quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Futebol do Nordeste

Ontem à noite desloquei-me da minha humilde residência para um barzinho perto de casa na intenção de acompanhar o jogo decisivo entre Botafogo FR e C Náutico Capibaribe pelo Campeonato Brasileiro de Futebol Profissional. Voltei pra casa irado, colérico e furioso com o árbitro gaúcho Leonardo Gaciba. O cidadão em questão garfou o clube pernambucano desde o começo do jogo: deixou de expulsar o goleiro do Botafogo, anulou um gol legal, marcou um penalty para o Botafogo, sem contar as faltas inexpressivas. Bem, não recorri ao blog pra chorar as dores de uma derrota futebolística, mas para levantar uma questão que, ao meu ver, diz respeito a todos os times de futebol da região nordeste: a decadência deste esporte na nossa região.

Náutico e Sport estão lutando de forma desesperadora para permanecerem na série A, contando com arbitragens bizonhas, tendenciosas mesmo, com quotas financeiras bastante humildes em relação aos times do eixo sul-sudeste, desprezo das mídias nacionais, entre outros fatores que dificultam nossa participação. Ou seja, dos únicos três times do nordeste que participam da série A, dois correm riscos seríssimos de serem rebaixados. Pela série B, o caso é ainda mais grave! Os quatro times que se encontram na zona de rebaixamento são da região nordeste, de maneira que, de todo jeito, pelo menos três times da região serão relegados à série C, entre os que disputam ferrenhamente contra a despromoção estão grandes equipes como Bahia e Fortaleza. Na série C, comendo o pão que o diabo amassou, está o Paysandu, outrora grande respresentante da região norte no futebol brasileiro. O que dizer do seu maior rival, o Clube do Remo? Este último, nem para a série D se classificou! Mas, o caso que mais chama a atenção é o do Santa Cruz FC. O tricolor do Arruda possui a maior média de público de todos os times do Brasil e não conseguiu passar da primeira fase da Série D. Desde o mês de agosto, o "santinha" não realiza uma partida oficial, limitando-se a jogar contra a Usina Catende e outros times do mesmo porte, com todo o respeito à cidade de Catende. O futebol da nossa região está, indiscutivelmente, em crise. Vocês concordam comigo ou estou falando uma inverdade?

Não passamos de mero coadjuvantes do futebol paulista, carioca, mineiro e gaúcho. Fazemos das tripas o coração para estarmos alí, participando daquela festa em que não somos bem-vindos. Somos penetras de uma solenidade que não foi feita para nós: matutos, ignorantes, irascíveis, bruta-montes, analfabetos do nordeste. Sempre que a imprensa do sudeste se remete aos nossos estádios e torcedores, falam como se fossemos uma horda magyar capaz de macularmos a grandiosidade do espetáculo feito apenas para eles. Ano passado, quando o Sport venceu a Copa do Brasil, a torcida rubro-negra da Praça da Bandeira sofreu diversos tipos de preconceito por parte da imprensa que se questionava se era seguro jogar naquele estádio onde a torcida gritava loucamente intimidando os jogadores sulistas. Será que os cangaceiros do nordeste vão invadir o campo e matarem nossos atletas?

Para mim, existe uma saída viável, cristalina e lucrativa para buscarmos nossa independência e identidade futebolística: é o Campeonato do Nordeste. A última edição deste Campeonato ocorreu em 2002 e foi um imenso sucesso, com grandes bilheterias, patrocinadores, motivação da imprensa local e grande rivalidade entre os clubes da região. O que falta, ao meu ver, para o Campeonato do Nordeste se constituir numa grande vantagem para os clubes locais é um passaporte para uma grande competição. É hora dos governadores do nordeste se unirem e requererem uma vaga para o campeão do Campeonato do Nordeste na Libertadores e duas vagas para o segundo e o terceiro colocado, respecivamente, na Copa Sulamericana. Com essas premiações, o Campeonato se tornaria incrivelmente viável. Pois, ao invés de um time do nordeste jogar a Libertadores de vinte em vinte anos, estaríamos lá todo ano, representados seja por Sport, Náutico, Santa Cruz, Bahia, Vitória, Ceará, ABC... grandes torcidas teriam grandes motivações para acompanharem seus times. Nossa região tem bons jogadores, bons técnicos, grandiosa platéia. O que falta para que consigamos a independência desse conluio que é Campeonato Brasileiro? Os times da nossa região enfrentariam os times do sul e sudeste pela Copa do Brasil que é, sim, uma competição democrática. Também enfrentaríamos os grandes times do sul e sudeste nas competições continentais. O Campeonato do Nordeste teria 7 meses de duração, com primeira e segunda divisão. Os campeonatos estaduais continuariam, a Copa do Brasil também. Ficaríamos livres de juízes mal-intencionados e imprensa bairrista. Essa é a solução que proponho, humildemente, através do meu blog. Até quando precisaremos do sul e sudeste para taxar o valor de nossa cultura e tradição?! Quem está comigo?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Batalia Bob Junior

Caramba, escrevi uma mega resenha sobre o álbum de Batalia Bob Junior e, sem querer, acabei apagando. O pior que estou numa semana muito corrida, são 23:09 e estou bêbado de sono. Mas, como um herói epopéico, ultrapassarei os limites carnais e vou postar sobre esse disco que tem uma mistura de macumba, samba e jazz, sensacional. De onde é esse cara? Cabo Verde? Angola? Bahia? Não sei, só sei que ele canta em português(?!). O sotaque dele é muito doido, o disco foi gravado em Paris em 1972 e não consigo achar quase nenhuma informação sobre esse disco no mundo virtual, exceto as que já repassei. No LastFM, sou o único ouvinte desse grande artista! Vocês sabem o que é LastFM? É um orkut de música (mais um!). Quem tiver e quiser me adicionar, aí vai meu link: (http://www.lastfm.com.br/user/dodofonseca). Falei em epopéia há pouco, só penso nisso! Há um mês que minha vida gira em torno da literatura épica, retórica clássica, semiotização literária. Poderia postar esse disco amanhã, fazer um texto cheio de floreios, mas se me adianto a escrever essa simplória resenha é porque tenho medo. Sim, tenho muito medo, meus amigos. Medo de mergulhar no mundo dos sonhos e ficar aprisionado por lá que nem o personagem de Waking Life. Para onde vão os sonhos quando nós acordamos e não recordamos mais do que uma neblina de lembranças? Será que vão para o mesmo vácuo indecifrável pra onde o antigo texto de Batalia Bob Junior foi? Coitado do antigo texto, tão medíocre, vagando por um suposição perdida. Meu Deus, relendo tudo o que escrevi, não disse nada com nada. Perdoem-me, mas isso sou eu, também. Mas, é isso, quero postar sobre esse disco aí. É uma macumba massa! "No mar eu encontro o peixinho..."


P.S.: Bebeto, você pediu uma postagem musical, lembras? Não é a 1812 de Tchaikovsky, mas é parecido! Tô me sentindo que nem Presto da Caverna do Dragão. Mais pedidos?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Dia do Professor

Quem inventou de colocar o dia dos professores no dia 15 de outubro, exatamente na metade do mês, quando o homenageado já não dispõe de quase nenhum recurso financeiro para formosear-se com seus confrades nesta data comemorativa? Talvez por isso as escolas dispensem nossos heróis da jornada de trabalho, escamoteando em forma de feriado a triste realidade desta data. Mas, mesmo assim, houve quem ligasse naquele sábado à noite para convidar nosso professor para uma noitada no Recife Antigo. Ex-colegas de faculdade, professores que também trabalhavam no serviço público acompanhados de suas esposas ou namoradas, formavam uma grande mesa que se destacava na Rua Tomazina. Nosso herói, um professor com seus 27 anos, recém promovido ao cargo na província de Pernambuco, um homem bem afeiçoado, de boa compleição física, homem de histórias, resolvera a contragosto encontrar os amigos que há alguma data não congreçava. Como o salário havia entrado na conta no final do mês de setembro, na metade de outubro, nosso herói teve que raspar o cofre para se arriscar na noite recifense.

