidez, mas à medida que a barriga crescia, seu coração amolecia. Coisas de gente velha, que não tem tempo pra guardar rancor. O velho, os dois netos e uma criança.

Eles moravam no Beco da Periquita, um logradouro no bairro da Várzea, constituído de pequenas casas dispostas muito próximas umas das outras. Uma rua estreita onde só passa moto e bicicleta. Na verdade, a “rua” é formada por placas velhas de concreto, onde segue, por baixo, um canal com água de esgoto, adicionados ao curso de um antigo riacho. Uma água meio verde, lodosa, pegajosa, que de vez em quando desfere um cheiro fétido para as residências. Como as placas são muito antigas, entre as rachaduras e falhas no concreto, os moradores observam aquele movimento quase silencioso das águas lodosas carregando lentamente o lixo das casas, algum pequeno animal morto ou a espuma branca dos shampoos e dos detergentes que saem das casas.

Apesar das dificuldades de se viver nesse ambiente, estava sendo um dia animado no Beco da Periquita. Nos últimos dias, tinha chovido bastante, até o riacho tinha ficado mais barulhento. Porém hoje, o sol deu o ar da graça. As crianças corriam de um lado de um pro outro, umas, à pé, outras, de bicicleta. Na frente das casas, senhoras corpulentas conversam sobre os mais variados assuntos, desde o aumento do preço do pão às fofocas e rixas entre vizinhos que vivem tão perto, dividindo suas realidades. No dia que Cida ficou grávida, a discussão com seu avô e seu irmão foi tão acalorada que todo o Beco descobriu que a moça estava barriguda. No dia seguinte pela manhã, enquanto ia comprar o pão, uma vizinha mais assanhada perguntou com uma risadinha cínica: “E aí, Cida, qual vai ser o nome do bebê?”

Cida trabalha de manicure e pedicure. Atende na residência dos clientes. Fica sonhando em abrir um salão na Avenida Polidoro. Já até conversou com sua amiga, Shallyene, que é cabeleireira, pra montarem um negócio e garantirem seu sustento. Mas, é preciso dinheiro pra começar e ela não consegue nem juntar com tanta despesa que tem com a criança. Seu irmão, Alceu, conseguiu convencer a tartaruga velha a tirar 79 reais da sua aposentadoria de 515 reais, para pagar uma moto num consórcio. Nesse último mês, a moto de Alceu saíra. Dizia para o avô que quando tivesse uma moto arranjaria um emprego mais facilmente. Agora, ele passa o dia na entrada do Beco, mostrando sua moto para as mocinhas que pedem para dar uma voltinha. De emprego, até agora, só apareceu uma proposta: seu melhor amigo, Fábio, convidou-o para fazer um assalto numa farmácia lá no Engenho do Meio. Uma parada rápida, não tem nem segurança, nem câmera. Alceu pensou nisso todos os dias, mas não teve coragem. Fábio acabou arranjando outro comparsa.

Às nove horas, Cida saiu para fazer as unhas de uma cliente em Camaragibe e deixara a criança sob os cuidados de Alceu e do avô. O rapaz pegou sua moto e foi brincar com a menina na garupa. Ele sabia que a sobrinha fazia sucesso com as garotas que passavam. Vrum! Vrum! E Nina desatava a rir! “Axeu, Axeu, vrum, vrum!” O velho saiu de casa com muito esforço pra ajudar Alceu a observar a menina. Estava olhando-a de longe, na porta de casa. “Bijô, Bijô!” A menina desceu da moto e partiu em direção ao “bijô”. Nina correu a todo vapor, trôpega, cambaiando no Beco. A casa ficava do lado direito do Beco e a menina, como um carro dasalinhado, quanto mais queria ir para a direita, mais se movia para a esquerda. Em seu olhar, via a imagem do bisavô, tremendo em sua saltitância. O que era o chão para Nina?

No concreto rachado, o espaço moldurado para o seu corpo. Alceu corre em direção ao buraco e abandona a moto no chão. A tartaruga velha se comprime dentro do casco, sem forças. O rapaz enfia a mão na água lodosa, tenta tatear o corpo macio, a água verde e cheia de musgo e fedor não o incomoda. Está atarantado. A gritaria toma conta do Beco. Traz uma marreta, Luiz, rápido! O rapaz tenta colocar as pernas dentro do buraco, procura aquele corpinho macio de criança e só encontra o líquido pegajoso. Levanta-se desesperado e tenta achar novas frestas na calçada. Em vão tenta arrancar com as mãos a placa de concreto. O homem da marreta chega.

