O dia 22 de abril, data da última reunião na casa de Petrachévski, foi um dia de chuva torrencial; às seis horas da tarde, Dostoiévski passou pela casa do Dr. Ianóvski para se secar da chuva e tomar uma xícara de chá. O médico presumiu que Dostoiévski estivesse a caminho da casa de Petrachévski, e nada do que lhe disse o amigo levou-o a modificar essa impressão. Dostoiévski até pediu um dinheiro emprestado para o táxi por causa da longa distância que separava a casa de Ianóvski da de Petrachévski. Ou Ianóvski foi traído pela memória nesse caso, ou Dostoiévski deliberadamente escondeu-lhe seu destino, pois o fato é que ele passou a noite na casa de Grigoriev, talvez discutindo com este e outros os planos para o funcionamento da prensa manual.
Às quatro horas da madrugada, Dostoiévski voltou para casa e foi dormir; mas pouco depois foi acordado por leve som metálico em seu quarto. Abrindo os olhos, meio adormecido, viu de pé, à sua frente, o chefe da polícia do seu distrito, ostentando um par de exuberantes costeletas, e um tenente-coronel vestido com uniforme azul-claro da polícia secreta, cuja espada, pendente do seu cinturão, batia-lhe contra as botas, produzindo o suave ruído metálico que acordou o escritor. O policial solicitou gentilmente a Dostoiévski que se levantasse e se vestisse e, enquanto ele o fazia, seu quarto foi revistado e seus papéis lacrados. Uma moeda de 15 copeques bastante gasta em cima da mesa atraiu a atenção; e quando Dostoiévski perguntou brincando se era falsa, isso foi solenemente adicionado às provas. Um sargento recebeu ordens para revistar a prateleira em cima da lareira, e subiu na mesa para alcançá-la. Mas caiu estrondosamente no chão quando o friso da prateleira cedeu e, com isso, a busca foi dada por encerrada. Por último, Dostoiévski foi conduzido até uma carruagem que estava à espera, acompanhado pelo chefe de polícia, pelo tenente-coronel, por sua senhoria apavorada e pelo criado desta, Ivan, também assustado, mas que olhava tudo com uma expressão de estupefata solenidade, muito apropriada à ocasião. Quando Dostoiévski saiu do quarto e entrou na carruagem, deixou para trás a vida relativamente normal que vinha levando até então - exceto pelo seu breve aprendizado como conspirador clandestino - para ingressar num extraordinário mundo novo.
Esse mundo novo ia pôr à prova até o limite sua capacidade de resistência emocional e espiritual e ampliar incomensuravelmente os horizontes de sua experiência moral e psicológica. O que ele conhecera antes apenas pela leitura das mais exageradas fantasias metafísicas ou sociais dos românticos iria converter-se agora na essência e matéria de sua existência. Iria conhecer o tenebroso desespero da solidão total do cárcere; sentiria a opressiva angústia do perseguido; passaria pela aterradora agonia do condenado à morte que se apega desesperadamente aos últimos instantes preciosos de vida; mergulharia nas camadas mais baixas da sociedade, onde viveria lado a lado com os párias e os criminosos e ouviria a conversa dos sádicos e dos assassinos, para os quais a própria noção de moral era uma farsa; e também passaria por momentos de sublime harmonia interior, momentos de fusão com o princípio divino que governa o universo, naquela "aura" de êxtase que precede os ataques epilépticos. Quando regressar à sociedade e começar a redescobrir-se como escritor, o horizonte das suas criações estará então delimitado por ste novo mundo e suas esmagadoras revelações. E tudo isso permitirá a Dostoiévski produzir obras de uma extensão imaginativa incomparavelmente mais profunda e sutil do que poderia ter feito na década de 1840, quando os estereótipos românticos eram seu único meio de aproximação desse mundo.
Trecho retirado do primeiro volume da biografia de Dostoiévski, escrita pelo americano Joseph Frank, nas páginas 374 e 375.
ResponderExcluirNão sei porquê, mas Frank me lembra Borges nessa passagem.
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