O professor saiu com 15 reais na carteira, decidido a não beber, pois o dinheiro seria insuficiente, além do mais, seu cartão de passagem tinha quebrado na semana que findava e ele ainda haveria que pagar a passagem de ida e volta, de maneira que, resolutamente, só poderia gastar 11 reais naquela noite. Durante um longo período debateu-se, intrigou-se, se realmente valeria à pena sair de casa naquela situação. Porém, vencido pelo tédio, decidiu que arriscaria um passeio pelo centro da cidade. E lá estava na Rua Tomazina, meio desconfiado, a observar o movimento das moças bonitas e dos vendedores de loló.

Em pouco tempo, todos estavam se confraternizando, brindando ao Papa, contando piadas sobre judeus, e questionando o porquê do nosso herói não participar da pândega. Ele sem querer dizer o verdadeiro motivo, inventava uma desculpa qualquer e cinco minutos depois enchiam um copo para ele. Nosso herói sabia que se tomasse o primeiro copo, participaria da conta que daria no mínimo 20 reais por pessoa. Resolveu que daria um passeio pelas ruas do centro, disse que voltava já. Chegou no primeiro bar e pediu um quartinho de Pitú e um limão cortadinho. Estava louco de vontade de beber! Tomou a primeira lapada e deu uma chupada forte no limão que o fez arrepiar. Heya! Dá-lhe outra! 3 reais. Voltou à Rua Tomazina e já se sentia com outra disposição. Tirou uma moeda de 1 real e pôs no bolso, dizendo para si mesmo: “essa daqui é pra voltar pra casa.” No domingo, a tarifa do ônibus é pela metade, ou seja, 95 centavos. Ficava na mesa conversando, cada vez mais acaloradamente. Passou a pedir o quartinho de Pitú no bar em que os amigos se reuniam mesmo, lá o quartinho era um pouco mais caro, 2 reais e ainda teria os 10% do garçom. Mas, tudo haveria de se arranjar. Logo puxou assunto com uma professora meio dentuça que ele conhecia de vista da nova escola em que começara a trabalhar havia dois meses. Não era muito interessante, mas àquela altura da madrugada...

O pior que a professora ficou dando linha e puxando o anzol. Nosso herói se abusou e trocou até de lugar. Mulher complicada, deve ser cheia de problemas. Faltavam 5 minutos para as três da manhã quando, em comum acordo, todos resolveram pagar a conta. Nosso herói pagou 8 reais pelas cachaças que tomou e ainda possuía 2 reais. O bacurau das três já estava perdido. Nosso herói ainda podia tomar uma latinha de cerveja enquanto aguardava o último bacurau que sai às quatro da manhã do Cais de Santa Rita. Partiu para a Rua da Moeda. Tentou conversar com algumas pessoas, mas àquela hora seu aspecto deveria estar deplorável, sem contar o bafo de cachaça. Então, recostou-se no muro de uma casa abandonada e tomou sua cerveja, concluindo que os planos que fizera em casa e que o motivavam a não sair, se concretizaram. Ou seja, voltaria bêbado, não encontraria nenhuma garota interessante, não arranjara uma carona, a noite tinha sido uma merda e gastara os únicos 15 reais que dispunha.

A despeito de todas as maldições que confabulava consigo, resolvera de última instância, olhar a vida por outro viés. Tentara olhar o presente por um lado menos negativo e que ao menos possuía um emprego fixo, onde nunca seria demitido. Nessas meditações percebera que faltavam 15 minutos para as quatro horas. Resolveu se dirigir para o Cais. Atravessou a Ponte Giratória cantando uma música do U2 chamada Sunday Bloody Sunday, em homenagem ao novo dia.

Ao chegar no Cais, entre dezenas de ônibus, avistou logo o bacurau da Várzea e adentrou. O motorista tirando um cochilo na boléia, o cobrador do lado de fora comprando um picolé. Nosso herói ficou um tempo do lado de fora também, observando a gritaragem dos vendedores de café, pipoca, picolé, refrigerante. O Cais de Santa Rita, definitivamente, nunca dorme. O mau cheiro, a escuridão, os passageiros bêbados assim como ele, o cobrador subiu. Nosso herói seguiu-o e retirou a moeda de Um real que desde o começo da história guardara, garantindo seu retorno ao lar, entregando-a ao cobrador e esperando o troco de cinco centavos. O cobrador questionou: “cadê o resto?” Nosso herói, então, argüiu: “Ora, hoje não é domingo?! É meia passagem!” O cobrador que, provavelmente, deveria passar por aquela situação em diversas madrugadas de sábado para domingo, adquiriu uma feição insolente e disse que a meia-passagem só valeria à partir das cinco horas da manhã. O nosso herói ficou aperreado e correu para o porta-moedas da carteira. Tinha uma soma de um real e setenta centavos. Ainda faltava 15 centavos para completar a passagem! Nosso herói então, perguntou se poderia passar faltando 15 centavos, mas o cobrador disse que de maneira alguma. O ônibus começava a ficar cheio e a controvérsia entre cobrador e passageiro começava a chamar a atenção de todos dentro do veículo. Então, o nosso herói sugeriu ao cobrador que ele ficasse com o dinheiro e que ele ficaria ali, quietinho, na frente e desceria sem fazer alarde e que, ainda assim, o cobrador ganharia um trocadinho por fora. Mas, o cobrador decidido a manter sua moral inabalável perante os passageiros do ônibus, levantou-se, sua panóplia de orgulho resplandecera ainda mais, encaminhou-se para os degraus e ordenou ao passageiro que descesse imediatamente ou chamaria a polícia. Nosso herói estava prestes a chorar e argumentava: “Seu cobrador, o senhor vai me deixar aqui no Cais essa hora da madrugada? O próximo ônibus só vai passar daqui à uma hora e meia. Vou ficar aqui sozinho nessa escuridão por causa de 15 centavos?” O cobrador, cada vez mais orgulhoso de seu escrúpulo, dizia: “Bora boy, se tu num descer agora eu vou chamar a polícia!” A situação era irreversível, o orgulho do cobrador estava ferido e ele estava disposto a cumprir a lei à risca. Afinal, é a lei que move a vida dos cidadãos, ela é o dogma irrefutável da urbe e coitado de quem escapa à sua tirania!