Enquanto isso, Cida estava voltando pra casa. Mentira que iria atender uma cliente em Camaragibe, tinha ido ao Hospital Barão de Lucena. No ônibus pensava como iria dizer ao avô que estava grávida de novo de outro filho sem pai.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Солярис - Tarkovski




Na biblioteca da Estação Solaris, que orbita no homônimo oceano espacial, estão reunidos os cientistas Snaut, Sartorius e Kris Kevin, além da “visitante” Hary. Segue-se o diálogo com a entrada de Snaut na biblioteca:

Snaut: Já estão todos aqui?

Sartorius: Chegou uma hora e meia atrasado.

Snaut: O que está lendo? (para Kevin) Nada disso presta. Nada. E o... onde está? Eis isto aqui. Só vem à noite, mas precisamos de dormir. Esse é o problema: o homem perdeu a capacidade de dormir! Lê, estou um pouco excitado.

Kevin: “Só sei uma coisa, senhor. Quando estou a dormir, desconheço o medo, as esperanças, os trabalhos e a beatitude. Agradeço a quem inventou o sono, esta única balança que iguala um pastor a um rei, um imbecil a um sábio. Mas também tem o seu lado negativo: parece-se muito com a morte.”

Snaut completando a citação: “Nunca antes, Sancho, se pronunciou discurso tão gracioso.”

Sartorius: Muito bem. Deixam-me falar ou não? Bebamos ao corajoso Snaut, pela sua fidelidade ao dever. À ciência e ao Snaut!

Snaut: À ciência? Tolice! Na nossa situação, o gênio e a mediocridade seriam por igual impotentes. Dizemos que pretendemos conquistar o Cosmos. Na realidade, só queremos aproximar a Terra das fronteiras dele. Não nos importam outros mundos. Não precisamos de outros mundos. Queremos é um espelho. Procuramos um contato, mas nunca o encontraremos. Estamos na situação idiota de quem aspira um objetivo, que se esforça por uma meta que teme, e que não necessita. O homem precisa do homem! Bebamos ao Guibarian. À sua memória! Apesar de ter perdido o ânimo.

Kevin: Não, Guibarian não perdeu o ânimo. Há coisas piores ainda. Morreu porque não via a saída. Não sabia que isto não acontecia apenas a ele...

Sartorius: Meu Deus! Estas dilacerantes variações dostoievskianas são um absurdo! Não estará a exagerar? Eu sei porque estou nesse lugar: para trabalhar. O homem foi criado pela Natureza para a conhecer... O homem está cada vez mais perto da verdade. Está condenado a conhecê-la. Todo o resto é extravagância. Posso fazer uma pergunta? Por que veio a Solaris?

Kevin: Não entendi.

Sartorius: Bem, está a trabalhar muito? Nada vê além da sua ex-mulher. Nada mais parece importar-lhe. Passam dias deitadinhos na cama. É assim que pensa cumprir o seu dever? Tenho perdido o senso da realidade. Perdeu a noção da realidade. É um preguiçoso, nada mais.

Snaut: Basta! Estamos bebendo pelo Guibarian.

Sartorius: Não, ao Homem.

Kevin: Acha que o Guibarian não era Homem?

Snaut: Basta, Kris! Deixemos as discussões. É o meu aniversário, afinal de contas.

Hary: Pois é. O Kris parece mais conseqüente do que vocês dois. Continua a ser humano, apesar dessas condições desumanas. E vocês limitam-se a fazer de conta de que nada têm a ver com isto. Para vocês, as “visitas” são uma coisa estranha, irritante. Mas, as “visitas” são vocês próprios, são a vossa consciência. O Kris me ama. Aliás, é possível que não me ame, que apenas se queria defender de si próprio. Que queira que eu, viva, substitua... o problema não é esse. As razões que levam o homem a amar não interessam. É diferente para cada um. O Kris nada tem a ver com isso. Vocês são... odeio-vos!

Sartorius: Queria pedir-lhe...

Hary: Não me interrompa! Sou mulher, apesar de tudo!