Nosso herói já estava conformado com sua derrota quando um homem que acompanhava toda a desavença resolveu se levantar e entregar três moedas cor de bronze no valor de cinco centavos cada, finalizando assim o tão sonhado objetivo do cobrador, o número mágico, a razão transcendental de sua força de trabalho, o seu orgulho proletário, o Um real e oitenta e cinco centavos!! Ao estar de posse do dinheiro necessário, o nosso herói deixou de ser um homem submisso e toda a sua então humildade revertera-se numa cólera de fazer sublinhar as palavras de Hesíodo em suas análises sobre a fúria sentimental. O motorista tocou o ônibus e o cobrador sentou-se em seu lugar para receber as moedas e antes mesmo de se acomodar na cadeira, nosso herói lançou-lhe as moedas com toda a força no rosto, resvalando contra o peito e a janela que ficava ao fundo. Nosso herói, completamente enfurecido, bradava para todo o ônibus, a tremer de ódio: “Chama a polícia agora, seu filho de uma puta! Vai contar essa merda pra ver se tá certo! Tu nunca deixarás de ser um cobrador de bacurau, porque não mereces crescer na vida. Seu merda!” Todos no ônibus arregalavam os olhos diante da medonha cena que se desenrolava. Nosso herói repetia que o motorista parasse na polícia. "Parem! Parem! Vá dizer que eu não paguei!" Assim o transtornado gritava. O nosso herói indagou o cobrador: “Você sabe que eu sou? Eu sou um professor! E se me faltava 15 centavos para pagar uma passagem de ônibus é porque essa merda de país não valoriza a educação e um idiota como você não consegue abstrair o lucro que teu patrão tá ganhando nas tuas costas. Vai dizer pro teu patrão que tu ganhasse 15 centavos para a empresa e aguarda a recompensa que ele te dará!” O cobrador limitara-se a resmungar: “Tu és um liso.” O professor e o cobrador ainda trocaram farpas por alguns minutos até chegarem na primeira parada da Conde da Boa Vista, quando novos passageiros subiram e a turba se acalmou.

Ao chegar em casa, nosso herói muito abatido, sentira remorso de alguns palavrões proferidos. Todos haviam perdido. Gastara os últimos quinze reais que tinha até a chegada do próximo salário que viria em duas semanas e decidira que nunca mais sairia de casa enquanto não pudesse pagar o dinheiro do táxi.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Primeiro Aniversário do Blog

Em outubro do ano passado resolvi criar esse blog. Não imaginava quanto tempo duraria, quantas postagens iria publicar, se seria bem recebido pelos amigos e desconhecidos. Tinha a intenção de escrever sempre que possível para treinar para a prova da seleção do mestrado que estava a bater na minha porta. Quem visita esse endereço eletrônico deve reconhecer que a maioria das crônicas (que nome pesado para essa brincadeira) possui uma forte impressão das minhas visões de mundo. Talvez seja um defeito não conseguir me livrar da pessoalidade da visão de mundo, mas... é assim.

Neste mês de outubro em que escrevo agora, estou tremendamente ocupado com as entregas dos artigos do mestrado. Inventei de fazer um trabalho onde pretendo elencar os possíveis temas épicos no romance Os Irmãos Karamazov. Calma, antes que os xiitas da crítica dostoievskiana me apedrejem, devo adiantar que não pretendo analisar a obra como se tratando de um épico, pois trata-se de um romance autêntico. Mas, tentarei elencar algumas características épicas na temática do romance, como a recorrência ao relato histórico no capítulo do Grande Inquisidor, além do referencial mitológico, também nesse capítulo. Enfim, se eu conseguir fazer algo decente, apresentar-vos-ei por aqui. Além disso, até o dia primeiro de novembro, tenho que entregar um outro artigo sobre a relação do personagem Konstantin Liêvin, do romance Anna Karênina de Tolstoi, com a propriedade rural, sua visão de mundo que se opunha à vida citadina, seus conceitos de economia rural, a relação proprietário-servo. Enfim, tudo isso pelo viés da ecocrítica.

Gostaria de liberar mais meus devaneios por aqui, mas não está sendo fácil. Além do mais, não terei assunto para sempre. Essa postagem mesmo é uma falta de assunto! Mas, não poderia deixar passar em branco essa data: o blog fez um ano. Entre assuntos desnecessários, poesias estabanadas, convites musicais, odes ao futebol, opiniões literárias, pequenas histórias que escrevo no silêncio da madrugada, acredito que talvez daqui há algum tempo possa reunir algumas postagens aqui escritas e lançar algum livrinho no futuro. É isso, agradeço aos amigos que visitam, aos desconhecidos que, só Deus sabe como, chegam por aqui, e deixo o convite para quem quiser aparecer outras vezes. Sem mais, um abraço a todos!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Bom Velhinho

Passava das 20 horas da noite de natal e eu estava na praça do Derby, voltando pra casa, para a ceia familiar. No último natal, tinha vários motivos para liberar minhas emoções, pois o ano tinha sido um desastre financeiro, mas em compensação, consegui atingir o objetivo de passar no mestrado em dezembro, o que me deixara num estado de euforia prolongado. Após ter me divertido durante todo o dia numa festinha no bairro da Boa Vista, chegara a hora de retornar para o seio familiar, compartilhar do carinho cronometrado dos parentes, banquetear e encher a cara em nome do nascimento de Cristo.

Passara o dia inteiro bebendo cerveja, minha visão estava um tanto enturvada, fuscada, olhava com um misto de desdém e curiosidade para os passageiros que aguardavam o ônibus, ansiosos por chegarem às suas residências natalinas. Guardas chegavam e saíam do quartel do Derby, o comércio fechava, restaurantes com seus tristes funcionários recebiam famílias interias. Mas, uma visão me chamou a atenção mais do que qualquer outra. Do outro lado da praça, um homem, ou um mendigo, sim existe distinção, caminhava pela praça seguido de crianças e adolescentes eufóricos. O homem tinha uma barba longa e grisalha, estava mal vestido e carregava na mão direita um latão que era seguido de longe pela gurizada. Comecei a espiar aquela cena com a mesma curisiosidade que nos colocamos a olhar uma cadela a ser cortejada por oito, dez cachorros atrás do cio. Aonde o velho ia, os meninos o seguiam.

De repente, o velho encostou-se no umbral da praça e os meninos o cercaram. O velho lançou um grito incompreensível, provavelmente a exigir um mínimo de organização dos meninos. Houve empurra-empurra e xingamentos, até que eles conseguissem formar uma bagunçada fila. O velho abriu a lata e pôs a derramar o pegajoso líquido nas garrafinhas dos meninos. Os primeiros beneficiados corriam, satisfeitos pelo atendido desejo. Em menos de dez minutos, todos os meninos tinham suas garrafinhas de cola devidamente servidas. O velho também preparou a sua e seguiu seu destino pelas ruas. Grupos de meninos saíram em conjunto a vaguear pelas ruas do centro do Recife, satisfeitos por terem encontrado seu papai noel.

Tomei meu ônibus, cheguei em casa. Chester, frutas cristalizadas, boas bebidas, superstições, Roberto Carlos. Assim, o nascimento de Jesus era lembrado na minha casa, na vizinhança e na maioria das casas da cidade. Antes da ceia, uma oração, agradecimentos, pedidos. Mas, o que pouca gente atenta, é que se Jesus estivesse em algum lugar do Recife naquela noite de alienação, provavelmente estivesse erguendo sua pitchulinha para o bom velhinho que aliviara a dor de uma miserável existência, brindando o pegajoso vinho com seus discípulos sem lar na manjedoura pública.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Passeio Noturno

Passava das 23 horas da segunda-feira, quando meu telefone tocou. Estivera inquieto durante todo o dia, trancado em meu apartamento, não suportava mais meus solilóquios, minhas culpas e reclamações à respeito do infortunado presente. Do outro lado da linha, uma voz que mais parecia uma gravação de um disco de vinil antigo, com aquele chuviscado ao fundo, dizia-me em russo uma simples frase: "Ivan Ilitch morrera!" E por mais dois ou três segundos escutava apenas o ruidoso silêncio da suposta gravação. Desliguei o telefone e recorrendo ao número, surpreeendi-me que a ligação não deixara registro algum. Talvez as excessivas preocupações dos últimos meses, acentuadas com o ascesso de uma possível esquizofrenia, estivessem me produzindo alucinações auditivas. Resolvi que abandonaria meu celular em casa e iria flanar um pouco pela noite mal iluminada. Com os moradores a dormir, trancados em casa, no silêncio da caminhada, respiraria um ar puro, distante da impoluta convivência do meu apartamento.

Atravessei todo o bairro do Engenho do Meio numa caminhada solitária, passara pelo convento do Bom Pastor onde uma agradável sinfonia se fazia ouvir, dirigia-me até as imediações da Avenida Caxangá. Nesse ínterim, percebi poucos transeuntes a arriscar um passeio por aquela já distante hora. O comércio fechado. Um bêbado a vaguear ao longe, um segurança apitando sob uma bicicleta. Resolvera voltar. Ao olhar para o céu percebi que nuvens avolumaram-se, enegrecera-se a noite, uma densa enxurrada se anunciava. Tempo estranho. Em setembro, a última tromba d'água antes do longo e cálido verão. Passava pela tubulação da COMPESA quando a forte chuva me alcançou, nem sequer teve a discrição de cair em pausada garoa. Apressei-me em direção ao convento do Bom Pastor onde na ida, escutara ao longe, uma sinfonia irreconhecível. Ao atravessar a praça do convento, podia avistar o arco de entrada. Um arco que se espairava por alguns metros, diferente da visão habitual, esse arco parecia mais um tunel. Ao me aproximar, pude perceber que o som que vinha do convento era a Marcha Eslava de Tchaikovski, em seus primeiros, sombrios e quase silenciosos acordes. À esse momento, minha roupa estava encharcada e fui me proteger na escuridão do estranho tunel da entrada do convento. Ainda mais excêntrico era imaginar que música tão pomposa fosse ouvida num convento àquela hora da noite, beirando a passagem do dia, numa altura imprópria para o ambiente.

Adentrei-me no tunel escuro. Fiquei próximo da saída, onde as luzes dos postes pudessem ilumiar ao menos minhas pernas. A música me entretia e estava até feliz de escutar a reconhecível sinfonia naquela hora inoportuna. Mas, ao retumbar das notas fortes acompanhadas do estrondo provocado pelos tímpanos e címbalos, percebo um vulto a aproximar-se. Um velho com um chapéu de cangaceiro estava prostrado ao meu lado e à medida que se aproxiamva da claridade advinda dos postes, sua imagem ia se clarificando pra mim. Usava uma roupa antiga, era um legítimo cangaceiro, seus olhos eram extremamente vermelhos, seus dentes amarelos. Sua aparição no exato momento em que o tom da música crescia, causou-me um espanto que meus cabelos só não se puseram de todo em pé porque estava todo molhado da chuva. O coração pulsava na garganta. Escutava-se no momento do encontro apenas a retumbante música e a estrondosa chuva. Cautelosamente, dirigi-me ao homem, balbuciando qualquer coisa que pudesse soar amistosa: "Que chuva, hein!?" O homem limitou-se a concordar com um expressivo balançar vertical de cabeça. Continuei: "Por um segundo, cheguei a acreditar que se tratasse de um fantasma, ora essa." O homem com um sotaque do interior, finalmente disse alguma coisa. "Estou procurando uma estrada de terra que vai pra São Paulo, me disseram que posso encontrá-la em Ponte dos Carvalhos." Expliquei-o que estávamos muito longe de Ponte dos Carvalhos, que fosse melhor ele tomar um ônibus em direção ao Cabo de Santo Agostinho, tão breve os ônibus voltassem a circular. O homem mal prestou atenção ao que eu dizia, cortando-me a fala antes que terminasse, disse-me que vinha andando desde o sertão da Paraíba e que sua última parada fôra em Itamaracá. Pôs-se a contar uma história que escutara quando da passagem pelas proximidades da Ilha da pedra que canta.

Tratava-se da morte de um bebê numa vila de pescadores há muito tempo atrás. Um casal de noivos recém-matrimoniados tivera seu primeiro rebento. Um menino gordo, moreno, seria uma dos melhores pescadores que aquela ilha tivera. A mãe, um tanto fragilizada, de compleição enfraquecida, não conseguia dar conta da fome do recém-nascido. O menino passara a sugar o leite com tanta força que o peito da mãe criara um coagulo, um inchaço. Ela revezava os seios, mas não dava conta da vontade do bebê, que se punha a chorar, irritando de sobremaneira o pai. Após algumas semanas, os peitos da mãe se trasformaram em duas bolas inchadas, onde não podia nem apalpar. O menino continuava a gritar de fome. Sem explicação médica convincente, após uma noite de grandioso esforço para amamentar, a mãe da criança aparecera morta. O pai se esforçava em conseguir leite com os outros moradores da vila, mas a única ama de leite, estava com o peito quase seco. O pescador muito abalado pela perda da esposa e sem saber o que fazer com o filho desesperado de fome, tentava alimentá-lo, em vão, com água de coco, mas nada era suficiente. Na outra semana, o menino morrera. O pai, abalado, lançara-se ao mar e nunca mais fôra visto na comunidade, tendo sua embarcação regressado para ilha sem ninguém dentro. Após esse acontecimento, muitos pescadores de Itamaracá e região, dizem que no meio do silêncio do mar, em suas buscadas, escutam no meio do distante vão marítimo, um choro desesperado de criança com fome. Um choro tão atormentador que aposentou velhos barqueiros, que após escutarem o choro da criança nunca mais se arriscaram a enfrentar a vastidão do oceano em busca de alimento.

Eu escutava o relato do homem que falava vagarosamente e ao retumbar dos acordes da marcha que fazia cenário para sua narrativa, designava-me olhares expressivos, arregalados, cheios de sangue que pareciam encandecentes naqueles olhos ferventes. Quando o homem terminou de contar sua história, a chuva parou abruptamente. Não demorei-me e pedi licença ao homem, já me deslocando para fora do túnel. Disse-lhe rapidamente que fizesse uma boa viagem. Não olhei mais para trás até que estivesse distante uns 100 passos do arco do convento. Quando voltei meu olhar para o local onde a cena se desencadeara não havia sinal de qualquer pessoa, olhei para dentro do túnel e não havia vulto. Tomei o caminho errado de casa, aliás tudo parecia estranho, as construções pareciam antigas. Cheguei a uma larga rua onde não havia asfalto. O silêncio só não era absoluto devido às gotas d'água que caíam espassadamente da copa das árvores. Na escuridão da noite, avistei um farol de um caminhão que produzia um barulho excessivo. Um caminhão antigo, azul, com uma lona amarela na caçamba. Dentro, muitas pessoas. Famílias inteiras, víveres, medo e esperança perpetraram meu espírito durante os dez segundos em que avistei o caminhão chegar e passar. No fundo da caçamba, percebi o olhar de uma mulher que parecia minha mãe em seus retratos de juventude. Tentei acenar, mas o caminhão já se ia longe, espalhando lama pela estrada de barro. Entorpecido pela sequência de visões, corri feito um louco, ainda a música de Tchaikovski parecia me alcançar, me perseguir. Dobrei a última esquina do passado e vi-me novamente na rua de casa, defronte ao portão. Aconcheguei-me em casa, arremessei na rua meu disco de Tchaikovski.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Brinquedo

O destino me possibilitou nascer numa família em que nunca me faltou as necessidades básicas e sou muito grato por isso. Quando criança, tive à disposição uma vasta gama de brinquedos e videogames, pude estudar em colégio particular e ter boa alimentação. Por esses dias, estive recordando os brinquedos que fizeram parte da minha infância. Era uma criança que gostava de destruir tudo, não tinha muito zelo. Até hoje, minha mãe diz que gastou tanto pra comprar um carrinho "bate e volta" e no segundo dia, o carro já estava quebrado e desmontado. Antes isso tivesse aguçado em mim a aptidão de ser um engenheiro ou coisa parecida, mas não, não disponho do menor dom de consertar qualquer objeto. Mas, entre todos os presentes que ganhei, houve um que me chamou mais a atenção. Brincava com ele o dia todo, dentro de casa, na rua, levava pra casa dos primos e etc. Tratava-se de um globo terrestre.