Sartorius: Não é mulher, nem humana. Tente compreender, se é capaz de compreender seja o que for. Hary não existe! Morreu! E você não passa de uma simples réplica dela. Uma repetição mecânica! Uma cópia! Uma imitação!

Hary, chorando: Sim. Talvez. Mas eu... estou me tornando humana! Não sinto menos do que vocês. Acreditem. Já posso viver sem ele. Eu... estou a amar. Sou humana! Vocês... são muito cruéis.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Um Superego Severo

Antônio Bonfim é um rapaz recém concursado da nossa cidade. Durante a vida toda, sobreviveu de mesada curta, se preocupava mais com a matemática do que a aparência. Seus pais moravam em Campina Grande. Tinha vindo para Recife fazer faculdade de Engenharia da Computação. Antônio era um rapaz de vinte e cinco anos e tinha acabado de passar num concurso para técnico de computação do Ministério Público. Ele que até então, vivia com o baixíssimo ordenado enviado com muito suor pelos pais, se via diante da independência. O que para a maioria dos homens se tornaria uma fortuna do destino, para Antônio representava um ligeiro embaraço, ao primeiro olhar.

Antônio estava muito longe de ser um rapaz fascinante. Era de estatura mediana, quase pequena. Seu porte físico não era magro por completo, porém chamava a atenção o jeito arqueado que se punha a andar. Talvez fruto das madrugadas que ficava acordado fazendo exercícios matemáticos no tempo em que freqüentava a Escola Técnica. Seu peito, ao contrário do padrão estufado dos nossos dias, parecia comprimir-se ao centro, murcho. Seu cabelo castanho não tinha brilho. Seu rosto demonstrava um desdém absoluto com relação à estética da sedução. Ele nunca tinha posado para aquelas fotos de sites de relacionamento dando aqueles sorrisos altaneiros. Seu sorriso era sempre tímido, pra dentro. Quase nunca achava um motivo pra se alegrar. Como vivia com pouco dinheiro, passava o dia em casa, de frente pro computador, jogando, estudando. Certa vez, conhecera uma moça nos corredores do prédio onde morava. Um prédio antigo, com apartamentos de um ou dois quartos, de aluguel barato. Estranhava o movimento de homens entrando e saindo no apartamento vizinho. Antônio se deu conta que sua vizinha era garota de programa. Uma vez por mês visitava-a. No começo, tentou freqüentar festas no Recife Antigo, mas sentia-se tão deslocado e diferente dos padrões da moda que decidira que o pouco dinheiro que restava com o lazer usaria de forma mais direta. Passou a visitar a casa de Shakira uma vez por mês. Ia no dia que ela tinha menos clientes, pois podia ficar mais tempo. Às vezes numa segunda ou terça-feira.

Dia desses, o primeiro salário de Antônio saiu. Ele foi ao centro da cidade comprar roupas, pois há quase um ano não adquiria peças novas. Além do mais, trabalhando cinco vezes por semana, teria que ter mais roupas do que habitualmente. Passou na frente de uma loja com vários jovens comprando roupas da moda: calças com rasgões alinhados e costuras bem transadas. Camisas cheias de números coloridos e desenhos de gostos duvidosos que vão de dragões cuspindo fogo às imagens de deuses indianos. Ao reparar-lo na entrada da loja, a vendedora se aproximou, fitou-o dos pés à cabeça. Ele estava como habitualmente: com um tênis branco meio surrado, uma calça coronha azul escura e uma camisa pólo que pelo modo encurvado como andava deixava uma mossa de ar no centro do seu peito. A vendedora desfez a cara de espanto - mais uma moça bonita que não gostava de estudar - e perguntou: “Oi amigo, vamos entrar na moda!?” Antônio olhou rapidamente os manequins e partiu da loja tão depressa quanto pudera. Sabia que aquele tipo de loja com muitos jovens descolados não serveria pra ele. Então, resolveu ir numa dessas grandes lojas que vendem todo tipo de roupas e sapatos, de maneira que rapidamente poderia se livrar do tormento de estar em contato com a opinião dos vendedores.