Era um globo grande para uma criança de 6 anos, apertava-o contra a barriga e o peito. Era de plástico e podia jogá-lo contra a parede que ele voltava, chutá-lo e tudo mais. Dormia ao lado da minha cama. Minha maior diversão era arrmessá-lo para o alto e onde meu olhar fixasse um ponto, decorava o país e a capital. Aprendia o nome das cidades grandes de cada país. E nessa brincadeira, em pouco tempo, eu já sabia praticamente todas as capitais dos países do mundo. Naquele tempo, década de oitenta, a União Soviética não havia se desintegrado, a África tinha países com nomes diferentes dos atuais, como a Rodésia, por exemplo. Mianmar era Birmânia. Havia duas alemanhas. Mas, aos poucos e sem compromisso, fiquei sabendo quase todas as capitais e onde cada país se localizava, o nome dos lagos, dos mares, das ilhas do pacífico, dos estreitos e terras de príncipes da Antártida. Meus tios chegavam aqui em casa e ficavam me desafiando: Odomirinho, qual a capital da Indonésia? Prontamente, eu respondia: Jacarta, na ilha de Java. Lembro-me do meu tio Edwind, gritando com seu sotaque nicaraguense: Heya! Tem que levar esse menino pro Faustão!

Com o passar dos meses, meus primos vinham aqui pra casa e eu ficava ensinando as capitais do mundo pra eles, aplicava provas e deixava até alguns em recuperação! Tinha uma pequena lousa com giz no meu quarto. Depois de um ano, o globo estourou e como eu já estava ficando maiorzinho, passei a comprar os exemplares do Almanaque Abril. Na casa do meu avô, aqui perto no Engenho do Meio, tinha a coleção completa da Mirador Internacional, onde eu me deitava na sala a observar as fotos e os textos sobre os diferentes países ao redor do mundo. Meu avô era um grande entusiasta e me deixava brincar à vontade, mesmo quando uma tia, por (des)ventura, reclamava: vai sujar esses livros que Toinho deu pra papai!

Ainda nos dias de hoje, recordo-me de muita coisa que aprendi naquela infância, hoje distante. Não posso negar que as diferentes culturas ao redor do mundo me fascinam. Não que seja uma estúpida admiração em contraponto à cultura brasileira, mas me encanta saber que conjuntos de pessoas puderam dar diferentes significados em seu modo de se posicionar perante a natureza. Um dos livros que mais me impressionou nos últimos tempos (acho que já falei dele em algumas postagens anteriores) é o Il Milione de Marco Polo, onde ele faz um riquíssimo relato sobre o mundo oriental no século XIII, os costumes de cada cidade, sua localização geográfica e suas riquezas naturais. Posteriormente, Italo Calvino continuou essa viagem no livro Cidades Invisíveis. E também nós podemos continuar essa travessia, porque o mundo aí está, carente de nosso olhar e respeito. Um certo dia, estive num deserto perto da divisa da Argélia com a Mauritânia, a noite mais estrelada que um citadino jamais vira, não tinha medo de estar perdido, nem mesmo sabia como estivera alí...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Cada um com seu Glamour

Segundo o filósofo alemão Peter Sloterdijk, a palavra Glamour é derivada da palavra inglesa Grammar, ou seja, gramática. Deixemos que ele explique:

1. A expressão para "magia" emerge da palavra "gramática". [glamour, originalmente com o sentido de "encantamento", "feitiço", provém de glammar, variante da dissimiliação de grammar, no sentido de "conhecimento oculto".]

Na Inglaterra medieval, o homem que bem dominasse a leitura e a boa escrita era possuidor de certos encantos e fascínios, sendo portanto, uma pessoa de glamour, de conhecimento desse poder oculto. Nos dias de hoje, aqui no nosso país especialmente, onde a leitura e a escrita, o conhecimento e o encanto, não possuem a galhardia de outrora, a palavra glamour ganhou contornos simplórios e empobrecidos, chegando a se associar a mulheres de pouca, ou quase nenhuma, instrução que são formosas apenas nas angulações e arredondados contornos corporais.

Sobre os Rituais da Morte

Cada sociedade tem sua maneira de encarar a morte, isso todo mundo já sabe. Há algum tempo, tenho tido vontade de escrever algo sobre esse ritual de finalização da vida. Algumas pessoas acreditam que é um momento de passagem para um local que, ao certo, ninguém sabe onde fica nem pra que lado vai. Todavia, a intenção dessa minha vinda ao teclado não se justifica pelas especulações à respeito do sobrenatural, mas do ritual próprio de morrer, ser enterrado, ser velado. Tenho percebido que com o passar dos anos, essa cerimônia, antes custosa e prolongada, tem passado por uma tentativa de refinamento, se não espiritual, ao menos do ponto de vista da praticidade.

Em alguns países da América Central, o defunto é tratado como um noivo. É maquiado, vestido na sua melhor roupa, os melhores amigos se põe a chorar. O embelezamento é tamanho que a foto do moribundo fica estampada na sala. Há locais no Oceano Pacífico em que o corpo é atrelado a uma canoa e viaja incessantemente pela infinita vastidão com os pertences do morto. Outros queimam e guardam as cinzas. Os reis mongóis eram levados para as montanhas do Altai para ficarem próximos dos deuses, e assim, uma vasta possibilidade de destinos é oferecida ao recém falecido em diferentes épocas e sociedades. Hoje, ao caminhar em direção a biblioteca, passei na frente do necrotério do Hospital das Clínicas e percebi dois carros funerários estacionados na entrada. O que me chamou a atenção é que não eram aqueles Opalas e Comodoros pretos de antigamente, ou ainda, a Caravan enegrecida. Ambos os carros eram brancos e de última geração. Eu mesmo, me orgulharia muito de possuir um veículo de tamanha envergadura. Uma coisa é notável, o ritual de morrer está passando por uma transformação, se modernizando.

Quando minha mãe era uma jovem senhora no sertão da Paraíba, ela, juntamente com as tias e outras parentas, iam para o velório e se derramavam em pranto por dias inteiros. O defunto só poderia tomar seu caminho pros sete palmos de terra a que todos temos direito, após todos os parentes e vizinhos terem se certificado de que não faltou derramar mais nenhuma lagrimazinha. Pergunto-vos: uma atitude dessas seria conveniente nos dias de hoje? Claro que não! O que dirão na repartição se me virem chorando feito uma criança a perda de minha mãe ou pai!? É provável que o chefe até me demita alegando que uma pessoa que não tem controle emocional não pode defender o emblema de uma empresa de sucesso. As cerimônias são cada vez menos frequentadas, intimistas e precisam apresentar uma aparência de claridade. Os cemitérios já nem pertencem à essa categoria taxonômica, hoje são jardins, parques, moradas. Morada da Paz, Parque das Flores, Jardins do Éden. E assim, por uma boa quantia, passa-se a impressão que o defunto está transladando para um lugar idealizado pelo fetiche dos vivos. A eternidade é garantida pela presença de cópias de quadros de artistas renascentistas, por uma imitação de pensador de Rodin e coisas do gênero. Há até trilha sonora de Beethoven! Nos Estados Unidos, existe um cemitério chamado Forest Lawn-Glendale, na Califórnia, que segue tanto o estilo relatado acima que muitos casamentos são realizados lá (há quem diga que muitos já nascem mortos).

Para mim, o pior é não saber se essa michael-jacksação da morte, deixando sua enegrecida aparência para assumir um caráter alvo, luminoso, não esconde um desapego ao morto, à sua história, suas lembranças. Durante o velório se discute futebol, toma-se whisky, fala-se da bolsa de valores e mais importante que o sentimento e a gratidão em relação ao falecido é a famosa coroa de flores com frases feitas pela própria funerária. Quando eu morrer, quero uma coroa com a frase de Tom Zé: "Na vida quem perde o telhado em troca recebe as estrelas. Pra rimar até se afogar e de soluço em soluço esperar." Não, não! Muito grande! Ficaria muito caro, talvez. O cara da funerária tem uma mais ajustável aos nossos padrões modernos, quem sabe aquela velha frase: "A morte não é o fim. Te amamos." Também a morte virou um dilema entre tradição e modernidade.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Como Posso Estar Sozinho?!

Meia-noite. Devo dormir? Poderia dizer que estou fatigado, após longa viagem. Há quem não acredite, mas isso não me importa. Uns dirão que é humanamente impossível, outros que estou a galhofar. Mas, se exprimo a verdade de forma consciente, como posso me ocultar a relatá-la? Ah, meus amigos, a vida de viajante é turbulenta, em menos de 24h podemos escapar às crepitantes labaredas do inferno e enfrentarmos uma nevasca desoladora. Como numa agenda, deixem-me relatar o que aconteceu. Juro pelo que de mais sagrado há, que tudo, absolutamente tudo, é verdade, e ocorreu num intervalo de 1 dia:

Estive numa praça em Maceió com Graciliano.
Em Alexandria com Teócrito.
Em Roma com Virgílio.
Estive em Paris com John Cale e em Berlin com Nick Cave.
Visitei a tristeza de Schubert em Vienna.
Estive no Rio de Janeiro com Tom Jobim.
Vi Minsk ser pisoteada por uma garota.
Estive em Norilsk, na Sibéria, durante uma tempestade.

O diabo me apareceu e me propôs um pacto. Como sempre: poder!
Em contra-proposta, Deus me ofereceu a suavidade.
Leve gaivota me conduz pelo mundo: céu sem fronteiras!
Familiar jornada.
Barroco desejo de estar em todo lugar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Yelena Sagarova

Um certo dia, eu conheci uma mulher russa, chamava-se Yelena Sagarova. Era um mulher cinza. Uma prataria esquecida no porão. Isso foi pelos anos de 2002, se não me engano. Mas, antes de chegar na história dessa mulher, carece que outros personagens adentrem na história. Era aluno do terceiro, talvez quarto período de História da UFPE. No intervalo das aulas, os alunos versavam sobre os mais variados temas, desde o tradicional futebol, passando pelas discussões sobre a utilização do marxismo, uns falam mal, outros fazem a defesa de tal professor. Entre tantos colóquios, recordo-me de dois colegas de sala, Flávio e Felipe, que discutiam calorosamente sobre a obra de um tal russo, Dostoievski. Estava num dia de mau humor, não queria ficar conversando no corredor, baixei a cabeça e prestei atenção na conversação. No dia seguinte, na aula de espanhol, uma garota da qual, silenciosamente, me afeiçoava, falou que entre os próximos livros que gostaria de ler, estava o do citado escritor russo. Para ter assunto para conversar com a distinta e jovem dama, corri na biblioteca e peguei o romance autobiográfico, O Jogador, além de um segundo romance chamado Humilhados e Ofendidos.

Comecei a ler com voracidade, sem me ater aos detalhes, queria terminar para poder falar sobre a idéia central, começar o segundo e ter ainda mais assunto para minha sonhada palestra com a estudante de espanhol. O livro O Jogador não deixara uma boa impressão em meu espírito. Pelo que ouvia falar de Dostoiévski, achava que em suas páginas haverias coisas muito mais surpreendentes que um simples relato de um viciado na roleta. Então, em nome à afeição que, calado, dedicava a estudante de espanhol, resolvi ler os Humilhados e Ofendidos. Nesse livro, Dostoievski me fisgou. A morte do cachorro Azorka despertou tamanha comoção em mim que ainda agora, ao escrever, posso reviver a torturante leitura feita dentro do ônibus de Engenho do Meio no horário das 13:00h.

Até então, as leituras eram feitas por prazer, sem uma análise mais aprofundada, sem buscar relações e significados com outros textos. Mas, aquele exótico mundo passava a fazer parte do meu cotidiano: ispravnnik, staretz, samovar, pomechtchik. Um outro amigo, Zé Mário, também me servia de espelho. Seus avanços na língua alemã tornavam possível que ele lesse Göethe e Nietzsche no original. Aquilo muito me impressionava. Não sei se por um pouco de excentricidade ou dedicação à obra de Dostoievski, resolvi que procuraria um professor de russo na cidade, e, mesmo que fosse caro o orçamento das aulas, faria todo esforço para aprender. O problema que em lugar algum era possível. Não havia curso de russo, escola de russo, nem professor particular. Minha empolgação inicial teve que ser freada. Passei alguns meses, talvez tenha completado um ano, e nada acontecia. Até que uma noite, assistindo uma matéria no NETV sobre as presas de outros países que se encontravam na colônia penal feminina do Bom Pastor, percebi uma mulher russa, falando um bom português, ela falava das dificuldades de adaptação e tal. Pensei comigo, vou ter aulas de russo com essa presidiária! Ela estará prestando um serviço comunitário, ocupando sua mente e o governo vai até louvar-me pela idéia. Já pensaram, as encarceiradas estrangeiras ensinando línguas para a comunidade carente?

Noi outro dia, estava na porta do Bom Pastor, dizendo-me estudante e pesquisador de história da Rússia e que gostaria de entrevistar a presa, saber como ela avaliava a transição do socialismo pro capitalismo. A assistente social ouviu-me com desdém, mas disse que se eu levasse um documento assinado pelo secretário do meu curso, eu poderia fazer a entrevista. Corri na sala do Professor Luciano Cerqueira e dois dias depois, estava na colônia penal de novo, dessa vez com a papelada. Mas, não foi possível. Estavam fazendo "pente-fino" nas celas e ninguém podia receber visitas. Me mandaram no outro dia útil, que seria na segunda-feira. Apenas neste dia pude conhecer a russa que deu entrevista na TV.

Ela era muito tímida, a roupa do presídio, suja, tornavam-na cinza, como já disse antes. O azul dos seus olhos era nublado também. Me respondeu muito educadamente. Pra não contrariar a Assistente Social que estava ao meu lado, fiz as perguntas sobre a transição do socialismo para o capitalismo. Ela me respondia que as coisas pouco tinham mudado e que o país continuava pobre. Pedi que me falasse sobre a Rússia, as regiões que ela conhecia. Então, ela me contou que tinha nascido numa cidade da Sibéria, mas que desde a morte do pai quando ela tinha 12 anos, foi morar com a mãe na cidade de Odessa, Ucrânia. Continuamos a falar sobre a Rússia, até que meus 40 minutos concedidos, tinham terminado. Pedi à assistente social que deixasse-a lecionar russo para mim. Ela disse que eu poderia visitar, mas as aulas não poderiam ser formais: com quadro, horário definido e etc. Além do mais, ela já estava há 2 anos e 8 meses presa e seria expulsa do país dentro de mais 3 meses.