Antônio comprou quatro tênis, todos brancos, quatro calças jeans azuis e várias camisas pólo. Como suas pernas eram finas, todas as calças ficavam com espaços nas pernas, caberiam duas canelas dele ali. Dirigiu-se à parada de ônibus e tomou o ônibus para o subúrbio. Morava na zona oeste da cidade, perto da Universidade, de maneira que assim economizava as passagens caminhando até o centro de estudos. O ônibus quase vazio. Sentou-se ao seu lado uma senhorita vigorosa, bem-apessoada, uma moça que chama a atenção por onde quer que passe. Era relativamente alta - para Antônio era imensa - tinha os cabelos lisos e longos, castanhos, os olhos meio verdes, meio cor de mel. Usava uma calça jeans que se completava com seu corpo cheio, volumoso, viril. Usava uma sandalinha daquele tipo Melissa e uma blusinha que salientava seu busto bem delineado. Onde quer que ela passasse chamaria a atenção. Antônio percebeu-a quando tomou a direção da porta do ônibus. Pensou consigo: “Nossa, essa poderia estar na capa de uma revista!” Ela pagou a passagem e sem olhar pra ninguém se encaminhou na direção de Antônio. Sentou-se ao seu lado e permaneceu em silêncio por um bom período.

Antônio cheio de sacolas se espremia na cadeira para não incomodar a jovem dama. A moça ofereceu-se pra carregar uma ou duas sacolas. Quando ela começou a falar, Antônio percebeu que ela não era de Recife, seu sotaque era de alguma cidade do sul do Brasil. Antônio agradeceu e disse que podia carregar as sacolas sozinho. Antônio, decerto, não alimentava esperanças por aquela moça que deveria ser tão cobiçada. E sem o afã dos que tudo almejam, perguntou: “Você não é daqui também, né?” A moça disse que era de Curitiba. “_Ah!” E sem muito o que dizer, disse que era de Campina Grande. Também não ousou perguntar mais. A moça, para sua surpresa, puxou assunto: “E você estuda na Universidade também?” Antônio disse que estava terminando o curso de computação. Ficaram nessa conversa mole, até que resolveram se apresentar. Ela se chamava Ludmila Cesnauskas, curitibana, descendente de lituanos, estava fazendo mestrado em nutrição. Tudo aquilo soava tão excêntrico e fascinante. Mas, Antônio era feio e, ainda por cima, totalmente desalinhado. Desceram na mesma parada e se despediram. Ela morava no prédio vizinho ao dele. Antônio desviou logo o pensamento: “Ah, essas moças bonitas. Só me causariam problemas.”

Para sua imensa surpresa, no outro dia quando voltava do trabalho, o porteiro do prédio chamou-o e disse: “Antôim, uma bichona bonita, grandona, veio perguntar se tu morava aqui. Ludmila.” Disse que era uma amiga da faculdade. O coração do rapaz quase saltou pela boca. Subiu para o seu apartamento e ficou boa parte da noite a imaginar o que aquela mulher queria com ele. Conhecera-a no ônibus. Não sabia nem o que dizer. Antônio ficou tenso: “Que tipo de assunto vou falar com ela? Não entendo de cinema de arte, nem de mestres da pintura, nunca tive uma amiga mulher. Nunca tive amigos próximos!” Procurou sua vizinha, pediu para passar a noite lá. Era a única pessoa no mundo que o entendia. Pagaria pra ser o único cliente. Na casa dela, perfumada e colorida, sentia-se à vontade. Na cama, enquanto Shakira cochilava ao seu lado, começou a imaginar como seria a vida ao lado daquela deusa lituana.

As imagens que surgiam, torturavam-no mais do que o agraciavam. Se ela gostasse de ir à praia, exibir seu belo corpo, todos os homens ficariam a admirar-la, os mais assanhados soltariam gracejos para o namorado ridículo que ela tinha. E em todos os lugares, não teria paz. Possuir aquela bela jóia significaria protegê-la, coisa que ele não se sentia capaz de fazer. E toda a maravilha que se aproximou de seus olhos, todo arco-íris de possibilidades se acinzentava ante a muralha de sociabilidade que se apresentaria. Não, justo ele que sempre gostava de ficar sozinho, no seu cantinho, sem ser perturbado por ninguém, como um hamster. Essa idéia de ser um hamster o agradava. Quando precisasse ser um homem, Shakira seria a mulher. Quando ela ficasse velha, arranjaria outra e não teria problemas. “Sim, eu irei enlouquecer com a lituana!” No outro dia, pela manhã, o porteiro foi avisado que se aquela moça perguntasse por ele mais uma vez, dissesse que ele não morava ali mais. Antônio chegou, pontualmente, no horário de trabalho.