Na segunda entrevista, a assistente social deixou-nos mais livre e podemos conversar sobre temas mais variados. Tomei a liberdade de perguntar o motivo de sua prisão. Então, Yelena começou a me contar sua história desde a infância. Ela tinha engravidado aos 15 anos e, então, com 24 anos, ela tinha três filhas. Quando ele me disse sua idade me assustei. Aquele rosto de 24 anos carregava sofrimentos e amarguras que estavam estampados no luto que carregava consigo. Parecia ser mais velha. Perguntei como tinha sido presa. Ela contou-me que receberia uma boa grana para fazer um traslado entre o Rio de Janeiro e Lisboa, carregando uma boa quantidade de coca, que chegava da Bolivia e que através de Portugal se espalhava pela Europa. Ela fazia o papel de mula. Passaria pelos aeroportos do Rio e Recife, e em Lisboa estaria livre e com a recompensa. Tudo certo no aeroporto do Rio, mas no de Recife... E se passaram 2 anos e 8 meses. Com raras notícias das filhas, a caçula tinha sido deixada com menos de 1 ano. Convivendo com a falta de privacidade. Dostoiévski, inclusive, reclamava que a pior coisa de se estar preso é a falta de privacidade, em momento algum do dia você está sozinho. Um tormento contínuo. Perguntei a Yelena se ela tinha vontade de voltar ao Brasil, pois o país é bonito em riquezas naturais e, infelizmente, ela só conhecia um triste pedaço de chão. Ela disse que não, muito abatida. Pela janela, pelo pátio, podia ver as árvores frondosas, o clima quente, a brisa suave, o grito das crianças, a vida que segue. Mas, que fôra reservado para ela, apenas o confinamento e que as lembranças que guardaria do Brasil, seriam dos tempos de privação. Da saudade das três filhas que cresciam distante da Mama, de andar em liberdade pela rua, das montanhas distantes e do Mar Negro. Perguntei o que iria fazer quando voltasse pra Ucrânia e ela disse que iria costurar junto com a mãe, pois com as freiras do convento que fica vizinho à colônia penal, ela tinha aprendido a costurar diversos tipos de modelos, que se não fossem da moda comercial, poderiam servir para forrar mesas e camas.

Depois de quatro entrevistas, onde ela me ensinou algumas palavras e um pouco do alfabeto, fui barrado de entrar nas outras cinco vezes que tentei fazer contato. Desisti. Meses depois, arranjei uma professora particular, a competentíssima Larisa Shevtchenko, com quem estudei por quatro anos e desejo regressar, tão breve seja possível pagar as aulas. Yelena Sagarova voltou para a Rússia, ficou a lembrança de sua palidez e do seu testemunho de vida. Quando contava sua história, muitas pessoas diziam que ela poderia estar mentindo para aliviar a pena, ou coisa parecida. Mas, sei que não. Ela carregava uma dor de mãe consigo, um arrependimento sem igual, uma força que nos faz lembrar certos personagens da literatura russa, cujas intempéries da vida só fortalecem sua personalidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Carta de Amor

Desejei ser Inverno
para em tua solidão, delirar febril.
Ser silêncio,
ilimitado abrigo.
Inadiáveis cataclismas.
Cosmos aprisionado
numa moldura de ferro.
Poros,
tangível morada.
Remorso não ter vivido,
sonhar.
Afetividade sem dimensão no vazio.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O Sonhador

Existe pior malogro para um sonhador do que residir numa cidade grande? Quem nos obrigou a aceitar as leis sociais? Não, não, não! Não quero cair nos mesmos estereótipos! Como é difícil clarificar uma imagem! Imagine um homem que no cair da tarde caminha desolado pelas ruas do centro. Aquele centro do Recife que a qualquer dia da semana, no crepúsculo, oferece o mesmo decadente semblante. A música alta e de péssima qualidade, os prédios sujos, a rua que fede, os pedintes se arrastando com suas sacolas de estopa, um homem vestido decentemente caído no chão. O que terá acontecido com esse homem, pensa o sonhador? Teria a mulher o abandonado? O patrão o demitiu a agora não poderá dar de comer aos 3, 4 filhos? Está vestido com uma calça bege, camisa de botão. O nosso personagem parou em frente ao homem que balbuciava palavras incompreensíveis com os olhos fechados. Enconstado no gradil do Parque 13 de maio. A cidade é uma alucinação coletiva. Imaginem se cada homem fosse dar vazão aos seus sentimentos mais indignados no coração de uma cidade?! Ela se auto-destruiria em poucos minutos, talvez. O que mantém este corpus a funcionar é a dosagem diária de morphina que, sem que saibamos, está em nossa comida, na água mineral e no ar poluído dos canos de escape. Só pode ser isso, pensa o sonhador. Esse homem difícil de definir.

O homem se encontra na esquina da Conde da Boa Vista quando na prateleira do jornaleiro observa uma frase em letras garrafais: Concurso Para Professor do Estado. O nosso sonhador há muito tempo ambicionava uma vida distante dessa correria sem sentido, dos entroncamentos, dos compromissos inadiáveis. Imediatamente comprou o jornal e folheou-o na parada de ônibus. Viu que estavam precisando de professor de História na cidade de Buíque. Instantaneamente, remeteu sua imaginação para as fazendas que compõem a paisagem daquela cidade. Lembrou-se que trabalhou numa escavação arqueológica anos atrás e de outra viagem que fizera onde conhecera gente simples disposta a vender uns poucos hectares de boa terra por um preço bastante barato. Seria o momento ideal para aplicar suas poucas economias e se mudar para um lugar onde o sonho e o pensamento não fossem dicotomias inextricáveis.

O homem imaginou uma casa simples, com um bom telhado e uma pequena varanda onde no fim da tarde pudesse brincar com os cachorros, colocar a radiola com as caixas de som para fora e ouvir uma boa música sem ser incomodado por ninguém e, talvez, o melhor, não incomodar ninguém. Em seu apartamento no Recife, não podia ouvir seus estranhos discos em alto volume que logo apareceria alguém inventando que uma velhinha estava doente sem conseguir dormir. Ao redor de sua casa, teria um pequeno pomar, nada muito trabalhoso, pois o homem em questão era citadino e não cultivava o dom da agricultura. Tudo haveria de ser para o prazer e a satisfação. Além do mais, enquanto professor, receberia o pouco dinheiro necessário para a vida básica num lugar que não tem shopping center pra lhe sugar as poucas economias. Um poço artesanal garantiria a água durante todo o ano. Um corcel 75, com um toca-fitas antigo a tocar lo mejor de Benvenido Granda, seria sua distração nos dias em que precisasse se locomover até a cidade para lecionar. Ao cair da noite, os livros o fariam companhia. Na tranquilidade e no silêncio da madrugada poderia escrever as histórias que traz guardadas dentro de si: uma epopéia que se passa no Sri Lanka e a saga dos Herdeiros de Lampião. Quem sabe, após algum tempo, também o amor o agraciasse, naqueles distantes vales impenetráveis, longe da discórdia, da efemeridade e da descartabilidade das relações citadinas, encontre uma companheira que compreenda seu turbulento espírito. Os filhos poderiam estudar em Arcoverde e o pai haveria de os guiar através dos bons caminhos da leitura...

E assim, Maomé visitou os jardins de Alá ao mesmo tempo que uma garrafa se esvaziava. De repente, enquanto o homem estava fitando compenetrado através de uma janela que ficava na outra margem da Avenida Conde da Boa Vista: uma luz amarela, cortinas com desenhos de flores vermelhas, uma vaso sem esplendor; uma mulher muito magra e suja pede que a arranje qualquer moeda, pois disse que tinha cinco filhos para dar de comer. Mecanicamente, puxou qualquer trocado. O sonho se desfez, a natureza em seu aspecto virginal deu lugar às velhas maledicências dos transeuntes, o apitar nervoso dos táxis e todo o desolador cenário narrado anteriormente. A construção se desfez. Voltara ao ambiente onde a censura dos homens coibia qualquer abstração. O homem pôs-se de pé e passou a aguardar o ônibus que o levaria ao subúrbio, talvez já tivesse perdido um enquanto estava absorto em seus devaneios. Recolheu-se a razão e novamente separou as estradas do sonho e do pensamento, que, na cidade, conduzem a caminhos opostos.

domingo, 23 de agosto de 2009

A Meiga

"Inércia! Ó natureza! Os homens, na terra, estão sós - eis a desgraça! 'Há um homem que viva nessa planície?', grita o guerreiro russo das nossas lendas. Eu também grito, e não sou um guerreiro, e ninguém responde. Dizem que o sol faz viver o universo. Que o sol desponte e - olhem para ele, não é um cadáver? Tudo está morto - há cadáveres por toda parte. Nada senão homens e à volta deles o silêncio - eis o que é a terra! 'Homens, amai-vos uns aos outros' - quem disse isso? De quem é esse testamento? O relógio de pêndulo está batendo, insensível, hostil. São duas horas da madrugada. Os sapatinhos dela estão perto da sua cama, como se a esperassem... Digam, sinceramente, quando forem levá-la amanhã, o que vai ser de mim?"



Assim termina o último parágrafo de A Meiga, conto de Dostoievski. Tantos anos se passaram, guerras, tecnologia, feminismo... e eu repito a pergunta proferida pelo nosso mestre russo: Há um homem que viva nessa planície?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A Maternidade

O inverno de 2006 foi realmente inesquecível para mim e para os moradores das áreas de risco da cidade do Recife. Já imaginaram o que é dormir estando sujeito a ter sua casa arrastada por uma enxurrada de lama, lixo e esgoto? Pois é assim que meio milhão de pessoas vivem nos morros da nossa cidade maurícia. Esse é um dos tantos problemas com os quais a população das áreas de morro precisa conviver, excluiremos do nosso relato as complicações com violência, educação, desemprego, saneamento básico. Num dia muito atribulado de abril de 2006, após três dias de chuvas torrenciais que fizeram rios e córregos de nossa cidade transbordarem, o telefone da Defesa Civil tocou, eu e meu parceiro Fidel, ficamos responsáveis por avaliar a situação de uma maternidade abandonada no bairro de Dois Unidos. Os moradores pediam, por telefone, uma solução para as infiltrções, pois o teto estava estalando e poderia desabar, inclusive. Pegamos o Fiat Uno da Prefeitura e partimos do bairro da Guabiraba até o bairro de Dois Unidos, ambos na zona norte do Recife.

Era um dia cinzento, por todo o lado havia barro nas ruas, moradores zonzando pelas avenidas. Na subida do Alto do Refúgio, uma contenção antiga da Prefeitura havia se rompido, obrigando todos os automóveis e moradores a se espremerem em apenas uma faixa. A chuva continuava, persistente, torrencial. As janelas fechadas deixavam o vidro embassado e o clima pesado. Não sabíamos ao certo onde ficava essa "maternidade". Perguntamos e chegamos numa avenida movimentada, cujo nome não me recordo, às margens do transbordante, raivoso e barulhento, Rio Morno. Esse rio, nasce como um pequeno córrego, vindo das matas de Sítio dos Macacos, passa quase imperceptível pelo bairro da Guabiraba e, ao que ouvi falar, vai se juntar ao Rio Beberibe. Mas, quando o inverno é forte e chove em abundância por vários dias, esse tímido rio assume uma raivosa aparência. Expulsa de suas veias o lixo jogado pelos moradores, seu refluxo faz transbordar toda a merda social de volta num ato de vingança contínuo.

Chegamos na maternidade. O ambiente desolador. Quantas famílias viviam alí? De quê viviam? Na minha prancheta, deveria tomar todas as informações e dar um encaminhamento para os superiores da Prefeitura decidirem o que fazer. Essas amarrações da burocracia me fazem lembrar o Castelo de Kafka, onde o agrimensor não consegue chegar aos superiores. Pois bem, eu era a ramificação menor do Programa. Relatava como os moradores estavam vivendo e minha papelada ia para um superior, para depois passar a outro superior que decidiria o que fazer com os moradores após consultar o outro superior... imaginem como as relações de poder não se constituem em ambientes como esse?! O que eu poderia colocar nas cinco linhas em que o cadastro pedia que eu relatasse a situação dos moradores que viviam naquela maternidade abandonada? Não me recordo o que escrevi nas cinco linhas, mas algo como: "Retirar esses moradores o mais rápido possível para algum abrigo." Vou explicar melhor o que encontrei.

Essa maternidade é mais uma das imensas obras-fantasma que nossos governos fazem, levantam paredes e não concluem. Antes da metade da obra, a verba acaba. É, né. Há quem acredite. Com o excesso de chuvas, ela estava toda inundada, de maneira que em momento algum estivemos com menos de um palmo d´água chapiscando nossas pisadas. Não havia luz elétrica, apenas fiações elétricas que, como patas de aranha gigante, pareciam desgarrarem-se do teto. Por toda a parte havia infiltrações e a água pingava de montes no chão, nas camas improvisadas, nos poucos leitos abandonados. Gente descalça, sem camisa, uma criança com os olhos expressivos de febre deitada numa cama toda ensopada. Senhoras velhas se perguntando por quê não morreram ainda, paredes manchadas. Um cenário perfeito para um filme de terror. Era manhã, uma estranha luminosidade provocada pelas nuvens que cobriam o sol, deixava o aspecto da maternidade lúgubre, sombrio. Um homem mais articulado fazia perguntas e pedia respostas. Eu limitava-me a dizer que passaria o caso para os superiores e que eles entrariam em contato. Mostrei ao homem o que tinha escrito na prancheta e fui embora, pois ainda havia outros casos de deslizamento de barreiras pra avaliar, lonas plásticas a entregar.
Hoje, lembrei-me dessa maternidade e da experiência daquela manhã. Voltava para casa um tanto desolado, ressacado, e prontamente lembrei-me daquelas pessoas que vivem num estado deprimente. Com certeza, naquela maternidade abandonada, na beira de um rio, havia ratos e outros animais que podem trazer contágio ao homem. A água parada, chapiscando aos nossos pés, o olhar daquela criança pedindo que a tirasse daquele lugar, queimando de febre numa cama molhada... Ainda hoje, não sei que fim levaram aqueles moradores, que resolução os superiores tomaram. Aquele tinha sido mais um caso entre os dez, doze, que tínhamos que avaliar por dia naquela operação de inverno. Meu Deus, o que esperar de um mundo que cultiva ambientes como esse?!